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sábado, 8 de agosto de 2020

Lutero e a guarda do Sábado

 



O texto a seguir é um trecho de uma obra mais completa chamada "Contra os Sabatistas", seu foco não é em criticar o povo judeu, mas na forma como os judeus Ashkenasi, o grupo judaico que habitava a região da Alemanha nos tempos de Lutero buscava fazer proselitismo. O foco de Lutero é a igreja Cristã, mais específicamente os leigos, não o corpo clerical, mas os cristãos em geral que precisavam da resposta objetivà questão: Qual a nossa relação com a lei do Antigo Testamento?
Nesta carta, Lutero escreve sobre diversos tópicos, dos quais, aqui destaco sobre o Sábado como dia de culto. A obra, no seu todo é de fácil entendimento e incrivelmente atual. Todo Cristão pode tirar o mesmo proveito dela hoje que em 1538, quando foi escrita. Que esta leitura, não apenas lance luz sobre um tema que nos ronda tão de perto hoje, como desperte a curiosidade para se ler sobre os outros argumentos de Lutero, os quais considero ainda melhores que o presente.

(...) Da mesma forma, o terceiro mandamento relativo ao sábado, do qual os judeus tanto fazem, é mandamento que se aplica a todo o mundo; mas a forma na qual Moisés o enquadra e o adapta ao seu povo foi imposta apenas aos judeus, assim como em relação ao primeiro mandamento nenhum outro, mas os judeus devem acreditar e confessar que o Deus comum de todo o mundo os conduziu para fora do Egito. Pois o verdadeiro significado do terceiro mandamento é que naquele dia devemos ensinar e ouvir a palavra de Deus, santificando assim tanto o dia como a nós mesmos. E de acordo com isto, até os dias de hoje, Moisés e os profetas são lidos e pregados no dia de sábado entre os judeus. Onde quer que a palavra de Deus seja pregada, segue-se naturalmente que se deve necessariamente celebrar na mesma hora e ficar quieto, e sem qualquer outra preocupação apenas falar e ouvir o que Deus declara, o que Ele nos ensina e nos diz. 

Portanto, tudo depende completamente disso, de que saneemos o dia. Isto é mais importante do que celebrá-lo. Pois Deus não diz: Você celebrará o dia santo ou fará dele um Sabá - que cuidará de si mesmo. Não, você santificará o dia santo ou o Sábado. Ele está muito mais preocupado com a santificação do que com a celebração do Sábado. E onde um ou outro pode ou deve ser negligenciado, seria muito melhor negligenciar a celebração do que a santificação, uma vez que o mandamento coloca maior ênfase na santificação e não institui o Sábado por si mesmo, mas por ser santificado. Os judeus, entretanto, dão maior ênfase à celebração do que à santificação (o que Deus e Moisés não fazem) por causa das adições que fizeram. 

A menção de Moisés ao sétimo dia, e de como Deus criou o mundo em seis dias, e é por isso que eles não devem fazer nenhum trabalho - tudo isto é uma adaptação temporal com a qual Moisés adequa a este mandamento para seu povo, especialmente naquela época. Não encontramos nada escrito sobre isto anteriormente, seja por Abraão ou na época dos velhos pais. Esta é uma adenda e adaptação temporária destinada exclusivamente a este povo, que foi trazido do Egito. Também não era para durar para sempre, assim como não era toda a lei de Moisés. Mas a santificação, isto é, o ensino e a pregação da palavra de Deus, que é o verdadeiro, genuíno e único significado deste mandamento, foi desde o início e diz respeito a todo o mundo para sempre. Portanto, o sétimo dia não diz respeito a nós gentios, nem aos judeus além do advento do Messias, embora pela própria natureza das coisas se deva, como já foi dito, descansar, celebrar e guardar o sábado em qualquer dia ou hora em que a palavra de Deus seja pregada. Pois a palavra de Deus não pode ser ouvida ou ensinada quando se está preocupado com outra coisa ou quando não se está quieto. 

Portanto, Isaías também declara no capítulo 66 (:23) que o sétimo dia, ou, como eu o chamo, a adaptação de Moisés, cessará no tempo do Messias quando a verdadeira santificação e a palavra de Deus aparecerem ricamente. Ele diz que haverá um sábado após o outro e uma lua nova após a outra, ou seja, que tudo será puro sábado, e não haverá mais nenhum sétimo dia em particular com seis dias no meio. Pois o Santificador ou a Palavra de Deus desfrutará de todo o alcance diário e abundante, e cada dia será um Sábado. 

Estou bem ciente do que os judeus dizem sobre isto e como eles interpretam este ditado de Isaías. Entretanto, não posso incluir tudo na presente carta que tenho em mente. Mas, em resumo, nenhum judeu pode me dizer como é possível para toda a carne adorar diante do Senhor em Jerusalém cada lua nova e cada sábado, como o texto, traduzido com mais precisão e exatidão para o alemão de acordo com seu entendimento, transmite. Algumas pessoas vivem tão longe de Jerusalém que não poderiam chegar lá dentro de vinte, trinta ou cem sábados, e os próprios judeus não adoram em Jerusalém há mil e quinhentos anos, ou seja, em dez vezes mil e quinhentas luas novas, nem mencionei nada sobre os sábados. No entanto, não posso me alongar sobre tudo isso no decorrer de uma carta. (...)

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Gálatas: Como ser um cristão que gera frutos?



“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25

É interessante como muitas vezes somos ensinados desde pequenos a ler esta passagem: isto é uma obrigação! Devemos crucificar a carne, temos que andar no espírito! Então pegamos aquela lista que Gálatas faz do fruto do Espírito para examinarmos a nossa vida. 

-Que parte deste fruto está faltando em você? Será que você está com seu cristianismo em dia? O que eu deveria fazer para ser um cristão de verdade? O que é a carne afinal? Eu estou na carne?

Estas e muitas perguntas do tipo são bem comuns, e por isto, vale uma dica para lermos este livro da Bíblia:

Carne, para a carta aos Gálatas é a natureza caída do ser humano, em seus pecados e delitos. Sempre que o termo é citado, isto não tem relação com a carne física, mas sempre demonstra um modo de vida longe de Deus. O que se opõe a carne é o Espírito. E neste caso, não estamos falando do espírito humano, mas da própria vida ligada a Deus. Isto é importante! Muitos tendem a ler Gálatas como um padrão de vida moral que devemos buscar, mas não é isto o que Deus nos fala nesta carta. O tema é sempre que existe a carne, e ela deseja coisas que lhe são próprias, e existe o Espírito, que opera em nós, crentes, o que lhe é próprio. O grande tema é mostrar que quando buscamos qualquer participação no viver espiritual, ainda que isto pareça ser piedoso, ou seja, do Espírito, Paulo é claro em dizer que isto é a carne também. Na carne nós tentamos fazer coisas, obras; no Espírito entendemos que nada pode ser acrescentado ao que já está feito.

Só neste ponto já há algo importante, pois muitos confundem mesmo, Gálatas fala que é ruim e pecaminoso a carne, e nisto, muitos realmente pensam que Paulo está falando da carne no sentido humano, físico, e daí alguns pensamentos como o de Jesus não ter assumido totalmente a carne humana, ou que na ressureição ele deixou o corpo carnal no túmulo e que saiu de lá só como espírito, que Jesus não é mais carne e osso agora, ou ainda que no dia final, nós viveremos eternamente como espíritos, com “corpo espiritual”, e não que viveremos em nossa mesma carne de agora, só que livres do pecado.

Enfim, Gálatas não fala que a carne (física) e ruim, não fala da luta de igual pra igual entre carne e espírito (quem já ouviu aquela: “ganha o lado que você alimentar mais”) não fala que devemos olhar o fruto do espírito para medir a nossa vida, nem que devemos buscar fazer algo para sermos espirituais, ou “crentes melhores”

Esta carta não é sobre o que nós fazemos por Cristo, para isto tem referências melhores, mas é uma carta toda nos mostrando o oposto: o que Cristo fez, e alguma nota sobre como isto se reflete na vida.

Voltemos ao texto:


“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25


“Crucificaram”, literalmente: εσταυρωσαν (Aoristo, indicativo ativo, terceira pessoa do pural) isto tudo significa dizer: crucificar aqui etá num tempo verbal que significa algo importante: é uma ação pontual e concluída no pasado. Se tivéssemos que tomar Gálatas todo como um padrão de vida moral, crucificar a carne não seria algo concluído no passado, mas algo constante, um dever diário, entretanto, aqui falamos em algo concluído e perfeito. Houve um momento no tempo onde nossa carne encontrou sua derrota, e este momento se liga à cruz. Isto não significa que estamos totalmente livres do mal, mas que esta derrota da carne já está selada, e já vivemos portanto num tempo onde este “crucificar da carne” é um evento concretizado.

“Se vivemos”, literalmente: Εάν ζώμεν, gosto desta exposição da edição de Bambas da bíblia grega, justamente por deixar exposto com muita clareza algo que no portugues parece ter outro sentido. Quando pensamos em numa condicional “se”, automaticamente somos levados a pensar nisto como uma condição que deve estar presente se queremos o resultado que vem depois “Se voce passar na faculdade, eu te dou um carro!” Ou seja, eu preciso me certificar de cumprir um requisito se quiser ter o resultado dele, mas no grego, língua em que o Espírito Santo inspirou a bíblia para ser escrita, não é exatamente assim. Este “se” é retratado como um grau máximo de certeza, do mesmo tipo que se usa para descrever um fato científico, ou seja, Deus não está usando este texto para nos fazer olhar para nossa vida e avaliar “se vivemos pelo Espírito”, mas ele constata uma verdade da qual não há dúvida: “já que vivemos pelo Espírto...” então segue-se a consequência natural disto “andamos pelo Espírito”

Com tudo isto, Deus não está esfregando a carta aos Gálatas diante de nós, nos mandando olhar para nossa vida e nos perguntarmos: “será que eu vivo no Espírito?” Mas na verdade a mensagem dele para nós, que cremos em sua obra, é: não olhe para a sua vida para buscar alguma justiça, olhe para o Espírito!

Se olhamos para o que podemos fazer, nós não chegamos a Deus, nem mesmo se cumprissemos toda a lei de Deus de modo perfeito, ainda assim não chegaríamos a Deus. Por isto, vivemos pelo Espírito, pela fé, e pela fé somente.

sábado, 11 de abril de 2020

Por que Jesus? (Johann Arndt)

Por que voce quer me mudar? Eu sou uma pessoa boa! Eu não mato, eu não roubo, você acha que eu mereço ir para o inferno?



Da Queda De Adão. 


Por: Johann Arndt
In: Cristianismo Verdadeiro, Livro I

“Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos.” Romanos 5:19 


Parte I - A Lei 

A queda de Adão foi uma desobediência a Deus, pela qual o homem se afastou do Ser Divino para si mesmo, e roubou a Deus a honra devido a ele somente, na medida em que ele próprio pensava ser como Deus. Mas enquanto ele assim se esforçava para avançar, ele foi despojado daquela imagem divina, que o Criador havia lhe conferido tão livremente; despojado da justiça hereditária; e enlutado daquela santidade com a qual ele foi originalmente adornado; torna-se, no que diz respeito à sua compreensão, obscura e cega; quanto à sua vontade, teimosa e perversa; e quanto a todos os poderes e faculdades da alma, totalmente alienados de Deus. Esse mal infectou toda a massa da humanidade, por meio de uma geração carnal; e foi herdado por todos os homens. A consequência óbvia resultante disso é que o homem se torna espiritualmente morto e filho da ira e da condenação, até ser redimido desse estado miserável por Jesus Cristo. Não se enganem, então, os que se chamam cristãos, em relação à queda de Adão. Sejam cautelosos, como tentam atenuar ou diminuir a transgressão de Adão, como se fosse um pequeno pecado, uma coisa de pouca importância e, na pior das hipóteses, o mero comer de uma maçã. Que eles tenham certeza de que a culpa de Adão era a de Lúcifer, ou seja, ele seria como Deus: e que era o mesmo pecado grave, hediondo e odioso em ambos. 

2. Essa apostasia (pois não era nada menos), foi, inicialmente, gerada no coração e depois manifestada pela ingestão do fruto proibido. Embora o homem fosse contado com os filhos de Deus; embora ele tenha saído das mãos do Todo-Poderoso imaculado, tanto no corpo como na alma, e foi o objeto mais glorioso da criação; embora, para coroar tudo, ele não era apenas um filho, mas o deleite de Deus; ainda não sabendo como se satisfazer com esses altos privilégios, ele tentou invadir o Céu, para que pudesse ser ainda mais alto; e nada menos seria suficiente para ele do que se exaltar como Deus. Por isso, ele concebeu em seu coração inimizade e ódio contra o Ser Divino, seu Criador e Pai, a quem, se estivesse em seu poder, estava disposto a desfazer completamente. Quem poderia cometer um pecado mais detestável que isso? Ou, que maior abominação existe que se possa meditar? 

3. Portanto, o homem se tornou interiormente como o próprio Satanás, tendo sua semelhança no coração; já que ambos haviam cometido o mesmo pecado, tendo se rebelado contra a majestade do céu. O homem não mais exibe uma imagem de Deus, mas a do Diabo; ele não é mais um instrumento nas mãos de Deus, mas tornou-se um órgão de Satanás, tornando-se assim capaz de todas as espécies de maldade diabólica: de modo que, tendo perdido a imagem que era celestial, espiritual e divina, ele é totalmente terreno, sensual e brutal. Pois o diabo, planejando imprimir sua própria imagem no homem, o fascinou tão inteiramente por um conjunto de palavras atraentes e enganosas, que o homem permitiu que ele semeasse aquela semente odiosa em sua alma, que é, portanto, denominada semente da serpente; e pelo que se entende principalmente amor próprio, vontade própria e a ambição de ser como Deus. Por esse motivo, as Escrituras denominam aqueles que estão intoxicados pelo amor próprio, "uma geração de víboras". Mt. 3:7. E todos aqueles que são de natureza orgulhosa e diabólica, "a semente (descendência) da serpente". Assim, o Todo-Poderoso, dirigindo-se à serpente, diz: "Colocarei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente". Gênesis 3:15. 

4. A partir desta semente da serpente, nada além de frutos mortais e horríveis pode prosseguir; a saber, a imagem de Satanás, os filhos de Belial, os filhos do diabo. João 8:44. Como em toda semente natural, quão minuciosa pode ser, estão contidas, da maneira mais maravilhosa e oculta, a natureza e as propriedades da futura planta, todas as suas partes e proporções, seus galhos, folhas e flores, em miniatura; assim, naquela semente da serpente, a flor e a desobediência de Adão (que passaram a toda a sua posteridade por uma geração carnal), jaz, como no embrião, a árvore da morte, com seus galhos, folhas e flores, e aqueles inúmeros frutos da injustiça que crescem sobre ela. Em suma, toda a imagem de Satanás é secretamente traçada por aí, com todas as suas marcas, características e propriedades. 

5. Se observarmos uma criança com atenção, veremos como essa corrupção natural se manifesta desde o nascimento; e como a vontade própria e a desobediência se descobrem especialmente e se transformam em ações que testemunham efetivamente a raiz oculta da qual elas brotam. Vamos considerar ainda mais a criança, à medida que ela cresce até a maturidade. Observe o egoísmo natural da juventude, sua ambição pura, sua sede de glória mundana, seu amor por aplausos, sua busca por vingança e sua propensão a enganar e falsificar. E agora esses males se multiplicam. Logo poderá descobrir nele vaidade, arrogância, orgulho, blasfêmia, juramentos vãos, maldições terríveis, fraudes, ceticismo, infidelidade, desprezo a Deus e à sua santa Palavra e desobediência aos pais e magistrados: ira e contenciosidade; ódio e inveja; vingança e assassinato, e todo tipo de crueldade; especialmente se as ocasiões externas se oferecerem a acionar essa semente latente e mortal, e os vários males da natureza depravada de Adão. Na proporção em que essas ocasiões continuarem a se apresentar, observaremos o aparecimento de outros vícios; devassidão, pensamentos adúlteros, imaginações obscenas, discursos obscenos, gestos lascivos e todas as "obras da carne": veremos embriaguez, tumultos e toda espécie de intemperança; inconstância, devassidão excessiva e tudo o que pode agradar o apetite, a luxúria dos olhos e o orgulho da vida. E além desses, em breve poderá ser descoberto cobiça, extorsão, trapaça, sofisma, impostura e toda descrição de prática sinistra; juntamente com a facada, o comércio exagerado e, em suma, toda a tropa, ou melhor, exército de pecados, iniqüidades e crimes, tão variados e tantos, que é impossível contar ou declarar o número deles; de acordo com as palavras do profeta Jeremias, “o coração é enganoso acima de todas as coisas, e desesperadamente mau; quem o pode conhecer? ” Cap. 17: 9. E se aos já enumerados se acrescentam, em último lugar, os espíritos sedutores e falsos; então podem ser observados cismas na igreja, heresias perversas e perigosas, sim, a abjeção de Deus e Cristo, idolatria, negação da fé, ódio e perseguição da verdade, o pecado contra o Espírito Santo, com todo tipo de corrupção em doutrina, perversão das Escrituras e forte ilusão. Agora, o que são tudo isso, senão a imagem de Satanás, e os frutos da semente da serpente semeados no homem? 

6. Quem poderia imaginar que uma profundidade tão má e depravada pudesse ser encontrada em uma criança tão fraca e desamparada; que um princípio tão venenoso, um coração tão corrupto, estava escondido em um bebê aparentemente tão inofensivo? Quem poderia ter acreditado nisso, não tivesse o próprio homem, por sua vida pecaminosa e abominável, pela imaginação de seus pensamentos (sendo "mal continuamente" e desesperadamente inclinado ao que é ruim), por sua própria vontade o trouxe à luz e expressou, desde a infância, o que antes era oculto como uma semente? Gênesis 6: 5; 8:21. 

Oh! raiz mais vil e mais amaldiçoada! De onde brota a árvore venenosa que é tão frutífera na produção de todo tipo de praga. Oh, semente da serpente, mais odiosa, mais terrível! A partir da qual é gerada uma imagem ao mesmo tempo tão deformada e suja; e que se amplia continuamente, pois é excitada pelas tentações externas e pelos escândalos do mundo. Bem poderia o abençoado Jesus proibir tão solene e estritamente que qualquer, por mau exemplo, ofenda as crianças pequenas; sabendo que a semente da serpente espreita neles, como o veneno mortal no verme venenoso, pronto para irromper em atos abertos de pecado, sempre que uma ocasião se apresentar. 

8. Aprenda, então, ó homem, conhecer a queda de Adão e a verdadeira natureza do pecado original. Aprenda, se for sábio, a discernir em si mesmo. Examine-o não de maneira leve e descuidada, mas profundamente, e como a importância do assunto merece; pois essa infecção é maior, essa depravação é mais profunda e mais mortal do que pode ser expressa por palavras, ou mesmo concebida em idéia. "Conhece a ti mesmo!" e considere profundamente o que és, ó homem, desde a queda de seu primeiro pai; como tu, que eras à imagem de Deus, tornaste-te a imagem de Satanás, uma epítome de todas as suas tendências perversas, e conformadas a Satanás em toda a malícia e impiedade. Pois, como na imagem de Deus, todas as virtudes e propriedades divinas estão contidas, assim na imagem do diabo, que o homem, ao se afastar de Deus, contraiu, todos os vícios e propriedades são encontrados, e a própria natureza do próprio diabo. Pois, como o homem, antes da queda, apresentava a imagem do Adão celestial, isto é, era totalmente celestial, espiritual e divino; assim, desde a primeira apostasia, ele carrega consigo a imagem do Adão terrestre, sendo interiormente terrestre, carnal e corrupto. 

9. Ele se tornou um dos animais do campo. Por que, ó homem caído, a tua ira? A quem pertence mais apropriadamente, ao leão ou ao homem? E a tua inveja e a tua ganância não revelam a natureza do cão e do lobo? E no que diz respeito à tua impureza e gula, não são essas evidências de natureza suína? De fato, se você examinasse corretamente seu seio, descobriria um mundo de bestas impuras e nocivas. Mesmo na língua, esse “pequeno membro” pode ser encontrado, segundo São Tiago, um lago de coisas pestilentas e rastejantes, um porão de todo espírito imundo, a gaiola de todo pássaro imundo e odioso (Isaías 13:21 ; Ap. 18: 2) e, em uma palavra, um “mundo de iniqüidade”. Tiago 3: 6. Muitas vezes, infelizmente, progredimos na iniquidade de forma a superar a ira e a fúria das bestas de rapina; em voracidade e violência, o lobo; em sutileza e astúcia, a raposa; na malícia e virulência, a serpente; e na imundície e obscenidade, os porcos. Por isso, nosso Senhor chamou Herodes de raposa e os ímpios, em geral, cães e porcos; a quem o que é santo não deve ser dado. 13:32; Mt. 7: 6. 

10. Todo aquele que, portanto, falha em corrigir essa corrupção da natureza, sendo verdadeiramente convertido e renovado em Cristo Jesus, mas morre no estado que foi descrito, deve manter para sempre essa natureza bestial e satânica. Ele deve ser arrogante, altivo, orgulhoso e diabólico, por toda a eternidade. E quando ele tiver negligenciado o tempo de sua purificação aqui, levará consigo a imagem de Satanás na escuridão das trevas para sempre; como testemunho, de que enquanto ele estava no mundo, ele não viveu em Cristo, nem foi renovado à imagem de Deus. Pois de fora são cães e feiticeiros, e todo aquele que ama e pratica a mentira." Ap 21: 8; 22:15. 





Parte II - O Evangelho 


(...)
2. Por fé cordial e inabalável, o homem dedica totalmente seu coração ao Todo-Poderoso, em quem ele busca seu descanso exclusivamente. Pois ele agora ele está unido, e com ele entra em deliciosa comunhão. Ele participa de todas as coisas que são de Deus e de Cristo, e é feito um espírito com o Senhor. Dele ele recebe poder e força divinos; juntamente com uma nova vida, acompanhada de novas alegrias, novos prazeres, novas consolações, nas quais se encontra paz, tranqüilidade interior e satisfação duradoura, juntamente com retidão e santidade. E assim o homem nasce de novo por Deus pela fé. Pois onde quer que haja verdadeira fé, Cristo está verdadeiramente presente com toda a sua justiça, santidade e remissão de pecados; com todos os seus méritos, justificação, graça, adoção e herança da vida eterna. Este é o novo nascimento e a nova criatura, nascendo da fé em Cristo. Por isso, o apóstolo chama a fé de substância (Hb 11:1); compreendendo por ela, uma confiança segura, sólida e inabalável em "coisas esperadas" e uma convicção viva de "coisas não vistas". Pois o consolo transmitido por uma fé vital é tão poderoso que convence o coração da verdade divina pela experiência interior e pelo gosto da bondade celestial na alma e da paz de Deus que ultrapassa todo entendimento; sim, é tão poderoso que permite que seus possuidores morram com um coração alegre. Nisto consiste a força do espírito, o poder do homem interior, o vigor da fé, a santa ousadia; essa é a confiança em Deus, a segurança excedente e abundante, que são copiosamente demonstradas pelos santos apóstolos. 2Tm. 2:1; Ef. 3:12, 16; Fp. 1:14; 1Jo 3:21; 1Ts. 1: 5; 2; 2. 

3. Aquilo pelo qual um homem ousa morrer deve estar enraizado na alma e, pela operação do Espírito de Deus, proporcionar uma garantia interior. Deve ser um conforto cordial, poderoso e eterno, infundindo força celestial e sobrenatural na alma, pela qual o medo da morte e o amor do mundo podem ser subjugados. Agora, tudo isso gera uma confiança tão sólida em Cristo e uma união tão estreita com ele, que nem a morte nem a vida são capazes de dissolver. Rm. 8:38; 2 Tm. 1:12. Por isso, São João diz: "Todo o que é nascido de Deus vence o mundo". 1 João 5: 4. 

4. Nascer de Deus não é na verdade figura vã, nem nome vazio; deve necessariamente ser uma mudança viva e poderosa, digna da majestade de um Deus onipotente. Crer que o Deus vivo poderia gerar uma descendência morta, que membros sem vida e órgãos inúteis pudessem proceder dele seria muita maldade. É certo e indubitável que Deus, sendo um Deus vivo, não pode deixar de gerar um homem vivo, mesmo o novo homem em Cristo Jesus. E nossa fé é a vitória que vence o mundo. 1 João 5: 4. Quem pode questionar se é dotado de força suficiente para a conquista? É um princípio vivo, vigoroso, potente, divino e vitorioso; mas todo o seu poder deriva daquele que é abraçado por ela, Cristo. Por meio da fé, retornamos a Deus novamente e nos tornamos um com ele; e de Adão, como de uma videira amaldiçoada, somos transplantados para Cristo, a videira viva e abençoada. João 15: 4. Em Cristo, possuímos tudo que é bom, e nele somos justificados. 

5. Como enxerto, quando enxertado em uma boa árvore, cresce, floresce e dá frutos, mas, sem ela, murcha; assim, o homem, quando fora de Cristo, é como uma videira amaldiçoada, cujas uvas são amargas e fel; e todas as suas obras são pecado. Dt. 32:32, 33; Rm. 14:23. Mas quando ele está em Cristo, ele é justo e abençoado; porque "ele foi feito pecado por nós, que não conhecia pecado, para que sejamos feitos a justiça de Deus nele". 2 Co. 5:21. 

6. É mais evidente, que as obras não podem justificar um pecador; porque, antes que possamos realizar qualquer boa obra, devemos ser enxertados em Cristo pela fé: e é igualmente claro que a justificação é inteiramente um dom de Deus, livremente conferido ao homem e precedendo todo mérito humano. Como um morto vê, ouve, se levanta, anda ou faz alguma coisa boa, a menos que seja ressuscitado dentre os mortos e dotado de um novo princípio de vida? Assim também, ó homem, que está morto em pecados, não pode fazer nenhuma obra que seja boa ou aceitável, a menos que você tenha sido ressuscitado para vida por Jesus Cristo. Assim, a justiça procede somente da fé em Cristo. A fé é como um bebê recém-nascido, fraco e nu, pobre e indigente, e posto diante dos olhos do Salvador; de quem, como de seu autor, recebe justiça e santificação, piedade, graça e o Espírito Santo. 

7. A criança nua é assim vestida com a misericórdia de Deus. Ele levanta as mãos, recebe tudo de Deus e é um participante da graça e saúde, verdade e santidade. É, portanto, esse recebimento de Cristo no coração, que torna um homem santo e feliz. 

8. A justiça procede, portanto, unicamente da fé, e não das obras. De fato, a fé recebe todo o Cristo e o aceita, juntamente com tudo o que ele tem. Então o pecado e a morte, o diabo e o inferno, devem fugir e não podem mais preservar sua base. Não! De maneira tão eficaz e poderosa os méritos de Cristo justificam o pecador, que se os pecados do mundo inteiro fossem cobrados de um homem, eles não teriam a menor utilidade de condená-lo, se ele cresse em Cristo. 

9. Visto que Cristo vive e habita em seu coração pela fé (Ef 3:17), nunca, ó crente, sacia o pensamento de que sua habitação em ti é uma obra morta, sem vigilância, com qualquer poder vital. Antes, acredite que é um princípio vivificante, uma obra poderosa e uma transformação eficaz de sua mente. A fé produz duas coisas: primeiro te envolve em Cristo e o dá livremente a você, com tudo o que ele tem; e então, renova-te em Cristo, para que cresças, floresças e vivas nele. O enxerto silvestre é introduzido na estaca, para que possa florescer e dar frutos. Como pela apostasia de Adão e pela tentação do diabo, a semente da serpente foi semeada no homem, crescendo em uma árvore e dando os frutos da morte; mesmo assim, pela palavra divina e pelo Espírito Santo, é a fé semeada no homem, como a semente de Deus. Nesta semente, todas as virtudes e propriedades divinas são, da maneira mais maravilhosa, compreendidas; que se expandem gradualmente dia a dia. Esta árvore é adornada com uma profusão de frutos celestes; como amor, paciência, humildade, mansidão, paz, castidade, justiça. E assim todo o reino de Deus desce ao homem. Pois a fé verdadeira e salvadora renova todo o homem, purifica o coração, santifica a alma e livra do amor do mundo. Ele se une a Deus; tem fome e sede de justiça; opera amor; e traz paz, alegria, paciência e conforto à adversidade: vence o mundo; faz de nós filhos de Deus e herdeiros dos tesouros do céu; e constitui-nos co-herdeiros com o Senhor Jesus Cristo. Mas, se alguém não estiver consciente dessa alegria que a fé transmite e não experimenta suas influências consoladoras, não deixe, por isso, se desesperar; antes, confie na graça que é prometida em Cristo; pois essa promessa permanece sempre certa, imóvel e eterna. E, apesar das enfermidades incidentes à natureza humana, ele deveria tropeçar e cair; todavia, se o pecador retornar por arrependimento não fingido, e observar com mais cautela o pecado que o acomete tão facilmente, a graça de Deus não será retirada. Pois Cristo é, e sempre será Cristo, Salvador, quer a fé que o abraça seja forte ou fraca. Uma fé fraca tem uma parte igual em Cristo que uma fé forte, pois a fé, seja ela fraca ou forte, possui todo o Cristo. A graça que é prometida é comum a todos os cristãos e é eterna, e nessa graça a fé deve confiar, seja fraca ou forte. O Senhor visitará sua alma em seu próprio tempo, com um senso de seu favor gracioso e de suas abundantes consolações. 

Wayne Grudem – uma avaliação crítica parte 1


Wayne Grudem – uma avaliação crítica à luz da teologia bíblica luterana. Breve comentário sobre leitura de TEOLOGIA SISTEMÁTICA, Wayne Grudem, p. 801 a 813.


Este é um breve comentário sobre a leitura deste famoso livro de Teologia Sistemática de linha reformada no objetivo único de expor as diferenças teológicas, especialemente tendo-se em vista que a reforma luterana e a calvinista foram movimentos não apenas separados, mas antagônicos entre si desde o início. 
A lista abaixo talvez não seja exaustiva, mas inclui a maioria dos meios de graça a que os salvos têm acesso na comunhão da igreja: 1. O ensino da Palavra 2. O batismo 3. A ceia do Senhor 4. A oração uns pelos outros 5. A adoração 6. A disciplina da igreja 7. A oferta 8. Os dons espirituais 9. A comunhão 10. A evangelização 11. O ministério individual (grifo nosso)
Na lista de Grudem a disciplina e a oferta são colocados como canais da graça divina, entretanto, sem a correta distinção entre lei e evangelho, (ou com uma visão mais próxima de Agrícola) expressões da lei são apresentados em meio aos meios evangélicos.
Mas segundo o ponto de vista protestante, os meios de graça são simplesmente meios de os cristãos receberem mais bênçãos e nada acrescentam à nossa aptidão de receber a justificação divina.
Grudem, alem de erradamente colocar esta posição como sendo a posição “protestante”, e com isto escondendo o fato de que isto não representa o totum das igrejas da reforma também nega a justificação objetiva, classificando o que é sacramento com a característica própria do sacrifício, a saber, aquilo que o homem oferece a Deus. 
Os católicos pregam que esses meios ou sacramentos dispensam graça independentemente da fé do ministro ou do crente,5 (sic) enquanto os protestantes sustentam que Deus só dispensa a graça quando há fé da parte das pessoas que administram ou recebem esses meios.
De fato, ao fazer-se tal postulação, Grudem se coloca ao lado dos Donatistas por crer que a dignidade dos ministros é o que valida o sacramento.
O crescimento e a força da igreja estão de tal forma ligados à regência da Palavra de Deus na vida das pessoas que mais de uma vez o livro de Atos chega a igualar o crescimento da igreja ao crescimento da Palavra de Deus: "Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos” (At 6.7); “Entretanto, a palavra do Senhor crescia e se multiplicava ”(At 12.24); “E divulgava-se a palavra do Senhor por toda aquela região” (At 13.49).
Tão importante é a Bíblia como meio fundamental da graça que Deus dá ao seu povo, que Charles Hodge nos lem bra que ao longo da história o verdadeiro cristianismo floresceu “proporcionalmente ao grau de conhecimento da Bíblia, ao grau de difusão das suas verdades entre as pessoas”. (grifo nosso)
Neste ponto, erra o autor ao identificar o que é a Igreja – local onde a Palavra é pregada, e onde os sacramentos são corretametne administrados. A palavra de Deus está presente no crescimento da igreja, entretanto, a Palavra completa estava presente, tanto no ensino das Sagradas Letras, como a mesma Palavra era comida no sacramento da comunhão (Atos 2:42) e derramada sobre os pecadores (Atos 22:16). Talvez, por reduzir a palavra de Deus à sua forma escrita, o autor não queira considerar as instiuições do próprio Cristo como contingentes da Palavra, muito embora o próprio livro da Palavra assim o afirme.
Quando o batismo acontece logo depois da profissão de fé inicial da pessoa e é de fato a forma exterior que a profissão de fé assume, há certamente um vínculo entre o batismo e o recebimento do dom do Espírito Santo, pois Pedro diz aos seus ouvintes no Pentecostes: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome dejesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38). Além disso, diz Paulo: “[Fostes] sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12). A declaração de que é “mediante a fé no poder de Deus” que isso acontece nos faz lembrar que não há propriedade mágica no ato do batismo em si que provoque o resultado espiritual; mas o versículo tam bém indica que quando a fé acom panha o batismo, há verdadeira obra espiritual na vida da pessoa batizada. (grifo nosso)
Sobre o batismo aqui anunciado, o autor o coloca apenas como ato exterior resultante da a fé, sem fazer distinção entre fé reflexa ou não. Como resultado, ele vincula o dom sobrenatural de Deus que é a fé, onde o próprio Cristo é seu autor e consumador, e a epístola aos Gálatas a coloca como fruto do Espírito, com uma capacidade da inteligência humana iluminada pela luz da razão, a saber, o ato de se poder organizar em palavras aquilo que recebeu. Portanto nesta vinculação há um erro essencial quanto à origem da fé e a origem do ato proclamatório da mesma. Em segundo plano, ao citar o texto de Atos, perverte a Palavra de Deus, ao colocar a conjunção e (Kai) como indicativa de eventos diferentes, ao passo que a própria palavra é contra ele. Seu uso não pode ser outro que o de cumular eventos, o ato da remissão dos pecados tem uma origem dúplice no arrependimento e (kai) no batismo. Ao usar esta expressão, quiz o Espírito Santo vincular arrependimento e batismo à remissão dos pecados, portanto, erra o autor ao chamar este vínculo da água do batismo com a Palavra que redime Pecados de “propriedade mágica”
Existe uma união espiritual entre os salvos e com o Senhor, que se fortalece e se solidifica na ceia do Senhor, e ela não deve ser desprezada.
De fato, não se pode negar que o comer e beber da Ceia do Senhor seja um comer memorial, como querem os zwinglianos, e um comer espiritual, como diz o autor, onde nossos corações são elevados à presença de Deus e o abraça pela fé, mas ao enfatizar o tipo de comer como espiritual, nega o autor o terceiro tipo de comer, o sacramental, com o qual Cristo institui a comunhão na noite em que foi traído. Esse argumento usado por ele é absolutamente inconclusivo em provar qualquer coisa contra o significado apropriado e natural dessas palavras: “Tome, coma; isto é o Meu corpo...”pois o mesmo Cristo na mesma instituição, não só falou sobre o pão e o vinho, mas ao mesmo tempo Ele também afirmou o que recebemos nesta Ceia comendo e bebendo: “Isto é o Meu corpo, isto é o Meu sangue ...” E certamente a presença do corpo e o sangue de Cristo na Ceia é mais importante do que a presença do pão e do vinho. Certamente, é uma coisa incomparavelmente maior se, na Ceia, nossa boca receber o corpo e o sangue de Cristo do que receber apenas o pão e o vinho. Portanto, se por causa da alimentação espiritual não estamos dispostos a remover o que é menos importante na Ceia, ou seja, os elementos do pão e do vinho, porque temos uma palavra a respeito deles, como podemos então condenar e rejeitar, por causa disso o significado natural do testamento de Cristo em relação à presença e recepção substancial de Seu corpo e sangue na Ceia?
Se a adoração é verdadeiramente uma aproximação de Deus, é chegar-se à sua presença rendendo-lhe o louvor que ele merece, então certamente devemos tê-la como um dos principais “meios de graça” disponíveis à igreja. Por intermédio da genuína adoração conjunta, Deus muitas vezes dispensa maiores graças ao seu povo, tanto individual quanto coletivamente.
É interessante notar aqui que o autor não faz reservas em colocar a adoração por oração e jejum da congregação como meios da graça, ao passo que na mesma linguagem ele chama o batismo e a ceia de “magia” De fato, tal ato de culto é meio da graça, entretanto, também não é a adoração ex opere operato que manifestará o favor de Deus, mas é de fato verdadeira adoração, quando derramamos nosso coração diante de Deus (Sl 62:8; 25:1-2; 86:4; 143:8) e, chegando assim ao trono da graça (Hb 4:16), nos dirigimos, com submissão filial e verdadeira devoção do coração, a Deus, nosso Pai, que está presente e ouve (Gl 4:6) e, por Seu comando e confiando em Sua promessa, definindo diante dele nossos problemas e desejos, na verdadeira fé, através e por Cristo, buscando misericórdia, graça e ajuda nas coisas que pertencem a Sua glória e são necessárias, úteis e salutares para nós (Hb 4:16; Jo 16:23-24) ou dar-lhe agradecimentos pelas bênçãos recebidas, e louvor e glorificar seu nome (1 Tm 2:1; 1 Co 14:16).
Parece correto, então, considerar a imposição de mãos como outro elemento da rica diversidade dos “meios de graça” que Deus concedeu à igreja para distribuir bênçãos ao seu povo.
Além dos outros dons de milagres, os apóstolos também tinham este, que na imposição de suas mãos não apenas curavam os enfermos (Mc 16:18), mas o Espírito Santo também era conferido aos crentes sob a forma externa e visível de dons como línguas e profecia (At 19: 6). Mas essa prerrogativa dada aos apóstolos para confirmar a doutrina era apenas temporária. Na Palavra divina, não temos nenhum mandamento pelo qual somos ordenados a seguir o exemplo dos apóstolos, nem a promessa divina que Deus deseja enviar, dar e conferir ao Espírito Santo pela imposição de nossas mãos. Os apóstolos usaram essa cerimônia como adiáforo, por causa das orações públicas.
Ao final deste exame dos meios de graça na igreja, convém perceber antes de tudo que quando qualquer um desses meios é utilizado com fé e obediência, os cristãos devem esperar e procurar evidências de que o Espírito Santo está de fato ministrando às pessoas simultaneamente à utilização dos meios. (grifo nosso)
Na parte conclusiva o autor novamente parece por Deus à prova. Não bastando a promessa de Deus que acompanha cada meio da graça como meios que efetivamente concedem ou aumentam a fé e ao qual o próprio Espírito está vinculado, aqui o autor estimula seus leitores a sondar uma manifestação do agir do Espírito Santo, não considerando então que os próprios meios são per se o próprio agir.


sábado, 4 de abril de 2020

Livros Traduzidos e em tradução...


Esta postagem é um breve comentário de apresentação das obras que já foram publicadas e das que estão em processo de tradução.
Por que traduzir? Estas obras tem algo em comum: todas elas são peças que pessoalmente me ajudaram na caminhada de modo especial. Cada uma delas foi lida por um motivo, e ele é bem pessoal! Havia uma carência em algum ponto que estes livros supriram. Então, de modo simples, eles me ajudaram. O sengundo ponto, é que muitos livros fazem parte desta caminhada, mas estes são os que chamaria de "livros de cabeceira", aqueles que eu pretendo sempre voltar, consultar denovo e denovo. O terceiro motivo é: Certamente podemos aprender com a mera leitura, mas certamente, ler cuidadosamente, criar uma lista de verbetes que o autor utiliza e como ele os utiliza em suas obras, entender o que o caracteriza linguísticamente, literariamente, buscar entender todo o Sits im leben que leva o autor a escrever suas obras, e por fim, iniciar um processo de examinar cada frase e transportar toda esta informação para o português, certamente é a forma como estes livros marcaram um aprendizado valioso, poder ler cada um com os olhos do autor me foi um processo instigante. Por fim, por que não publicar? Certamente, disponibilizar obras desta relevância para todos que falam o português é uma forma de desejar: Assim como estes me abençoaram, que possam abençoar a outros tantos!


Confutatio Pontificia 

O que é: É um documento católico, escrito por John Eck para enfrentar a doutrina luterana, é importante pois quando Melanchton escreveu a famosa “Confissão de Ausburgo” contendo os pontos específicos que nós, enquanto luteranos discordávamos das práticas de Roma, Eck, na função de núncio papal, ou seja, um enviado do papa, escreveu esta confutação para analisar ponto por ponto se a igreja concorda ou não com cada um. Depois disso, Melanchton escreve um outro documento, a “Apologia da Confissão de Ausburgo”, justamente respondendo ao que foi afirmado nesta Confutação, portanto, sem este texto, é muito difícil entender a própria Apologia, que é também um documento que guardamos como confessional e legítima exposição da doutrina bíblica 


Número de páginas 97 
Edição 1 (2019) 
Formato A5 (148x210) 
Coloração Preto e branco 
Tipo de papel Couche 150g 





De Coena Domini - A Ceia do Senhor 

O que é: logo no início da Reforma,visões diferentes surgiram sobre o significado e importância da Ceia do Senhor, não por causa da sua prática, mas a grande discussão era sobre a pessoa de Cristo, se o homem-Deus estaria ou não presente em sua celebração, e isto não é matéria secundária, mas reflete diretamente sobre como se dá a própria salvação. Nos dias de Lutero, um debate para resolver as controvérsias foi marcado, mas sem sucesso, cada reformador tinha um linguajar próprio, o que fazia que termos iguais fossem entendidos de modo diferente. Foi somente nos dias de Chemnits que um livro desta importância poderia ser escrito, Roma já havia definido claramente seus termos sobre o tema no Concílio de Trento, Os reformadores de Genebra: Zwínglio e Calvino tinham obras em que explicavam bem como entendiam, então coube a Chemnitz, nesta obra, analisar cada uma destas vertentes, comparar com o texto bíblico e explicar a questão de modo definitivo e claro 

Número de páginas 554 
Edição 2 (2019) 
Formato A5 (148x210) 
Coloração Preto e branco 
Tipo de papel Polen 






Enchiridion- As doutrinas fundamentais do Ministério, Palavra e Sacramento: 

O que é: este é um pequeno livro para tirar dúvidas frequentes. No passado ele foi material para avaliar os pastores, também foi material de estudo preparatório para o concílio ordinatório (para se ordenar pastores), hoje ele é um pequeno tesouro que coloca em linguagem clara e de modo bem objetivo respostas à dúvidas que frequentemente temos sobre os mais diversos tópicos, indicado para leigos e pastores também! 

Número de páginas 374 
Edição 1 (2020) 
Formato A5 (148x210) 
Coloração Preto e branco 
Tipo de papel Polen 




Escritos Selecionados – Ortodoxia e Unidade da fé: 

O que é: dois temas que levantam questionamentos. Se existe Ortodoxia (literalmente um caminho correto), isto implica que todos os demais caminhos estão errados. Quando Pieper fala em ortodoxia, ele não está dizendo do Cristianismo versus qualquer outra coisa, mas que dentro deste grande bloco, e de muitas visões diferentes, com todas as denominações à volta, ainda assim, é possível afirmar: existe um caminho de ortodoxia.
O segundo ponto é a unidade da fé: Se existe uma Igreja Ortodoxa, como andar em unidade com dos demais cristãos? Até que ponto podemos ser ecumênicos? Como fazer uma comunhão de igrejas ortodoxas? 

Número de páginas 166 
Edição 1 (2020) 
Formato A5 (148x210) 
Coloração Preto e branco 
Tipo de papel Offset 90g 


Dois Sermões sobre a Lei:

Teonomia, guarda do sábado, a igreja mudou os mandamentos, proibição de imagens, salvação por obedecer aos mandamentos... Quantos temas atuais que surgem quando se conversa sobre a Bíblia, mais especificamente, se o assunto for: Qual o papel das leis de Moisés, no Antigo Testamento para os cristãos hoje? Muitas vezes uma resposta clara faz falta. Ler Lutero não é apenas um conhecimento histórico, mas perceber que as respostas que procuramos hoje não são novas, e por isto mesmo, quase 500 anos depois destes escritos serem publicados, estamos aqui, lendo-os em bom e claro português, em termos bem objetivos e em linguagem acessível, trazendo respostas à questões com as quais hoje convivemos, como se Lutero escrevesse de próprio punho a cada um de nós, trazendo alívio a consciências perturbadas pelas dúvidas.


Edição 1 (2020) 
Formato A5 (148x210) 
Coloração Preto e branco 
Tipo de papel Offset 90g 


Locus III - O Espírito Santo:

O que é: Esta visão teológica é um comentário sobre os Loci Communes de Felipe Melanchthon pelo autor principal da Fórmula de Concórdia. Baseando-se na tradição luterana, Chemnitz explora todas as principais categorias teológicas, neste locus, o Espírito Santo é tratado, segundo seu conceito, seus atributos, uma argumentação contra as heresias e extensa pesquisa nos Pais da Igreja. Contém a transcrição completa dos ditos de Melanchton em seus Loci Communes no que tange ao tema deste locus na edição de 1525, também traduzido para o Portugues no corpo do texto.





Edição 1 (2020) 
Formato A5 (148x210) 
Coloração Preto e branco 
Tipo de papel Offset 90g 


Cristianismo Verdadeiro 

O que é: o venerável Johann Arndt tem uma obra difícil de classificar, para alguns, ele é o último dos escolásticos alemães, um pilar de ortodoxia, para outros, ele é o primeiro dos pietistas, aqueles que olhavam para a relação do indivíduo com Deus com destaque especial, ainda há quem o classifique como um místico: aquele que olha para o mistério e contempla a união do homem no corpo místico de Cristo. Seja como for, Arndt nos brinda com uma exposição firme de doutrina cristã, não como algo frio e distante, mas como esta doutrina é vivida e experimentada no viver prático de cada cristão, e ainda assim, ao fazê-lo, sua mística nos faz ler em sua obra cada um de nossos pecados, desnudado diante de Cristo, lamentar a miséria de nossa alma, a lei implacável é posta como uma pedra em nossos corações, para na sequência, Arndt nos transportar para o Evangelho puro de um Cristo de braços abertos que vive em nós e nós nEle, e nesta união temos a base para o agir na vida diária. 

**Obra ainda não publicada**

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A diferença entre o pecado mortal e venial



Esta postagem tem um caráter histórico significativo, em especial se considerado que nas teses de Walther, a tese 19 discorre sobre o mesmo tema algumas centenas de anos mais tarde.
O texto a seguir, não é meu, é de Martin Chemnitz, escrito ha cerca de 450 anos, mas posso dizer sim, que minha é a tradução do texto, com base em sua edição em Latim. O tópico faz parte de uma obra chamada Enchirídion (inquérito, em pt), escrita específicamente para o trabalho de avaliar a doutrina e os ensimanentos dos ministros por seus superintendentes. Então aqui temos, em parte, um documento oficial, encomendado por Lutero, escrito por Chemnitz que serviu efetivamente para nortear o ensino bíblico nas igrejas. O Documento, como um todo, cobre vários pontos, alguns são específicos para diferenciar a Igreja Católica Alemã (que viria a ser a Igreja Luterana anos mais tarde) da Igreja Católica Romana, outros, como é o caso deste capítulo, é em resposta ao pensamento dos reformadores de genebra. Então, segue-se o texto, traduzido em sua integridade deste capítulo.


1. Os restos do pecado existem e permanecem no renascido nesta vida? 

Eles, por todos os meios, são e permanecem. Porque, embora os renascidos sejam governados pelo Espírito Santo, eles reclamam que nada de bom habita em sua carne; de fato, também quando eles querem fazer o bem, o mal está ligado a ele (Rm 7:18, 21), e que a carne luta contra o Espírito (Gl 5:17). E mesmo quando são santos e servem a Deus e não têm consciência de nenhum mal, ainda assim confessam que são pecadores. 1 Co 4: 4; Salmos 32: 6; 130: 3; 143: 3. De fato, aquele que não reconhece e confessa isso, mas diz que não tem pecado, engana a si mesmo. 1 João 1: 8. Portanto, todos os santos têm necessidade nesta vida diariamente de repetir isso: Pai, perdoe-nos nossos pecados. 



1. Então Davi, tendo cometido adultério, é justo e santo, e ele permanece assim? 

De jeito nenhum. Pois as Escrituras distinguem pecados, ou seja, nos santos ou renascidos, existem alguns pecados pelos quais eles não são condenados, mas ao mesmo tempo mantêm a fé, o Espírito Santo, a graça e o perdão dos pecados. Rm 7: 23-8: 1; 1 Jo 1:8-9; Salmos 32:1. Mas as Escrituras testificam que também existem outros pecados nos quais os reconciliados, quando caem, perdem a fé, o Espírito Santo, a graça de Deus e a vida eterna, e se sujeitam à ira divina e à morte eterna, a menos que novamente, eles sejam reconciliados com Deus pela fé. Rm 8:13; 1 Co 6:10; Gl 5:21; Ef 5: 5; Cl 3:6; 1 Jo 3:6, 8; 1 Tm 1:19; 2 Pe 1:9. E a distinção útil entre pecado mortal e venial é extraída dessa base. Paulo fala de pecado governando contra a consciência ou com a consciência repudiada, e pecado que de fato habita na carne, mas não governa. 1 Tm 1:19; Rm 6:12, 14; 7:17. 



2. Qual é o uso de reter e sinceramente inculcar essa diferença entre o pecado mortal e venial na igreja? 

I. Para que possamos aprender a reconhecer e sinceramente evitar pecados mortais. 
II. Se somos apanhados nesse tipo de pecado, não perseveramos obstinadamente e continuamos neles impenitentemente. 
III. Que tentemos ao máximo restringir e controlar o pecado que habita em nós, para que não se torne mortal. Pois, quando essa distinção é negligenciada ou não é entendida e usada corretamente, os cristãos também frequentemente caem em segurança e impenitência. Portanto, os pastores devem ser lembrados e treinados nos exames, não apenas para listar os 7 pecados mortais (ou capitais), mas também para poder indicar aos seus ouvintes, em cada Mandamento, quais pecados são mortais, que veniais. 
IV. Que definições do que é pecado venial, e pecado mortal, sejam buscadas no exame de Felipe Melanchthon e, para fins de declaração, sejam acrescentadas a essas perguntas. 



3. É, então, o pecado original, que ainda permanece no renascer nesta vida, em si mesmo um pecado tão leve pouco, ou, por assim dizer, peccadillo, que Deus não pode nem quer ficar com raiva contra ele? 

Todos os pecados não são iguais; alguns são mais graves e maiores que outros (Jo 19:11; Mt 11:22; Lc 12: 47-48); todavia, se alguém julga de acordo com o sentido da lei divina, nenhum pecado em si e por sua própria natureza merece perdão; isto é, nenhum é tão pequeno e insignificante, mas que o torna sujeito à ira divina e digno de condenação eterna se Deus entrar em julgamento com ele. Dt 27:26; Gl 3:10; Tg 2:10. Este erro referente ao menor mandamento da lei divina é condenado por Cristo nos fariseus. Mt 5:19. Paulo lamenta também que o pecado ainda habite em sua carne. Rm 7:24; Gl 5:17. 



4. Alguns pecados são tão grandes e horríveis que não podem ser perdoados no Evangelho àqueles que se arrependem e acreditam em Cristo? 

Não. Cristo fez satisfação por todos os pecados. 1 Jo 2:2. Ele quer salvar também os maiores pecadores. 1 Tm 1:15. Ele ordenou o arrependimento e a remissão de pecados a serem pregados em seu nome a todos os pecadores. Jo 20:23; Mt 9:13; Lkc15:7; 24:47. Graça abunda mais do que pecado. Rm 5:20. 





5. Agora, então, uma vez que é claro que nenhum pecado em si merece perdão, da mesma forma que nenhum pecado é tão horrível que não pode ser perdoado, por que, então, são alguns pecados no renascido são chamados veniais, alguns mortais? 

Isso deve ser bem e cuidadosamente explicado, para que cada cristão possa saber e determinar se ele está vivendo em pecado mortal ou venial. A explicação consiste essencialmente nisso: todo mundo se examina se tem ou não verdadeiro arrependimento e fé. Rm 2: 4-5; Jr 5: 3; 2 Co 13: 5. O pecado original, que ainda habita na carne dos renascidos, não é ocioso, mas é a lei inquieta do pecado em nossos membros, sedutora, tentadora, levando ao pecado com várias sugestões e concupiscências malignas. Tg 1:14; Rm 7: 8; Gl 5:17. Visto que, então, quem renasce não se deleita com esse tipo de luxúria carnal, e nem é liderado por eles nem os segue, mas sinceramente os reprime e crucifica como pecados e os mortifica através do Espírito, para que não governem ou seja realizado (Romanos 6:12; 7:15; 8:13; Gl 5:24), isso é um sinal muito certo de verdadeiro e sincero arrependimento. E quando os renascidos rezam para que Deus não lhes impute essas fraquezas, mas perdoe por causa de Cristo, e ao mesmo tempo crêem e confiam que Cristo, como a verdadeira propiciação, cobriria, aos olhos de Deus, essa impureza deles com Sua inocência e obediência (Rm 4: 7; Sl 32: 1; 1 Jo 1: 7; 2:1-2), este também é um sinal seguro de fé verdadeira e justificadora. E onde a verdadeira fé, em sincero arrependimento, apreende Cristo no Evangelho, e confia nEle e é sustentada por Ele, não há condenação, mas a pura graça de Deus, o perdão dos pecados e a salvação eterna (Rm 8: 1; 1 Jo 1: 9; Sl 32: 2). Dessa maneira, existem e ocorrem esses pecados veniais no renascimento, pelos quais eles não são condenados, porque, como diz Agostinho, eles vivem sob a graça. 



6. Mas e se nos deliciarmos e nos deleitarmos com as desejos do mal e buscarmos ocasiões para dar-lhes rédea livre (Rm 6:12; Mq 2:1; Tg 1:15)? 

Então eles se tornam pecados mortais (Romanos 8:13; Tg 1:15), porque certamente não há espaço para o verdadeiro arrependimento e fé, onde as concupiscências da carne são servidas e controladas, para que entrem em ação. 1 Tm 1:19; 5:8; 2 Pe 1:9. É a natureza e o caráter particular da verdadeira fé que ela não busca cometer, continuar e amontoar pecados livremente, mas tem fome e sede da justiça que libera e livra dos pecados. Portanto, onde não há verdadeiro arrependimento, o Espírito Santo pronuncia uma sentença muito séria. Jr 5: 3,9; Rm 2: 5,9; Lc 13: 3; Ap 2: 5. E onde não há fé verdadeira, não há Cristo, nem o Espírito Santo, nem a graça de Deus, nem perdão dos pecados, nem salvação. Então o que? Sem dúvida a ira de Deus, a morte e a condenação eterna, a menos que os caídos se voltem para Deus novamente. Cl 3: 6; Ro 8:13. Como resultado disso, portanto, e por esse motivo os pecados mortais ocorrem no renascido quando o arrependimento, a fé, Cristo e o Espírito Santo são expulsos e perdidos. 



7. Como, então, se deve lidar com aqueles que caíram neste tipo de pecado? 

Seus pecados não devem ser disfarçados pelo silêncio, camuflados, desculpados ou defendidos, mas solenemente e sinceramente censurados e repreendidos. Is 56:10; 58: 1; Ezequiel 13:10, 18; 2 Tm 4: 2; Tt 1:13: “Reprove-os bruscamente”, de tal maneira que o temível julgamento de Deus lhes seja ameaçado; 1 Co 6:10; Gl 5:21; Cl 3: 6; 1 Jo 3:15; Mt 11:21; 2 Pe 2:10. Pois aquele que considera essas pessoas como verdadeiros cristãos, e os encanta e deturpa, não apenas os engana miseravelmente, mas também se torna participante de sua condenação. Is 3:12; Jr 8:11; 23:17; Ez 3:18; 33:8. Agora, a pregação do arrependimento, repreendendo os pecados, é o instrumento e o meio pelo qual Deus quer levar os pecadores caídos de volta ao caminho e convertê-los. Jr 26: 2-3. Mas se o ímpio, negligenciando isso, persevera e continua em sua iniquidade, ele realmente perecerá, mas a palavra do ministro libertará sua alma. Ez 3:19. 



8. Mas e se os caídos se levantarem novamente pela graça de Deus e se arrependerem seriamente? 

Então eles são recebidos com alegria e são restaurados e apoiados com a declaração do perdão dos pecados. Jr 3:12; 18:8; Ez 18:21; 33:15; Mt 18:13, 27; Lc 15:7. Isto é o que os exemplos das Escrituras testemunham, por exemplo, Pedro, Davi, o pródigo, os coríntios e os Gálatas. E isso, de fato, não só sete vezes, mas setenta vezes sete vezes, Mt 18:22.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Sim, somos Ecumênicos!



Este não é um texto meu, mas muito oportuno, traduzi do livreto intitulado "World Conference on Faith and Order. Some Prolegomena to the 1937 World Conference." Esta publicação inclui em seu início esta breve reflexão de um dos maiores teólogos luteranos do século XX, sua análise nos mostra com riqueza por que somos a igreja mais ecumênica dentre todas as denominações históricas, e acima de tudo, para onde este ecumenismo deve apontar.

*Dica de Leitura: "Escritos Selecionados" do Dr. Franz Piper, o livro contém 2 artigos que complementam esta breve introdução com uma riqueza teológica sem igual.



UNIDADE DA IGREJA E CONFISSÃO LUTERANA. 

Pelo professor Hermann Sasse, Universidade de Erlangen. 



I 



Vinte e cinco anos se passaram desde o dia 23 de junho, quando no Salão da Assembléia da Igreja da Escócia terminou a Conferência Missionária de Edimburgo. Foi memorável. Raramente os homens se sentiram, tão claramente quanto os milhares que estavam presentes naquela reunião, que estavam em um ponto de virada na história da Igreja. Era uma companhia, não de entusiastas emocionais, mas de religiosos sóbrios e teólogos instruídos, que então expressaram sua convicção de que uma nova época, uma nova era da cristandade, havia surgido. “Os próximos dez anos”, disse a mensagem da Conferência, “constituirão, com toda a probabilidade, um ponto de virada na história da humanidade, e podem ter uma importância mais crítica na determinação da evolução espiritual da humanidade do que muitos séculos de experiência comum. Se esses anos forem desperdiçados, pode haver destruição que séculos não serão capazes de reparar. Por outro lado, se forem usados ​​corretamente, estarão entre os períodos mais gloriosos da história cristã. ”A cristandade, dizia-se, deve, portanto, dedicar-se com zelo inteiramente novo ao trabalho missionário. A influência econômica e política dos povos ocidentais sobre os do Oriente, dos mais fortes sobre as raças mais fracas, deve ser tal que não atrapalhe, mas corrobore a mensagem missionária. Mas isso pressupunha o cristianismo da vida nacional ocidental, sem a qual a parte cristã da humanidade não poderia cumprir seu grande apostolado ao mundo não-cristão. Foi a essa grande tarefa missionária, a evangelização do mundo, que a grande conferência convocou as forças da cristandade. Foi um chamado para uma nova cruzada. O arcebispo Davidson, de Canterbury, encerrou seu discurso com as palavras de São Marcos 9,1. A citação foi considerada profética. John Mott captou a expressão no discurso com o qual a Conferência terminou. Pode ser que as palavras do arcebispo se mostrem uma profecia esplêndida, e que antes de muitos de nós provarmos a morte, veremos o Reino de Deus vir com poder. “Essas foram as palavras com as quais a Conferência de Edimburgo, a primeira das grandes Conferências ecumênicas deste século, foi encerrada. 

Lembrei-me desses acontecimentos, não por causa de seu interesse histórico no momento, mas simplesmente porque eles podem nos ajudar a discernir quão grandes são as mudanças que ocorreram na história da Igreja nas últimas décadas. Não estou pensando nas convulsões políticas, sociais e econômicas que surgiram da guerra e nas revoluções que se seguiram à guerra, mas apenas na experiência das igrejas. Quão terrivelmente foram desmentidas as esperanças que foram acalentadas em 1910, tanto no mundo anglo-saxão quanto fora dele! Entre o cristianismo evangélico dos anglo-saxões e o da Alemanha havia então e ainda existem diferenças profundas. No entanto, em relação ao significado fundamental do Evangelho e às tarefas da cristandade, essas diferenças estavam longe de serem tão grandes e tão finais quanto se pensava que estavam em Estocolmo em 1925. A profunda divisão entre ingleses e americanos, por um lado lado, e alemães e outras representações no continente, por outro, era essencialmente uma questão de terminologia. No fundo, as opiniões, declarações e atos da Federação Alemã da Igreja eram idênticos aos da Igreja Federal da América Cristã. Ambos, como indicam as afirmações de ambos os lados do Atlântico, estavam igualmente distantes e igualmente próximos do Evangelho do Novo Testamento. Ambos eram igualmente remotos às Confissões do século XVI: ambos foram influenciados em igual medida pelas idéias dos séculos XVIII e XIX. Nos dois lados, a mensagem cristã foi interpretada em termos daquele resíduo lamentável das antigas credendas que o pietismo, o metodismo, o racionalismo e o idealismo mantiveram em uso atual. A resposta para a pergunta "O que é o cristianismo?" Foi procurada não no Catecismo da Reforma, mas nos escritos de Schleiermacher. A tarefa da Igreja era considerada a satisfação da "necessidade religiosa" do homem (R. Seeberg); seu trabalho era educar os homens como personalidades morais e religiosas e, assim, "tornar o mundo um lugar melhor para se viver", essa era a expressão americana ingênua à qual o temperamento alemão preferia termos menos espirituais. Mas se as pessoas falavam do cristianismo da ordem social ou de saturar a vida nacional com o espírito do Evangelho; se a visão no horizonte era a de uma humanidade cristã ou de uma nação cristã, em ambos os casos foi dada adesão ao ideal de Edimburgo, o ideal de um mundo cristão. Essa não era apenas uma crença anglo-saxônica; era, abaixo da superfície, o ideal da cristandade moderna como um todo. 

Poderia essa crença ter sido reduzida ao absurdo mais rapidamente do que era de fato o caso? A época da história da Igreja que então amanheceu não foi uma das mais brilhantes, mas uma das mais modestas. Poucos anos depois que a solidariedade da cristandade e sua obra missionária foram sentidas e proclamadas, essa solidariedade foi irremediavelmente destruída. Em Edimburgo, quando o futuro espiritual e material de outras raças foi discutido, havia uma suposição fixa de que essas raças eram inferiores, e nós somos responsáveis ​​por elas. Com que rapidez esse sentimento de superioridade desapareceu! As relações inter-raciais foram bastante modificadas no último quarto de século, e a mudança é de grande importância para a relação entre povos cristãos e não-cristãos. A atual política do Japão em relação à religião não sugere que o crescente Império do Extremo Oriente satisfaça sua "necessidade religiosa" recorrendo às nações que atenderam à necessidade de uma civilização ocidental. "Vexilla regis prodeunt" foi o hino de 1910: nossos espíritos ficaram sérios desde então. Isto é principalmente devido às coisas que aconteceram entre as nações cristãs. Quem em 1910 poderia ter previsto uma catástrofe como o colapso do cristianismo na Rússia? Nos vastos espaços que ficam entre a Polônia e o Extremo Oriente, isto é, sobre uma parte considerável da superfície da Terra, a organização da Igreja foi aniquilada. O direito e até a possibilidade de existência foram retirados, não apenas de uma Igreja ou de uma forma de fé cristã, mas de toda Igreja e de toda forma de crença em Deus. Este é um desastre que, a menos que a política russa fosse rapidamente revertida, só pode ser comparado a um evento na história anterior da Igreja, e em escala supera até isso: a conquista do norte da África cristã e do Oriente Próximo pelo Islã. O significado do fim da Igreja na Rússia e a catástrofe que ocorreu em toda a Igreja Oriental nem sempre são claramente entendidos. Pensamos nessas igrejas como petrificadas, e assim eram. Mas o que mais poderia ser dito, pelo menos por seus críticos hostis, de nossas próprias igrejas? E não foi grande parte dessa paralisia simplesmente o quietismo do Oriente, resultado de uma história de dezenove séculos remontando, sem as profundas reações e perturbações da história ocidental, numa continuidade que mal podemos apreender à Igreja das primeiras eras. Nem as Igrejas do Oriente ficaram sem vida, mesmo em teologia. É bem possível que nas Igrejas de Moscou, nas gerações recentes, tenha havido mais fervorosa oração do que nas Igrejas evangélicas de Berlim. E mesmo que a Igreja Russa não possa mostrar outra prova de vida além de ter produzido mártires, isso é em si uma coisa notável. Mesmo que nem todos os que foram mortos tenham sofrido por sua crença em Cristo, houve inúmeros martírios reais, mais numerosos do que os das perseguições na Igreja primitiva. Aqueles que em Edimburgo procuraram ver em sua vida alguma vinda do Reino de Deus em glória, não previram acontecimentos como esses. 

O que preferimos ver é uma visão do anticristo andando pela terra. Quem pode ler a história russa e não consegue captar algo daquela melancolia apocalíptica que se reflete sobre a nossa era? No entanto, o que a maioria deveria reconhecer é o fato de que tudo o que o bolchevismo ensinou, acreditou e fez em sua juventude, foi um crescimento que brotou do solo cristão. A mente de Lenin não tinha originalidade; era um eco servil do pensamento da Europa Ocidental. Seja o que for que possamos pensar da veneração russa por Hegel, a convicção subjacente é justificada, a saber, que todos os elementos da doutrina bolchevique foram proclamados primeiro pelas cadeiras dos professores alemães. As forças da total impiedade, da hostilidade a Cristo, da revolta contra todo mandamento e ordenança de Deus surgiram e começaram seu curso de conquista do mundo, não entre os povos pagãos, mas no Ocidente cristão. 

Como Heinrich Frick apontou em um artigo sobre "A Crise da Religião" (Giessen, 1931), as missões cristãs nunca tiveram um sucesso paralelo ao da propaganda anticristã que se originou na Europa e na América "cristãs" e passou por lá para raças estrangeiras. A estabilidade das religiões pagãs foi 'abalada, não pela proclamação do Evangelho, mas por propaganda ateísta. A segunda Conferência Missionária, realizada em Jerusalém em 1928, teve como ponto de partida o estabelecimento desses fatos, tão profundamente a posição da Igreja no mundo foi modificada desde 1910. 

Seria, no entanto, enganoso considerar a Conferência de Edimburgo apenas como um evento histórico que prestou certos serviços à estimativa correta da posição atual da Cristandade, pois, além desses serviços, a Conferência tinha um significado positivo que é discernível até agora. Embora suas profecias não tenham sido cumpridas e seu entendimento da tarefa missionária e sua visão do futuro da Igreja sejam agora inadequados, ainda deixou uma impressão indelével na cristandade moderna, a saber, a consciência de que a Igreja de Cristo está em um ponto crítico de sua história, já que desde o início deste século toda a terra, o mundo inteiro dos povos, se tornou um palco para o drama da história da Igreja. Questões como se o protestantismo alemão pode ser unificado em uma igreja, se nossas instituições se desenvolverão na direção de uma igreja livre ou uma igreja regional e nacional, se as fronteiras entre protestantismo e catolicismo provavelmente sofrerão uma modificação séria, se a Confissão não-cristã ficará lado a lado com as igrejas cristãs, questões como essas são sem dúvida de grande importância para o nosso povo, mas sua decisão não afetará profundamente o movimento mais amplo da história da Igreja. Mas outras questões, a saber, que fé será adotada pelas grandes igrejas que se estendem por continentes em desenvolvimento inteiros agora, se a África deve ser maometana ou cristã, se os povos do Extremo Oriente fecharão suas portas ao trabalho missionário cristão ou não, que relação as novas igrejas, entre outras raças, terão com as Confissões mais antigas: essas são perguntas cuja resposta pode determinar o curso da história da Igreja por séculos. Essas são decisões de importância mundial, como foram as da história missionária nos primeiros séculos da Igreja. 

O significado da Conferência de Edimburgo de 1910 estava nisso, que ensinou a Cristandade Ocidental a ponderar sobre esses problemas. Foi, portanto, o começo do movimento ecumênico deste século. Enfrentou o protestantismo com o problema ecumênico, o problema da busca pela única Igreja de Deus; pois, se o trabalho missionário não é meramente propaganda para uma sociedade religiosa, mas é de fato o que o nome implica, adotar as palavras de Löhe é "um movimento adiante da única Igreja de Deus". Se há uma história da Igreja que é algo mais do que a história das sociedades e personalidades religiosas e é de fato o que o nome indica, é impossível evitar a questão de onde aquela Igreja de Deus se encontra dentro do “caldeirão de erros e violência” que Goethe viu na história da Igreja e onde ela desempenha seu papel no mundo. 

Quaisquer que sejam os erros que a Conferência de Edimburgo possa ter cometido, embora possa ter se perdido em uma interpretação emocional da história, embora possa ter esquecido que a glória de Cristo neste mundo é sempre uma glória oculta, que o Reino de Deus com o tempo nunca é visível em sua glória, mas escondido pela cruz, ainda o grande e memorável evento daqueles dias de verão em 1910 foi este, que no coração e na consciência da cristandade protestante, com suas centenas de divisões de confissões, denominações e igrejas locais, a busca pela realidade da Igreja Una de Cristo se tornou a questão viva. 





II 



Durante a Conferência de Edimburgo, vários delegados da Igreja da Inglaterra e de suas igrejas filhas costumavam se reunir, de acordo com o uso anglicano moderno, para as primeiras celebrações da Eucaristia. Foi em um desses cultos que a idéia de uma Conferência Mundial sobre Fé e Ordem tomou forma pela primeira vez. Seu criador foi Charles Brent, bispo na época das Filipinas e depois do oeste de Nova York, um dos personagens mais nobres da América cristã de nossos dias. Este não é o lugar para um relato histórico da Conferência Mundial sobre Fé e Ordem, que teve início em um ato sinodal da Igreja Episcopal Protestante (Igreja Anglicana nos EUA), em Cincinnati, em outubro de 1910, e, após os trabalhos, esperanças e desilusões de dezessete anos, realizadas na conhecida Conferência de Lausanne de 1927, e agora está planejando uma segunda Conferência para 1937, que será realizada em Edimburgo. Na Conferência Missionária de 1910, o problema da reunião da Igreja entrou repetidamente em primeiro plano; nos países de língua inglesa e especialmente na Missão realizada, sua urgência já era sentida. Brent e seus amigos viram que, nas próximas décadas, seria o problema predominante entre as igrejas ocidentais e no mundo missionário. Dois anos antes, nos Estados Unidos, as múltiplas divisões eclesiásticas daquele país levaram à fundação do Conselho Federal das Igrejas da América. Esse Conselho, por excessivas queixas e inadequado por sua base teológica, fracassou em garantir a adesão das três Confissões com uma base dogmática, a saber, catolicismo romano, anglicanismo e luteranismo. Tomando como palavra de ordem “a doutrina divide, mas o culto une” que havia sido desde Wichern o lema dos “unionistas” alemães e, mesmo fora deles, desempenhou um papel considerável na Alemanha nos anos anteriores à guerra, o Conselho Federal havia estabelecido nas palavras de sua constituição, defender a unidade e a catolicidade da Igreja na América.Os conceitos "Igreja" e "Catolicidade" receberam uma interpretação tão ampla que não deixou espaço para a noção de uma seita. Nota-se que seu interesse é que, mesmo na fundação desta federação, a mais compreensível que se possa imaginar, houve alguma controvérsia dogmática. No esboço original da constituição, o preâmbulo se referia a “Igrejas que confessam crença em Jesus Cristo, o Filho de Deus, nosso Senhor e Salvador.” As palavras suscitaram críticas muito hostis, como envolvendo a adesão a uma concepção trinitária de Deus e a a cristologia dos antigos credos. Portanto, a fim de facilitar a inclusão de mentes unitaristas, a fórmula foi alterada, de modo a falar de "Jesus Cristo, o divino Senhor e Salvador". Essa mudança conquistou aqueles que simpatizavam com os unitaristas, mas alienavam os anglicanos e luteranos, que naturalmente não estavam dispostos a participar de um movimento unionista desse tipo. De fato, que resultado poderia ser esperado quando uma coalizão denominacional baseada apenas na necessidade prática adotasse princípios como esses? Qual teria sido o resultado da transferência dessa concepção da Igreja e sua unidade para o campo Missionário? O que é obra missionária se se deixa de proclamar o “único Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, gerado por seu Pai diante de todos os mundos, Deus de Deus, luz da luz, verdadeiro Deus do verdadeiro Deus, gerado, não criado, sendo de uma substância com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas, o qual por nós homens e para nossa salvação desceu do céu e encarnou pelo Espírito Santo da Virgem Maria e foi feito homem?” Se a obra de missões deixa de proclamar Cristo nesses termos, se vê nesta confissão de Cristo não a expressão do legítimo entendimento das escrituras da Igreja, mas apenas uma fórmula tradicional de teólogos helenísticos que não é mais vinculativa ou uma lei não evangélica de a fé imposta pelos imperadores cristãos da antiguidade, então, apesar de qualquer apelo às escrituras, não passa de uma propaganda de uma sociedade religiosa ou de outra no Ocidente. Não é mais o avanço da Igreja de Deus. A palavra "missionário" torna-se então uma frase retórica. Perde toda a conexão com o apostolado dAquele a quem todo poder é dado no céu e na terra. Um movimento unionista na Missão realizado com base nos princípios do Conselho Federal de 1908, em vez de revelar a verdadeira Igreja que está sendo construída entre as nações, deve tê-lo arruinado. 

Esses são os fatos que explicam o plano da Conferência Mundial sobre Fé e Ordem. A Conferência determinou desde o início que convocasse para a discussão dos problemas da unidade apenas as Igrejas que se mantêm firmes com base nos credos antigos. Essa limitação deu origem a sérias dúvidas em algumas igrejas reformadas, onde os antigos credos perderam autoridade sobre uma grande área, e os professores que, em princípio, negam a Santíssima Trindade e a Encarnação são tolerados e autorizados a pregar, se essas igrejas poderiam participar da Conferência Mundial. Mas, a menos que a evidência aparente seja ilusória, uma reação ocorreu, mesmo nessas igrejas, em relação ao antigo credo; contudo, a Conferência Mundial pode considerar como resultado geral de seus trabalhos de um quarto de século o fato de que em toda a cristandade, onde quer que a questão da união se torne um problema vivo para a Igreja, agora é reconhecido que uma verdadeira união das igrejas somente será possível se a unicidade no credo de Nicéia for pressuposta. O reconhecimento desse princípio foi o resultado mais importante da Conferência Mundial em Lausanne, em 1927. 

Por mais importante que o problema não resolvido da Filioque possa ser para a relação entre as igrejas orientais e ocidentais, o fato de as igrejas que participaram da Conferência Mundial, com cerca de 100 em número, apesar de tudo o que o século XIX teria esperado (mesmo em 1900, a coisa seria impossível) e, apesar de todas as tendências modernistas, declarar o credo niceno a base indispensável do ensino da igreja e do trabalho missionário e ecumênico, é um evento de primeira importância para a história da doutrina. É possível, de fato, que em muitos círculos das Igrejas da Conferência Mundial houvesse alguma obscuridade e ainda houvesse uma compreensão incompleta do rumo dessa decisão. Mas se for levado a sério, como em Lausanne deveria ser levado, então as Igrejas Protestantes do mundo recusaram, em princípio, um lugar dentro da Igreja de Cristo ao modernismo que nega as verdades dogmáticas do credo niceno e o considera como não mais vinculativo. Mesmo que a Conferência Mundial sobre Fé e Ordem não tenha resultado além disso, não se pode negar que o que resultou daquela tranquila hora da manhã no altar da Igreja Anglicana em Edimburgo foi de real importância na história do mundo. 



III 



Sempre se lembre ao crédito da Igreja Anglicana que deixou claro para o protestantismo moderno a impossibilidade de união à parte da unidade na doutrina. Aqueles que estiveram presentes na Conferência de Lausanne têm lembranças angustiantes da maneira como em que em momentos decisivos da discussão, teólogos das Igrejas da Reforma se levantaram repetidamente para limitar a ação desse princípio. Representantes de igrejas cujos pais, antigamente, tinham em vista a pureza do Evangelho, sofreram exclusão da comunhão da Igreja Católica, afirmaram incansavelmente que confissões e doutrinas eram um precipitado teológico e intelectual da experiência religiosa, nada além de secundário: a verdadeira unidade dos cristãos reside na partilha dessa experiência, uma comunidade que poderia coexistir mesmo com diferenças doutrinárias. 

Isso, é claro, era completamente desprovido de sentido. A homoousia do Filho com o Pai, a unidade das naturezas Divina e humana do Redentor, a presença do Corpo e Sangue de Cristo no Sacramento do altar, esses não são o assunto de nossa experiência. Portanto, não pode haver unidade da experiência cristã, transcendendo a diferença dogmática entre arianos e nicenos, entre monofisitas, nestorianos e ortodoxos, entre luteranos e calvinistas. Mas as Igrejas evangélicas, luteranas e reformadas, estavam em 1927 e estão claramente agora tão completamente enredadas nos laços do pietismo e do racionalismo, que não podem se libertar dos clichês teológicos compatíveis com essas tendências. Assim, em Lausane, os teólogos “luteranos” de Göttingen e Berlim e os teólogos das igrejas escandinavas que agora sofrem um flagelo de Deus na forma do Movimento de Grupo, com seu emocionalismo sectário, se levantaram equipados com as armas antigas da teologia de Schleiermacher e Ritschl para combater a batalha da fides qua contra a fides quae creditur. Ninguém ficará surpreso com isso, que observa com que tenacidade o primeiro e o presente, oponentes de Wobbermin e Titius estão travando a mesma guerra. Que poder espiritual deve ter sido a antiga ortodoxia evangélica, quão cego o ódio, como distorcida a consciência de seus oponentes pietistas, se agora, dois séculos depois, nossos estudantes de teologia precisam ser ensinados a considerá-lo o arquiinimigo, embora a Igreja deveria ter aprendido a saber quem são seus verdadeiros inimigos. Mas esse alinhamento de forças contra o que um século atrás foi chamado de misticismo, duas gerações atrás, ortodoxia e hoje é chamado de confessionalismo, ainda luta contra a extinção. É responsável pelo fato de que as Igrejas evangélicas, sobretudo o luteranismo alemão e do norte, não deram a contribuição ao movimento sindical que se poderia esperar deles. Vamos evitar todo mal-entendido. Não faltaram teólogos em Lausanne ou em outras esferas do empreendimento ecumênico, que afirmaram e enfatizaram o ensino do artigo 7 da Confissão de Augsburgo. Mas os luteranos como um todo deveriam ter feito isso com mais insistência. 

A forte posição do Anglicanismo nesta última geração, a grande influência que exerce hoje, mesmo nos círculos luteranos, repousa amplamente sobre esse fato, de que seu programa de unidade da Igreja não foge ao problema da verdade. Talvez a Igreja Anglicana não tenha pressionado essa questão tão a sério como deveria. O anglicanismo certamente está aberto à repreensão justa, que não está claro sobre até que ponto o acordo doutrinário deve chegar e o que hoje deve ser o conteúdo de uma confissão comum na qual as Igrejas poderiam se unir. É possível e até provável que os planos anglicanos de união afundem nesse recife. No entanto, é o mérito inestimável do anglicanismo que ele disse à cristandade do mundo missionário e das terras do emigrante e do colono que, seja qual for a união da Igreja, é antes de tudo uma questão dogmática, desde a busca pela Igreja é a busca da verdadeira Igreja, e o chamado para a união da cristandade é o chamado para a Igreja de Cristo. 

Pois nessas buscas pela unidade não estamos preocupados com outra coisa senão a verdadeira Igreja e a verdade do Evangelho comprometida com a Igreja. Os fatos do campo missionário dão testemunho impressionante dessa verdade. “Quatro locais de culto”, diz o bispo indiano de Dornakal, “ficam a cem metros um do outro em uma cidade indiana. Num domingo comum, nenhum está mais da metade cheio: todavia, cada um tem seu próprio ministro, insuficientemente remunerado, constantemente envolvido em conflitos, não com o pecado e o sofrimento que o rodeia, mas com os supostos defeitos de crença e uso nos outros. Sete sociedades missionárias estão trabalhando em minha área, entre uma população de um milhão. Cinco deles afirmam ser os únicos possuidores da verdade e reivindicam o direito de abrir caminho e fundar igrejas em todos os lugares. Quais são as consequências práticas, para o milhão, dessas condições? A reivindicação do trabalho missionário, de ser portador da verdade redentora do Evangelho, é reduzido ad absurdum. “O anel genuíno, deve-se supor, foi perdido” é o julgamento mais suave que no gentil pagão pode passar. Mas existem outros julgamentos muito diferentes. Aqueles homens que no Pentecostes foram cortados no coração pelos ensinamentos de Pedro, perguntaram “O que devemos fazer?” E receberam a resposta ”Arrependei cada um de vocês e seja batizado...” Quando a pregação missionária de hoje corta alguém no coração, outra pergunta ao mesmo tempo exige uma resposta prática: "Onde e em qual das várias Confissões devo procurar ser batizado?" 

É fácil entender por que uma área missionária como o sul da Índia deve se tornar palco de grandes experimentos rumo à unidade, experimentos que talvez sugiram exemplos a serem seguidos em outros campos missionários em outros lugares. Que solução existe então para os problemas resultantes das divisões confessionais? Meros acordos sobre a ocupação deste ou daquele campo missionário são agora bastante inadequados; eles paliam, mas nunca curam os males da divisão. Tampouco é suficiente que as várias igrejas missionárias mantenham relações entre si em espírito de fraternidade cristã, participando em comum de boas obras ativas no espírito do movimento de Estocolmo. Tampouco pode-se chegar a qualquer tipo de solução certa pelo silêncio quanto às diferenças doutrinárias ou mantendo-as em segundo plano, como sugerido pela Sociedade Missionária de Bremen e outros, que sustentavam que o missionário não tinha necessidade de transplantar as diferenças das igrejas locais para um solo estranho. Isso deu origem apenas a uma "unidade cristã" levemente pietista, que se acreditava ser puramente bíblica, que, contra o metodismo, o batismo, o anglicanismo, o congregacionalismo e o presbiterianismo, parecia apenas acrescentar mais uma à lista de Confissões. Mas qual é a linha certa de desenvolvimento nessas regiões? Devemos nos abster de fazer essa pergunta? Os recém-batizados devem ser deixados não apenas para determinar as formas externas da vida da Igreja, mas também para resolver o problema confessional de novo? Além do perigo real das heresias sincretistas, isso teria apenas o efeito de envolvê-las na fundação de uma nova Confissão. Não seria muito melhor deixar o problema da unidade da Igreja no campo missionário para aquele centro que já possui uma política concreta em relação a ele, a saber, o Colégio de Propaganda em Roma? 

Este exemplo do mundo missionário deve ser suficiente para mostrar quão séria é a questão da unidade do ponto de vista teológico. Exemplos igualmente claros podem ser extraídos de terras recém-colonizadas no Ocidente ou de nossas próprias igrejas. A questão não é como podemos ter sucesso na construção de grandes organizações eclesiásticas influentes e imponentes; é simplesmente aquilo com o qual o mundo nos confronta: o que é a Igreja de Cristo? Qual é a sua mensagem? Não é por acaso que todos os problemas que movem a mente da cristandade hoje convergem para isso. Qual é a mensagem da Igreja? Precisamente este foi o assunto da Conferência missionária em Jerusalém; em Edimburgo, dificilmente se fazia referência a ela; foi pressuposto como familiar, e foi dada atenção à questão de como a mensagem, cujo conhecimento foi assumido, poderia ser comunicada ao mundo. A situação mudou. A mesma mudança é visível em toda a cristandade; o que é pedido não é como, mas o que devemos pregar. Questões de método dão lugar às de substância. O período da psicologia acabou e o da dogmática o sucede. Há muita coisa que aponta para a conclusão de que dois séculos de críticas doutrinárias deixaram os homens famintos por doutrina. 

A Igreja Luterana tem uma tarefa especial, agora que o Movimento pela união chegou a esse ponto. Deve reafirmar e conquistar o reconhecimento de um princípio que a expôs ao desprezo e à acusação de confessionalismo impenitente, a saber, que a verdadeira unidade da Igreja é totalmente impossível sem unidade de fé, ensino e confissão. A solução do problema de divisão no sul da Índia, que tomamos como exemplo, pode ser buscada de várias maneiras: mas todos esses esforços não darão em nada, a menos que e até que uma união na organização se torne uma união na doutrina. E essa união não deve ser apenas um assentimento aos credos antigos: deve ser também aquela em que uma resposta comum seja encontrada para os problemas doutrinários levantados pela Reforma. Este é o ponto em que o anglicanismo precisa da correção do luteranismo. Certamente o consenso quinque saecularis, que concorda com as precisões doutrinárias da Igreja antiga até Calcedônia, é o fundamento indispensável de todo trabalho ecumênico, o pressuposto de qualquer conversa dogmática com outras confissões. Contestar isso é afirmar que Lutero estava errado ao dizer que “os artigos da Majestade de Deus estão acima da controvérsia e da disputa: além do mais, que as confissões evangélicas estavam erradas ao estabelecer a validade permanente dos credos antigos. Mas esse consenso por si só é insuficiente, porque deixa sem resposta os problemas levantados pela Reforma. 

Agora não há Igreja no Oriente ou no Ocidente, Católica ou Protestante, em países com uma tradição cristã de longa data ou na missão realizada, que podem evitar o dever de responder às grandes questões doutrinárias da Reforma com um claro sim ou não: o dever de uma decisão com referência ao credo niceno não é mais Claro. É isso que marca a Reforma de outros eventos da história da Igreja ou do dogma. Pode ser que uma Igreja missionária recém-formada na África ou na Ásia nunca tenha ouvido o nome de Lutero, não saiba nada sobre as confissões luteranas e não possa imaginar o que era a Reforma. No entanto, mesmo uma igreja assim deve decidir por si mesma com um claro sim ou não, se é ou não “sola gratia, sola fide”; se “a única regra e medida pela qual todas as doutrinas e professores devem ser estimados e julgados” é somente a Sagrada Escritura, ou se existe outro padrão de ensino lado a lado ou superior à Escritura. Ela deve decidir as necessidades práticas da exposição bíblica exigir se interpreta as escrituras à luz da Justificação e fazer a distinção entre Lei e Evangelho que essa interpretação exige. Ela deve decidir se ensina ou não a presença real do Corpo e Sangue de Cristo na Santa Comunhão, mesmo deixar essa pergunta em aberto seria respondê-la de forma negativa. Esse significado crítico da Reforma, como um evento cuja estimativa divide uma mente e outra mente e uma Confissão da outra, é uma questão que o Anglicanismo até agora deixou de entender. Considera a Reforma primariamente (e não sem causa) como uma perturbação da Igreja; pois a Reforma inglesa foi acima de tudo uma ruptura com Roma: portanto, a Inglaterra ainda não realizou um festival da Reforma, e agora concordou em celebrar o 400º aniversário da Bíblia inglesa como substituto. Mas a grande missão com a qual as Igrejas evangélicas do Continente são encarregadas, na medida em que são capazes de cumpri-la, é revelar ao Anglicanismo e às Igrejas Livres Inglesas, embora tenham se tornado amplamente da substância do dogma, O que a Reforma realmente era. Eles devem revelar isso não apenas na teoria, mas na realidade da vida e nos conflitos da Igreja: o que era a Reforma, o que as Confissões da Reforma ainda são e por que seria mera reação voltar atrás da Reforma a um estágio da história da Igreja que há muito tempo transcende à chamada Igreja indivisa da antiguidade. Toda tentativa de alcançar a união da Igreja ignorando os conflitos ainda não resolvidos e as perguntas não respondidas da Reforma está fadada ao fracasso. É certo que não pode haver união fora da base dos credos antigos: é igualmente certo que apenas esses não são suficientes. Eles não respondem às perguntas que agitaram a mente da Igreja de Agostinho a Lutero, perguntas que todo sermão hoje deve responder. Aqueles que desejam voltar atrás da Reforma para a "Igreja indivisa da Antiguidade", para restaurá-la e encontrar nela uma via media entre catolicismo e protestantismo, são românticos e utópicos. O grande romântico da Igreja da Inglaterra, John Henry Newman, mostrou aonde esta via conduz: termina em Roma. Qualquer homem que recusa seu consentimento à sola gratia, de maneira voluntária ou não, decide em favor da doutrina tridentina da graça. Qualquer homem que relute em dar sua adesão à sola Scriptura deve em breve dar seu consentimento aos decretos do Vaticano. Buscar um caminho intermediário, nesses pontos entre o catolicismo e o protestantismo, é o caminho do erro; pois as verdades fundamentais apreendidas pela Reforma não são propriedade desta ou daquela tendência ou escola teológica; eles pertencem, ainda que sejam preservados como possessão de uma Igreja confessional, a toda a Igreja de Cristo, à única Santa Igreja católica. 



IV 



É o que as igrejas evangélicas precisam dizer ao anglicanismo, na situação atual do movimento de unidade. Mas o que as igrejas hoje estão em posição de dizê-lo? Naturalmente, a tarefa seria a primeira das igrejas reformadas nos países de língua inglesa, por ex. a Igreja da Escócia. Mas, no momento, parecem estar mais interessados ​​em cultivar relações amistosas com os bispos ingleses do que em proteger sua herança da Reforma. As igrejas alemãs, como não há quem possa falar por elas, devem ficar de lado. O que precisa ser dito não poderia ser pronunciado pela chamada "Igreja Evangélica Alemã", uma vez que, julgada pela doutrina de nossa confissão, não é Igreja, mas, como a "Igreja Evangélica da União da Velha Prússia", é uma coalizão religiosa artificial representando nenhuma doutrina definida ou confissão da igreja diante do mundo. As genuínas igrejas evangélicas da Alemanha, os luteranos e os reformados, estão envolvidos em uma luta exaustiva por sua própria vida corporativa. Quanto mais pesada é a responsabilidade que recai sobre as igrejas luternanas da Escandinávia e do Báltico. Eles estão em estreito contato com a Igreja da Inglaterra. As relações, entre o luteranismo do norte e o anglicanismo, remontam às Conferências de Lambeth do século XIX; depois disso, foram fortalecidos pela política eclesiástica de Nathan Söderblom e, há algum tempo, receberam expressão formal em acordos definidos entre os bispos suecos e os da Igreja da Inglaterra. Esses acordos, relacionados ao reconhecimento de ministérios e à admissão de membros da Igreja sueca ou inglesa, particularmente aqueles distantes de seu próprio país, à 'comunhão' não eram, no sentido estrito, partes da legislação eclesiástica, mas eram principalmente acordos privados dos Bispos quanto ao tratamento de problemas pastorais práticos. No entanto, a recente extensão desses acordos a igrejas vizinhas, como as da Finlândia e da Estônia, a participação mútua em consagrações episcopais e manifestações similares da comunhão da Igreja deram a essas relações um significado marcante e especial. 

Os seguintes fatos devem ser mantidos em vista, se quisermos entender o significado desse desenvolvimento. Todas essas igrejas do norte e do Báltico são igrejas da Confissão Luterana. Eles sempre encontraram uma espécie de pátria eclesiástica na Alemanha. Pois, por mais estreitos que sejam os laços que os vinculem (como toda verdadeira Igreja Luterana) ao seu próprio lar e povo, eles nunca deixaram de lembrar que a doutrina e as ordenanças originais de sua Igreja chegaram a eles no tempo da Reforma de Wittenberg e que eles próprios são igrejas da Confissão de Augsburgo. Mas então veio a apostasia na Alemanha da Igreja Luterana. Por mais de um século, a comunhão luterana não é celebrada no altar da igreja de Lutero em Wittenberg. Essa apostasia da Igreja Luterana atingiu seu ponto culminante em 11 de julho e 23 de setembro de 1933. As medidas legislativas então adotadas, ninguém na época estava plenamente ciente de suas implicações, estavam em contradição com a Confissão Luterana. Os bispos luteranos da Alemanha concordaram com um coração pesado no desejo de encontrar o novo Estado na metade do caminho e evitar qualquer coisa que pudesse levar a uma alienação entre Igreja e Estado. Mas, aos olhos de estrangeiros, não havia mais Igreja Luterana independente da Alemanha. Para que altares, então, as Igrejas Luteranas do Norte devem orientar seus membros a se voltarem, quando estão longe de sua própria terra? Visto que as igrejas reformadas negam exatamente o que torna o sacramento do altar o que é e deve ser, normalmente não há intercomunhão entre luteranos e reformados. Não havia outro caminho aberto para as Igrejas do Norte, a não ser um acordo com os anglicanos, que há muito abandonavam a concepção calvinista da Santa Comunhão. Sobre a questão do reconhecimento dos ministros, é preciso dizer: a Igreja Luterana sempre exigiu que o ministério seja sempre exercido por homens que por ele são justamente chamados. Sempre buscou a legitimidade interior, mesmo do ofício episcopal. Mas essa legitimidade por um longo período foi reduzida a uma ruína. Na Prússia, o título de bispo foi conferido da mesma maneira que o de conselheiro privado. Friedrich Wilhelm IV, um calvinista hereditário e, portanto, membro de uma Igreja que em sua confissão rejeita o episcopado como um pecado contra Deus, esboçou uma hierarquia no modelo inglês da Igreja da Prússia; uma das disposições do esboço era que o arcebispo de Magdeburgo deveria ter uma classificação inferior a Canterbury, mas superior a Upsala. Isso facilita a compreensão de como os arcebispos de Canterbury e Upsala preferiram chegar a um acordo próprio, sobre quem eles reconheceriam ou se recusariam a reconhecer como bispo legítimo. 

O episcopado sueco e inglês tomou medidas oportunas nesse sentido antes da guerra e antes de um senado da Igreja da Prússia eleito por princípios parlamentares ou uma autoridade ainda mais redobrável ter seguido os passos de Friedrich Wilhelm, o quarto. Se hoje for afirmado na Alemanha um acordo com uma igreja católica parcial ou totalmente que, como a da Inglaterra, não é protestante, a resposta das igrejas luteranas no norte e no leste provavelmente seria que não lhes importa muito se eles são protestantes. E, de fato, nenhuma Igreja Luterana, nenhuma Igreja da Confissão de Augsburgo, pode estar muito ansiosa por pertencer ao que a União Protestante, a Federação Evangélica ou essas organizações entendem pelo protestantismo. Se o protestantismo é o que os políticos racionalistas dos séculos XVIII, XIX e XX entenderam e aos quais se orgulham de aderir, então nós luteranos o renunciaríamos tão decisivamente quanto nossos pais abjuraram os fanatismos do século XVI, e, como eles, declararia nossa alegre lealdade à verdadeira igreja católica ortodoxa de todas as eras. Mas o caso não permanecerá assim se este acordo merece ser julgado como não-evangélico. Este será o caso se o episcopado, a sucessão apostólica e a ordenação episcopal de pastores forem considerados algo mais, para a Igreja Luterana, do que uma daquelas tradições e cerimônias eclesiásticas que a Igreja de cada época é livre para introduzir como louváveis ​​ordenanças de homem, para modificar ou substituir. 

Como se sabe, as razões pelas quais o luteranismo alemão perdeu as antigas formas constitucionais católicas eram questões da história externa: elas não envolviam a convicção de que a forma episcopal de constituição é menos bíblica ou evangélica do que o governo da Igreja por consistórios, presbitérios, sínodos ou conselhos de irmãos. Enquanto as Igrejas Luteranas do Norte e Leste se apegarem à doutrina do ministério que está de acordo com sua confissão, e considerarem o episcopado e a sucessão como entre as tradições humanas que não pertencem à essência da Igreja, era portanto, como Söderblom se expressou inconfundivelmente em nome da Igreja sueca, em Lausanne, em 1927, não há objeção a que eles revivam e construam uma constituição dessa natureza. Pode até ser que, nesses tempos, essa constituição possa se provar uma forte defesa para a Igreja, como era a forma presbiteriana clássica das igrejas reformadas na era da perseguição. Possivelmente é por esse meio que as Igrejas nacionais e regionais do Norte e do Leste podem ser salvas de afundar em meras instituições da nação e do estado; pois um ministério episcopal, exigindo o reconhecimento de outros bispos e, portanto, de outras igrejas regionais, proclama por sua própria existência que deixará de ser Igreja se se tornar uma mera instituição do Estado e de sua cultura. O desenvolvimento de constituições episcopais nessas igrejas deve ser entendido nesse sentido. Só pode entrar em contradição com a confissão da Igreja Luterana se a Igreja do Norte deixar de ensinar em termos claros e tornar seu significado igualmente claro para os anglicanos, que a verdadeira sucessão apostólica é a sucessão na doutrina apostólica não adulterada, e que todas as formas externas de ordenação e ministério têm apenas um fim a servir, a saber, preservar essa doutrina no mundo e providenciar que ela seja sempre retirada da fonte das escrituras e proclamada de uma geração para outra. Se chegasse o dia em que as Igrejas do Norte perdessem o controle dessas verdades, quando procurassem a unidade, a catolicidade e o caráter apostólico da Igreja em algo que não fosse a pura doutrina, esse dia marcaria o fim do luteranismo do norte. 

A partir disso, fica claro quão pesada é a responsabilidade neste momento sobre as igrejas luteranas do norte e sobre o luteranismo em todo o mundo. Seria uma ignorância grosseira afirmar que a Igreja Luterana não tem nenhum sentimento pela tarefa de se seguir a união, ou que o confessionalismo luterano é um obstáculo à unidade. Nenhuma das confissões do século XVI entrou em ruptura com o papado tão lentamente ou com tanta dor quanto o luteranismo. Nenhuma Confissão de qualquer Igreja Reformada é tão ecumênica, ou tão generosa quanto os luteranos, em sua visão da presença da única Igreja verdadeira de Cristo, mesmo além dos limites de sua própria igreja confessional. Nenhuma outra confissão promoveu tão pouca propaganda quanto a nossa entre os adeptos de outras igrejas. Apenas uma coisa que a Igreja Luterana sempre se recusou a fazer, e essa recusa trouxe a censura ao “confessionalismo impenitente”; nunca se permitiu pensar que a unidade perdida da Igreja pode ser restaurada sem remover as causas da divisão; nem acreditou na possibilidade de reduzir o número de confissões, fundando uma nova. Mas princípios como esses, que para nós luteranos são impensáveis, estão na raiz de todas as tentativas de união feitas nos últimos quatro séculos. As grandes Confissões do período da Reforma separaram-se da questão: que concepção de revelação, de fé, de justificação, da Igreja está certa e que concepção está errada; qual doutrina é verdadeira e qual falsa. Eles se reunirão novamente em uma genuína união da igreja se e quando estiverem juntos em um reconhecimento comum da verdade; por exemplo. Luteranos e Reformados se reunirão quando tiverem concordado se o Catecismo Luterano ou o Catecismo de Heidelberg (ou nenhum deles) ensina a verdadeira doutrina quanto ao sacramento do altar. É claro que existem outras causas de divisão, diferenças de opinião sobre pontos da ordem e disciplina da Igreja, que levaram a dissidências nas grandes confissões. No entanto, por mais difícil que seja às vezes descobrir a distinção em casos particulares, deve-se fazer uma distinção entre as Confissões como grandes tipos de Igreja, com base em uma base doutrinária definida, e as denominações como grupos especiais nas Confissões. Obviamente, por exemplo, a origem da Confissão Reformada no século XVI não fica paralela à origem da Igreja dos “Discípulos de Cristo”. Se o grande processo de diferenciação pelo qual a cristandade passou desde a Reforma é substituído neste século por um de integração; se a situação da cristandade como um todo exige que as relações mútuas das igrejas sejam coordenadas novamente, teremos de admitir que, até certo ponto, depende da escolha humana se o denominacionalismo, a divisão das confissões em inúmeros grupos especiais, deve persistir ou não. Não é necessário que cem sociedades missionárias trabalhem na China, mas, até onde alguém possa julgar, as grandes Confissões, como existem desde o século XVI, não podem desaparecer; eles terão que viver lado a lado como antes. Nada lhes está aberto senão proclamar sem comprometer a doutrina que eles devem pregar. Num espírito de cavalaria, eles devem lutar um com o outro pelo reconhecimento da verdade. Eles devem estar prontos para abandonar a pátria e a amizade se a voz de Deus, a voz indubitável de Deus, os chama a procurar outro país. Até então, eles devem procurar uma nova relação um com o outro e formar talvez a koinonia ton ekklesion à qual o Patriarca ecumênico convocou as igrejas do Ocidente quando a Igreja Oriental entrou em colapso. Mas as próprias Confissões só podem ser transcendidas se, por meio de uma nova e maior Reforma, o Senhor da Igreja concluir a Reforma do século XVI. 

A contribuição, então, que o luteranismo deve dar ao movimento ecumênico atualmente é o confessionalismo. Por mais paradoxal que pareça, essa é uma contribuição real. A missão da Igreja Luterana é lembrar à cristandade que é inútil falar de qualquer unidade real da Igreja, exceto onde exista o consenso entre a doutrina evangélica e a administração dos sacramentos. Onde isso foi esquecido, a Reforma foi renunciada; e aqueles que seguem esse caminho estão seguindo os caminhos de Erasmo e terminarão na fantasia sentimental ou em Roma. Toda atividade que faz a unidade da igreja será confrontada com essa alternativa, seja ela praticada em uma única região ou em todo o mundo, se esquecer essa doutrina quanto à unidade da Igreja que a Igreja Luterana aprendeu das Sagradas Escrituras e proclamou à cristandade, no sétimo artigo da Confissão de Augsburgo: ad veram unitatem ecclesiae satis est consentire de doctrina evangelii et de administratione sacramentorum.