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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

25 de dezembro: é o dia certo para o Natal


Todos os anos nós cristãos somos inundados com alegações de que o dia 25 de dezembro não é o dia certo para o Natal, que o cristianismo aderiu a datas de festas pagãs, que todo o calendário da igreja era um esquema de marketing para puxar os pagãos para diferentes celebrações e convertê-los. Porém tudo isto está longe da realidade.

O dia 25 de dezembro é uma data muito precisa para celebrar o nascimento de Cristo. Os cristãos celebraram inicialmente o nascimento de Jesus na páscoa. Isto se originou de uma prática da igreja primitiva de reconhecer a data da morte de um santo como a mesma data de seu nascimento. Os antigos pareciam gostar da simetria.

Quando o cristianismo começou a reconhecer o nascimento de Cristo como um dia próprio, a data em dezembro apareceu muito rapidamente. Hipólito de Roma defendeu o 25 de dezembro, por volta do ano 200 d.C. São João Crisóstomo parece ter encerrado a discussão, declarando o dia 25 de dezembro como a data certa, em torno do ano 300 d.C.


Há uma quantidade razoável de dados que sustentam esta data:

Zacarias estava servindo no templo com seus parentes. Eles estavam servindo no 8º mês do ano judaico. Nissan, o 1º mês, cai entre março e abril. O 8º mês cai entre meados de outubro e meados de novembro.


Agora, enquanto estava servindo como sacerdote perante Deus, durante este intervalo de meses, de acordo com o costume do sacerdócio, Zacarias foi escolhido por sorteio para entrar no templo do Senhor e queimar incenso... E quando terminou seu tempo de serviço, foi para sua casa. Depois desses dias sua esposa Isabel concebeu, e durante cinco meses ela se manteve escondida, dizendo: "Assim o Senhor fez por mim, nos dias em que me olhou, para tirar minha reprovação entre as pessoas". (Lucas 1:8-9, 23-25)



Depois desses dias, Isabel concebeu. Devemos entender uma data anterior a novembro, dentro da dita janela, como os pais da igreja o fizeram. Assim, Isabel concebeu por volta do dia 25 de outubro. No sexto mês de gravidez encontramos isso no texto:



E o anjo lhe respondeu: "(...) E eis que sua parente Isabel na sua velhice também concebeu um filho, e este é o sexto mês com ela que foi chamada estéril. Pois nada será impossível com Deus". E Maria disse: "Eis que eu sou a serva do Senhor; que seja para mim segundo a tua palavra". E o anjo se afastou dela. Naqueles dias, Maria levantou-se e foi com pressa para a região montanhosa, para uma cidade em Judá, e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. (Lc 1,35-40)

Maria concebe, portanto, por volta do dia 25 de março. Depois ela visita Isabel, que está no sexto mês. João Batista nascerá por volta do dia 25 de junho. Mais seis meses e chegamos no evento do nascimento de Jesus.

O nascimento de Jesus em 25 de dezembro é uma estimativa completamente razoável. A seleção dos primeiros cristãos da data do nascimento de Jesus parece ter sido influenciada principalmente pelas escrituras e por matemática simples. Agora, a data pode não ser totalmente precisa. Há cerca de 30 dias de espaço de manobra no início do cálculo. Mas, o dia 25 de dezembro é a época certa do ano. Está pelo menos muito próximo do dia certo, se não exatamente correto, o que também é possível.

Mais importante que a data é lembrarmos que aquele bebê é o grande Eu Sou, O mesmo Deus que deu a vida a Maria, nasceu de seu ventre por nós e para a nossa salvação.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Como Tocar a Liturgia



Antes de mais nada, eu admito, a ideia inicial era de fazer disto um artigo, ainda não abandonei a ideia, mas inserir todas as citações em seus devidos lugares ainda é uma atividade que tomará tempo, motivo pelo qual divulgo o esqueleto do texto por aqui.



1. Introdução



Hoje em dia, quando se fala de improvisação, podemos mencionar conceitos diferentes: desde realmente inventar algo ex tempore no ato, até simplesmente adicionar alguns pequenos ornamentos a uma peça composta. Ao longo deste espectro, existem muitas posibilidades. Por exemplo, quanto é realmente inventado no ato, quanto se baseia em um material existente ou progressões comuns, quanto se preparou com antecedência e assim por diante. Todas essas situações cinzentas não foram definidas ou categorizadas em épocas anteriores; todos eles eram referidos simplesmente como "tocar música". Existem maneiras diferentes de discutir a improvisação musical histórica e litúrgica. Nisto, focaremos na linha entre composição e improvisação, ou seja, o que é dado versus o que é realizado. Passaremos por diferentes situações musicais e veremos quanto material musical incluído nelas foi composto com antecedência e quanto era o que hoje chamamos de improvisação.


2. As Origens da Improvisação na Música Litúrgica no Canto Gregoriano


Cantar faz parte da liturgia cristã desde os primeiros dias da Igreja, apenas não se sabe muito sobre isso porque não havia como preservar a música. [1]Só é sabido que seu repertório não fora unificado; cada lugar tinha suas próprias tradições musicais. O que se tem notícia é que, por volta do século VIII, houve uma tentativa de unificar os cânticos em todo o mundo cristão, para que todas as igrejas seguissem um único cânone e cantassem o mesmo repertório. Por conta disto, sistemas de notação mais precisos foram procurados.

A pessoa que resolveu esse problema foi Guido d'Arezzo. Ele acrescentou indicações de onde Fa e Do estão. Estas são importantes porque indicam onde está o semitom.[2] O leitor poderia saber que as etapas são geralmente tons inteiros, exceto quando estão abaixo de F e C, onde as etapas são semitons. Em outras palavras, agora é possível ver música lida.[3]

Algum tempo depois, no século XIII, em um manuscrito contemporâneo da famosa escola de Notre Dame, de onde reputa-se a origem das primeiras formas de polifonia, até a polifonia ser introduzida, a principal coisa a se enquadrar no termo "música" eram apenas melodias. Estas eram bastante livres ritmicamente, ou pelo menos não estavam rigidamente ligados a qualquer sistema.

Os cantos neo-galicanos incluem um repertório bastante surpreendente: alguns cantos foram compostos no "velho estilo gregoriano"; e outros, compostos de uma maneira mais moderna, usando um método de notação mais refinado, que incluía tremolo, vibrato, portamento, ornamentos e instruções detalhadas de andamento. Além disso, havia a prática de improvisar vozes adicionais baseadas nos cantos - chant sur le livre - que incluíam o acompanhamento dos cantos com instrumentos de baixo. O canto neo-galicano foi usado até meados do século XIX, e é um corpus de música independente bastante grande, com seu próprio contexto histórico e litúrgico[4].

Neste ponto, onde o Canto Gregoriano e o Neo-Galicano surgem como diferentes vertentes da musicalidade da liturgia da Igreja, resalta-se que tal confluência musical dá-se no período histórico da Reforma, e por conseguinte, na formação da identidade litúrgica da Igreja Luterana. Neste ponto, 3 itens de destaque se seguem sobre o canto litúrgico:


a. Alternatim

Frequentemente, al invés de ser cantado todos os trechos do canto, a música era dividida entre performance vocal e performance instrumental; as partes instrumentais eram composições baseadas no canto. Exemplos famosos são encontrados no Fiori Musicali de Frescobaldi.De onde se pode identificar a presença de solos instrumentais, e o que modernamente se poderia identificar como um Riff.


b. Base para composição.

Ao longo dos séculos, foram usadas melodias simples como base para composições polifônicas. Aqui estão alguns exemplos e famosos: Missa Pange Lingua, de Josquin de Prez, fornece o motivo a ser encontrado nas Vésperas de Claudio Monteverdi, e no Credo de Johann Sebastian Bach, da missa em Si menor.


c. Base para Improvisação.

Como mencionada a prática neo-galicana de cantar o cantus e improvisar novas vozes acima de improviso, chant sur le livre, evidências de tais práticas, são encontradas em toda a Europa entre os séculos XV e XVII. Era uma maneira simples de adicionar um pouco de harmonia aos cantos sem compor nada. O termo italiano associado a essa prática é contrapunto alla mente.




3. Aspectos transitórios entre a liturgia gregoriana e a nova liturgia do século XVI e XVII



Nos séculos XVI e XVII, ao se usar o termo monodia, entende-se que estamos falando de uma voz e acompanhamento.

Antes que a música para uma voz e acompanhamento fosse realmente composta, havia uma prática de tocar música polifônica com apenas um cantor e acompanhamento. Ou seja, em vez de cada parte da peça ser cantada, apenas uma é cantada e as outras partes são tocadas por instrumentos, seja por vários instrumentos ou apenas por um que seja capaz de tocar todas as partes, como um instrumento de teclado ou um alaúde.

Essa prática tornou-se popular no decorrer do século e algumas peças foram compostas originalmente com a intenção de serem executadas dessa maneira. Isso às vezes é chamado de "pseudo-monododia" pelos estudiosos, porque não é originalmente uma peça para uma voz e acompanhamento, é uma peça polifônica, que é executada como uma monodia.

Para uma verdadeira monodia o compositor escrevia apenas a voz solo e o baixo que a acompanha, e as partes internas deviam ser preenchidas pelo artista, com base no pressuposto de que ele possuisse entendimento musical suficiente para a tarefa. Essa linha de baixo que exige a conclusão do artista é, obviamente, o baixo contínuo, e essas peças, para apenas uma voz solo e baixo contínuo, estavam começando a aparecer no final do século XVI.

Eles são encontrados em todos os gêneros: canções de amor, dramas musicais e música litúrgica de destacam. Uma fonte primordial para monodias é a famosa Nuove Musiche de Caccini, de 1602. Tanto o nome - "nova música" - quanto o prefácio detalhado nos dizem muito sobre esse gênero. As Lamentazioni de Cavalieri são uma fonte para as primeiras monodias litúrgicas, compostas antes de 1600.Esta obra consta composições altamente expressivas e cromáticas.

Na segunda metade do século XVI, na Itália, em algum lugar entre o canto gregoriano simples e a polifonia complicada, criou-se o chamado Falsobordone, um esqueleto musical simples, tipicamente em quatro partes, para o qual os textos dos Salmos podem ser cantados. Foi uma maneira rápida de "atualizar" os salmos em grande parte entoados no tom de recitação. Isso sempre incluía um momento em que os cantores eram obrigados a recitar uma parte do texto em uma única nota. Como, de fato, não foi possível transcrever fielmente uma recitação usando a notação ocidental bastante rígida, da maneira como eles a notaram, muitas vezes usando uma nota longa na qual o texto deveria ser ajustado e recitado.[5]

Nas novas monodias do início do século XVII raramente encontramos a notação falsobordona; em vez disso, os compositores tentaram anotar as coisas com mais precisão, nota por nota. No entanto, é claro que uma versão precisa da notação seria muito rígida e careceria da desejada recitação semelhante à fala e sprezzatura brilhante que lemos nas fontes. Uma exceção interessante, embora não seja uma monododia, é o madrigal Sfogava con le stelle de Monteverdi, onde ele usou notação falsobordona quando queria que todas as vozes recitassem juntas. Por outro lado, no famoso prólogo do compositor para Orfeo, que é surpreendentemente semelhante ao início de Sfogava con le stelle, ele usou notação normal. Parece, porém, que o resultado final deve ser mais ou menos semelhante - recitar cantando, algo entre recitar e cantar.

Em resumo, as recitações encontradas na monodia do início do século XVII, além de suas origens mais óbvias da poesia e do drama, vieram também da prática comum de recitar falsibordoni na igreja.

A próxima coisa que notamos quando analisamos as monodias são algumas progressões estranhas. Existem três razões principais para que as coisas pareçam um pouco estranhas nas monodias do início do século XVII:

1. quando a melodia salta entre vozes assumidas;

2. quando os ornamentos são escritos; e

3. quando notas de antecipação são usadas.

Ao se examinar monodia de Caccini "Movetevi a pieta". Deve-se ser notado que Caccini usava o intervalo dissonante de uma sétima. Concede-se que ele preparou a nota de antemão, mas sua resolução não segue o padrão de sua época corretamente. Em vez de resolvê-lo descendo um passo, para D, ele faz um salto da dissonância até A. Como um bicínio renascentista, uma peça verdadeiramente para duas vozes, isso não seria permitido. Contudo, há mais do que apenas duas vozes como a notação apresenta. Ao longo da voz solo, há a indicação para o acompanhamento, o baixo contínuo, que contém em si uma espécie de quadro de contraponto. Se reconstruíssemos essa estrutura contrapontística em quatro partes, esta resolução seria a síntese dos movimentos individuais Nesse contexto, espera-se que as partes ajam de acordo com as regras. Mas, no caso de uma monodia, a voz solo é capaz de saltar entre as partes da estrutura contrapontística assumida, criando linhas melódicas incomuns e expressivas, que parecem desafiar as regras do contraponto. Tais linhas melódicas aparentemente "erradas" são encontradas com muita frequência no início do século XVII.

Na maior parte do século XVI, as peças vocais foram anotadas sem nenhuma ornamentação ou diminuição. Além das notas compostas, esperava-se que os músicos adicionassem ornamentos, como trilli, gruppi e accenti, além de diminuições mais complexas, em outras palavras, a capacidade de se criar sobre o que foi escrito, com ampla liberdade interpretativa.

No entanto, na virada do século XVII, pequenos ornamentos eram muitas vezes escritos nas peças e passaram a ser considerados partes inseparáveis ​​da composição. O uso de accenti dissonantes com o baixo se desenvolveu de um breve melisma para parte integrante da linguagem musical no século XVII, levando à técnica a assumir uma função de preparação para uma mudança de tom.

As notas de antecipação, como o próprio nome sugere, antecipam a nota ou a harmonia que as segue, mesmo que isso signifique que, por um tempo, elas ficarão completamente dissonantes com a harmonia atual, como se pode ver no espantoso Lá bemol no início do terceiro ato do Orfeo de Monteverdi.

Um dos componentes mais importantes encontrados no início do século XVII é a cadência. De fato, a principal diferença entre o contraponto clássico da Renascença e a música do início do século XVII, é o número e a força das cadências. No século XVI, os compositores evitavam cadências fortes e permitiram apenas algumas em cada peça. No entanto, na virada do século XVII, reforçou-se o uso de cadências fortes, aparecendo no final de cada sentença musical.

Na mesma obra já referida, Orfeo de Monteverdi, na primeira aparição de Euridice, nos oito compassos de abrtura, há nada menos que cinco cadências, todas cadências autênticas em duas etapas. Entretanto, como é sabido, para essas cadências, são necessários pelo menos três componentes: tenorizans, cantizans e bassizans. Portanto, além das duas partes compostas, é necessário encontrar o terceiro componente que falta em cada cadência e incluí-lo no acompanhamento. Desta forma, encontra-se todos os componentes necessários para ajudar a construir o acompanhamento. Uma das razões para isso é que o ponto da cadência de maior peso, o penúltimo passo, o momento em que os cantizans se dissonam com os tenorizans, também é onde se encontra o accento da frase textual. Nesse caso, excluindo a primeira linha, é exatamente onde Monteverdi define as cadências. No entanto, embora se possa pensar que tudo pode ter uma explicação ou lógica por trás, infelizmente este não é o caso. Nesse período, muitos compositores experimentaram e fizeram coisas muito estranhas que desafiam qualquer explicação ou lógica. Isso também faz parte da musicalidade desta época.

O que fica evidente no período é que a improvisação na execução da liturgia ultrapassa os limites do chant sur le livre do estilo gregoriano para admitir uma liberdade ainda maior, não apenas na possibilidade das dissonâncias nas cadências, mas também por flexibilizar a interação entre cantores e tocadores, onde os instrumentos poderiam assumir a parte destinada ao canto, ou mesmo, permitir dissonâncias em cadências repetitivas, o que na antiga forma, seria um erro grave de execução.




4. Adição de ornamentos e diminuições nos séculos XVI e XVII – A consolidação da forma litúrgica.



O padrão da composição musical, dentro e fora da esfera religiosa era entelaçado com o papel do músico ao executar a obra. Desta feita, o compositor fornecia as notas básicas da peça e o artista, de acordo com seu nível, deveria adornar a música com pequenas graças e também com passaggi ou diminuições mais elaboradas.[6] Esse campo da performance é de longe o mais rico em tratados. O tratado mais antigo, do século XVI é o Fontegara de Sylvestro Ganassi, de 1535. No início do século XVII, mais e mais tratados foram publicados. Entre os autores de destaque, estão dalla Casa, Bassano, Bovicelli e Ricardo e Francesco Rognoni. Estes tratados são voltados a ensinar gradualmente como preencher intervalos ao improviso, específicamente partes da liturgia da missa e madrigais, onde uma vez que o aluno tivesse acumulado maneiras diferentes de adicionar diminuições entre os vários intervalos, ele poderia facilmente, e sem profundo entendimento do contraponto, executar peças de acordo com a prática de desempenho aceita, ou seja, com muitos ornamentos e diminuições.

Atualmente, esses tratados ainda são estudados e novas impressões continuam a ser publicadas por renomadas casas de música.



1. Adição de ornamentos e diminuições em conjuntos.

Quando se considera diminuições, muitas vezes se pensa em um único artista virtuoso acompanhado, mas a adição de ornamentos e diminuições também era esperada no caso de um conjunto vocal ou instrumental completo. Nesse caso, cada parte pode ter uma função ligeiramente diferente e ter, ou não, certos ornamentos. Isso é descrito em detalhes por Luigi Zenobi no final do século XVI[7].



2. “Viola Bastarda”.

No caso da performance de diminuições solísticas instrumentais, a pessoa é livre de muitas das limitações incluídas em uma performance de conjunto. Além do teclado ou dos instrumentos de cordas pinçadas que são capazes de tocar todas as partes de uma peça sozinhos, existe o caso de outros instrumentos com uma ampla versatilidade. Por exemplo, um instrumento como uma viola baixo é capaz de saltar entre diferentes partes da peça. Isso costumava ser chamado de "Viola Bastarda", embora a prática não seja necessariamente exclusiva das violas.



4.1 Tipos de improvisos usados na liturgia entre os séculos XVI e XVII



4.1.1 Cadências Estendidas

Assim como na cadência mais tardia do final do período barroco e clássico, existem fontes do início do século XVII que descrevem a possibilidade de prolongar o penúltimo passo da cadência para a execução de mais diminuições. Essas cadências estendidas eram chamadas nos tratados "cadenze per finale". Então, essa foi a primeira variação, ou improviso: usar um material existente e, aprimorá-lo com notas e ornamentos adicionais no ato da execução. A próxima variação, ou improviso se constituia em pegar um determinado material musical e executá-lo várias vezes, mas cada vez um pouco diferente, com variações.



4.1.2 Executar Variações Baseadas Numa Sequência Harmônica.

As peças de variação foram muito comuns no período e, de fato, permaneceram uma forma musical comum por muito tempo. Como seu conceito é simples, é muito plausível acreditar que as peças sobreviventes são apenas um exemplo de uma prática comum, em que os músicos faziam interpretações instrumentais de músicas ou danças, ou seja, improvisavam de acordo com as necessidades do momento e seu nível técnico.

As muitas peças de variação sobreviventes são escritas principalmente para teclado ou instrumentos de cordas pinçadas, mas após a virada do século XVII, também é possível encontrar essas peças para conjuntos. Na Itália, o formulário era frequentemente chamado de partite, Além das peças de variação baseadas em determinadas melodias, há outras baseadas em progressões harmônicas mais abstratas.

Um exemplo inicial dessa prática é encontrado no Tratado de Ortiz de 1553, onde ele fornece uma sequência harmônica curta que deve ser repetida em um instrumento de teclado enquanto um instrumento melódico está realizando variações. Entre as sequências harmônicas mais populares, estão Passamezzo, Romanesca e Passacaglia. Um exemplo de como essas peças de variação escritas são um pouco diferentes da forma como percebemos uma peça atualmente é a "partite sopra l'aria della Romanesca" de Frescobaldi. Pode ser encontrada em duas edições diferentes de seu primeiro livro de toccatas, publicado pela primeira vez em 1615. Em uma edição, ele mudou e adicionou mais variações à sua Romanesca. Mudar uma peça que já foi impressa uma vez não era algo comum. Peças de variação, no entanto, pelo menos naquela época, tinham uma certa flexibilidade conectada a elas.

Outro ponto referente às peças de variação é a transição, que ocorreu algumas décadas no século XVII, entre as sequências harmônicas repetidas bastante abstratas nos padrões de baixo literalmente repetidos - o basso ostinato. Um caso de estudo desse fenômeno é a sequência da passacaglia. Para começar, o Passacaglia era de definição o mais abstrata possível: um certo movimento harmônico, tipicamente com um baixo descendente, mas nem sempre, desde o primeiro grau do modo até o quinto grau. A transição gradual para baixos repetidos literalmente permitiu maneiras mais fáceis de improvisação: quando o baixo é constante, a voz ou as vozes superiores conseguem saber com mais segurança o que estão fazendo. Um exemplo para esse exemplo é encontrado em um dos manuscritos sobreviventes da L´incoronazione di Poppea de Monteverdi, onde está escrito "Si suona passacaglie", aqui uma passacaglia deve ser tocada, mas nenhuma música é fornecida. Os músicos, no entanto, improvisavam algumas passacaglie.

Na Inglaterra, peças com baixo literalmente repetido se tornaram muito populares durante o século XVII e foram chamadas de fundamentos. Uma fonte importante disso é "The Art of Playing ex tempore on a Ground", de Christopher Simpson, de 1659.


4.1.3 Execução de uma determinada parte ou partimento de baixo contínuo.

Ao realizar um baixo contínuo, espera-se adicionar mais partes sobre de um determinado baixo. Ainda, deve estar de acordo com as outras partes escritas da peça e, assim, apoiar a composição. Exceto por breves momentos de transição, geralmente não é um lugar para muita fantasia, pois muita fantasia provavelmente ofuscaria as partes escritas.

Agostino Agazzari, em um dos primeiros tratados sobre baixo contínuo, de 1607, descreveu como cada instrumento possui uma função diferente ao tocar baixo contínuo. Para ele, qualquer instrumento poderia tocar baixo contínuo; de teclados a violinos. Ele sugeriu que diferentes instrumentos podem adicionar pequenas passagens e ornamentos, mas observou o perigo de criatividade excessiva, que pode levar a “confusão; algo indigno e desagradável para o ouvinte." Além disso, se houver vários instrumentos tocando juntos, eles devem "aguardar sua vez e não criar uma balbúrdia de uma só vez ".

Um ponto a se considerar sobre improvisar sobre uma linha de baixo perceber um baixo para dar suporte a uma composição existente é que se tocando novas partes é possível criar novas composições. Nesse caso, a linha de baixo deve ser mais corretamente chamada de partimento. Os partimenti foram amplamente utilizados apenas no final do século XVII e adentraram no seculo seguinte, mas suas raízes já podem ser encontradas no início do século XVII.

Na Itália, os organistas tiveram um grande papel na liturgia e esperava-se que fornecessem música em diferentes partes das diferentes cerimônias, livremente ou baseadas em melodias de canto, e no comprimento necessário de acordo com o momento. Isso era principalmente música improvisada. Uma das práticas envolvidas era a chamada prática alternatim, onde versetti de órgão substituíam os versos cantados. Para ajudar os organistas iniciantes, pelo menos em parte, Adriano Banchieri em seu livro L´organo Suonarino, de 1605, fornece linhas de baixo com alguns sinais especiais como um guia para os organistas iniciantes, para que eles não se percam ao improvisar os versetti, ou, mais claramente, para que eles comecem e terminem com a nota certa e não confundam os cantores.

O organista deveria perceber esse baixo, como um basso continuo, e, de acordo com as regras do contraponto, o organista estava livre para tocar basicamente o que quisesse junto desse baixo, mas se se olhar mais de perto, Banchieri às vezes dava dicas para uma realização de fuga.

Esse conceito, de fornecer uma linha de baixo com ou sem figuras, com poucas ou muitas dicas de como deve ser realizado, é a idéia básica por trás dos partimenti, quese tornaram em uma maneira padrão de se ensinar harmonia, contraponto e improvisação, até o século XIX. Assim, tendo uma linha de baixo de uma peça, podemos produzir acompanhamento no caso do baixo contínuo, ou produzir uma peça por si só no caso de partite.



4.1.4 Execução de peças baseadas em uma determinada melodia de canto ou um soggetto abstratto

Quanto à já mencionada prática de “Cantare super librum”, onde enquanto um canto é entoado como um cantus firmus, outras vozes são adicionadas a ele por improvisação, Esta prática é amplamente documentada em toda a Europa dos séculos XV ao XVII, tanto com meros relatos sobre a prática quanto com descrições em tratados sobre como ela deve ser feita. A prática era muito variada em estilo. Alguns cantaram apenas consonâncias homofonicamente com o cantus firmus, enquanto outros cantaram contrapontos mais complexos com dissonâncias e cânones. Antimo Liberti, testemunhou os cantores papais em meados do século XVII, escreveu:

"ouvir cada um desses cantores educados enquanto eles compõem de improviso em um cantoo comum, isto é, fazer contrapunto alla mente com nobre harmonia , como se ela fosse escrita e composta com antecedência, provoca ao mesmo tempo admiração e doçura".

Independentemente da qualidade, estilo e crítica variados, essa prática foi muito proeminente e exigiu que cada cantor praticasse e conhecesse o contraponto muito bem.

Um procedimento que é um pouco semelhante, mas realizado por um único improvisador, era uma das tarefas diárias de um organista da Igreja.Esperava-se que ele incorporasse cânticos litúrgicos em suas peças; especialmente no contexto do alternatim, mas não somente. Isso incluía versetti, que, de acordo com os exemplos sobreviventes, poderiam ter estilos diferentes, mas frequentemente envolvendo imitação. Nesse momento, é difícil não mencionar Frescobaldi mais uma vez, com seus Versetti da Fiori Musicali. Mas a incorporação de determinadas melodias não também se estendeu a fantasias e ricercari mais longos e mais complexos também foram algumas vezes baseados em materiais litúrgicos e improvisados ​​no momento da execução.

Por exemplo, nos exames de admissão para se tornar um organista em San Marco, em Veneza, no século XVI, foi dada uma tarefa: com base em um Kyrie selecionado ou em outra melodia litúrgica, o candidato deveria improvisar uma fantasia a quatro vozes, com partes claras , "Como se fossem quatro cantores se apresentando".

Originário do início do século XVI, o gênero da fantasia era muito popular, tanto na forma escrita quanto nos relatos de improvisações ao vivo. Um tratado importante em geral, mas especialmente a esse respeito, é a "Arte de Tañer Fantasia" de Santa Maria, o verbo "tocar", de acordo com Santa Maria, inclui compor e improvisar, e não apenas "executar".



4.1.5 Realizar peças livres com apenas um determinado modo ou absolutamente nada

Quando uma peça vocal é executada, seja na igreja ou de outra forma, muitas vezes é necessário ter uma pequena introdução musical, ou "entonação", para estabelecer o modo da peça, para que os cantores possam encontrar facilmente suas notas. Quando uma peça é necessária, o único elemento musical fornecido é o modo, o restante depende do músico. Quando esses prelúdios eram bastante curtos, eram chamados de "entonações" de forma muito semelhante às modernas introduções aos hinos, como executado nas igrejas, mas quando eram mais longos eram comumente chamados de toccate.

Aqui está como Praetorius a define:

“Uma toccata é um prelúdio tocado por um organista quando ele se senta ao teclado, antes de iniciar o moteto ou fuga. É inventada no momento com simples acordes e diminuições individuais. Cada músico tem sua própria maneira de executá-la.”

De fato, os inúmeros exemplos de toccate escritas de diferentes países e décadas diferentes são frequentemente preenchidas com diminuições virtuosas. Apesar dos vastos exemplos de toccate escritas que temos, os grandes mestres que os compunham os improvisavam como parte de seus deveres diários.

Diz-nos um músico francês que visita Roma que, embora as "obras impressas de Frescobaldi apresentem evidências suficientes de sua habilidade, para julgar adequadamente seu profundo conhecimento, você deve ouvi-lo enquanto ele improvisa tocatas cheias de refinamento e invenções admiráveis."

Em alguns casos, não é o modo dado ao improvisador, mas um efeito desejado.

É o caso, por exemplo, da elevação eucarística, parte da liturgia em que o sacramento é elevado pelo sacerdote. Então, espera-se que a congregação contemple o sofrimento de Cristo, e isso deve ser expresso musicalmente com meios musicais severos: com um modo severo, geralmente em E, dissonâncias severas, muitos sustenidos etc.

No entanto, existem casos em que o músico não está vinculado a nada e pode improvisar da maneira que quiser, como o caso de antífonas e canto congregacional.



5. Conclusão


Como observado por esta breve pesquisa histórica, desde o começo da liturgia em forma escrita, com o canto gregoriano, passando até o século XVIII, quando a liturgia tradicional da forma como empregada pela Igreja Luterana em seus mais diversos ritos adotou, não há sequer um período em que a execução da liturgia tenha se restringido ao registrado e impresso. Se num primeiro momento o canto Neo-galicano passou sua influência à linha principal do canto gregoriano, levando os cantores a improvisarem suas próprias linhas de canto, nos séculos seguintes, o mesmo passou a ser esperado dos músicos ao tocarem em solo ou em conjunto, nada menos que boa capacidade de improviso melódico, harmônico e contrapuntual.

É observável como o falsobornone na entoação dos salmos, de modo parecido, é técnica básica que baixistas iniciantes já começam a conhecer em tempos modernos, ou como o uso de acordes longos e sem variações de tecladistas nos primeiros níveis de aprendizado hoje, tem uma correspondência na formação das cadências do século XVII. Escalas em riffs de guitarra ou violão de hoje, são ainda aprendidos sob os mesmos conceitos que as diminuições do período barroco. Desta feita, com a devida orientação, mesmo uma banda de igreja onde nenhum de seus músicos seja profissional, em um grau compatível com sua técnica, pode criar sua própria execução da liturgia.

A liturgia é algo vivo! Ser tradicional significa, acima de tudo, construir sempre o novo sobre uma base estável que sobrevive às eras.

Com isto, conclui-se que executar a liturgia da forma como é transcrita, significa apenas metade do trabalho. Esta foi forjada da criatividade do espírito humano, e toda a criatividade seguida da devida técnica, eleva a liturgia para a sua forma desejada.


[1] Plainchant.": (ii) The origins of Gregorian chant. Grove Music Online. 23 Jan. 2018


[2] 1. Musica enchiriadis. Scolica enchiriadis. Boethius, De institutione musica. Martianus Capella, De nuptiis Philologiae et Mercurii (liber IX, am Schluss unvollständig) - Staatsbibliothek Bamberg Msc.Class.9 [link]; 2. Scolica enchiriadis de arte musica u.a. musiktheoretische Texte - Staatsbibliothek Bamberg Msc.Var.1 [link].


[3]  "Notation": III. History of Western notation, 1. P.lainchant, (iv) Early notations, (h) Significative letters. Grove Music Online. Retrieved 3 Feb. 2018


[4] François de La Feillée, Méthode nouvelle pour apprendre parfaitement les règles du plain chant (Paris, 1760) [link]. For further reading about the Neo-Gallican chant, in particular focus on rhythm, see the recent article by Christopher Holman, Rhythm and Metre in French Classical Plainchant. (Early Music, cax087 [link]


[5] A récita dos falsobordoni de Rufo, Vincenzo Ruffo, Falsi Bordoni (Venice, 1575). The notation using a one single note (typically a Brevis or a Longa) is most common, but there are also different ways. Sua récita é profundamente semelhante à estruturada nas formas litúrgicas usadas até hoje pela Igreja Luterana.


[6] O termo diminuição refere-se ao fato de que os valores das notas, que geralmente são grandes no início, são diminuídos, ficando menores e mais rápidos.


[7] See Bonnie J. Blackburn & Edward E. Lowinsky, “Luigi Zenobi and his letter on the perfect musician”, in Studi musicali, 22 (1993), pp. 61-114 [https://www.academia.edu/15487628/Luigi_Zenobi_and_his_Letter_on_the_Perfect_Musician]. See also in Anne Smith, The performance of 16th-century music (Oxford University Press, 2011), pp. 138-143. 

segunda-feira, 18 de março de 2019

Quinta reflexão na Quaresma: Se tua doce voz não quiz ouvir.



Assim como na ultima reflexão na quaresma, esta nos leva a continuar a refletir sobre o mal cometido voluntariamente, especiamente contra Deus.

Por muitas vezes o grande problema do ser humano é este: querer a todo custo fugir do sofrimento. Somos o tempo todo levados a procurar alívio rápido para todo tipo de sofrer. Qualquer incômodo físico e a solução está sempre à mão, ou no máximo em uma farmácia próxima. Para o sofrimento da sobrecarga de obrigações, a solução está num final de semana que sempre esperamos. Para um amor que termina, outro começa. Para um sentimento ruim, palavras de encorajamento, amigos, ou até os livros de auto-ajuda.
Tudo parece ter aquela resposta rápida e pronta: Seus problemas se acabaram! Pare de Sofrer!

Ouvir a voz de Deus, por outro lado nos leva ao oposto: às vezes ela vem suave e nos envolve maravilhosamente com o evangelho. Mas também ela vem áspera, forte como um trovão que nos assusta, puro anúncio de sua implacável lei.

De fato, não posso falar em sofrimento se minha vontade coincide com a de Deus perfeitamente. Sempre que quero o mesmo que Deus quer, não há sofrimento algum.

O problema é que, como cristãos neste mundo, somos chamados a carregar uma cruz, e isto é sofrer.
Sempre que a vontade de Deus aponta em uma direção e a minha vontade em outra levemente diferente, temos o dilema: alívio rápido de satisfazer a minha vontade, ou caminhar para o sofrimento de fazer algo que, no meu íntimo, não gostaria, e até poderia evitar.

Como é difícil sofrer! Mais difícil ainda é escolher sofrer sabendo que a saída está sempre ao alcance!
É uma bonita reflexão quando isto fica apenas naquele campo de idéias abstratas, mas algo apavorante quando se olha para o viver diário.

São Paulo, o Apóstolo em sua última viagem missionária caminhava para sua morte. De cidade em cidade, homens o avisavam da parte de Deus de que ele teria um destino amargo ao chegar em Jerusalém, ainda assim, cidade após cidade ele confirmava iria percorrer todas as cidades, e já ia se despedindo das igrejas por onde passava, avisando que não o veriam mais.

Lutero também dizia que o diabo é o melhor professor de teologia que há, justamente por nos tentar a dar as costas à voz de Deus.
Então temos apenas duas saídas na tentação: santificar o nome de Deus, e isto significa escolher sofrer, ou aliviar a dor.

É neste ponto que a voz de Deus vem como um trovão da lei, incendeia os montes e faz a terra tremer: cada tentação que já caí na vida, e, agora me lembro de muitas, é um lembrete: Não quiz ouvir!
Cada palavra inoportuna que disse, cada desejo impuro, cada vez que me coloquei em lugares escorregadios.

Ah! Diz a consciência: “mas a carne é fraca!”
Sim! Diz o Espírito, mas o espírito, não!

Então se agi mal, o fiz exclusivamente por não querer ouvir a voz de Deus. Se não a ouví, é porque não meditei em sua Palavra o suficiente. E assim, um abismo chama a outro abismo...
A grande dádiva da quaresma, não é apenas sentir a miséria da lei. A dádiva verdadeira é nos lembrarmos o quanto somos fracos. É por esta lei implacável que sei que preciso do evangelho!

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Mateus 5:3

É justamente porque minha alma deseja um alívio ao sofrimento, justamente porque sei que não posso me redimir de quem sou, é que posso confiar nos méritos infindáveis de Cristo.
É justamente porque em vários momentos eu não quiz ouvir a voz de Deus, é que sei que não poderia nunca ser justo por mim mesmo. Por isto eu clamo a Cristo, minha justiça e perfeição!
A quaresma nos lembra: somos culpados, mas a mensagem não pode parar ai. Ela continua: O que fazer com a culpa?

Caminhamos, de cabeça erguida, plenamente perdoados por Deus até mesmo da terrível culpa de tamparmos os ouvidos e escolher não sofrer. Um dia, poderemos dizer, como Santa Maria cantou: “Minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito se regozija em Deus, meu Salvador”

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal - O Grande e Terrível dia do Senhor


*Antes de seguirmos o artigo, como é de hábito, deixo um aviso quando a linguagem usada se torna um pouco mais técnica ou densa.

Temos por hábito pensar em Deus como “um cobertorzinho fofo” como já disse certa vez uma famosa, algo sempre agradável e bonito. Mas esta não era a visão de Deus que se podia esperar.

Em Jó, ele é o que narra diante do quase morto Jó toda a glória e majestade e faz o pobre homem tremer, em Moisés, ele é o dominador que destruiu o Egito e se manifestou cercado de densas e tenebrosas nuvens, com o som de raios e trovões, fazendo o monte arder como uma fornalha e suas bases tremerem, nos salmos, ele é o que deve ser beijado para que não se ire, em Isaías, Ele é o terrível diante do qual o medo da morte é uma mera sombra. No Apocalipse, ele tem os olhos como chamas de fogo e sua boca é como uma espada afiada. Sim, através de toda a Escritura, esta é a visão de Deus: Terrível!

Houve um homem nascido judeu que alegava ser, ou “o filho de”, ou ser “um com”, o Algo que é ao mesmo tempo o terrível assombrador da natureza e o autor da lei moral. É tão chocante que somente duas opiniões sobre esse homem se tomam possíveis: Ou ele foi um lunático do tipo mais abominável, ou, foi, e é, precisamente aquilo que afirmou. Não existe meio termo. Se a primeira hipótese for inaceitável, resta somente a segunda.

E se fizer isso, tudo o mais dito sobre ele torna-se verdadeiro – que seu nascimento e que sua morte, de maneira incompreensível para a mente humana, produziu uma real mudança em nossas relações com o terrível e justo SENHOR. modificando essa relação em nosso benefício.

O cristianismo não é um debate filosófico sobre as origens do universo: mas um evento histórico catastrófico que se seguiu ao longo preparo espiritual da humanidade.

E se Deus se fez carne, como nós somos carne e sofreu, então não se trata de um sistema no qual temos de encaixar o fato embaraçoso do sofrimento. Num certo sentido, este fato do natal abraça, em lugar de resolver, a questão do sofrimento humano, pois este não seria um problema a não ser que, lado a lado com nossa experiência diária deste mundo sofredor, tivéssemos recebido o que julgamos ser uma boa certeza de que a realidade final é justa e plena de amor. E quando chegamos ao último passo, a Encarnação histórica, a segurança é a mais forte de todas.

domingo, 23 de dezembro de 2018

7ª Antífona - Ó Emanuel


Ó Emanuel, nosso rei e Senhor, esperado das nações e seu Salvador, vinde e nos salvai, Ó Senhor nosso Deus 

O Emmanuel, our King and our Lord, the Anointed for the nations and their Savior, Come and save us, O Lord our God. 

Na maioria das religiões, deus é sempre algo distante. Para alguns, ele é um deus inatingível, que fez todas as coisas e deixou toda a obra nas mãos de duses menores e dos humanos para administraram como puderem. Nas tradições orientais, tudo é deus. O problema é que queremos pensar em nós como indivíduos.. outros são deístas como Thommas Jefferson e Benjamin Franklin, grandes homens da historia que viam deus como um relojoeiro, que criou o universo para funcionar perfeitamente, depois se afastou e deixou sua criação seguir seu curso. 

Esta última antífona do advento nos lembra que todas estas ideias estão erradas. A virgem concebeu e deu à luz a um filho, Emanuel, Deus Conosco (Isaías 7:14, Mateus 1:23). Esta criança, Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (isaías 9:6), nunca nos deixou. Muito pelo contrário, ele deixou seu trono e se tornou um de nós. Ele viveu cada dia como todos nós, exceto por não ter pecado. Ele viveu por nós, sofreu por nós, deu sua vida por nós, ressucitou por nós e a nós prometeu moradas eternas. Ele está conosco hoje. Suas palavras no final dos evangelhos “eis que estou convosco todos os dias” se cumpre a cada momento de nosso caminhar rumo aos céus. Não precisamos de um novo profeta para esta geração, não precisamos de um outro anúncio. Jesus, eternamente nosso rei, profeta e sacerdote está presente aqui e sua presença é absolutamente real. Deus Conosco é a antífona que faz todas as anteriores terem sentido. Nos últimos seis dias cristãos se dedicaram a refletir sobre um título messianico a cada dia, mas menhum deles teria sentido se este mesmo Deus não fizesse sua morada em nosso meio. 

Sem força para combater, 
teríamos perdido.
Por nós batalha e irá vencer 
quem Deus tem escolhido.
Quem é vencedor? 
Jesus Redentor,
O próprio Jeová, 
pois outro Deus não há;
triunfará na luta. 
(Castelo Forte, Hinário Luterano, estrofe 2)

sábado, 22 de dezembro de 2018

6ª Antífona - Ó Rei das Nações


Ó Rei das Nações e objeto de seus desejos; Pedra Angular que reunes em ti judeus e gentios; vem salvar o ser humano que no barro da terra formaste 

O Rex gentium, et desideratus earum, lapisque angularis, qui facis utraque unem, veni, et salva hominem, quem de limo formasti. 

Todos querem um herói. Um guerreiro poderoso, forte, um líder que inspire lealdade! Em nossas histórias, mitos e contos, ele é sempre perfeito e traz paz para sua terra com suas lutas. Ah, e claro, este herói é sempre de algum modo relacionado ao local onde vivemos ou ao povo a quem pertencemos. Ele conquista tudo e resolve todas as disputas. 

Existem alguns reis-heróis que chegaram bem perto de fazer tudo isto: Alexandre, o Grande unificou o mundo ocidental; César Augusto repetiu o feito 300 anos depois. Alguns reis de Israel como Davi, salomão e Ezequias foram grandiosos; O egito teve seus Ramsés e Cleópatra. A Inglaterra teve Artur e outros. O problema com todos eles, grandiosos como eles foram, é que todos tiveram o mesmo ponto-fraco: fizeram inimigos. 

Isaías profetizou que o verdadeiro Rei, o Messias, viria para unir as nações (Isaías 2:2-5, 9:6-7, 60). O Messias traz a paz que dura para sempre. Ele prevalecerá onde todos os reis não puderam porque ele é Deus e Ele se entregou por seu povo. Ele une todas as nações porque ele remove o pecado que as dividiu. Ele é a Pedra Angular sobre a qual o seu reino de paz é firmado. 

Nossa antífona o invoca para vir nos salvar. Somos mortais e não podemos nos salvar. Ele é eterno e é a própria porta da salvação. Ele já veio e fez um reino para seu povo. Um reino de sacerdotes para servir uns aos outros. Quando ele vier novamente, Ele removerá a escuridão que nos cerca e moraremos com Ele para sempre.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

5ª Antífona - Ó Oriente


Ó Oriente, esplendor da luz eterna e sol da justiça; vem iluminar quem se encontra nas trevas e à sombra da morte. 

O Oriens, splendor lucis aeternae, et sol justitiae, veni, et illumina sedentis in tenebris, et umbra mortis. 

Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, Com que o oriente do alto nos visitou; Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz. Lucas 1:78,79 

Um dos títulos messiânicos menos comentados no meio protestante é justamente este: Oriente! Que nada mais é que, em termos geográficos, o lado de onde vem a primeira luz do dia. 

No hemisfério norte, onde Cristo nasceu, Dezembro é o mês mais escuro do ano, e hoje, dia 21 de Dezembro é o dia mais escuro do ano para todo o hemisfério. O solstício de inverno ocorre. Nesta data, o amanhecer demora mais e o por do sol vem mais cedo que em qualquer outro dia do ano. De certa forma nos lembra dos tempos escuros em que vivemos, onde o pecado parece circular livremente, o mal parece reinar e a sombra da morte parece pairar sobre todos nós. 

Nesta escuridão, temos uma grande luz. O Sol da Justiça se levanta para nos curar (Malaquias 4:2. Nós podemos ver a sua luz, e isto nos traz esperança. Ele quebra o poder do pecado e da morte sobre nós. A criança que nasceu em Belém é nosso Senhor (isaías 9:2-7). Ele nos conduzirá em paz 

A antífona de hoje invoca a Cristo, nosso Oriente, para brilhar sobre nós em tempos de escuridão, para dissipar a tristeza e trazer alegria, nos lembrando do último dia que em breve virá, quando o Rei virá. Naquele dia, todas as sombras sumirão e ele enxugará toda a lágrima de nossos olhos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

20/ Dez - Memória de Katharina von Bora


Hoje nos lembramos e damos graças a Deus por Katharina von Bora Luther (1499–1552). Ela foi levada ainda criança para um convento e se tornou freira cisterciense em 1515. Em Abril de 1523, ela e oito outras freiras foram resgatadas do convento e levadas até Wittemberg. Lá, o bem-aventurado Martinho Lutero, Doutor e Confessor da igreja, ajudou a encaminhar algumas de volta para suas famílias de origem, e as que não puderam voltar receberam a hospitalidade de algumas famílias.
Katharina e Martinho se casaram aos 13 de Junho de 1525. Tiveram uma união feliz da qual vieram seis filhos. Johannes, Elisabeth, Magdalena, Martin, Paul e Margaretha. Era boa dona-de-casa, e tornou conhecida a hospitalidade da casa por toda a região, que era sempre visitada pelos que procuravam seu marido, além de receber 4 órfãos em sua casa, que foram criados junto de seus filhos. Após a morte de Martinho Lutero em 1546, Katharina permaneceu em Wittemberg, mas viveu seus dias na pobreza. Morreu de um acidente enquanto viajava com seus filhos para Torgau na tentativa de fugir da praga.

Katharina von Bora se tornou exemplo de uma vida dedicada à família e de eterno suporte às angústias e temores de seu esposo, soube edificar sua casa, empregou seus estudos para aconselhar Lutero em questões teológicas e eclesiais. Empregou o tempo ao lado de Lutero em tratar de terras e gado para o sustento da família, embora não pudesse ter desfrutado disto na velhice por conta das guerras, sua generosidade nos tempos bons foi retribuída então, embora não pudesse manter o mesmo padrão de vida de antes, por famílias que haviam sido atendidas por ela e seu esposo. Em seu leito de morte, suas ultimas palavras teriam sido “ Eu me apego em Cristo como um carrapicho que gruda nas roupas” 


Oração 

Ó Deus, nosso refúgio e fortaleza, que levantou vossa serva Katharina para ser adjutora de seu esposo na tarefa de reformar e renovar vossa Igreja à luz de vossa Palavra. Defendei e purificai a Igreja hoje e concedei que, por meio da fé, sejamos adjutores de nossos pastores e professores da fé como eles a tem proclamado e administrado das riquezas de vossa graça reveladas em Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina com o Pai e com o Espírito, um só Deus, agora e sempre,
Amém.

4ª Antífona - Ó Chave de Davi



Ó Chave de Davi, cetro da casa de Israel que abre e ninguém fecha, fechas e ninguém abre; vem liberar da prisão quem está em cativeiro, nas trevas e à sombra da morte.

O Clavis David, et sceptrum domus Israel, qui aperis, et nemo claudit; claudis, et nemo aperit,veni et educ vinctum de domo carceris, sedentem in tenebris, et umbra mortis.

Até mesmo em monarquias, os reis não podem governar sozinhos. Eles precisam de alguns oficiais que cuidarão das questões corriqueiras e limitam o acesso à presença do rei, de modo que o rei não perderá seu tempo em questões triviais ou em matérias que o tirem do foco de seus planos. Isaías anuncia o plano de Deus para um oficial. Ele tinha o símbolo da autoridade do rei, a Chave de Davi, de modo que ele poderia abrir portas que não poderiam ser trancadas novamente, ou poderia fechar as portas e ninguém teria o poder de abri-las. (Isaías 22:22)

Nas cartas as sete igrejas de Apocalipse, Jesus anuncia que ele tem as Chaves de Davi e o que ele abre ninguém pode fechar, e o que ele fecha ninguém pode abrir. (Ap 3:7) Muitos tentam colocar fardos para os cristãos, barrar o acesso ao Pai, bloquear o caminho deles para o céu e inventam muitas regras e preceitos para que alguém consiga chegar a Deus.

Mas Jesus é a Chave de Davi, que abriu o Reino Celestial por sua própria morte e ressureição. Para todos os que creem, os céus estão sempre abertos e ninguém pode fechar. Ele remove o pecado que impede nosso caminhar e fecha as portas do Inferno para sempre.

Hoje, através de seus ministros, Ele concede as chaves para abrir o reino celeste ao pecador arrependido e nos dá comida e bebida para viagem, a saber, seu próprio corpo e sangue. Isto nos sustentará até que cheguemos em casa, onde as portas sempre estiveram abertas para nós. 


Vem, Chave de Davi, oh, vem!
descerra o céu de todo bem
e ali, na porta que abrirás,
suprema glória nos darás.

Dai glória a Deus, ó Israel!
Virá em breve Emanuel!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

3ª Antífona - Ó Raiz de Jessé


Ó, Raiz de Jessé, erguida como estandarte dos povos, em cuja presença a realeza ficará calada e a quem as nações invocarão; Vem nos libertar, não tardes jamais. 

O Radix Jesse, qui stas in signum populorum, super quem continebunt reges os suum, quem gentes deprecabuntur, veni ad liberandum nos, iam noli tardere. 

O título da antífona do dia vem de Isaías 11. O povo de Israel era infiel a Deus, indo após ídolos dos gentios. Deus já havia pesado seu juízo sobre o reino do Norte, Israel já não existia como um reino. Os Assírios reduziram tudo a escombros e terra desolada estava sem homens fortes para o trabalho. Isaías profetizou que isto também ocorreria na casa do sul, Judá. A Casa de Davi seria destruída. A profecia diz que a raiz desta árvore brotaria de novo. O Messias seria este novo ramo brotando da raiz de Jessé, o pai do Rei Davi. E o domínio estaria sobre seus ombros... eternamente. 

Isaías então troca a imagem. A raiz agora é um estandarte, um tipo de bandeira, para a qual os povos correriam. Antes da comunicação eletrônica, exércitos usavam trompas e estandartes para manter suas forças unidas e para enviar ordens para as unidades no fronte de batalha. Sons altos, explosões, armas em batalha, fumaça, tudo isto torna um ambiente de guerra desorientador. Quando os saldados perdiam a noção de onde deveriam estar, eles olhavam em volta para procurar o estandarte. Este era o caminho seguro para seguir. 

O messias seria, como nos diz Isaías, o estandarte para o qual o povo de Israel e os gentios de todas as nações olhariam. Ele ajuntará seu povo em paz. A Antífona do dia foca no poder absoluto do Messias sobre todos os reis. Ela o invoca para que nos livre da tirania dos homens sem demora. 

Quando o Messias tomou sobre si livrar o homem, ele nos libertou do diabo e do poder do pecado. Isto ele fez com o sacrifício de sua própria vida em nosso lugar. Quando Ele venceu o aguilhão da morte, abriu a todos os fiéis o reino Celeste. Quando ele vier novamente, ele completará sua obra de libertar os cativos, o pecado será extirpado e viveremos com ele eternamente, finalmente estaremos junto ao estandarte, à sombra do Onipotente. 

Oh vem, Rebento de Jessé, 
E aos filhos teus renova a fé; 
Que o diabo possam derrotar 
E sobre a morte triunfar! 

Dai glória a Deus! Emanuel 
Virá em breve, oh Israel!

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

2ª Antífona - Oh Adonai


O Adonai, et dux domus Israel, qui Moysi in igne flammae rubi apparuisti, et ei in Sina legem dedisti, veni ad redimendum nos in brachio extento.

Oh Adonai e guia da casa de Israel, que apareceu para Moisés na sarça ardente e deu a ele a Lei no Sinai, venha com seus braços estendidos a nos redimir.


Moisés estava cuidando dos negócios de seu sogro, suas ovelhas, quando ele viu um arbusto que estava em chamas, mas não se consumia por elas. Quando ele se aproximou para ver o que acontecia, o Anjo do Senhor (O próprio Deus-Filho pré incarnado) falou com ele da sarça. Ele encarregou Moisés de libertar o povo de Israel da escravidão no Egito. Tentando fugir desta tarefa de alguma forma, Moisés perguntou o nome de Deus. “Eu Sou o que Sou” o Messias respondeu (Êxodo 3). Este nome nós pronunciamos YAHWEH. Um nome composto por quatro consoantes em hebraico (יהוה). Depois do exílio na Babilônia, os judeus decidiram não pronunciar o nome para que ele não fosse tomado em vão. Ao invés disto, eles diziam “Adonai”, significando “Senhor”. Onde quer que o Anjo do Senhor apareça no Antigo Testamento, este nome é dado a ele. Ele revelou a Lei de Deus a Moisés no mesmo local, tempos depois quando o povo estava liberto.

Por que o Messias é Deus eternamente, não há nada que ele não possa fazer. Ele amou seu povo, enviou Moisés para libertá-lo. Ele mostrou seu poder através de pragas e milagres, incluindo a abertura do Mar, que as Escrituras chamaram de o braço estendido do Senhor (Dt 7:19)


Esta oração clama ao Messias que vem e nos redime. Desta vez não com a força de seu poder em sua majestade não velada, mas o poder de o próprio Deus pagar o preço de nossa salvação, não com ouro nem prata, mas com seu sangue. Ele mesmo se tornou o preço de nossos pecados. Um dia ele virá novamente em Glória para redimir seu Israel para sempre, a morte será vencida, o pecado e o mal serão passado. Naquele dia, seus braços estendidos restaurarão todas as coisas e todos confessarão a Jesus como o Senhor, para a glória de Deus Pai.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

1ª Antífona - Ó Sabedoria!


O Sapientia, quae ex ore Altissimi prodiisti, attingens a fine usque ad finem fortiter, suaviterque disponens omnia, veni ad docendum nos viam prudentiae.

Ó Sabedoria, procedente da boca do Altíssimo, permeado a criação, ordenando todas as coisas, Venha e nos ensine o caminho da prudência.


Na linguagem formal da igreja, dias importantes são celebrados ao longo de oito dias. Isto é um símbolo da vida eterna. Como existem apenas sete dias na semana, o oitavo dia é tido como aquele dia que há de vir, que está além do tempo regular, o dia que não mais terá fim na presença do Senhor, juntamente com os anjos e arcanjos e toda a companhia celeste, louvando o cordeiro que foi morto, mas vive eternamente. Desta forma, todo o serviço é conduzido até o oitavo dia. A oitava do natal é o dia de ano novo, quando a igreja relembra a circuncisão de Jesus. 17 de dezembro é, de certa forma, uma oitava anterior ao natal, neste dia, começamos as Antífonas.

A primeira petição medita no título “Sabedoria”. Na filosofia popular da Grécia e de Roma, Sabedoria é ensinada como o Verbo (Logos — λόγος), o qual é divino em si mesmo e vem para o mundo para instruir os dignos na sabedoria. (σοφία — Sofia). Isaías profetizou que o Espírito de Sabedoria estaria sobre o Messias (Isaias 11:1-9). Nas Escrituras, Sabedoria não diz respeito ao o que se conhece, mas a quem se conhece. O princípio da sabedoria é o temor do Senhor e é construída na confiança de que Deus é fiel em suas promessas no Evangelho (isto é fé). A Sabedoria escuta a voz de Deus, pondera sobre o reto agir e deliberadamente age de acordo. Nesta oração, pedimos a Deus que nos ensine a viver desta maneira.

A mais alta forma de sabedoria é a cruz. Lá, Deus mesmo é sacrificado para pagar o preço de nosso pecado. Parece loucura para o mundo, matar Deus para o bem dos malvados, ainda assim, para nós, esta é a mais profunda sabedoria (1 Coríntios 1:18-25). O caminho da Sabedoria, portanto, é confessar os nossos pecados, receber o perdão e então, entregarmos nossas vidas em favor do próximo.


O come, Thou Wisdom from on high, Who ord’rest all things mightily;To us the path of knowledge show, And teach us in her ways to go. Rejoice! Rejoice! Emmanuel Shall come to thee, O Israel!

LSB, 357, II

domingo, 24 de junho de 2018

São João Batista, a voz no tempo!


Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo 293,1-3: PL 38,1327-1328)

Voz do que clama no deserto

A Igreja celebra o nascimento de João como um acontecimento sagrado. Dentre os  nossos antepassados, não há nenhum cujo nascimento seja celebrado solenemente. Celebramos o de João, celebramos também o de Cristo: tal fato tem, sem dúvida, uma explicação. E se não a soubermos dar tão bem, como exige a importância desta solenidade, pelo menos meditemos nela mais frutuosa e profundamente. João nasce de uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem.

O pai de João não acredita que ele possa nascer e fica mudo; Maria acredita, e Cristo é concebido pela fé. Eis o assunto que quisemos meditar e prometemos tratar. E se não formos capazes de perscrutar toda a profundeza de tão grande mistério, por falta de aptidão ou de tempo, aquele que fala dentro de vós, mesmo em nossa ausência, vos ensinará melhor. Nele pensais com amor filial,a ele recebestes no coração, dele vos tornastes templos.

João apareceu, pois, como ponto de encontro entre os dois Testamentos, o antigo e o novo. O próprio Senhor o chama de limite quando diz: A lei e os profetas até João Batista (Lc 16,16). Ele representa o antigo e anuncia o novo. Porque representa o Antigo Testamento, nasce de pais idosos; porque anuncia o Novo Testamento, é declarado profeta ainda estando nas entranhas da mãe. Na verdade, antes mesmo de nascer, exultou de alegria no ventre materno, à chegada de Maria. Antes de nascer, já é designado; revela-se de quem seria o precursor, antes de ser visto por ele. Tudo isto são coisas divinas, que ultrapassam a limitação humana. Por fim, nasce. Recebe o nome e solta-se a língua do pai. Relacionemos o acontecido com o simbolismo de todos estes fatos.

Zacarias emudece e perde a voz até o nascimento de João, o precursor do Senhor; só então recupera a voz. Que significa o silêncio de Zacarias? Não seria o sentido da profecia que, antes da pregação de Cristo, estava, de certo modo, velado, oculto, fechado? Mas com a vinda daquele a quem elas se referiam, tudo se abre e torna-se claro. O fato de Zacarias recuperar a voz no nascimento de João tem o mesmo significado que o rasgar-se o véu do templo, quando Cristo morreu na cruz. Se João se anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua, porque nasce aquele que é a voz. Com efeito, quando João já anunciava o Senhor, perguntaram-lhe:

Quem és tu? (Jo 1,19). E ele respondeu: Eu sou a voz do que clama no deserto (Jo 1,23).

João é a voz; o Senhor, porém, no princípio era a Palavra (Jo 1,1). João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.

Oração 
Cristo, sol nascente, iluminai os nossos caminhos! Vós fizestes João Batista exultar de alegria no seio de Isabel; fazei que sempre nos alegremos com a vossa vinda a este mundo. Vós nos indicastes o caminho da penitência pela palavra e pela vida de João Batista; convertei os nossos corações aos mandamentos do vosso reino. Vós quisestes ser anunciado pela voz de um homem; enviai pelo mundo inteiro mensageiros do vosso evangelho. Ó Deus, que suscitastes São João Batista, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito, concedei à vossa Igreja as alegrias espirituais e dirigi nossos passos no caminho da salvação e da paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O Pentecoste nosso de cada dia





O Pentecostes tinha que ser observado no antigo Israel no 50º dia depois que o sacerdote levasse o molho da oferta movida dos primeiros grãos que tinha sido colhido na primavera (Levítico 23.15-21). Recordar a aliança do Monte Sinai, era lembrar o nascimento da nação de Israel quando foi constituído através da lei de Deus dada a Moisés. Era a festa da aliança entre Deus e o povo escolhido (Êxodo 19.3). Isto é de grande significado, porque nos ajuda a compreender a razão pelo qual o Espírito Santo descendeu no dia de Pentecoste. A Igreja nascia assim no mesmo dia em que a nação de Israel. Foi dada à luz ao Israel espiritual, o novo povo de Deus, a Santa Igreja de Cristo.

 As imagens do nascimento da Igreja nos lembram os eventos acontecidos na criação quando Deus sopra vida a Adão, enquanto Jesus sopra o Espírito Santo aos seus apóstolos. No Monte Sinai, encontramos as imagens de uma teofania com fogo, enquanto o dia de Pentecostes observamos sinais semelhantes. Deus nos lembrava assim que, a partir deste momento, a lei não estaria escrita em tabuas de pedra, mas nos corações do Seu povo a través do Espírito Santo (2 Coríntios 3). Isto ainda é mais compreensível quando o apóstolo Pedro proclama que a profecia de Joel estava se cumprindo naquele momento (Atos 2.16). 

Uma nova criação surge em meio de Jerusalém, a Igreja nasce. Jesus diz, “Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (João 12.32). Deus estava realizando o plano e cumprindo a promessa ao povo de Israel através de Jesus Cristo para resgatar as nações do pecado e da morte. A vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes se revelou o plano redentor do Pai para resgatar as nações e criando, assim, um novo povo, um novo Israel, um Israel espiritual (Gálatas 6.16), a Igreja de Cristo, Una, Santa, Católica e Apostólica. O batismo do Espírito Santo no dia de Pentecostes foi o sinal desse novo dia, o nascimento da Igreja.

Esta foi a graça concedida naquele dia. O pentecoste foi o nascimento da igreja, um evento único, que daquela forma não o veremos mais. Isto significa que não veremos mais Deus como um fogo consumidor sobre nós? De forma alguma! A cada um de nós há um pentecoste verdadeiro, no dia que, pelas águas, fomos batizados para dentro do corpo de Cristo.

O Espírito Santo, que é Deus juntamente com o Pai e o Filho, nos alcança pelo batismo; nos torna de tal forma repletos de sua graça que nos liberta do pecado e da morte. E de terrenos que somos, quer dizer, feitos do pó da terra, nos faz espirituais, participantes da glória divina, filhos e herdeiros de Deus Pai.

Pelo batismo, somos inseridos no Corpo de Cristo, fazemo-nos coerdeiros e irmãos, destinados a ser um dia glorificados e a reinar com ele. Em vez da terra, dá-nos de novo o céu, abre-nos generosamente as portas do paraíso, honra-nos mais do que os próprios anjos. 
O batismo, que nada mais é que água unida à palavra de Deus, e, portanto, Evangelho em toda a sua extensão, se constitui de simples água, mas, com a Palavra de Deus, as águas divinas que para nós apaga as imensas e inextinguíveis chamas do inferno.

Israel foi criada duas vezes, uma para os Judeus, e a segunda, o pentecoste de todos nós, cristãos. De modo semelhante, os homens são concebidos duas vezes: uma corporalmente, a outra, pelo divino Espírito. Acerca de um e de outro nascimento, escreveram muito bem os autores sagrados.

São João diz: A todos que o receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo (Jo 1,12-13).
Todos os que acreditaram em Cristo, afirma ele, receberam a capacidade de se tornarem filhos de Deus, quer dizer, pelo Espírito Santo, e participantes de toda sorte de bênçãos das regiões celestiais. E para ficar bem claro que assim como em pentecoste, o mesmo Espírito nos faz filhos em nosso batismo, acrescenta estas palavras de Cristo: Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus (Jo 3,5).

A fonte batismal é simultaneamente água e fogo. São João Batista, de acordo com esta expressão: da água e do Espírito, diz a respeito de Cristo: Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo (Mt 3,11; Lc 3,16). 
Como um vaso de barro, o homem precisa ser limpo pela água e fortalecido pelo fogo. (Deus, com efeito, é um fogo devorador). Precisamos, portanto, do Espírito Santo para nossa perfeição e salvação. Pois o fogo espiritual sabe também regar, e a água batismal é também capaz de queimar.

A Igreja nasceu pela água e pelo fogo, e cada um de nós também lembramos nosso nascimento a cada pentecoste, pela água e pelo fogo que nos deu o poder de sermos chamados Filhos de Deus!