Mostrando postagens com marcador Sola Gratia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sola Gratia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Fora da Igreja não há Salvação!




Josué 6:17 – A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada a YAHWEH ... para destruição. Somente a prostituta Rahav, e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados.O Texto nos aponta para um evento apavorante: os muros da cidade caem e seus moradores veem a Arca do Senhor no meio de um exército que marcha e traz o juízo final sobre todos. Um anúncio de um juízo que virá sobre o mundo. Há um escape: A casa da prostituta, marcada com um tecido tingido de vermelho sangue, permanece segura durante e depois do juízo.
Onde encontrar a casa Rahav? Encontramos em sua descendência: Jesus veio da descendência desta mulher. Sua casa permanecerá segura, a pesar do medo do lado de fora, todos os que estão com Jesus em sua casa estão absolutamente seguros. Nesta casa, marcada com sangue não há razão para medo. No Amor não existe medo.
Orígenes reflete sobre esta passagem, ele afirma:
“Se alguém quer se salvar, venha à casa daquela que uma vez foi prostituta. (...) Venha à casa, na qual o sangue de Cristo está como sinal de redenção... Ninguém crie ilusões: fora desta casa, isto é, fora da Igreja, não há salvação;” (ORÍGENES, Homilia 2 sobre Josué, Capítulo 4)
Mas eu sou pecador! Rahav também, mas foi salva por sua fé ao receber os mensageiros do povo de Deus. Assim permanecemos na casa da salvação por graça de Deus, por meio da fé.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Podemos fazer pactos com Deus?



Quando o sol se pôs e houve densas trevas, eis que um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passaram entre aqueles pedaços dos animais. Naquele mesmo dia, o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: — À sua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates: Gênesis 15:17,18 



Um fenômeno interessante dos dias atuais é que vemos pessoas por ai dizendo que fizeram um pacto com Deus. Bem comum nos dias de hoje no meio gospel / evangelical. 

Basicamente vemos isto de duas formas, uma, é “oficial”, o crente procura seu pastor e fala que quer fazer um pacto com Deus. Então estes termos são discutidos como um contrato: o que você quer que Deus te faça X o que você terá que fazer. “Se o Senhor melhorar a minha situação, eu vou ajudar a todos que puder” 

Outro jeito, é aquele pacto velado: “preciso ir 7 sextas-feiras no culto para receber a bênção”, “preciso semear no reino de Deus para colher bênçãos”, “vou jejuar para Deus me dar um emprego” 

A beleza desta pasasgem, por mais que pareça estranha, trata-se de um pacto com Deus. Basicamente era um costume antigo: os pactuantes caminhavam por entre os animais mortos, e isso significava: aquele que não cumprir sua parte, acaba como um deles: morto! 

Mas quem passou por aquele caminho? Ao fazer o pacto, Deus passa sozinho. 

O que significa isso? 

A beleza toda desta passagem é que Deus não está negociando suas bençãos, veja com atenção o texto: Deus decide sobre o que ele está obrigado a fazer, não foi Abrão, Deus passa pelo caminho sozinho, assumindo o pacto, não Abrão, Deus repete tudo o que ele havia prometido, confirmando o pacto, já Abrão, não acrescenta nada. 

Existe um verdadeiro evangelho aqui. Deus não está interessado em negociar suas bênçãos, muito pelo contrário, Ele não quiz que nenhuma condição o segurasse de ser aquilo que Ele é: Bom! 

A questão não é se podemos fazer um pacto com Deus, mas sim, por que faríamos isso? Por que insistir em colocar uma condição para sermos abençoados, se Ele quer fazer isso livremente? 

Dar “uma mãozinha” para Deus, no final, mostra que ainda não entendemos o quanto Deus nos ama, e como sempre, nós bagunçamos nossa vida tentando negociar com Deus. Abrão bagunçou bastante sua vida tentando “ajudar” Deus a lhe dar um filho, não precisava! Por fim, ele aprendeu a não tentar “ajudar”, teve uma velhice em paz, e uma morte tranquila, e da parte de Deus, tudo o que ele jurou, foi feito. 

Antes de tentarmos negociar bênçãos de Deus, vale a lembrança: O que Deus nos dá em amor não exige pegamento.

sábado, 11 de abril de 2020

Wayne Grudem – uma avaliação crítica parte 2 (Batismo)





Wayne Grudem – uma avaliação crítica à luz da teologia bíblica luterana. Breve comentário sobre leitura de TEOLOGIA SISTEMÁTICA, Wayne Grudem, p. 814 a 833.


Este é um breve comentário sobre a leitura deste famoso livro de Teologia Sistemática de linha reformada no objetivo único de expor as diferenças teológicas, especialmente tendo-se em vista que a reforma luterana e a calvinista foram movimentos não apenas separados, mas antagônicos entre si desde o início.

Em uma leitura da obra de Grudem, alguns erros essenciais podem ser identificados, mas em especial, o capítulo referente ao batismo já se inicia com uma exegese inadequada do texto, diz o livro: 
A palavra grega baptizo significa “mergulhar, afundar, imergir” algo na água. Isso é normalmente reconhecido, sendo esse o significado padrão do termo na literatura grega antiga tanto na Bíblia como fora dela.
(2) O sentido “imergir” é adequado e provavelmente exigido para a palavra nos vários textos do Novo Testamento. Em Marcos 1.5, o povo era batizado porjoão “no riojordão” (o texto grego traz en,“em”, e não “ao lado” ou “próximo” ou “perto” do rio).6 Marcos também nos diz que quandojesus foi batizado “ele saiu da água”(Mc 1.10). O texto grego especifica que ele saiu “para fora da” (ek)água, e não que ele veio da água (mais bem comunicado pelo gr. apo).O fato de quejoão ejesus entraram no rio e saíram dele sugere enfaticamente imersão, já que a aspersão ou a afusão de água poderiam muito mais facilmente ter sido feitas junto ao rio, especialmente pelo fato de que multidões estavam vindo para o batismo. O evangelho de João nos diz depois q u ejo ão Batista “estava também batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas” (Jo 3.23). Novamente, não era necessário muita água para batizar pessoas por aspersão, mas isso seria preciso para batizar por imersão. (Grudem, p.814) 
Em que pese este argumento, uma correção é necessária neste ponto. 

Platão já empregava o termo em sua obra "Eutidemo" no sentido de alguém estar sobrecarregado de perguntas. Por esta praxe já vemos então que o entendimento histórico da palavra batismo não era exclusivamente de mergulhar algo. 
Na leitura do Santo Evangelho segundo Marcos, lemos que os fariseus lavavam as mãos antes de comer. Niptein era comumente usado quando apenas uma parte do corpo era lavada, não o banho total do corpo. Mas nessa passagem o lavar parcial também é chamado de batismo, de maneira que se apenas parte do corpo é lavada temos um verdadeiro batismo: 
Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar (νίψωνται) as mãos muitas vezes; Marcos 7:3 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem (βαπτίσωνται), não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas. Marcos 7:4 
Assim, o texto nos mostra que, muito embora “batismo” seja associado à submersão, o texto bíblico o usa também para expressar o lavar parcial do corpo, sem diferenciar a extensão do corpo em que se aplica a água. O texto de Lucas 11:38 também reforça esta ideia, aplicando a mesma fórmula. 
Mais adiante, lemos no texto aos Hebreus sobre diversas abluções, ou seja, batismos: 
Consistindo somente em comidas, e bebidas, e várias abluções (βαπτισμοῖς) e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção. Hebreus 9:10 
Cientes então de que abluções são literalmente batismos pelo texto, devemos então conferir, também pelo texto bíblico como estes batismos eram feitos: 
O homem puro aspergirá o impuro ao terceiro e ao sétimo dia e o purificará no sétimo dia. Lavará as suas vestes e a si mesmo, e à tarde será puro. Números 19:19 
Desta forma, o texto bíblico tem mostrado que de acordo com as normas das abluções descritas no capítulo 19 de Números, temos que a algumas formas são pela imersão propriamente, como o purificar das vestes, e outras formas são pela aspersão de água. 
O que temos nos texto de Hebreus 9:10 é que tanto a ablução de imersão em água quanto a aspersão são chamadas pelo texto bíblico de “batismo”. Este é um ponto relevante. Não se trata de erro de escrita, ou má colocação de palavras por parte dos autores bíblicos. Se o Cristão reconhece que a Bíblia é a Palavra de Deus e que foi escrita pela inspiração divina, então creremos que toda a Escritura é perfeita em seu ensino. O que temos então é o texto bíblico mostrando que a palavra “batismo” inclui o lavar parcial do corpo e a aspersão tanto quanto a imersão completa, sem fazer diferença entre os termos e na corrente oposta, temos uma corrente que afirma que a palavra “baptizein” no grego significa apenas imergir, e portanto, declarando que somente a imersão completa é válida. Se o texto inspirado das Escrituras chama de batismo o aspergir e o lavar parcial do corpo, bem sabe o Espirito Santo como deseja se comunicar, logo, restringir o termo para uma forma específica do derramar de água, será uma exegese que manca em identificar o termo, ou, a expressão dos que desejam retorquir a Deus. 
Como o texto não termina neste ponto, podemos ir mais além: 
E eu, em verdade, vos batizo (βαπτιζω) com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará (βαπτισει) com o Espírito Santo, e com fogo. Mateus 3:11 
Novamente o texto bíblico nos aponta que o Espírito Santo vem com um “batismo”. Então vejamos biblicamente a forma como ele veio: 
Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Atos 2:3 
O batismo não foi uma imersão neste texto, e desta forma, não há, biblicamente falando, uma única forma de se usar o termo “batismo”, este termo não indica apenas a imersão, mas também indica o lavar parcial do corpo, a aspersão, o derramamento, ainda temos uma forma sui generis, em 1 Coríntios 10.2, um batismo feito por Deus de forma singular: 
todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; 1 Coríntios 10:2 
Ao atravessar a nuvem e o mar todo o povo foi batizado. Neste texto é patente que nenhum do povo foi “submerso” no mar, o texto nos informa que cruzaram com os pés secos, não houve sequer uma pessoa que fosse submersa que seguia com Moisés, mas todos receberam o batismo ao passar pelas águas. 
Em contra-partida, Grudem, em sua obra demonstra que este batismo realizado mesmo no texto bíblico de variadas formas, apenas encontra sua validade se na forma específica que lhe apraz ao afirmar: 
Mesmo o lavar é muito mais eficazmente simbolizado pela imersão do que pela aspersão ou afusão, e a morte e ressurreição com Cristo são simbolizados apenas pela imersão e de modo nenhum pela aspersão ou pela afusão. (Grudem, p.816) 
Temos portanto, pelo texto bíblico, uma exposição clara de que, ao contrário do que querem alguns, batizar não exige uma forma específica e a própria Palavra cita diversas formas como este batismo pode ser realizado. O que temos, de certo sobre o batismo é que ele deve ser feito com água, assim como João batizou com água (Jo 1.33), Filipe batizou o eunuco com água (At 8:36), Pedro batizou Cornélio com água (At 10:47), Paulo chama o batismo de “lavar de água pela Palavra” (Ef 5:26), Cristo diz que devemos nascer pela água e pelo espírito (Jo 3:5). 
O batismo é corretamente ministrado a todas as crianças que sejam filhas de pais cristãos. Essa posição é muito comum em muitos igrejas protestantes (especialmente luteranas, episcopais, metodistas, presbiterianas e reformadas). Essa posição é às vezes conhecida como o argumento da aliança em favor do pedobatismo. E chamada argumento da “aliança” porque depende de interpretar que os filhos dos cristãos fazem parte da “comunidade da aliança” do povo de Deus. O termo “pedobatismo” significa que o costume de batizar crianças (o prefixo paidoexpressa a idéia de “criança” e é derivado da palavra grega pais,“criança”). Estarei interagindo principalmente com os argumentos de Louis Berkhof, que explica com clareza e defende bem a posição pedobatista. (grudem, p.821) 
Outro problema na exposição de Grudem se constitui o problema intrínseco dos sistemáticos em referenciarem-se entre si, com pouco ou nenhum conhecimento de causa da teologia de outras áreas. Na presente citação, o autor repete o argumento de Berkhof sobre um ponto-de-vista protestante, e nisto ecoa a voz de Strong também, entre outros notáveis deste campo. Nesta área o autor realmente cumpre o papel de ser sistemático apresentando construções de grandes grupos, mas não se pode dizer que houve uma construção mais dogmática, afinal, Cristo declara sobre crianças pequenas, Mt 19:14; Mc 10:14: De tais é o reino do céu, ou o reino de Deus. E ninguém que nasce da carne pode entrar no reino de Deus a menos que renasça, Jo 3:3. E esta regeneração e renascimento ocorre pela água e pelo Espírito, Jo 3:5. O batismo é a lavagem da regeneração do Espírito Santo, Tt 3:5. Uma vez que, então, Cristo quer que as criancinhas se tornem participantes do reino do céu, o que deve ocorrer através do batismo, é certamente intenção de Cristo, vontade e comando, que as crianças pequenas sejam batizadas. 
A promessa do reino de Deus deve ser aplicada através de um certo meio ou instrumento instituído pelo próprio Deus. Portanto, também a promessa do reino do céu, que é dada aos bebês (Mc 10:14) deve ser aplicada a eles através de um certo meio. Agora, as Escrituras declaram que isso significa o batismo. Jo 3:5; Tt 3:5. 
Em segundo lugar, Cristo também quer que as crianças sejam salvas, pois Ele diz: Não é a vontade do Pai celestial que um desses pequeirinhos pereça, Mt 18:14. Mas o Pai Celestial salvou-nos pelo lavar regenerador, Tt 3:5. É, portanto, a vontade de Deus que os bebês sejam batizados e que não pereçam, mas sejam salvos. 
Em terceiro lugar, os bebês são concebidos e nascidos em pecados, de modo que por natureza eles são filhos de ira, Sl 51:5; Ef 2:3. Portanto, eles devem obter o perdão dos pecados, para que eles não pereçam, mas sejam salvos, Lc1:77; Rm 4:7. 
Sobre o ingresso no corpo de Cristo, Grudem declara: 
Mas como alguém se torna membro da igreja? O meio de ingresso na igreja é voluntário, espiritual e interior. Alguém toma-se membro da verdadeira igreja através do novo nascimentoe da fé salvadora,e não de um nascimento físico. Isso ocorre não por um ato externo, mas pela fé interior do coração. Com certeza é verdade que o batismo é o sinal de ingresso na igreja, mas isso significa que este deve ser ministrado aos que dão provade serem membros da igreja, somente os que professam fé em Cristo. (Grudem, p.823) 
Is 49:22 profetiza que no Novo Testamento não só os adultos seriam implantados na igreja, mas eis que, diz ele, eles vão trazer seus filhos em seus braços e suas filhas em seus ombros. E Pedro diz (Atos 2:39) depois que ele tinha batizado adultos: Esta promessa foi feita para você e para seus filhos. Dessa forma, também os apóstolos batizaram domicílios inteiros, Atos 16:33; 1 Co 1:16. Onde uma casa ou família é mencionada, bebês certamente não são excluídos. E quando os adultos são convertidos pela primeira vez, o ensino precede e segue o batismo. Atos 2:41; 8:12, 35-38; 10:44-48. Mister se faz salientar que o Batismo não é apenas símbolo da presença de Cristo, mas que por ele, Cristo se faz verdadeiramente presente. Ef 5:25-26: Cristo deu-se para a igreja, para que Ele pudesse santificá-la, limpá-la com a lavagem de água pela Palavra. Da mesma forma, ele diz que somos batizados na morte de Cristo (Rm 6:3) e na ressurreição de Cristo (I Pe 3:21). Na verdade, no batismo vestimos Cristo (Gl 3:27). E é isso que se diz nos Atos: ser batizado em nome de Cristo. 
Na verdade, há outros exemplos em que o batismo não é mencionado, nos quais vemos testemunho explícito do fato de que uma família inteira demonstrou fé. Depois que Jesus curou o filho de um oficial, lemos que o próprio pai “creu e toda a sua casa ” (Jo 4.53). Semelhantemente, quando Paulo pregou em Corinto, “Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa (At 18.8). (Grudem, p. 824) 
A problemática deste ponto se apresenta justamente no fato de considerar o autor a “fé”, dom sobrenatural de Deus, como um sinônimo de “fé reflexa”, ou a consciência de se haver fé. As palavras da instituição do batismo e muitas outras passagens das Escrituras nos mostram isso, por exemplo, Mc 16:16; Atos 2:38; 22:16; Ef 5:25-26; Tt 3:5, 7; Jo 3:5; 1 Pe 3:21. Daí Lutero justamente diz em seu catecismo: 
O batismo opera o perdão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá salvação eterna a todos os que crêem nisso, como declaram as palavras da promessa divina. 
Se Cristo é separado do batismo, ou batismo de Cristo, então, de fato, a lavagem de água de si mesma não pode operar ou conferir qualquer dessas coisas, mas é e continua a ser apenas um sinal simples. 
Mas como Cristo está no e com o ato do batismo, para que sejamos batizados em Sua morte e ressurreição (Rm 6:3; 1 Pe 3:21), no batismo nos revestimos de Cristo (Gl 3:27), e ele mesmo nos purifica por essa lavagem (Ef 5:25-26), da mesma forma, como Deus o Pai dá, apresenta e sela aos crentes o mérito de Cristo através de Seu Espírito Santo no Batismo e através do batismo (Tt 3:5-6). 
Finalmente, os que defendem o batismo de convertidos com freqüência expressam preocupação diante das conseqüências práticas do pedobatismo. Eles argumentam que a prática do pedobatismo na igreja de hoje muitas vezes leva pessoas batizadas na infância a presumir que foram regeneradas, e assim não sentem a urgência da necessidade que têm de virem a ter fé pessoal em Cristo. Em alguns anos, essa tendência provavelmente resultará em número crescente de membros não convertidosna “comunidade da aliança”, os quais não são verdadeiramente membros da igreja de Cristo. Naturalmente, isso não fará de uma igreja pedobatista uma falsa igreja, mas a tomará uma igreja menos pura, que com freqüência estará enfrentando tendências doutrinárias liberais ou outros sinais de incredulidade trazidos para a igreja pelos membros não regenerados. (Grudem, p.826) 
Neste ponto, ao meditar sobre os efeitos do batismo, Grudem esbalha não apenas na doutrina do batismo, mas em sua doutrina sobre a igreja, desconsiderando-a como um corpus permixtus. Nem todos são praticantes da Palavra, e nem todos os que ouvem a Palavra a mantém (Lc 8:15; 11:28; Mt 7:26). As parábolas dos evangelhos também mostram isso claramente (Mt 13:24-30, 47-48; 22:1-14). Portanto, Onde há pessoas que usam os Sacramentos (Mc 16:16; 1 Co 10:17; 11:33), ouvem a Palavra de Deus (Jo10:27, recebem-a (1 Ts 1:6; 1 Co 15:1, confessam Cristo (Mt 10:32), seguem-o (Jo10:27), invocam a Deus,como ele ordenou na Palavra (Lc19:46; 1 Co 1:2; Sl 79:6). E esses sinais às vezes estão mais em evidência, às vezes menos evidentes. Pois neste fundamento alguns constroem o ouro, algums restolho (1 Co 3:12-13). E, no entanto, se a fundação permanece intacta, Deus tem Sua igreja lá (1 Rs 19:18). 
Justamente por ser a verdadeira igreja este corpo misto, e entendendo-se a questão do Simul na natureza humana, a resposta a Grudem precisamente escriturística deve ser que a regeneração de fato, isto é, adoção e o perdão dos pecados é ato completo e terminado nos crentes imediatamente após o batismo, e ainda assim se estende por toda a vida de um homem. Mas a renovação é de fato iniciada no batismo e cresce diariamente, é finalmente concluída na vida que está por vir. Pois nesta presente vida a renovação ainda é imperfeita e deve crescer e aumentar dia após dia. 2 Co 4:16; Ef 4:22-23; Cl 3:10; 1 Pe 2:1-2.



Por que Jesus? (Johann Arndt)

Por que voce quer me mudar? Eu sou uma pessoa boa! Eu não mato, eu não roubo, você acha que eu mereço ir para o inferno?



Da Queda De Adão. 


Por: Johann Arndt
In: Cristianismo Verdadeiro, Livro I

“Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos.” Romanos 5:19 


Parte I - A Lei 

A queda de Adão foi uma desobediência a Deus, pela qual o homem se afastou do Ser Divino para si mesmo, e roubou a Deus a honra devido a ele somente, na medida em que ele próprio pensava ser como Deus. Mas enquanto ele assim se esforçava para avançar, ele foi despojado daquela imagem divina, que o Criador havia lhe conferido tão livremente; despojado da justiça hereditária; e enlutado daquela santidade com a qual ele foi originalmente adornado; torna-se, no que diz respeito à sua compreensão, obscura e cega; quanto à sua vontade, teimosa e perversa; e quanto a todos os poderes e faculdades da alma, totalmente alienados de Deus. Esse mal infectou toda a massa da humanidade, por meio de uma geração carnal; e foi herdado por todos os homens. A consequência óbvia resultante disso é que o homem se torna espiritualmente morto e filho da ira e da condenação, até ser redimido desse estado miserável por Jesus Cristo. Não se enganem, então, os que se chamam cristãos, em relação à queda de Adão. Sejam cautelosos, como tentam atenuar ou diminuir a transgressão de Adão, como se fosse um pequeno pecado, uma coisa de pouca importância e, na pior das hipóteses, o mero comer de uma maçã. Que eles tenham certeza de que a culpa de Adão era a de Lúcifer, ou seja, ele seria como Deus: e que era o mesmo pecado grave, hediondo e odioso em ambos. 

2. Essa apostasia (pois não era nada menos), foi, inicialmente, gerada no coração e depois manifestada pela ingestão do fruto proibido. Embora o homem fosse contado com os filhos de Deus; embora ele tenha saído das mãos do Todo-Poderoso imaculado, tanto no corpo como na alma, e foi o objeto mais glorioso da criação; embora, para coroar tudo, ele não era apenas um filho, mas o deleite de Deus; ainda não sabendo como se satisfazer com esses altos privilégios, ele tentou invadir o Céu, para que pudesse ser ainda mais alto; e nada menos seria suficiente para ele do que se exaltar como Deus. Por isso, ele concebeu em seu coração inimizade e ódio contra o Ser Divino, seu Criador e Pai, a quem, se estivesse em seu poder, estava disposto a desfazer completamente. Quem poderia cometer um pecado mais detestável que isso? Ou, que maior abominação existe que se possa meditar? 

3. Portanto, o homem se tornou interiormente como o próprio Satanás, tendo sua semelhança no coração; já que ambos haviam cometido o mesmo pecado, tendo se rebelado contra a majestade do céu. O homem não mais exibe uma imagem de Deus, mas a do Diabo; ele não é mais um instrumento nas mãos de Deus, mas tornou-se um órgão de Satanás, tornando-se assim capaz de todas as espécies de maldade diabólica: de modo que, tendo perdido a imagem que era celestial, espiritual e divina, ele é totalmente terreno, sensual e brutal. Pois o diabo, planejando imprimir sua própria imagem no homem, o fascinou tão inteiramente por um conjunto de palavras atraentes e enganosas, que o homem permitiu que ele semeasse aquela semente odiosa em sua alma, que é, portanto, denominada semente da serpente; e pelo que se entende principalmente amor próprio, vontade própria e a ambição de ser como Deus. Por esse motivo, as Escrituras denominam aqueles que estão intoxicados pelo amor próprio, "uma geração de víboras". Mt. 3:7. E todos aqueles que são de natureza orgulhosa e diabólica, "a semente (descendência) da serpente". Assim, o Todo-Poderoso, dirigindo-se à serpente, diz: "Colocarei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente". Gênesis 3:15. 

4. A partir desta semente da serpente, nada além de frutos mortais e horríveis pode prosseguir; a saber, a imagem de Satanás, os filhos de Belial, os filhos do diabo. João 8:44. Como em toda semente natural, quão minuciosa pode ser, estão contidas, da maneira mais maravilhosa e oculta, a natureza e as propriedades da futura planta, todas as suas partes e proporções, seus galhos, folhas e flores, em miniatura; assim, naquela semente da serpente, a flor e a desobediência de Adão (que passaram a toda a sua posteridade por uma geração carnal), jaz, como no embrião, a árvore da morte, com seus galhos, folhas e flores, e aqueles inúmeros frutos da injustiça que crescem sobre ela. Em suma, toda a imagem de Satanás é secretamente traçada por aí, com todas as suas marcas, características e propriedades. 

5. Se observarmos uma criança com atenção, veremos como essa corrupção natural se manifesta desde o nascimento; e como a vontade própria e a desobediência se descobrem especialmente e se transformam em ações que testemunham efetivamente a raiz oculta da qual elas brotam. Vamos considerar ainda mais a criança, à medida que ela cresce até a maturidade. Observe o egoísmo natural da juventude, sua ambição pura, sua sede de glória mundana, seu amor por aplausos, sua busca por vingança e sua propensão a enganar e falsificar. E agora esses males se multiplicam. Logo poderá descobrir nele vaidade, arrogância, orgulho, blasfêmia, juramentos vãos, maldições terríveis, fraudes, ceticismo, infidelidade, desprezo a Deus e à sua santa Palavra e desobediência aos pais e magistrados: ira e contenciosidade; ódio e inveja; vingança e assassinato, e todo tipo de crueldade; especialmente se as ocasiões externas se oferecerem a acionar essa semente latente e mortal, e os vários males da natureza depravada de Adão. Na proporção em que essas ocasiões continuarem a se apresentar, observaremos o aparecimento de outros vícios; devassidão, pensamentos adúlteros, imaginações obscenas, discursos obscenos, gestos lascivos e todas as "obras da carne": veremos embriaguez, tumultos e toda espécie de intemperança; inconstância, devassidão excessiva e tudo o que pode agradar o apetite, a luxúria dos olhos e o orgulho da vida. E além desses, em breve poderá ser descoberto cobiça, extorsão, trapaça, sofisma, impostura e toda descrição de prática sinistra; juntamente com a facada, o comércio exagerado e, em suma, toda a tropa, ou melhor, exército de pecados, iniqüidades e crimes, tão variados e tantos, que é impossível contar ou declarar o número deles; de acordo com as palavras do profeta Jeremias, “o coração é enganoso acima de todas as coisas, e desesperadamente mau; quem o pode conhecer? ” Cap. 17: 9. E se aos já enumerados se acrescentam, em último lugar, os espíritos sedutores e falsos; então podem ser observados cismas na igreja, heresias perversas e perigosas, sim, a abjeção de Deus e Cristo, idolatria, negação da fé, ódio e perseguição da verdade, o pecado contra o Espírito Santo, com todo tipo de corrupção em doutrina, perversão das Escrituras e forte ilusão. Agora, o que são tudo isso, senão a imagem de Satanás, e os frutos da semente da serpente semeados no homem? 

6. Quem poderia imaginar que uma profundidade tão má e depravada pudesse ser encontrada em uma criança tão fraca e desamparada; que um princípio tão venenoso, um coração tão corrupto, estava escondido em um bebê aparentemente tão inofensivo? Quem poderia ter acreditado nisso, não tivesse o próprio homem, por sua vida pecaminosa e abominável, pela imaginação de seus pensamentos (sendo "mal continuamente" e desesperadamente inclinado ao que é ruim), por sua própria vontade o trouxe à luz e expressou, desde a infância, o que antes era oculto como uma semente? Gênesis 6: 5; 8:21. 

Oh! raiz mais vil e mais amaldiçoada! De onde brota a árvore venenosa que é tão frutífera na produção de todo tipo de praga. Oh, semente da serpente, mais odiosa, mais terrível! A partir da qual é gerada uma imagem ao mesmo tempo tão deformada e suja; e que se amplia continuamente, pois é excitada pelas tentações externas e pelos escândalos do mundo. Bem poderia o abençoado Jesus proibir tão solene e estritamente que qualquer, por mau exemplo, ofenda as crianças pequenas; sabendo que a semente da serpente espreita neles, como o veneno mortal no verme venenoso, pronto para irromper em atos abertos de pecado, sempre que uma ocasião se apresentar. 

8. Aprenda, então, ó homem, conhecer a queda de Adão e a verdadeira natureza do pecado original. Aprenda, se for sábio, a discernir em si mesmo. Examine-o não de maneira leve e descuidada, mas profundamente, e como a importância do assunto merece; pois essa infecção é maior, essa depravação é mais profunda e mais mortal do que pode ser expressa por palavras, ou mesmo concebida em idéia. "Conhece a ti mesmo!" e considere profundamente o que és, ó homem, desde a queda de seu primeiro pai; como tu, que eras à imagem de Deus, tornaste-te a imagem de Satanás, uma epítome de todas as suas tendências perversas, e conformadas a Satanás em toda a malícia e impiedade. Pois, como na imagem de Deus, todas as virtudes e propriedades divinas estão contidas, assim na imagem do diabo, que o homem, ao se afastar de Deus, contraiu, todos os vícios e propriedades são encontrados, e a própria natureza do próprio diabo. Pois, como o homem, antes da queda, apresentava a imagem do Adão celestial, isto é, era totalmente celestial, espiritual e divino; assim, desde a primeira apostasia, ele carrega consigo a imagem do Adão terrestre, sendo interiormente terrestre, carnal e corrupto. 

9. Ele se tornou um dos animais do campo. Por que, ó homem caído, a tua ira? A quem pertence mais apropriadamente, ao leão ou ao homem? E a tua inveja e a tua ganância não revelam a natureza do cão e do lobo? E no que diz respeito à tua impureza e gula, não são essas evidências de natureza suína? De fato, se você examinasse corretamente seu seio, descobriria um mundo de bestas impuras e nocivas. Mesmo na língua, esse “pequeno membro” pode ser encontrado, segundo São Tiago, um lago de coisas pestilentas e rastejantes, um porão de todo espírito imundo, a gaiola de todo pássaro imundo e odioso (Isaías 13:21 ; Ap. 18: 2) e, em uma palavra, um “mundo de iniqüidade”. Tiago 3: 6. Muitas vezes, infelizmente, progredimos na iniquidade de forma a superar a ira e a fúria das bestas de rapina; em voracidade e violência, o lobo; em sutileza e astúcia, a raposa; na malícia e virulência, a serpente; e na imundície e obscenidade, os porcos. Por isso, nosso Senhor chamou Herodes de raposa e os ímpios, em geral, cães e porcos; a quem o que é santo não deve ser dado. 13:32; Mt. 7: 6. 

10. Todo aquele que, portanto, falha em corrigir essa corrupção da natureza, sendo verdadeiramente convertido e renovado em Cristo Jesus, mas morre no estado que foi descrito, deve manter para sempre essa natureza bestial e satânica. Ele deve ser arrogante, altivo, orgulhoso e diabólico, por toda a eternidade. E quando ele tiver negligenciado o tempo de sua purificação aqui, levará consigo a imagem de Satanás na escuridão das trevas para sempre; como testemunho, de que enquanto ele estava no mundo, ele não viveu em Cristo, nem foi renovado à imagem de Deus. Pois de fora são cães e feiticeiros, e todo aquele que ama e pratica a mentira." Ap 21: 8; 22:15. 





Parte II - O Evangelho 


(...)
2. Por fé cordial e inabalável, o homem dedica totalmente seu coração ao Todo-Poderoso, em quem ele busca seu descanso exclusivamente. Pois ele agora ele está unido, e com ele entra em deliciosa comunhão. Ele participa de todas as coisas que são de Deus e de Cristo, e é feito um espírito com o Senhor. Dele ele recebe poder e força divinos; juntamente com uma nova vida, acompanhada de novas alegrias, novos prazeres, novas consolações, nas quais se encontra paz, tranqüilidade interior e satisfação duradoura, juntamente com retidão e santidade. E assim o homem nasce de novo por Deus pela fé. Pois onde quer que haja verdadeira fé, Cristo está verdadeiramente presente com toda a sua justiça, santidade e remissão de pecados; com todos os seus méritos, justificação, graça, adoção e herança da vida eterna. Este é o novo nascimento e a nova criatura, nascendo da fé em Cristo. Por isso, o apóstolo chama a fé de substância (Hb 11:1); compreendendo por ela, uma confiança segura, sólida e inabalável em "coisas esperadas" e uma convicção viva de "coisas não vistas". Pois o consolo transmitido por uma fé vital é tão poderoso que convence o coração da verdade divina pela experiência interior e pelo gosto da bondade celestial na alma e da paz de Deus que ultrapassa todo entendimento; sim, é tão poderoso que permite que seus possuidores morram com um coração alegre. Nisto consiste a força do espírito, o poder do homem interior, o vigor da fé, a santa ousadia; essa é a confiança em Deus, a segurança excedente e abundante, que são copiosamente demonstradas pelos santos apóstolos. 2Tm. 2:1; Ef. 3:12, 16; Fp. 1:14; 1Jo 3:21; 1Ts. 1: 5; 2; 2. 

3. Aquilo pelo qual um homem ousa morrer deve estar enraizado na alma e, pela operação do Espírito de Deus, proporcionar uma garantia interior. Deve ser um conforto cordial, poderoso e eterno, infundindo força celestial e sobrenatural na alma, pela qual o medo da morte e o amor do mundo podem ser subjugados. Agora, tudo isso gera uma confiança tão sólida em Cristo e uma união tão estreita com ele, que nem a morte nem a vida são capazes de dissolver. Rm. 8:38; 2 Tm. 1:12. Por isso, São João diz: "Todo o que é nascido de Deus vence o mundo". 1 João 5: 4. 

4. Nascer de Deus não é na verdade figura vã, nem nome vazio; deve necessariamente ser uma mudança viva e poderosa, digna da majestade de um Deus onipotente. Crer que o Deus vivo poderia gerar uma descendência morta, que membros sem vida e órgãos inúteis pudessem proceder dele seria muita maldade. É certo e indubitável que Deus, sendo um Deus vivo, não pode deixar de gerar um homem vivo, mesmo o novo homem em Cristo Jesus. E nossa fé é a vitória que vence o mundo. 1 João 5: 4. Quem pode questionar se é dotado de força suficiente para a conquista? É um princípio vivo, vigoroso, potente, divino e vitorioso; mas todo o seu poder deriva daquele que é abraçado por ela, Cristo. Por meio da fé, retornamos a Deus novamente e nos tornamos um com ele; e de Adão, como de uma videira amaldiçoada, somos transplantados para Cristo, a videira viva e abençoada. João 15: 4. Em Cristo, possuímos tudo que é bom, e nele somos justificados. 

5. Como enxerto, quando enxertado em uma boa árvore, cresce, floresce e dá frutos, mas, sem ela, murcha; assim, o homem, quando fora de Cristo, é como uma videira amaldiçoada, cujas uvas são amargas e fel; e todas as suas obras são pecado. Dt. 32:32, 33; Rm. 14:23. Mas quando ele está em Cristo, ele é justo e abençoado; porque "ele foi feito pecado por nós, que não conhecia pecado, para que sejamos feitos a justiça de Deus nele". 2 Co. 5:21. 

6. É mais evidente, que as obras não podem justificar um pecador; porque, antes que possamos realizar qualquer boa obra, devemos ser enxertados em Cristo pela fé: e é igualmente claro que a justificação é inteiramente um dom de Deus, livremente conferido ao homem e precedendo todo mérito humano. Como um morto vê, ouve, se levanta, anda ou faz alguma coisa boa, a menos que seja ressuscitado dentre os mortos e dotado de um novo princípio de vida? Assim também, ó homem, que está morto em pecados, não pode fazer nenhuma obra que seja boa ou aceitável, a menos que você tenha sido ressuscitado para vida por Jesus Cristo. Assim, a justiça procede somente da fé em Cristo. A fé é como um bebê recém-nascido, fraco e nu, pobre e indigente, e posto diante dos olhos do Salvador; de quem, como de seu autor, recebe justiça e santificação, piedade, graça e o Espírito Santo. 

7. A criança nua é assim vestida com a misericórdia de Deus. Ele levanta as mãos, recebe tudo de Deus e é um participante da graça e saúde, verdade e santidade. É, portanto, esse recebimento de Cristo no coração, que torna um homem santo e feliz. 

8. A justiça procede, portanto, unicamente da fé, e não das obras. De fato, a fé recebe todo o Cristo e o aceita, juntamente com tudo o que ele tem. Então o pecado e a morte, o diabo e o inferno, devem fugir e não podem mais preservar sua base. Não! De maneira tão eficaz e poderosa os méritos de Cristo justificam o pecador, que se os pecados do mundo inteiro fossem cobrados de um homem, eles não teriam a menor utilidade de condená-lo, se ele cresse em Cristo. 

9. Visto que Cristo vive e habita em seu coração pela fé (Ef 3:17), nunca, ó crente, sacia o pensamento de que sua habitação em ti é uma obra morta, sem vigilância, com qualquer poder vital. Antes, acredite que é um princípio vivificante, uma obra poderosa e uma transformação eficaz de sua mente. A fé produz duas coisas: primeiro te envolve em Cristo e o dá livremente a você, com tudo o que ele tem; e então, renova-te em Cristo, para que cresças, floresças e vivas nele. O enxerto silvestre é introduzido na estaca, para que possa florescer e dar frutos. Como pela apostasia de Adão e pela tentação do diabo, a semente da serpente foi semeada no homem, crescendo em uma árvore e dando os frutos da morte; mesmo assim, pela palavra divina e pelo Espírito Santo, é a fé semeada no homem, como a semente de Deus. Nesta semente, todas as virtudes e propriedades divinas são, da maneira mais maravilhosa, compreendidas; que se expandem gradualmente dia a dia. Esta árvore é adornada com uma profusão de frutos celestes; como amor, paciência, humildade, mansidão, paz, castidade, justiça. E assim todo o reino de Deus desce ao homem. Pois a fé verdadeira e salvadora renova todo o homem, purifica o coração, santifica a alma e livra do amor do mundo. Ele se une a Deus; tem fome e sede de justiça; opera amor; e traz paz, alegria, paciência e conforto à adversidade: vence o mundo; faz de nós filhos de Deus e herdeiros dos tesouros do céu; e constitui-nos co-herdeiros com o Senhor Jesus Cristo. Mas, se alguém não estiver consciente dessa alegria que a fé transmite e não experimenta suas influências consoladoras, não deixe, por isso, se desesperar; antes, confie na graça que é prometida em Cristo; pois essa promessa permanece sempre certa, imóvel e eterna. E, apesar das enfermidades incidentes à natureza humana, ele deveria tropeçar e cair; todavia, se o pecador retornar por arrependimento não fingido, e observar com mais cautela o pecado que o acomete tão facilmente, a graça de Deus não será retirada. Pois Cristo é, e sempre será Cristo, Salvador, quer a fé que o abraça seja forte ou fraca. Uma fé fraca tem uma parte igual em Cristo que uma fé forte, pois a fé, seja ela fraca ou forte, possui todo o Cristo. A graça que é prometida é comum a todos os cristãos e é eterna, e nessa graça a fé deve confiar, seja fraca ou forte. O Senhor visitará sua alma em seu próprio tempo, com um senso de seu favor gracioso e de suas abundantes consolações. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Sim, somos Ecumênicos!



Este não é um texto meu, mas muito oportuno, traduzi do livreto intitulado "World Conference on Faith and Order. Some Prolegomena to the 1937 World Conference." Esta publicação inclui em seu início esta breve reflexão de um dos maiores teólogos luteranos do século XX, sua análise nos mostra com riqueza por que somos a igreja mais ecumênica dentre todas as denominações históricas, e acima de tudo, para onde este ecumenismo deve apontar.

*Dica de Leitura: "Escritos Selecionados" do Dr. Franz Piper, o livro contém 2 artigos que complementam esta breve introdução com uma riqueza teológica sem igual.



UNIDADE DA IGREJA E CONFISSÃO LUTERANA. 

Pelo professor Hermann Sasse, Universidade de Erlangen. 



I 



Vinte e cinco anos se passaram desde o dia 23 de junho, quando no Salão da Assembléia da Igreja da Escócia terminou a Conferência Missionária de Edimburgo. Foi memorável. Raramente os homens se sentiram, tão claramente quanto os milhares que estavam presentes naquela reunião, que estavam em um ponto de virada na história da Igreja. Era uma companhia, não de entusiastas emocionais, mas de religiosos sóbrios e teólogos instruídos, que então expressaram sua convicção de que uma nova época, uma nova era da cristandade, havia surgido. “Os próximos dez anos”, disse a mensagem da Conferência, “constituirão, com toda a probabilidade, um ponto de virada na história da humanidade, e podem ter uma importância mais crítica na determinação da evolução espiritual da humanidade do que muitos séculos de experiência comum. Se esses anos forem desperdiçados, pode haver destruição que séculos não serão capazes de reparar. Por outro lado, se forem usados ​​corretamente, estarão entre os períodos mais gloriosos da história cristã. ”A cristandade, dizia-se, deve, portanto, dedicar-se com zelo inteiramente novo ao trabalho missionário. A influência econômica e política dos povos ocidentais sobre os do Oriente, dos mais fortes sobre as raças mais fracas, deve ser tal que não atrapalhe, mas corrobore a mensagem missionária. Mas isso pressupunha o cristianismo da vida nacional ocidental, sem a qual a parte cristã da humanidade não poderia cumprir seu grande apostolado ao mundo não-cristão. Foi a essa grande tarefa missionária, a evangelização do mundo, que a grande conferência convocou as forças da cristandade. Foi um chamado para uma nova cruzada. O arcebispo Davidson, de Canterbury, encerrou seu discurso com as palavras de São Marcos 9,1. A citação foi considerada profética. John Mott captou a expressão no discurso com o qual a Conferência terminou. Pode ser que as palavras do arcebispo se mostrem uma profecia esplêndida, e que antes de muitos de nós provarmos a morte, veremos o Reino de Deus vir com poder. “Essas foram as palavras com as quais a Conferência de Edimburgo, a primeira das grandes Conferências ecumênicas deste século, foi encerrada. 

Lembrei-me desses acontecimentos, não por causa de seu interesse histórico no momento, mas simplesmente porque eles podem nos ajudar a discernir quão grandes são as mudanças que ocorreram na história da Igreja nas últimas décadas. Não estou pensando nas convulsões políticas, sociais e econômicas que surgiram da guerra e nas revoluções que se seguiram à guerra, mas apenas na experiência das igrejas. Quão terrivelmente foram desmentidas as esperanças que foram acalentadas em 1910, tanto no mundo anglo-saxão quanto fora dele! Entre o cristianismo evangélico dos anglo-saxões e o da Alemanha havia então e ainda existem diferenças profundas. No entanto, em relação ao significado fundamental do Evangelho e às tarefas da cristandade, essas diferenças estavam longe de serem tão grandes e tão finais quanto se pensava que estavam em Estocolmo em 1925. A profunda divisão entre ingleses e americanos, por um lado lado, e alemães e outras representações no continente, por outro, era essencialmente uma questão de terminologia. No fundo, as opiniões, declarações e atos da Federação Alemã da Igreja eram idênticos aos da Igreja Federal da América Cristã. Ambos, como indicam as afirmações de ambos os lados do Atlântico, estavam igualmente distantes e igualmente próximos do Evangelho do Novo Testamento. Ambos eram igualmente remotos às Confissões do século XVI: ambos foram influenciados em igual medida pelas idéias dos séculos XVIII e XIX. Nos dois lados, a mensagem cristã foi interpretada em termos daquele resíduo lamentável das antigas credendas que o pietismo, o metodismo, o racionalismo e o idealismo mantiveram em uso atual. A resposta para a pergunta "O que é o cristianismo?" Foi procurada não no Catecismo da Reforma, mas nos escritos de Schleiermacher. A tarefa da Igreja era considerada a satisfação da "necessidade religiosa" do homem (R. Seeberg); seu trabalho era educar os homens como personalidades morais e religiosas e, assim, "tornar o mundo um lugar melhor para se viver", essa era a expressão americana ingênua à qual o temperamento alemão preferia termos menos espirituais. Mas se as pessoas falavam do cristianismo da ordem social ou de saturar a vida nacional com o espírito do Evangelho; se a visão no horizonte era a de uma humanidade cristã ou de uma nação cristã, em ambos os casos foi dada adesão ao ideal de Edimburgo, o ideal de um mundo cristão. Essa não era apenas uma crença anglo-saxônica; era, abaixo da superfície, o ideal da cristandade moderna como um todo. 

Poderia essa crença ter sido reduzida ao absurdo mais rapidamente do que era de fato o caso? A época da história da Igreja que então amanheceu não foi uma das mais brilhantes, mas uma das mais modestas. Poucos anos depois que a solidariedade da cristandade e sua obra missionária foram sentidas e proclamadas, essa solidariedade foi irremediavelmente destruída. Em Edimburgo, quando o futuro espiritual e material de outras raças foi discutido, havia uma suposição fixa de que essas raças eram inferiores, e nós somos responsáveis ​​por elas. Com que rapidez esse sentimento de superioridade desapareceu! As relações inter-raciais foram bastante modificadas no último quarto de século, e a mudança é de grande importância para a relação entre povos cristãos e não-cristãos. A atual política do Japão em relação à religião não sugere que o crescente Império do Extremo Oriente satisfaça sua "necessidade religiosa" recorrendo às nações que atenderam à necessidade de uma civilização ocidental. "Vexilla regis prodeunt" foi o hino de 1910: nossos espíritos ficaram sérios desde então. Isto é principalmente devido às coisas que aconteceram entre as nações cristãs. Quem em 1910 poderia ter previsto uma catástrofe como o colapso do cristianismo na Rússia? Nos vastos espaços que ficam entre a Polônia e o Extremo Oriente, isto é, sobre uma parte considerável da superfície da Terra, a organização da Igreja foi aniquilada. O direito e até a possibilidade de existência foram retirados, não apenas de uma Igreja ou de uma forma de fé cristã, mas de toda Igreja e de toda forma de crença em Deus. Este é um desastre que, a menos que a política russa fosse rapidamente revertida, só pode ser comparado a um evento na história anterior da Igreja, e em escala supera até isso: a conquista do norte da África cristã e do Oriente Próximo pelo Islã. O significado do fim da Igreja na Rússia e a catástrofe que ocorreu em toda a Igreja Oriental nem sempre são claramente entendidos. Pensamos nessas igrejas como petrificadas, e assim eram. Mas o que mais poderia ser dito, pelo menos por seus críticos hostis, de nossas próprias igrejas? E não foi grande parte dessa paralisia simplesmente o quietismo do Oriente, resultado de uma história de dezenove séculos remontando, sem as profundas reações e perturbações da história ocidental, numa continuidade que mal podemos apreender à Igreja das primeiras eras. Nem as Igrejas do Oriente ficaram sem vida, mesmo em teologia. É bem possível que nas Igrejas de Moscou, nas gerações recentes, tenha havido mais fervorosa oração do que nas Igrejas evangélicas de Berlim. E mesmo que a Igreja Russa não possa mostrar outra prova de vida além de ter produzido mártires, isso é em si uma coisa notável. Mesmo que nem todos os que foram mortos tenham sofrido por sua crença em Cristo, houve inúmeros martírios reais, mais numerosos do que os das perseguições na Igreja primitiva. Aqueles que em Edimburgo procuraram ver em sua vida alguma vinda do Reino de Deus em glória, não previram acontecimentos como esses. 

O que preferimos ver é uma visão do anticristo andando pela terra. Quem pode ler a história russa e não consegue captar algo daquela melancolia apocalíptica que se reflete sobre a nossa era? No entanto, o que a maioria deveria reconhecer é o fato de que tudo o que o bolchevismo ensinou, acreditou e fez em sua juventude, foi um crescimento que brotou do solo cristão. A mente de Lenin não tinha originalidade; era um eco servil do pensamento da Europa Ocidental. Seja o que for que possamos pensar da veneração russa por Hegel, a convicção subjacente é justificada, a saber, que todos os elementos da doutrina bolchevique foram proclamados primeiro pelas cadeiras dos professores alemães. As forças da total impiedade, da hostilidade a Cristo, da revolta contra todo mandamento e ordenança de Deus surgiram e começaram seu curso de conquista do mundo, não entre os povos pagãos, mas no Ocidente cristão. 

Como Heinrich Frick apontou em um artigo sobre "A Crise da Religião" (Giessen, 1931), as missões cristãs nunca tiveram um sucesso paralelo ao da propaganda anticristã que se originou na Europa e na América "cristãs" e passou por lá para raças estrangeiras. A estabilidade das religiões pagãs foi 'abalada, não pela proclamação do Evangelho, mas por propaganda ateísta. A segunda Conferência Missionária, realizada em Jerusalém em 1928, teve como ponto de partida o estabelecimento desses fatos, tão profundamente a posição da Igreja no mundo foi modificada desde 1910. 

Seria, no entanto, enganoso considerar a Conferência de Edimburgo apenas como um evento histórico que prestou certos serviços à estimativa correta da posição atual da Cristandade, pois, além desses serviços, a Conferência tinha um significado positivo que é discernível até agora. Embora suas profecias não tenham sido cumpridas e seu entendimento da tarefa missionária e sua visão do futuro da Igreja sejam agora inadequados, ainda deixou uma impressão indelével na cristandade moderna, a saber, a consciência de que a Igreja de Cristo está em um ponto crítico de sua história, já que desde o início deste século toda a terra, o mundo inteiro dos povos, se tornou um palco para o drama da história da Igreja. Questões como se o protestantismo alemão pode ser unificado em uma igreja, se nossas instituições se desenvolverão na direção de uma igreja livre ou uma igreja regional e nacional, se as fronteiras entre protestantismo e catolicismo provavelmente sofrerão uma modificação séria, se a Confissão não-cristã ficará lado a lado com as igrejas cristãs, questões como essas são sem dúvida de grande importância para o nosso povo, mas sua decisão não afetará profundamente o movimento mais amplo da história da Igreja. Mas outras questões, a saber, que fé será adotada pelas grandes igrejas que se estendem por continentes em desenvolvimento inteiros agora, se a África deve ser maometana ou cristã, se os povos do Extremo Oriente fecharão suas portas ao trabalho missionário cristão ou não, que relação as novas igrejas, entre outras raças, terão com as Confissões mais antigas: essas são perguntas cuja resposta pode determinar o curso da história da Igreja por séculos. Essas são decisões de importância mundial, como foram as da história missionária nos primeiros séculos da Igreja. 

O significado da Conferência de Edimburgo de 1910 estava nisso, que ensinou a Cristandade Ocidental a ponderar sobre esses problemas. Foi, portanto, o começo do movimento ecumênico deste século. Enfrentou o protestantismo com o problema ecumênico, o problema da busca pela única Igreja de Deus; pois, se o trabalho missionário não é meramente propaganda para uma sociedade religiosa, mas é de fato o que o nome implica, adotar as palavras de Löhe é "um movimento adiante da única Igreja de Deus". Se há uma história da Igreja que é algo mais do que a história das sociedades e personalidades religiosas e é de fato o que o nome indica, é impossível evitar a questão de onde aquela Igreja de Deus se encontra dentro do “caldeirão de erros e violência” que Goethe viu na história da Igreja e onde ela desempenha seu papel no mundo. 

Quaisquer que sejam os erros que a Conferência de Edimburgo possa ter cometido, embora possa ter se perdido em uma interpretação emocional da história, embora possa ter esquecido que a glória de Cristo neste mundo é sempre uma glória oculta, que o Reino de Deus com o tempo nunca é visível em sua glória, mas escondido pela cruz, ainda o grande e memorável evento daqueles dias de verão em 1910 foi este, que no coração e na consciência da cristandade protestante, com suas centenas de divisões de confissões, denominações e igrejas locais, a busca pela realidade da Igreja Una de Cristo se tornou a questão viva. 





II 



Durante a Conferência de Edimburgo, vários delegados da Igreja da Inglaterra e de suas igrejas filhas costumavam se reunir, de acordo com o uso anglicano moderno, para as primeiras celebrações da Eucaristia. Foi em um desses cultos que a idéia de uma Conferência Mundial sobre Fé e Ordem tomou forma pela primeira vez. Seu criador foi Charles Brent, bispo na época das Filipinas e depois do oeste de Nova York, um dos personagens mais nobres da América cristã de nossos dias. Este não é o lugar para um relato histórico da Conferência Mundial sobre Fé e Ordem, que teve início em um ato sinodal da Igreja Episcopal Protestante (Igreja Anglicana nos EUA), em Cincinnati, em outubro de 1910, e, após os trabalhos, esperanças e desilusões de dezessete anos, realizadas na conhecida Conferência de Lausanne de 1927, e agora está planejando uma segunda Conferência para 1937, que será realizada em Edimburgo. Na Conferência Missionária de 1910, o problema da reunião da Igreja entrou repetidamente em primeiro plano; nos países de língua inglesa e especialmente na Missão realizada, sua urgência já era sentida. Brent e seus amigos viram que, nas próximas décadas, seria o problema predominante entre as igrejas ocidentais e no mundo missionário. Dois anos antes, nos Estados Unidos, as múltiplas divisões eclesiásticas daquele país levaram à fundação do Conselho Federal das Igrejas da América. Esse Conselho, por excessivas queixas e inadequado por sua base teológica, fracassou em garantir a adesão das três Confissões com uma base dogmática, a saber, catolicismo romano, anglicanismo e luteranismo. Tomando como palavra de ordem “a doutrina divide, mas o culto une” que havia sido desde Wichern o lema dos “unionistas” alemães e, mesmo fora deles, desempenhou um papel considerável na Alemanha nos anos anteriores à guerra, o Conselho Federal havia estabelecido nas palavras de sua constituição, defender a unidade e a catolicidade da Igreja na América.Os conceitos "Igreja" e "Catolicidade" receberam uma interpretação tão ampla que não deixou espaço para a noção de uma seita. Nota-se que seu interesse é que, mesmo na fundação desta federação, a mais compreensível que se possa imaginar, houve alguma controvérsia dogmática. No esboço original da constituição, o preâmbulo se referia a “Igrejas que confessam crença em Jesus Cristo, o Filho de Deus, nosso Senhor e Salvador.” As palavras suscitaram críticas muito hostis, como envolvendo a adesão a uma concepção trinitária de Deus e a a cristologia dos antigos credos. Portanto, a fim de facilitar a inclusão de mentes unitaristas, a fórmula foi alterada, de modo a falar de "Jesus Cristo, o divino Senhor e Salvador". Essa mudança conquistou aqueles que simpatizavam com os unitaristas, mas alienavam os anglicanos e luteranos, que naturalmente não estavam dispostos a participar de um movimento unionista desse tipo. De fato, que resultado poderia ser esperado quando uma coalizão denominacional baseada apenas na necessidade prática adotasse princípios como esses? Qual teria sido o resultado da transferência dessa concepção da Igreja e sua unidade para o campo Missionário? O que é obra missionária se se deixa de proclamar o “único Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, gerado por seu Pai diante de todos os mundos, Deus de Deus, luz da luz, verdadeiro Deus do verdadeiro Deus, gerado, não criado, sendo de uma substância com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas, o qual por nós homens e para nossa salvação desceu do céu e encarnou pelo Espírito Santo da Virgem Maria e foi feito homem?” Se a obra de missões deixa de proclamar Cristo nesses termos, se vê nesta confissão de Cristo não a expressão do legítimo entendimento das escrituras da Igreja, mas apenas uma fórmula tradicional de teólogos helenísticos que não é mais vinculativa ou uma lei não evangélica de a fé imposta pelos imperadores cristãos da antiguidade, então, apesar de qualquer apelo às escrituras, não passa de uma propaganda de uma sociedade religiosa ou de outra no Ocidente. Não é mais o avanço da Igreja de Deus. A palavra "missionário" torna-se então uma frase retórica. Perde toda a conexão com o apostolado dAquele a quem todo poder é dado no céu e na terra. Um movimento unionista na Missão realizado com base nos princípios do Conselho Federal de 1908, em vez de revelar a verdadeira Igreja que está sendo construída entre as nações, deve tê-lo arruinado. 

Esses são os fatos que explicam o plano da Conferência Mundial sobre Fé e Ordem. A Conferência determinou desde o início que convocasse para a discussão dos problemas da unidade apenas as Igrejas que se mantêm firmes com base nos credos antigos. Essa limitação deu origem a sérias dúvidas em algumas igrejas reformadas, onde os antigos credos perderam autoridade sobre uma grande área, e os professores que, em princípio, negam a Santíssima Trindade e a Encarnação são tolerados e autorizados a pregar, se essas igrejas poderiam participar da Conferência Mundial. Mas, a menos que a evidência aparente seja ilusória, uma reação ocorreu, mesmo nessas igrejas, em relação ao antigo credo; contudo, a Conferência Mundial pode considerar como resultado geral de seus trabalhos de um quarto de século o fato de que em toda a cristandade, onde quer que a questão da união se torne um problema vivo para a Igreja, agora é reconhecido que uma verdadeira união das igrejas somente será possível se a unicidade no credo de Nicéia for pressuposta. O reconhecimento desse princípio foi o resultado mais importante da Conferência Mundial em Lausanne, em 1927. 

Por mais importante que o problema não resolvido da Filioque possa ser para a relação entre as igrejas orientais e ocidentais, o fato de as igrejas que participaram da Conferência Mundial, com cerca de 100 em número, apesar de tudo o que o século XIX teria esperado (mesmo em 1900, a coisa seria impossível) e, apesar de todas as tendências modernistas, declarar o credo niceno a base indispensável do ensino da igreja e do trabalho missionário e ecumênico, é um evento de primeira importância para a história da doutrina. É possível, de fato, que em muitos círculos das Igrejas da Conferência Mundial houvesse alguma obscuridade e ainda houvesse uma compreensão incompleta do rumo dessa decisão. Mas se for levado a sério, como em Lausanne deveria ser levado, então as Igrejas Protestantes do mundo recusaram, em princípio, um lugar dentro da Igreja de Cristo ao modernismo que nega as verdades dogmáticas do credo niceno e o considera como não mais vinculativo. Mesmo que a Conferência Mundial sobre Fé e Ordem não tenha resultado além disso, não se pode negar que o que resultou daquela tranquila hora da manhã no altar da Igreja Anglicana em Edimburgo foi de real importância na história do mundo. 



III 



Sempre se lembre ao crédito da Igreja Anglicana que deixou claro para o protestantismo moderno a impossibilidade de união à parte da unidade na doutrina. Aqueles que estiveram presentes na Conferência de Lausanne têm lembranças angustiantes da maneira como em que em momentos decisivos da discussão, teólogos das Igrejas da Reforma se levantaram repetidamente para limitar a ação desse princípio. Representantes de igrejas cujos pais, antigamente, tinham em vista a pureza do Evangelho, sofreram exclusão da comunhão da Igreja Católica, afirmaram incansavelmente que confissões e doutrinas eram um precipitado teológico e intelectual da experiência religiosa, nada além de secundário: a verdadeira unidade dos cristãos reside na partilha dessa experiência, uma comunidade que poderia coexistir mesmo com diferenças doutrinárias. 

Isso, é claro, era completamente desprovido de sentido. A homoousia do Filho com o Pai, a unidade das naturezas Divina e humana do Redentor, a presença do Corpo e Sangue de Cristo no Sacramento do altar, esses não são o assunto de nossa experiência. Portanto, não pode haver unidade da experiência cristã, transcendendo a diferença dogmática entre arianos e nicenos, entre monofisitas, nestorianos e ortodoxos, entre luteranos e calvinistas. Mas as Igrejas evangélicas, luteranas e reformadas, estavam em 1927 e estão claramente agora tão completamente enredadas nos laços do pietismo e do racionalismo, que não podem se libertar dos clichês teológicos compatíveis com essas tendências. Assim, em Lausane, os teólogos “luteranos” de Göttingen e Berlim e os teólogos das igrejas escandinavas que agora sofrem um flagelo de Deus na forma do Movimento de Grupo, com seu emocionalismo sectário, se levantaram equipados com as armas antigas da teologia de Schleiermacher e Ritschl para combater a batalha da fides qua contra a fides quae creditur. Ninguém ficará surpreso com isso, que observa com que tenacidade o primeiro e o presente, oponentes de Wobbermin e Titius estão travando a mesma guerra. Que poder espiritual deve ter sido a antiga ortodoxia evangélica, quão cego o ódio, como distorcida a consciência de seus oponentes pietistas, se agora, dois séculos depois, nossos estudantes de teologia precisam ser ensinados a considerá-lo o arquiinimigo, embora a Igreja deveria ter aprendido a saber quem são seus verdadeiros inimigos. Mas esse alinhamento de forças contra o que um século atrás foi chamado de misticismo, duas gerações atrás, ortodoxia e hoje é chamado de confessionalismo, ainda luta contra a extinção. É responsável pelo fato de que as Igrejas evangélicas, sobretudo o luteranismo alemão e do norte, não deram a contribuição ao movimento sindical que se poderia esperar deles. Vamos evitar todo mal-entendido. Não faltaram teólogos em Lausanne ou em outras esferas do empreendimento ecumênico, que afirmaram e enfatizaram o ensino do artigo 7 da Confissão de Augsburgo. Mas os luteranos como um todo deveriam ter feito isso com mais insistência. 

A forte posição do Anglicanismo nesta última geração, a grande influência que exerce hoje, mesmo nos círculos luteranos, repousa amplamente sobre esse fato, de que seu programa de unidade da Igreja não foge ao problema da verdade. Talvez a Igreja Anglicana não tenha pressionado essa questão tão a sério como deveria. O anglicanismo certamente está aberto à repreensão justa, que não está claro sobre até que ponto o acordo doutrinário deve chegar e o que hoje deve ser o conteúdo de uma confissão comum na qual as Igrejas poderiam se unir. É possível e até provável que os planos anglicanos de união afundem nesse recife. No entanto, é o mérito inestimável do anglicanismo que ele disse à cristandade do mundo missionário e das terras do emigrante e do colono que, seja qual for a união da Igreja, é antes de tudo uma questão dogmática, desde a busca pela Igreja é a busca da verdadeira Igreja, e o chamado para a união da cristandade é o chamado para a Igreja de Cristo. 

Pois nessas buscas pela unidade não estamos preocupados com outra coisa senão a verdadeira Igreja e a verdade do Evangelho comprometida com a Igreja. Os fatos do campo missionário dão testemunho impressionante dessa verdade. “Quatro locais de culto”, diz o bispo indiano de Dornakal, “ficam a cem metros um do outro em uma cidade indiana. Num domingo comum, nenhum está mais da metade cheio: todavia, cada um tem seu próprio ministro, insuficientemente remunerado, constantemente envolvido em conflitos, não com o pecado e o sofrimento que o rodeia, mas com os supostos defeitos de crença e uso nos outros. Sete sociedades missionárias estão trabalhando em minha área, entre uma população de um milhão. Cinco deles afirmam ser os únicos possuidores da verdade e reivindicam o direito de abrir caminho e fundar igrejas em todos os lugares. Quais são as consequências práticas, para o milhão, dessas condições? A reivindicação do trabalho missionário, de ser portador da verdade redentora do Evangelho, é reduzido ad absurdum. “O anel genuíno, deve-se supor, foi perdido” é o julgamento mais suave que no gentil pagão pode passar. Mas existem outros julgamentos muito diferentes. Aqueles homens que no Pentecostes foram cortados no coração pelos ensinamentos de Pedro, perguntaram “O que devemos fazer?” E receberam a resposta ”Arrependei cada um de vocês e seja batizado...” Quando a pregação missionária de hoje corta alguém no coração, outra pergunta ao mesmo tempo exige uma resposta prática: "Onde e em qual das várias Confissões devo procurar ser batizado?" 

É fácil entender por que uma área missionária como o sul da Índia deve se tornar palco de grandes experimentos rumo à unidade, experimentos que talvez sugiram exemplos a serem seguidos em outros campos missionários em outros lugares. Que solução existe então para os problemas resultantes das divisões confessionais? Meros acordos sobre a ocupação deste ou daquele campo missionário são agora bastante inadequados; eles paliam, mas nunca curam os males da divisão. Tampouco é suficiente que as várias igrejas missionárias mantenham relações entre si em espírito de fraternidade cristã, participando em comum de boas obras ativas no espírito do movimento de Estocolmo. Tampouco pode-se chegar a qualquer tipo de solução certa pelo silêncio quanto às diferenças doutrinárias ou mantendo-as em segundo plano, como sugerido pela Sociedade Missionária de Bremen e outros, que sustentavam que o missionário não tinha necessidade de transplantar as diferenças das igrejas locais para um solo estranho. Isso deu origem apenas a uma "unidade cristã" levemente pietista, que se acreditava ser puramente bíblica, que, contra o metodismo, o batismo, o anglicanismo, o congregacionalismo e o presbiterianismo, parecia apenas acrescentar mais uma à lista de Confissões. Mas qual é a linha certa de desenvolvimento nessas regiões? Devemos nos abster de fazer essa pergunta? Os recém-batizados devem ser deixados não apenas para determinar as formas externas da vida da Igreja, mas também para resolver o problema confessional de novo? Além do perigo real das heresias sincretistas, isso teria apenas o efeito de envolvê-las na fundação de uma nova Confissão. Não seria muito melhor deixar o problema da unidade da Igreja no campo missionário para aquele centro que já possui uma política concreta em relação a ele, a saber, o Colégio de Propaganda em Roma? 

Este exemplo do mundo missionário deve ser suficiente para mostrar quão séria é a questão da unidade do ponto de vista teológico. Exemplos igualmente claros podem ser extraídos de terras recém-colonizadas no Ocidente ou de nossas próprias igrejas. A questão não é como podemos ter sucesso na construção de grandes organizações eclesiásticas influentes e imponentes; é simplesmente aquilo com o qual o mundo nos confronta: o que é a Igreja de Cristo? Qual é a sua mensagem? Não é por acaso que todos os problemas que movem a mente da cristandade hoje convergem para isso. Qual é a mensagem da Igreja? Precisamente este foi o assunto da Conferência missionária em Jerusalém; em Edimburgo, dificilmente se fazia referência a ela; foi pressuposto como familiar, e foi dada atenção à questão de como a mensagem, cujo conhecimento foi assumido, poderia ser comunicada ao mundo. A situação mudou. A mesma mudança é visível em toda a cristandade; o que é pedido não é como, mas o que devemos pregar. Questões de método dão lugar às de substância. O período da psicologia acabou e o da dogmática o sucede. Há muita coisa que aponta para a conclusão de que dois séculos de críticas doutrinárias deixaram os homens famintos por doutrina. 

A Igreja Luterana tem uma tarefa especial, agora que o Movimento pela união chegou a esse ponto. Deve reafirmar e conquistar o reconhecimento de um princípio que a expôs ao desprezo e à acusação de confessionalismo impenitente, a saber, que a verdadeira unidade da Igreja é totalmente impossível sem unidade de fé, ensino e confissão. A solução do problema de divisão no sul da Índia, que tomamos como exemplo, pode ser buscada de várias maneiras: mas todos esses esforços não darão em nada, a menos que e até que uma união na organização se torne uma união na doutrina. E essa união não deve ser apenas um assentimento aos credos antigos: deve ser também aquela em que uma resposta comum seja encontrada para os problemas doutrinários levantados pela Reforma. Este é o ponto em que o anglicanismo precisa da correção do luteranismo. Certamente o consenso quinque saecularis, que concorda com as precisões doutrinárias da Igreja antiga até Calcedônia, é o fundamento indispensável de todo trabalho ecumênico, o pressuposto de qualquer conversa dogmática com outras confissões. Contestar isso é afirmar que Lutero estava errado ao dizer que “os artigos da Majestade de Deus estão acima da controvérsia e da disputa: além do mais, que as confissões evangélicas estavam erradas ao estabelecer a validade permanente dos credos antigos. Mas esse consenso por si só é insuficiente, porque deixa sem resposta os problemas levantados pela Reforma. 

Agora não há Igreja no Oriente ou no Ocidente, Católica ou Protestante, em países com uma tradição cristã de longa data ou na missão realizada, que podem evitar o dever de responder às grandes questões doutrinárias da Reforma com um claro sim ou não: o dever de uma decisão com referência ao credo niceno não é mais Claro. É isso que marca a Reforma de outros eventos da história da Igreja ou do dogma. Pode ser que uma Igreja missionária recém-formada na África ou na Ásia nunca tenha ouvido o nome de Lutero, não saiba nada sobre as confissões luteranas e não possa imaginar o que era a Reforma. No entanto, mesmo uma igreja assim deve decidir por si mesma com um claro sim ou não, se é ou não “sola gratia, sola fide”; se “a única regra e medida pela qual todas as doutrinas e professores devem ser estimados e julgados” é somente a Sagrada Escritura, ou se existe outro padrão de ensino lado a lado ou superior à Escritura. Ela deve decidir as necessidades práticas da exposição bíblica exigir se interpreta as escrituras à luz da Justificação e fazer a distinção entre Lei e Evangelho que essa interpretação exige. Ela deve decidir se ensina ou não a presença real do Corpo e Sangue de Cristo na Santa Comunhão, mesmo deixar essa pergunta em aberto seria respondê-la de forma negativa. Esse significado crítico da Reforma, como um evento cuja estimativa divide uma mente e outra mente e uma Confissão da outra, é uma questão que o Anglicanismo até agora deixou de entender. Considera a Reforma primariamente (e não sem causa) como uma perturbação da Igreja; pois a Reforma inglesa foi acima de tudo uma ruptura com Roma: portanto, a Inglaterra ainda não realizou um festival da Reforma, e agora concordou em celebrar o 400º aniversário da Bíblia inglesa como substituto. Mas a grande missão com a qual as Igrejas evangélicas do Continente são encarregadas, na medida em que são capazes de cumpri-la, é revelar ao Anglicanismo e às Igrejas Livres Inglesas, embora tenham se tornado amplamente da substância do dogma, O que a Reforma realmente era. Eles devem revelar isso não apenas na teoria, mas na realidade da vida e nos conflitos da Igreja: o que era a Reforma, o que as Confissões da Reforma ainda são e por que seria mera reação voltar atrás da Reforma a um estágio da história da Igreja que há muito tempo transcende à chamada Igreja indivisa da antiguidade. Toda tentativa de alcançar a união da Igreja ignorando os conflitos ainda não resolvidos e as perguntas não respondidas da Reforma está fadada ao fracasso. É certo que não pode haver união fora da base dos credos antigos: é igualmente certo que apenas esses não são suficientes. Eles não respondem às perguntas que agitaram a mente da Igreja de Agostinho a Lutero, perguntas que todo sermão hoje deve responder. Aqueles que desejam voltar atrás da Reforma para a "Igreja indivisa da Antiguidade", para restaurá-la e encontrar nela uma via media entre catolicismo e protestantismo, são românticos e utópicos. O grande romântico da Igreja da Inglaterra, John Henry Newman, mostrou aonde esta via conduz: termina em Roma. Qualquer homem que recusa seu consentimento à sola gratia, de maneira voluntária ou não, decide em favor da doutrina tridentina da graça. Qualquer homem que relute em dar sua adesão à sola Scriptura deve em breve dar seu consentimento aos decretos do Vaticano. Buscar um caminho intermediário, nesses pontos entre o catolicismo e o protestantismo, é o caminho do erro; pois as verdades fundamentais apreendidas pela Reforma não são propriedade desta ou daquela tendência ou escola teológica; eles pertencem, ainda que sejam preservados como possessão de uma Igreja confessional, a toda a Igreja de Cristo, à única Santa Igreja católica. 



IV 



É o que as igrejas evangélicas precisam dizer ao anglicanismo, na situação atual do movimento de unidade. Mas o que as igrejas hoje estão em posição de dizê-lo? Naturalmente, a tarefa seria a primeira das igrejas reformadas nos países de língua inglesa, por ex. a Igreja da Escócia. Mas, no momento, parecem estar mais interessados ​​em cultivar relações amistosas com os bispos ingleses do que em proteger sua herança da Reforma. As igrejas alemãs, como não há quem possa falar por elas, devem ficar de lado. O que precisa ser dito não poderia ser pronunciado pela chamada "Igreja Evangélica Alemã", uma vez que, julgada pela doutrina de nossa confissão, não é Igreja, mas, como a "Igreja Evangélica da União da Velha Prússia", é uma coalizão religiosa artificial representando nenhuma doutrina definida ou confissão da igreja diante do mundo. As genuínas igrejas evangélicas da Alemanha, os luteranos e os reformados, estão envolvidos em uma luta exaustiva por sua própria vida corporativa. Quanto mais pesada é a responsabilidade que recai sobre as igrejas luternanas da Escandinávia e do Báltico. Eles estão em estreito contato com a Igreja da Inglaterra. As relações, entre o luteranismo do norte e o anglicanismo, remontam às Conferências de Lambeth do século XIX; depois disso, foram fortalecidos pela política eclesiástica de Nathan Söderblom e, há algum tempo, receberam expressão formal em acordos definidos entre os bispos suecos e os da Igreja da Inglaterra. Esses acordos, relacionados ao reconhecimento de ministérios e à admissão de membros da Igreja sueca ou inglesa, particularmente aqueles distantes de seu próprio país, à 'comunhão' não eram, no sentido estrito, partes da legislação eclesiástica, mas eram principalmente acordos privados dos Bispos quanto ao tratamento de problemas pastorais práticos. No entanto, a recente extensão desses acordos a igrejas vizinhas, como as da Finlândia e da Estônia, a participação mútua em consagrações episcopais e manifestações similares da comunhão da Igreja deram a essas relações um significado marcante e especial. 

Os seguintes fatos devem ser mantidos em vista, se quisermos entender o significado desse desenvolvimento. Todas essas igrejas do norte e do Báltico são igrejas da Confissão Luterana. Eles sempre encontraram uma espécie de pátria eclesiástica na Alemanha. Pois, por mais estreitos que sejam os laços que os vinculem (como toda verdadeira Igreja Luterana) ao seu próprio lar e povo, eles nunca deixaram de lembrar que a doutrina e as ordenanças originais de sua Igreja chegaram a eles no tempo da Reforma de Wittenberg e que eles próprios são igrejas da Confissão de Augsburgo. Mas então veio a apostasia na Alemanha da Igreja Luterana. Por mais de um século, a comunhão luterana não é celebrada no altar da igreja de Lutero em Wittenberg. Essa apostasia da Igreja Luterana atingiu seu ponto culminante em 11 de julho e 23 de setembro de 1933. As medidas legislativas então adotadas, ninguém na época estava plenamente ciente de suas implicações, estavam em contradição com a Confissão Luterana. Os bispos luteranos da Alemanha concordaram com um coração pesado no desejo de encontrar o novo Estado na metade do caminho e evitar qualquer coisa que pudesse levar a uma alienação entre Igreja e Estado. Mas, aos olhos de estrangeiros, não havia mais Igreja Luterana independente da Alemanha. Para que altares, então, as Igrejas Luteranas do Norte devem orientar seus membros a se voltarem, quando estão longe de sua própria terra? Visto que as igrejas reformadas negam exatamente o que torna o sacramento do altar o que é e deve ser, normalmente não há intercomunhão entre luteranos e reformados. Não havia outro caminho aberto para as Igrejas do Norte, a não ser um acordo com os anglicanos, que há muito abandonavam a concepção calvinista da Santa Comunhão. Sobre a questão do reconhecimento dos ministros, é preciso dizer: a Igreja Luterana sempre exigiu que o ministério seja sempre exercido por homens que por ele são justamente chamados. Sempre buscou a legitimidade interior, mesmo do ofício episcopal. Mas essa legitimidade por um longo período foi reduzida a uma ruína. Na Prússia, o título de bispo foi conferido da mesma maneira que o de conselheiro privado. Friedrich Wilhelm IV, um calvinista hereditário e, portanto, membro de uma Igreja que em sua confissão rejeita o episcopado como um pecado contra Deus, esboçou uma hierarquia no modelo inglês da Igreja da Prússia; uma das disposições do esboço era que o arcebispo de Magdeburgo deveria ter uma classificação inferior a Canterbury, mas superior a Upsala. Isso facilita a compreensão de como os arcebispos de Canterbury e Upsala preferiram chegar a um acordo próprio, sobre quem eles reconheceriam ou se recusariam a reconhecer como bispo legítimo. 

O episcopado sueco e inglês tomou medidas oportunas nesse sentido antes da guerra e antes de um senado da Igreja da Prússia eleito por princípios parlamentares ou uma autoridade ainda mais redobrável ter seguido os passos de Friedrich Wilhelm, o quarto. Se hoje for afirmado na Alemanha um acordo com uma igreja católica parcial ou totalmente que, como a da Inglaterra, não é protestante, a resposta das igrejas luteranas no norte e no leste provavelmente seria que não lhes importa muito se eles são protestantes. E, de fato, nenhuma Igreja Luterana, nenhuma Igreja da Confissão de Augsburgo, pode estar muito ansiosa por pertencer ao que a União Protestante, a Federação Evangélica ou essas organizações entendem pelo protestantismo. Se o protestantismo é o que os políticos racionalistas dos séculos XVIII, XIX e XX entenderam e aos quais se orgulham de aderir, então nós luteranos o renunciaríamos tão decisivamente quanto nossos pais abjuraram os fanatismos do século XVI, e, como eles, declararia nossa alegre lealdade à verdadeira igreja católica ortodoxa de todas as eras. Mas o caso não permanecerá assim se este acordo merece ser julgado como não-evangélico. Este será o caso se o episcopado, a sucessão apostólica e a ordenação episcopal de pastores forem considerados algo mais, para a Igreja Luterana, do que uma daquelas tradições e cerimônias eclesiásticas que a Igreja de cada época é livre para introduzir como louváveis ​​ordenanças de homem, para modificar ou substituir. 

Como se sabe, as razões pelas quais o luteranismo alemão perdeu as antigas formas constitucionais católicas eram questões da história externa: elas não envolviam a convicção de que a forma episcopal de constituição é menos bíblica ou evangélica do que o governo da Igreja por consistórios, presbitérios, sínodos ou conselhos de irmãos. Enquanto as Igrejas Luteranas do Norte e Leste se apegarem à doutrina do ministério que está de acordo com sua confissão, e considerarem o episcopado e a sucessão como entre as tradições humanas que não pertencem à essência da Igreja, era portanto, como Söderblom se expressou inconfundivelmente em nome da Igreja sueca, em Lausanne, em 1927, não há objeção a que eles revivam e construam uma constituição dessa natureza. Pode até ser que, nesses tempos, essa constituição possa se provar uma forte defesa para a Igreja, como era a forma presbiteriana clássica das igrejas reformadas na era da perseguição. Possivelmente é por esse meio que as Igrejas nacionais e regionais do Norte e do Leste podem ser salvas de afundar em meras instituições da nação e do estado; pois um ministério episcopal, exigindo o reconhecimento de outros bispos e, portanto, de outras igrejas regionais, proclama por sua própria existência que deixará de ser Igreja se se tornar uma mera instituição do Estado e de sua cultura. O desenvolvimento de constituições episcopais nessas igrejas deve ser entendido nesse sentido. Só pode entrar em contradição com a confissão da Igreja Luterana se a Igreja do Norte deixar de ensinar em termos claros e tornar seu significado igualmente claro para os anglicanos, que a verdadeira sucessão apostólica é a sucessão na doutrina apostólica não adulterada, e que todas as formas externas de ordenação e ministério têm apenas um fim a servir, a saber, preservar essa doutrina no mundo e providenciar que ela seja sempre retirada da fonte das escrituras e proclamada de uma geração para outra. Se chegasse o dia em que as Igrejas do Norte perdessem o controle dessas verdades, quando procurassem a unidade, a catolicidade e o caráter apostólico da Igreja em algo que não fosse a pura doutrina, esse dia marcaria o fim do luteranismo do norte. 

A partir disso, fica claro quão pesada é a responsabilidade neste momento sobre as igrejas luteranas do norte e sobre o luteranismo em todo o mundo. Seria uma ignorância grosseira afirmar que a Igreja Luterana não tem nenhum sentimento pela tarefa de se seguir a união, ou que o confessionalismo luterano é um obstáculo à unidade. Nenhuma das confissões do século XVI entrou em ruptura com o papado tão lentamente ou com tanta dor quanto o luteranismo. Nenhuma Confissão de qualquer Igreja Reformada é tão ecumênica, ou tão generosa quanto os luteranos, em sua visão da presença da única Igreja verdadeira de Cristo, mesmo além dos limites de sua própria igreja confessional. Nenhuma outra confissão promoveu tão pouca propaganda quanto a nossa entre os adeptos de outras igrejas. Apenas uma coisa que a Igreja Luterana sempre se recusou a fazer, e essa recusa trouxe a censura ao “confessionalismo impenitente”; nunca se permitiu pensar que a unidade perdida da Igreja pode ser restaurada sem remover as causas da divisão; nem acreditou na possibilidade de reduzir o número de confissões, fundando uma nova. Mas princípios como esses, que para nós luteranos são impensáveis, estão na raiz de todas as tentativas de união feitas nos últimos quatro séculos. As grandes Confissões do período da Reforma separaram-se da questão: que concepção de revelação, de fé, de justificação, da Igreja está certa e que concepção está errada; qual doutrina é verdadeira e qual falsa. Eles se reunirão novamente em uma genuína união da igreja se e quando estiverem juntos em um reconhecimento comum da verdade; por exemplo. Luteranos e Reformados se reunirão quando tiverem concordado se o Catecismo Luterano ou o Catecismo de Heidelberg (ou nenhum deles) ensina a verdadeira doutrina quanto ao sacramento do altar. É claro que existem outras causas de divisão, diferenças de opinião sobre pontos da ordem e disciplina da Igreja, que levaram a dissidências nas grandes confissões. No entanto, por mais difícil que seja às vezes descobrir a distinção em casos particulares, deve-se fazer uma distinção entre as Confissões como grandes tipos de Igreja, com base em uma base doutrinária definida, e as denominações como grupos especiais nas Confissões. Obviamente, por exemplo, a origem da Confissão Reformada no século XVI não fica paralela à origem da Igreja dos “Discípulos de Cristo”. Se o grande processo de diferenciação pelo qual a cristandade passou desde a Reforma é substituído neste século por um de integração; se a situação da cristandade como um todo exige que as relações mútuas das igrejas sejam coordenadas novamente, teremos de admitir que, até certo ponto, depende da escolha humana se o denominacionalismo, a divisão das confissões em inúmeros grupos especiais, deve persistir ou não. Não é necessário que cem sociedades missionárias trabalhem na China, mas, até onde alguém possa julgar, as grandes Confissões, como existem desde o século XVI, não podem desaparecer; eles terão que viver lado a lado como antes. Nada lhes está aberto senão proclamar sem comprometer a doutrina que eles devem pregar. Num espírito de cavalaria, eles devem lutar um com o outro pelo reconhecimento da verdade. Eles devem estar prontos para abandonar a pátria e a amizade se a voz de Deus, a voz indubitável de Deus, os chama a procurar outro país. Até então, eles devem procurar uma nova relação um com o outro e formar talvez a koinonia ton ekklesion à qual o Patriarca ecumênico convocou as igrejas do Ocidente quando a Igreja Oriental entrou em colapso. Mas as próprias Confissões só podem ser transcendidas se, por meio de uma nova e maior Reforma, o Senhor da Igreja concluir a Reforma do século XVI. 

A contribuição, então, que o luteranismo deve dar ao movimento ecumênico atualmente é o confessionalismo. Por mais paradoxal que pareça, essa é uma contribuição real. A missão da Igreja Luterana é lembrar à cristandade que é inútil falar de qualquer unidade real da Igreja, exceto onde exista o consenso entre a doutrina evangélica e a administração dos sacramentos. Onde isso foi esquecido, a Reforma foi renunciada; e aqueles que seguem esse caminho estão seguindo os caminhos de Erasmo e terminarão na fantasia sentimental ou em Roma. Toda atividade que faz a unidade da igreja será confrontada com essa alternativa, seja ela praticada em uma única região ou em todo o mundo, se esquecer essa doutrina quanto à unidade da Igreja que a Igreja Luterana aprendeu das Sagradas Escrituras e proclamou à cristandade, no sétimo artigo da Confissão de Augsburgo: ad veram unitatem ecclesiae satis est consentire de doctrina evangelii et de administratione sacramentorum.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A Blasfêmia contra o Espírito Santo


Trigésima oitava preleção

(23,10,1885)

Muitos ministros, e não os piores, imaginam que realizaram muito ou até acham que alcançaram seu objetivo quando conseguiram despertar seus ouvintes de sua segurança carnal e os levaram a desesperar e ficar em dúvida quanto ao seu estado de graça e sua salvação. E de fato, é necessário que toda pessoa, para ser salva, precisa ser arrancada de sua falsa segurança, de seu falso conforto, da falsa Paz e de suas falsas esperanças. Ela precisa ser levada ao desespero pela salvação e por causa de sua condição presente. Mas isso é meramente um estágio preparatório pelo qual precisa passar; não é o assunto de maior importância nem o principal objetivo a ser alcançado. O principal é que obtenha completa segurança e certeza de seu estado de graça e salvação, para que possa exultar por seus pecados terem sido perdoados. Não pode haver dúvida de que este deve ser o principal objetivo de um ministro evangélico. Pois, o ministro precisa pregar o Evangelho aqueles que lhe foram confiados. Ele deve leva-los a fé em Cristo, batiza-los e administrar-lhes a absolvição e a Santa Ceia. No entanto, pregar o Evangelho nada mais significa do que proclamar as pessoas que elas foram completamente reconciliadas com Deus através de Cristo. Viver a fé genuína nada mais significa do que a divina certeza de que se tem o perdão dos pecados e de que os portais dos céus estão abertos. Batizar uma pessoa significa tira-la do mundo dos pecadores perdidos, por ordem, em nome e em lugar de Deus, e dar-lhe a solene certeza de que Deus é gracioso para com ela, de que Deus é seu Pai, e que ela, a pessoa batizada, é filho de Deus. Significa que o Filho de Deus é seu Salvador, que a pessoa batizada é seu filho e já está salva; que o Espirito Santo é seu Consolador e ele é a habitação do Espirito Santo. Administrar a absolvição a uma pessoa significa dizer-lhe, por ordem, em nome e lugar de Cristo: “Teus pecados estão perdoados. ” Administrar-lhe a Santa Ceia significa dizer-lhe em nome de Jesus: “Você também deve participar da grande conquista da redenção. Para confirmar seus direitos nesta redenção, este precioso sinal ou penhor é dado a você, a saber, o corpo e o sangue de Cristo, o resgate com o qual ele comprou o mundo inteiro. Um exame das Escrituras revela o fato de que o objetivo de todos os ministros fieis tem sido treinar seus ouvintes de maneira tal que pudessem declarar-se filhos de Deus e herdeiros da salvação. Quando Cristo disse aos seus discípulos: Alegrai-vos [...] porque o vosso nome está arrolado nos céus” (Lc 10.20), ele evidentemente os conclamou a rejubilar na certeza de sua salvação. Paulo escreve aos Coríntios: Vos vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espirito do nosso Deus. (1 Cor 6.11) Pedro escreve aos cristãos que viviam dispersos: Porque estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma. (1 Pe 2.25) João diz aos seus filhos espirituais, incluindo a si mesmo na afirmação: Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Mas sabemos que, quando ele aparecer, haveremos de ser semelhantes a ele; porque haveremos de vê-lo assim como ele é. (1 Jo 3.2) Em nenhum lugar nas Sagradas Escrituras encontramos os apóstolos tratando os membros de suas congregações como se estivessem inseguros quanto a sua situação em relação a Deus. O tratamento deles sempre a tal, que se pode ver que eles pressupõem que seus membros, apesar de suas fraquezas e falhas, são amados e queridos filhos de Deus.
As condições são diferentes em nossos dias. Em regra, até mesmo os melhores ministros ficam satisfeitos se tiverem treinado seu povo a vir a eles ocasionalmente para reclamar de que não tem certeza de sua salvação, de que estão com medo que se perderiam se morressem na próxima noite. Uma queixa como essa aflige um ministro verdadeiramente evangélico, cujo objetivo e conseguir fazer com que seus ouvintes professem: “Eu sei que o meu Redentor vive. Eu sei em quem eu tenho crido. ” Mas ministros que não são verdadeiramente evangélicos aceitam essa queixa como evidência de que fizeram bons cristãos de seus ouvintes. Qual é o motivo por que tantos em nossos dias vivem na incerteza se são ou não cristãos verdadeiros? O motivo e que os ministros, em regra, confundem Lei e Evangelho e não prestam atenção a admoestação apostólica: Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. (2 Tm 2.15) porque, quando o Evangelho é pregado com uma mistura de Lei, é impossível o ouvinte se prender a fé no perdão de seus pecados. Por outro lado, quando a Lei é pregada com uma mistura de Evangelho, e impossível que o ouvinte reconheça que é um pobre pecador necessitado do perdão dos pecados.

Em vigésimo lugar, a Palavra de Deus não é aplicada corretamente quando o imperdoável pecado contra o Espirito Santo é descrito como sendo imperdoável devido a sua grandeza.
A descrição atual do pecado imperdoável é uma horrível confusão entre Lei e Evangelho. Apenas a Lei condena o pecado; o Evangelho absolve o pecador de todos os pecados indistintamente. O profeta escreve: Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã. (Isaías 1.18) 0 apostolo Paulo escreve (Rm 5.20): Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Por isso, também Lutero canta: ’’ E se os pecados muitos são, / em Deus mais graça temos não tem limites seu perdão, / sempre o receberemos. ” O que diz a Escritura Sagrada a respeito do pecado contra o Espirito Santo? A respeito desse pecado, temos três passagens paralelas nos evangelhos sinópticos, uma passagem na Epístola aos Hebreus e uma em 1 Jo. Essas passagens são o centro da doutrina sobre o pecado contra o Espirito Santo. Mt 12.30-32: Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha. Por isso, vos declaro: todo pecado e blasfêmia será perdoado aos homens, mas a blasfêmia contra o Espirito não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á isso perdoado, mas, se alguém falar contra o Espirito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir. Essa é a passagem principal. Ela constata, em primeiro lugar, que toda blasfêmia contra o Pai e o Filho será perdoada; apenas a blasfêmia contra o Espirito Santo não será perdoada. Agora, uma coisa é certa: O Espirito Santo não é uma pessoa mais gloriosa ou mais exaltada do que o Pai e o Filho; ele é co-igual a eles. Logo, essa passagem não pode estar indicando que o pecado imperdoável é blasfêmia contra a pessoa do Espirito Santo; porque então em nada seria diferente da blasfêmia contra o Pai e o Filho. A blasfêmia da qual o nosso texto fala é dirigida contra o oficio, ou a operação do Espirito Santo. Quem despreza a obra do Espirito Santo está perdido; esse pecado não lhe será perdoado. O oficio do Espirito Santo consiste em chamar os homens para Cristo e conserva-los junto a ele.
O texto menciona, particularmente, que a pessoa que comete esse pecado “fala contra o Espirito Santo”. Isso mostra que o pecado em questão não é cometido quando se tem pensamentos blasfemos no coração. Não raras vezes, cristãos imaginam que incorreram nesse pecado, quando são sobressaltados por pensamentos horríveis dos quais não conseguem se livrar. Nosso Senhor Jesus Cristo previu isso. E por essa razão, ele nos informou que a blasfêmia contra o Espirito Santo, que não será perdoada, tem que ser proferida ou expressa verbalmente. O diabo atira suas flechas ardentes nos corações dos cristãos fieis, fazendo com que revolvam os pensamentos mais horríveis em seus corações contra seu Pai Celeste e contra o Espirito Santo, no entanto, contra sua vontade. Cristãos sinceros queixaram-se de que, enquanto iam a Santa Ceia, foram molestados com os pensamentos mais horríveis contra o Espirito Santo. Tais pensamentos são coisas do diabo. Quando estou sentado numa sala muito linda com as janelas abertas, e um menino malvado atira sujeira para dentro dessa sala, eu não sou responsável por isso. Em sua sabia providencia, Deus permite que seus filhos amados sejam aborrecidos dia e noite com tais pensamentos. Os melhores pregadores encontraram casos desse tipo entre os membros de suas congregações. Mas esse não é o pecado contra o Espirito Santo, que consiste em blasfêmia pronunciada verbalmente. Tive de tratar espiritualmente de uma menina que até pronunciou pensamentos desse tipo, mas ao mesmo tempo caiu no chão, chorando e suplicando que Deus a libertasse de sua aflição. Ela não conseguiu descansar até se dar conta de que não era ela que estava expressando aqueles pensamentos. Satanás havia tomado conta de seus lábios. E claro, os modernistas, que negam tal poder do diabo, chamam esta explicação de noção supersticiosa. Mc 3.28-30: Em verdade vos digo que tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferiram. Mas aquele que blasfemar contra o Espirito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eterno. Isto, porque diziam: Estas possesso de um espírito imundo. Aqui está relatada uma blasfêmia contra o Espirito Santo, que, de fato, se concretizou. Quando Cristo expeliu demônios, os fariseus declararam que essa ação do Espirito Santo era uma obra do diabo. Eles estavam convencidos de que se tratava efetivamente de uma obra divina, mas, já que o Senhor censurara sua hipocrisia, foram tomados de ódio mortal contra Cristo, e isto fez que blasfemassem contra o Espirito Santo. Assim, aqui nos é oferecida a seguinte explicação: Afirmar que uma obra do Espirito Santo é obra do diabo, quando se está convencido de que se trata de uma obra de Deus, é blasfêmia contra o Espirito Santo. Não ha cristão que, ocasionalmente, não resista a ação da graça divina e, então, tente persuadir-se de que estava afugentando pensamentos obscuros. Essa doutrina nos adverte de que, se quisermos ser salvos, devemos, de imediato, render-nos a ação do Espirito Santo e não resistir, tão logo a percebamos. Porque a pessoa que resiste, no estágio seguinte dirá: "Isso não procede do Espirito Santo." E o próximo estágio será este: Ele passara a odiar o caminho pelo qual Deus quer conduzi-lo a salvação e, finalmente, blasfemar. Portanto, estejamos em guarda. Vamos abrir a porta ao Espirito Santo quando quer que ele bata e não aceitar o ponto de vista das pessoas do mundo, que consideram essas sensações como sintomas de melancolia. A menos que o Espirito Santo nos leve a fé, nunca chegaremos a ela. Todo aquele que rejeita o Espirito Santo, exclui toda e qualquer possibilidade de ajuda, até mesmo da parte de Deus. Deus deseja que a ordem que ele estabeleceu para a nossa salvação seja conservada. Ele não leva ninguém ao céu a força. Nosso texto refere-se ocasião em que Cristo curou o homem da mão ressequida e expulsou um demônio. Todos tiveram oportunidade de ver que o poder de Deus estava invadindo o reino de Satanás. Mas aqueles infames que assistiram a isso, disseram: "Ah! Jesus esta possesso de Belzebu; é por isto que pode expelir os demônios de categoria inferior." A própria ação que haviam testemunhado, as obras e palavras de Cristo deixavam claro que ele investia contra o diabo e estava destruindo o reino deste. Estava totalmente fora de cogitação imaginar-se que o diabo estaria ajudando Cristo nesta obra.
Lc 12.10: Todo aquele que proferir uma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; mas, para o que blasfemar contra o Espirito Santo, não haverá perdão. Novamente nos vemos que é essencial que para pecar contra o Espirito Santo, aquela blasfêmia seja verbalizada, e isso consciente e propositalmente. Temos uma afirmação muito importante a respeito deste pecado em Hb 6.4-8: É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espirito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, e impossível outra vez renova-los para arrependimento, visto que, de novo, está crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o a ignorninia. Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada, recebe benção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto esta da maldição; e o seu fim é ser queimada. O que é característico nesse pecado contra o Espirito Santo e que a pessoa que incorreu nele não pode ser reconduzida ao arrependimento. Isso é simplesmente impossível. Não que Deus coloque o ser humano nesse estado; é o pecador, por sua própria culpa, que ingressa nesse estado de impenitência irrecuperável. Quando essa situação atingiu um determinado grau de intensidade, Deus cessa de agir nessa pessoa. A maldição cai sobre ela, e elimina-se qualquer outra possibilidade de sua salvação. Por que? Porque ela não pode ser levada ao arrependimento. O solo de seu coração foi arruinado e não é mais fertilizado pelo sereno e pela chuva da graça divina. 1 Jo 5.16: Se alguém vir a seu irmão cometer pecado não para morte, pedirá, e Deus lhe dará vida, aos que não pecam para morte. Ha pecado para morte, e por esse não digo que rogue. Essa palavra nos traz uma importante informação que, infelizmente, não podemos colocar em pratica. Porque, antes da morte de alguém, não saberemos dizer se ele cometeu pecado contra o Espirito Santo ou não. Mesmo que sua boca profira blasfêmias, não sabemos se o fenômeno não pode ser explicado através de uma possível ação do diabo, ou se ele não age acometido de terrível cegueira espiritual, nem se ele não pode ser levado outra vez ao arrependimento. Nos dias dos apóstolos, os cristãos tinham o dom de discernir os espíritos. Eis o que S. Joao quer dizer nesta passagem: "Tão logo vocês percebam que este ou aquele individuo incorreu nesse pecado, que Deus deixou de ser gracioso para com ele, vocês não devem desejar que Deus volte a ser gracioso para com ele e devem deixar de orar por ele."
Também não podemos dizer a Deus: "Salva aqueles que cometeram o pecado contra o Espirito Santo." Isso tudo pode parecer muito chocante; todavia, encerra um grande consolo. É possível que alguém lhe diga: "Eu sou um homem miserável! Cometi o pecado contra o Espirito Santo. Estou absolutamente certo disso!" É possível que essa pessoa aflita lhe apresente o mal que fez, disse e pensou. Pode ser que as evidencias indiquem que, de fato, ele blasfemou contra o Espirito Santo. Nesse momento, você deve lembrar a arma que Hb 6 apresenta para um caso desses: Este individuo de maneira alguma se alegra com o que está relatando. Isso tudo é simplesmente terrível para ele. Através disso, você pode perceber que Deus, de qualquer forma, começou a operar o arrependimento nele. Tudo o que ele precisa fazer é apegar-se a promessa do Evangelho. Caso você pergunte se ele cometeu todos esses males, intencionalmente, é possível que ele responda de modo
afirmativo, mesmo sem querer. Às vezes, isso acontece. Entretanto, é Satanás quem fala através dele. E se você perguntar se ele preferiria não ter praticado todas essas coisas, ele responderá: "Sim, de fato; tudo isto me traz a mais terrível preocupação." Esse é um sinal evidente de que Deus começou a operar o arrependimento nesse indivíduo. Um caso assim não deve ser tratado levianamente; deve-se mostrar ao que sofre que, no caso de haver nele um princípio de arrependimento, esta é uma prova incontestável de que ele não cometeu o pecado contra o Espirito Santo. De modo geral, ao pregar sobre esse assunto, o pregador deve empenhar-se mais em convencer seus ouvintes de que não cometeram esse pecado do que em alertá-los a que não incorram nele. Para aquele que realmente cometeu esse pecado, de nada adianta a pregação. A todo aquele que lamenta seus pecados e anseia por perdão, deve ser dito que ele é um filho querido de Deus que, todavia, está passando por uma terrível tribulação.
Em At 7.51, nós lemos que Estevão disse aos seus ouvintes: Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vos sempre resistis ao Espirito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vos o fazeis. Aquelas pessoas haviam cometido o pecado contra o Espirito Santo? Não; porque Estevão morreu orando por eles: "Senhor, não lhes imputes este pecado." (v. 60) Isso mostra que, apesar de os judeus terem cometido pecados propositais, eles não haviam cometido o pecado contra o Espirito Santo. De outro modo, o mártir não teria orado por eles. Ele estava pensando, ao orar por eles, que poderia vir uma hora em que eles não resistiriam mais ao Espirito Santo. Ouçamos agora o comentário de Lutero sobre 1 Jo 5.16. Ele escreve (St. L. Ed. IX, p. 1519): "Pelo termo 'pecado para morte' eu entendo heresia que estas pessoas colocaram no lugar da verdade. Se elas não se arrependerem depois da primeira e da segunda admoestações (Tt 3.10), seu pecado e um pecado para a morte. No entanto, podemos enumerar nesta categoria um pecado como o pecado de obstinação e desprezo, como Judas, que havia recebido muitas admoestações, mas por causa de sua obstinada maldade não se podia ajuda-lo. Também Saul, que morreu em seus pecados porque não confiava no Senhor. Mas o mais alto grau de obstinação é encontrado naqueles que insistem em manter e defender seus erros conhecidos."
Esse pecado não é imperdoável por causa de sua magnitude — pois o apostolo, como nós ouvimos, havia declarado claramente: "Onde abundou o pecado, superabundou a graça," mas porque a pessoa que comete este pecado rejeita o único meio pelo qual pode ser levada ao arrependimento, a fé e a firmeza na fé. Lutero aqui se refere a pessoas cujos pecados consistem em que elas defendem obstinadamente, contra seu próprio conhecimento e consciência, um erro que reconheceram como pecado. Lutero continua: "Desse tipo também é o pecado contra o Espirito Santo, ou endurecimento na maldade, lutando contra a conhecida verdade, e impenitência final." Sem dúvida alguma, não é correto considerar impenitência até o fim como o pecado contra o Espirito Santo, conforme faz Lutero; porque neste caso a maioria das pessoas teria cometido esse pecado. No entanto, impenitência final é um aspecto desse pecado. A peculiaridade especial desse pecado é que ele se opõe ao oficio, a operação, do Espirito Santo. Voltando a Lutero: "Ha um outro tipo de pecado que não a para morte. Desse tipo foi o pecado de Paulo, ao qual ele se refere em 1 Tm 1.13, dizendo: '[...] a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade.' Paulo havia cometido o terrível pecado de blasfemar e tentar forçar os cristãos a blasfemarem; mas ele estava agindo em total cegueira. Ele não tinha nem ideia de que estava lutando contra Deus. Deste pecado Cristo fala em Mt 12.32, dizendo: 'Se alguém proferir uma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á isso perdoado.' Do mesmo modo o pecado dos homens que crucificaram Cristo não era para morte, porque Pedro diz a eles: 'E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância.' (At 3.17) E Paulo diz: Porque, se tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da gloria.' (1 Cor 2.8) No entanto, esse pecado é para morte quando e defendido depois de ter sido revelado e reconhecido como pecado, porque resiste graça de Deus, aos meios da graça e ao perdão dos pecados. Onde não há conhecimento do pecado, não há perdão. Pois o perdão do pecado é pregado aqueles que sentem seu pecado e estão procurando a graça de Deus. Mas estas pessoas [que cometeram o pecado contra o Espirito Santo] não estão temerosas por escrúpulos da consciência, nem reconhecem ou sentem seus pecados." Que cada um tome cuidado para não resistir ao Espirito Santo.
Quando um pecado lhe foi revelado e seu próprio coração confirma que é pecado, que a sua boca não negue este fato. Esse pode ainda não ser o pecado contra o Espirito Santo, mas pode ser um passo naquela direção. Ha muitas pessoas que admitem que todos nos pecamos de muitas maneiras, cada dia, no entanto, quando são repreendidas, alegam que nunca fizeram mal nem sequer a uma criança. Com respeito as pessoas que estão aflitas com a possibilidade de ter cometido o pecado: contra o Espirito Santo, deve-se dizer que, se elas realmente o tivessem cometido, não teriam essa aflição, nem se encontrariam nessa terrível situação; teriam, antes, prazer em blasfemar continuamente do Evangelho. Contudo, cristão aflito ainda tem fé, e o Espirito de Deus está agindo neles e, se ele está agindo neles, então não cometeram o pecado contra o Espirito Santo. Uma excelente exposição desse assunto pode ser encontrada na obra latina de Baier, in - Compendio de Teologia Positiva. Diz ele na parte II, cap. III, p. 24: "O mais grave de os pecados atuais, que é denominado pecado contra o Espirito Santo, consiste numa maliciosa e em ataques blasfemos e obstinados a verdade celestial que já era conhecida pelo indivíduo que incorre nesse pecado.

a) A maneira de denominar este pecado assim é derivada do seu objeto, que é o Espirito Santo. O termo 'Espirito Santo' neste lugar e entendido metonimicamente, - quer dizer, a operação que o Espirito Santo faz na conversão das almas humanas pelo ministério da Palavra. Este significado do termo também é encontrado em 2 Cor 3.6. O pecado contra o Espirito Santo, pois, é um pecado que a cometido contra o oficio do ministério do Espirito Santo e contra a verdade celestial que e revelada por este oficio e ministério. [Blasfemar contra o Espirito Santo significa blasfemar contra seu ministério, significa declarar as operações do Espirito Santo operações do diabo, e oferecer resistência ao seu oficio. ] Também chamado de pecado para a morte, essa denominação e derivada do efeito desse pecado, porque ele leva definitivamente morte eterna ou condenação. (1 Jo 5.16) ["Pecado para a morte" não deve ser confundido com "pecado mortal".]

b) A base dessa doutrina encontramos em Mt 12.30ss.; Mc 3.28; Lc 12.10.

c) A doutrina da verdade celestial pode ter sido aprovada com uma concordância de fé divina e por profissão publica, ou então pode ter sido percebida tão claramente que o coração do indivíduo foi convencido e não tinha argumento para se opor a ele. No primeiro caso, o pecado contra o Espirito Santo e cometido por aqueles apóstolos que renunciam e difamam a verdade que haviam, uma vez, conhecido e crido, como o autor de Hebreus descreve no capitulo 6.4ss. A segunda classe pertence os fariseus e escribas, que nunca aprovaram a doutrina de Cristo por profissão, apesar de estarem convictos de sua veracidade em seu coração pela Escritura e pelos milagres de Cristo, e nada mais tinham do que calúnias a dizer contra. [Ha teólogos luteranos que alegam que somente uma pessoa verdadeiramente regenerada pode cometer este pecado contra o Espirito Santo. Mas isso é de longe demais; porque ninguém vai acreditar que os fariseus a quem o Senhor fala desse pecado haviam sido verdadeiramente convertidos em algum tempo anterior. Eles simplesmente cresceram em sua maldade. E verdade, no entanto, que uma pessoa pode cometer este pecado até mesmo depois de sua regeneração, um fato que se deve manter em oposição aos calvinistas. É bem provável que Judas havia crido. Quase não se pode acreditar que o Salvador o tenha chamado enquanto estava sob a ira de Deus. Judas caiu em pecado mais tarde, e Satanás tomou posse não apenas de seu corpo, mas também de sua mente. ]

d) Em outras palavras, a renúncia e os assaltos sobre a doutrina celestial precisam acontecer ekousioos (Intencionalmente), Hb 10.26, de tal maneira que a causa dessa renúncia e agressão é pura e clara maldade. No entanto, aqueles que renunciam a sua fé por ignorância ou medo da morte, não são por isso pecadores contra o Espirito Santo, mas podem obter a remissão do seu pecado. Veja os exemplos de Paulo em 1 Tm 1.13, e de Pedro em Mt 25.70ss. [Quando a palavra de Deus foi apresentada claramente a uma pessoa e é evidente que
ela ficou impressionada, porque está apavorada, começa a tremer e sente que Deus a esta abordando. E chocante ouvir, num caso assim, alguém dizer: (Não, eu não acredito nisso! Eu não acredito! Você está interpretando mal as Escrituras!'] Isso pode não ser o pecado contra o Espirito Santo, mas é um passo naquela direção. Eu digo, um passo naquela direção, porque a pessoa pode reconsiderar seu ato e ser salva. Pedro havia dado três passos em direção ao pecado contra o Espirito Santo; no entanto, ele não agiu por Ódio contra Cristo, mas por medo. Ele esperava ser preso se admitisse que era um dos discípulos de Jesus. Esse medo de Pedro deu ao diabo a oportunidade de derrubar este grande e solido alicerce da Igreja. Mas o Espirito Santo reentrou no coração de Pedro, e Pedro se arrependeu de seu pecado.

e) Nas passagens citadas na letra b), esse pecado é chamado de ‘’falando uma palavra contra o Espirito Santo, ’’ ou ‘’blasfêmia contra o Espirito Santo’’. Assim, a forma que este pecado toma é uma fala aviltante dirigida contra o oficio do Espirito Santo, por exemplo, quando seu ensino e as maravilhosas obras que foram feitas para apoio são atribuídas ao poder e a operação de Satanás, como fizeram os fariseus.

f) Assim, é em sua natureza um pecado de caráter tal, que não pode ser perdoado e nunca é perdoado a ninguém, de acordo com as passagens em Mateus e Marcos, porque, por sua própria natureza, ele bloqueia o caminho ao arrependimento. A razão, no entanto, por que a impenitência final está tão ligada a este pecado é que as pessoas que o cometem diretamente e com toda malicia se opõem aos meios para sua conversão e que Deus, por isso, retira sua graça deles e os entrega a uma mente réproba. Uma pessoa que cometeu o pecado contra o Espirito Santo é condenada, não tanto por causa desse pecado, mas mais por sua falta de fé. A causa geral (causa communis) de sua condenação é a falta de fé; a causa especial (causa singularis) é a maliciosa e constante difamação da verdade.
Não é devido a um decreto absoluto de condenação, conforme ensinam os calvinistas que mantem o erro realmente diabólico de que tais pessoas não podem ser salvas porque Cristo não sofreu nem expiou os pecados delas nem as redimiu." Ha uma opinião atual de que certo Spiera havia cometido o pecado contra o Espirito Santo. Ele havia chegado a conhecer a verdade evangélica, mas a renunciou duas vezes, a segunda vez sob juramento. Ele entrou num estado mental terrível. Todos podiam ver que ele estava sofrendo os tormentos do inferno. Todas as tentativas de conforta-lo falharam. Paul Vergerius atendeu-lhe em sua enfermidade e lhe ministrou o consolo do Evangelho. No entanto, todos os nossos teólogos mantem a certeza de que Spiera não cometeu o pecado contra o Espirito Santo, porque ele condenou o pecado e estava convencido de que merecia a condenação eterna. Seu pecado foi desespero pela misericórdia de Deus. Além do mais, a razão pela qual Spiera renunciou a verdade foi que temia ser queimado pelos romanistas. O relato de Quenstedt sobre Spiera é citado no Compendia de Baier, Parte II, p. 328. O caso de Spiera é uma advertência solene e importante para todos os tempos. Forneceu a Vergerius o impulso final para desistir do papado, quando ele viu a agonia infernal que uma pessoa que renuncia a verdade evangélica tinha de sofrer.

Por Carl Ferdinand Wilhelm Walther, A correta distinção entre Lei e Evangelho, Pag: 339-346.