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segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Os Versos Adicionais em Ester




Notas rápidas após a leitura

Apenas esclarecendo, devemos fazer uma distinção entre a parte canônica e a não-canônica no livro de Ester. Por incrível que pareça, já fomos acusados de renegar todo o livro. Acusações absurdas e nada honestas, diga-se de passagem. De fato, sempre aceitamos o Livro de Ester como parte inspirada por Deus nas Escrituras sagradas, só não podemos dizer o mesmo do apêndice do livro. 



1 – Foi escrito em Grego 

Jerônimo, grande tradutor da Bíblia, atesta que o apêndice não foi escrito em hebraico, sabemos que Josefo sugere que teria havido um texto hebraico do qual o grego teve origem, mas ninguém sabe, ninguém viu. 

Ok, concedemos então que possa ter havido um texto hebraico, sua autoridade é nula, já que não o temos mais para consulta, e por acaso, Deus não preservaria aquilo que ele teria inspirado os profetas, da mesma forma que preservou o restante do livro de Ester? 



2- Desaparecimento Estranho 

Na verdade o apêndice não é apenas na parte final do livro, mas contém porções no começo do livro, outras no meio, outras no final, mas qual a probabilidade de desaparecer apenas estas porções de texto na língua original, ao passo que o livro em si continuou perfeitamente preservado? 

Se tivéssemos trechos faltantes no texto, poderíamos até considerar a ideia do desaparecimento, mas o texto sem o apêndice é perfeitamente coeso. 

No mais, Josefo também não é a fonte para determinar o cânon, e podemos ler uma série de acusações contra a versão de Josefo em Lyra, Sixtus Senensis e Jerônimo. 



3- O Problema da Autoria 

O apêndice chega a nós pela mão de Lisímaco, Josefo, segundo alguns, foi quem incluiu o texto como parte genuína do Livro de Ester. Bom, sabemos que Josefo não era notável por uma autoridade profética, além de que não é provável que um mesmo escritor tenha feito um livro, e depois uma repetição do mesmo livro, contradizendo a história que acabara de narrar. E se foi escrito por um profeta, por que não segue o mesmo padrão da escrita do livro em si? 

Outro problema, o anexo menciona Ptolomeu e Cleópatra, dois que não viveram na mesma época que Assuero e Ester. Eles vieram depois dos eventos do Livro de Ester e depois de Esdras ter organizado o cânon, então não houve profeta naquela época. 



4- O Problema com o Livro de Ester 

No livro de Ester (2:16), o esquema dos eunucos contra Assuero foi no sétimo ano, mas o suplemento (11:2) afirma que foi no segundo, isto coloca o plano contra o rei antes mesmo do seu casamento, mas o livro canônico de Ester nos mostra que foi após. Além disto, o livro canônico de Ester nos mostra que a causa da ira de Hamã foi o fato de Mordecai não se ajoelhar perante ele (3:5), porém o anexo nos diz que foi a morte dos eunucos (12:6) (ok, este até da pra conciliar, mas mudar a narrativa nos levanta sérias dúvidas sobre a confiabilidade do apêndice). 

Seguindo, em 5:2, o rei olhou favoravelmente para Ester, mas no apêndice em 15:10, olhou com ira, alguns tentam explicar isto dizendo que no primeiro momento ele ficou bravo, mas depois teria se acalmado, mas isto também conflita com o livro canônico que informa que o rei a olhou favoravelmente assim que ela entrou, antes mesmo que houvesse uma explicação para uma entrada não autorizada. 

O livro canônico nos diz que os judeus seriam mortos no dia treze de Adar (3:13, 8:12, 9:1), o suplemento joga isto um dia para frente (13:6). 

No Canônico, Hamã é chamado de Agagita (outro nome para os Amalequitas), mas o apêndice diz que era um macedônio (16:10) 



5- Um Problema Ético 

Em 13:14, Mordecai teria se negado a se prostrar para não transferir a honra que cabe a Deus para um homem, mas o livro canônico nunca informou que Hamã queria ser adorado como um deus, e o próprio povo hebreu tem exemplos de prostrações diante de homens como uma forma de honra civil, esta é uma fala que soa estranha ao livro. 



6- Um Problema Histórico 

Não bastasse o fato de Hamã ser identificado como Macedônio, em 16:14 é dito que ele teria tentado transferir o domínio dos persas para os macedônios. O problema é que naquela época os Macedônios sequer eram uma ameaça ao poder da Pérsia e permaneceram inexpressivos até os dias de Felipe, o pai de Alexandre, o Grande, o que é um evento muito posterior aos eventos do livro canônico de Ester. Tão posterior, aliás, que Mordecai teria vivido quase 300 anos, já que 11:4 chega a afirmar que ele foi levado cativo à Babilônia por Nabucodonozor, sobrevivido aos 70 anos de servidão e 220 anos entre os reinados de Ciro e Artaxerxes. 

Poderíamos até apelar para o argumento da longevidade bíblica, se por um acaso, o apêndice já não estivesse cheio de problemas insolúveis na narrativa. 



7- Tira, Põe, Deixa Ficar 

Jerônimo considerou tirar o apêndice (do livro, claro!), Melito, Atanásio e Gregório de Nazianzo excluem o livro todo. Os dois primeiros seguiram a ideia do cânon judaico, Gregório, talvez (e bem talvez), tenha considerado apenas os capítulos adicionais como fora, chamando o livro de Ester (canônico) de “Esdras” na sua lista, como Isidoro chega a mencionar. 

Atanásio chega a mencionar que os judeus tinham canonizado o Livro de Ester, sem detalhes sobre o apêndice, Nicolau de Lyra tira o apêndice (do livro!), dizendo que o apêndice parece ter sido uma adição posterior cunhada por Josefo e outros escritores 

Dionísio, o Cartuxo, Thomas de Vio Cajetano, Sixtus Senensis consideraram o apêndice como apócrifo, Belarmino escreve contra o apêndice e remete sua opinião a Jerônimo. 

Sixtus Senensis chega a comentar que ele sabe da condenação de “anátema” imposta pelo Concílio de Trento, mas que ela não se deve aplicar ao que não pertence ao livro na sua integridade. 

Nenhuma novidade, Montano desconsidera o livro. 



Considerações finais 

Sobre o argumento de que o Texto foi preservado na Septuaginta, que era a bíblia dos Apóstolos e dos Santos Pais: é verdade que o nesta versão, o livro e o apêndice circulavam juntos, assim também como ninguém ignora o fato de que as escrituras hebraicas eram usadas e bem conhecidas, e, portanto, esta adição era conhecida de todos os Pais e de toda a Cristandade. A tese de que a Septuaginta um dia substituiu as escrituras hebraicas é tão absurda, que até hoje se usa o texto hebraico para resolver dúvidas no AT, não o grego. 

Sobre quem apela para a numeração diferente dos livros na bíblia grega, e que este seria o motivo de não lermos isto nas listas de livros dos antigos Pais, lembramos também que Melito, Hilário, Epifânio, Jerônimo e Rufino não numeravam o cânon de acordo com os gregos, mas seguiam a lista hebraica, e os hebreus não tem um livro chamado de “3ª Esdras”, logo, os dois livros mencionados não servem para o argumento da canonicidade do apêndice. 

Sobre alguns dos Santos Pais chamarem este livro de “Santo” – este argumento é realmente fraco, nós chamamos a Bíblia de Santa, e, no entanto, os Santos Apóstolos encheram suas cartas (até mesmo as canônicas) de citações de Menandro, Aratus, Epimenedes, e tantos outros, mas ninguém ousa canonizar filósofos pagãos. E o que dizer de Judas v.4, que cita o livro de Enoque, que é apócrifo e ninguém discute? Ainda assim, chamamos o conjunto de livros de “Bíblia Sagrada” Os Santos Pais também citaram o Pastor de Hermas, que ninguém chama de Canônico, O mesmo ocorre com 4ª Esdras, amplamente citado pelos Santos Pais, mas mantido fora do Cânon. Os decretos dos concílios também são chamados de “canônicos”, mas nem por isto são incluídos no conjunto de livros canônicos chamado “Bíblia Sagrada”, portanto, este testemunho histórico, não confere autoridade alguma. 

O testemunho de Orígenes: ok, é verdade que ele é um autor patrístico importante e ele atesta que o livro todo era lido, mas devemos lembrar que Orígenes sempre alinha seu pensamento aos judeus e ao que está no cânon dos judeus, e até Eusébio atesta isto 

Com todas essas observações, ainda é um bom livro de ser lido com seu apêndice. O que se deve ter por claro é que sobre esta parte acrescentada, ela é útil para instruir em comportamento, não para confirmar alguma doutrina, e por isto mesmo, a sua leitura acompanha a história de toda a cristandade no ocidente. 

domingo, 3 de janeiro de 2021

O Livro de Tobias

 






Algumas notas rápidas sobre a leitura do livro de Tobias: 


1. Não está contido nas fontes hebraicas. 

É dito que tenha sido originalmente publicado no idioma caldeu, mas isto é incerto, e a versão hebraica que temos é feita a partir da edição grega, então tudo o que temos são duas traduções, uma grega e uma latina, sem a língua original para estudo. Analisar um texto sem a língua original para uma base é complicado por si só, afinal, toda tradução é uma traição. 



2. A versão grega não concorda com a latina. 

Lendo a versão grega e a latina, nos deparamos com outro problema: cada uma afirma uma coisa diferente: 

Diz-se que Sara, com quem o jovem Tobias estava prestes a se casar, viveu em Rages (Tobias 3:7), uma cidade da Média, onde Gabael também teria estado (Tobias 4:1). Por outro lado, quando Tobias deixa Ragüel e está prestes a celebrar seu casamento com Sara (Tobias 9:3), ele envia o anjo “a Gabael em Rages” para tirar dinheiro dele e ao mesmo tempo para convidá-lo para o Casamento. Se Sara e Gabael viviam em Rages na Média, que necessidade havia de enviar o anjo para Gabael? Uma solução seria dizer que a versão latina estava corrompida, mas, como afirmar sem poder ver o texto como fora escrito? 

Tobias 1:1 tem coisas em Grego que não estão no Latim, em 1:4, Tem coisas em Latim que não estão no Grego, em 1:7 tem muito mais coisa em Grego que em Latim, e ainda assim, há coisas no Latim que não se encontra no texto grego, e esta lógica se repete abundantemente pelo livro todo. 

Tobias ficou cego aos 56 na versão latina (14:3) e aos 58 na grega (v.2). Teria ficado cego por 4 anos na versão Latina (14:3); na grega, oito (14:2). Ele teve 6 filhos na grega (14:5); na latina, 7 (14:5). O velho Tobias viveu 102 anos na Latina (14:2); 158 na grega (14:13). O jovem viveu 99 na Latina, (14:16); na grega, 127 (14:16). No Latim, Senaqueribe foi morto 45 dias depois (1:24); na grega, 55 dias. Na grega, Jerusalém será desolada e a Casa do Senhor queimada (1:6), mas no Latim, isto já tinha acontecido. Desta forma, se alguém quiser defender que este livro seja canônico, deveria primeiro saber dizer qual dos dois estaria correto. 


Tem algumas coisas que não concordam com a verdade canônica. 


a) Anjo Mentiroso 

Primeiro, em Tobias 5:18, o anjo, o companheiro do jovem Tobit, diz que ele é parente de Azarias e de Ananias, o Velho. Em Tobias 7:3, Tobit e seu companheiro anjo foram questionados por Ragüel de onde eles vieram, e eles responderam: “Dos filhos cativos de Naftali em Nínive”. O anjo, portanto, está mentindo, dizendo que é dos filhos de Israel, que é filho de Azarias e que pertence à tribo de Naftali. No entanto, em nenhum lugar da Escritura canônica há mentira atribuída aos santos anjos. Na verdade, esse é um pecado muito sério. Ok, concedemos que alguns já tentaram explicar que (1) O anjo diz uma coisa; Tobias entende outra. (2) O anjo não apenas chama a si mesmo de “filho de Ananias”, mas também diz que pertence à tribo de Naftali, mas como explicar - ou melhor, distorcer - o fato de o anjo: 

(3) dizer que ele era do cativeiro de Nínive? Os anjos também foram deportados para o cativeiro assírio? 

(4) Tudo isso para não dizer do fato de que uma etimologia diferente é dada para os nomes “Israel” e “Naftali” em Gênesis 30:8; 32:28. (Toda tentativa de alegorizar a fala para dizer que o anjo não mentiu, acaba dando significados aos nomes que diverge do que o livro de Gênesis já atribuiu) 

(5) Em grego, ele é chamado de “filho de Ananias, irmão de Tobias”. Deus é, então, irmão de alguém? 



b) Fumaça exorcista 

Em segundo lugar, em Tobias 6:8 o anjo diz ao Tobias mais jovem: “A fumaça de um coração tirado de um peixe e colocado sobre as brasas remove todo tipo de demônio de um homem ou de uma mulher para que não aproxime-se deles novamente.” No entanto: 

(1) Em “toda a armadura” contra o diabo que os apóstolos prescreveram (Efésios 6:11; 1 Pedro 5: 8), nenhuma menção é feita a esta fumaça. 

(2) Cristo diz o contrário: “Este tipo de demônio não é expulso, exceto por oração e jejum” (Mateus 17:21). Portanto, é falso que todo tipo de demônio possa ser expulso pela fumaça do coração de um peixe. 

(3) Nem mesmo Cristo expulsou demônios “para que nunca mais voltassem” (Mateus 2:43; Lucas 11:24). Na verdade, o diabo que estava atacando Cristo afastou-se Dele apenas “por algum tempo” (Lucas 4:13). 

Com que aparência de verdade, então, o anjo faz sua declaração sobre a fumaça do coração de um peixe, que faz os demônios fugir, para nunca mais voltar? Se os demônios tivessem corpos naturalmente unidos a eles, não seria impossível que as coisas corpóreas os impressionassem por causa de seus corpos. Mas porque eles são corpos espirituais, nenhuma criação corpórea pode causar algo neles. Se algo assim acontecesse, não seria em virtude de tais coisas corpóreas; em vez disso, os demônios fazem isso voluntariamente para manter as pessoas no erro. 

Ok, concedemos que alguns já tentaram explicar que a fumaça representa a oração, mas o texto é claro em colocar a fumaça física e o exorcismo como causa e efeito, e mais, em Tobias 8:2, o anjo primeiro fala de “o demônio posto em fuga pela fumaça”. Mais tarde, então, “Tobias se levantou para orar”. 



c) Anjo Intercessor 

Terceiro, em Tobias 12:15 o anjo é dito "oferecer nossas orações e súplicas a Deus." Esta honra, entretanto, é própria de Cristo como nosso mediador e intercessor (Rm. 8:34; 1 Tm. 2:5; 1 João 2:1). Veja, existe uma relação entre oferecer orações e aceitá-las ou ouvi-las. Atos 10:4: “Suas orações subiram como um memorial diante de Deus.” Isso é explicado no v. 31 da seguinte forma: "Suas orações foram ouvidas." Mas agora, Deus ouve nossas orações pelo mérito mediador e intercessão de Cristo SOMENTE. Esta honra cabe somente a Cristo: que Ele oferece nossas orações a Deus. A Ele se diz: “Tu és sacerdote para sempre” (Salmos 110:4; Hebreus 7:25). Hb. 13:15: “Por meio dele as orações devem ser oferecidas a Deus”, assim como no Antigo Testamento só o sacerdote tinha permissão para oferecer o holocausto (Ex 30:7), o que denota nossas orações (Sl 141:2) que o Anjo do Grande Conselho, isto é, Cristo, em pé diante do altar como nosso mediador e suplicante, oferece a Deus (Apocalipse 8:3). Aqui, concluímos que Cristo é entendido como “O Anjo” do fato de que O Anjo é apresentado como sacerdote e que Ele obviamente é separado do resto dos anjos quando é dito que outro anjo estava diante do altar. Não devemos estabelecer outros mediadores desse Mediador, porque não vamos ao Pai senão por Ele (João 14:6). Para ter certeza, Platão (o Banquete) estabelece os demônios como "os intérpretes e portadores entre Deus e os homens." Mas Agostinho refuta esta opinião (De civ. Dei, livros. 9-10; Confess., livro 10, c. 42). Sabemos que o grande teólogo Dr. Martin Chemnitz também lista entre os deveres dos anjos que “eles oferecem nossas orações a Deus” (vol. 1, Loci, p. 335). Para apoiar essa ideia, ele traz a declaração do profeta em Zc. 1:12, onde os anjos oram por nós, bem como Jó 33:23; Atos 10: 4; e Ap. 8:3. Se quisermos atribuir tal coisa aos anjos, entretanto, teremos que fazer a distinção necessária entre a simples oferta de orações e a oferta propiciatória delas, por meio da qual nossas orações se tornam agradáveis ​​e aceitáveis ​​a Deus. Este ofício deve ser deixado somente para Cristo. Nenhum altar agrada a Deus, exceto Cristo, Seu Filho. 



d) Sete Anjos 


Quinto, em Tobias 12:15 Rafael diz que ele é "um dos sete anjos que estão diante de Deus". Isso está relacionado às fábulas do Talmud porque apenas sete anjos estão diante de Deus e estes também presidem os sete planetas, eles também colocam um anjo especial encarregado de cada dia da semana: A Escritura canônica, entretanto, nada sabe sobre essa responsabilidade dos anjos e reivindica um número muito maior para aqueles que dizem estar diante de Deus. Dn. 7:10: "Milhares de milhares O serviram, e dez mil vezes cem mil se apresentaram diante Dele." 



Controvérsias

Muitos seguem o que diz o Concílio de Trento e consideram este livro como igualmente canônico com os demais e se apoiam no fato de que alguns dos Santos Pais, como Cipriano, Ambrósio, Basílio e Agostinho chamam este livro de “santo”. Entretanto, devem considerar que o contexto é de dize-lo santo como separado dos livros seculares. Afinal, Ambrósio também chama 4 Esdras de “divino” Embora o mesmo concílio não o tenha considerado canônico. Portanto o testemunho dos Pais não é de atestar a inspiração divina e separar canônicos e apócrifos, mas simplesmente separam os livros que compõem a Bíblia dos seculares. 

Sobre as citações dos Pais com referência ao livro de Tobias, também é de se notar que é recorrente ao comentá-las, valem-se de citações que estão presentes em livros canônicos de igual modo. 

Um ponto interessante de se notar é que Jerônimo o classifica como apócrifo, e em grande parte, os defensores do Concílio de Trento tentam defender que ele é de uma época em que o Cânon não estava decidido, o que justifica seu erro, entretanto, o mesmo grupo tende a usar os Santos Pais anteriores ao próprio Jerônimo como autoridade dizer qual a verdadeira lista de livros da Igreja. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A Forma do Batismo


 E assim foi feito, uma enquete rápida entre amigos e este resultado, que de certa forma reflete bem a divisão do Cristianismo em nossas terras. As linhas pentecostal e batista mantiveram sua afirmação de que o batismo deve ser somente pela imersão ao passo que os protestantes históricos, presbiterianos, luteranos, católicos romanos mantiveram a  afirmação de que o batismo pode ser realizado de outras formas.
 Para que se possa resolver tal questão, cabe uma pesquisa então sobre o que seria o ato de batizar, não apenas em seu sentido formal, mas especialmente, como esta palavra era efetivamente entendida na época em que o texto bíblico foi escrito.

O que é batizar? 


Começamos então relembrando que o Novo Testamento foi escrito em um ambiente de cultura grega muito forte, basta ver que a maioria dos nomes citados na Bíblia no Novo Testamento não são nomes gregos, o próprio texto bíblico é originalmente escrito em grego. O que a cultura popular da época falava sobre isto então?

Na época em que o NT estava sendo escrito, na Grécia vivia o filósofo Plutarco, que, com frequëncia usava o termo "baptismon" para o ato de se mergulhar o copo em um odre de vinho. Platão, por outro lado já empregava o termo em sua obra "Eutidemo" no sentido de alguém estar sobrecarregado de perguntas.
Por esta praxe já vemos então que o entendimento histórico da palavra batismo não era exclusivamente de mergulhar algo.

Na leitura do Santo Evangelho segundo Marcos, lemos que os fariseus lavavam as mãos antes de comer. Niptein era comumente usado quando apenas uma parte do corpo era lavada, não o banho total do corpo. Mas nessa passagem o lavar parcial também é chamado de batismo, de maneira que se apenas parte do corpo é lavada temos um verdadeiro batismo: 

Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar (νίψωνται) as mãos muitas vezes; Marcos 7:3 
E, quando voltam do mercado, se não se lavarem (βαπτίσωνται), não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas. Marcos 7:4 

Assim, o texto nos mostra que, muito embora “batismo” seja associado à submersão, o texto bíblico o usa também para expressar o lavar parcial do corpo, sem diferenciar a extensão do corpo em que se aplica a água. O texto de Lucas 11:38 também reforça esta ideia, aplicando a mesma fórmula, portanto, temos que batizar não implica apenas na imersão total do corpo em água, mas de forma parcial também e indistintamente.

Mais adiante, lemos no texto aos Hebreus sobre diversas abluções, ou seja, batismos: 
Consistindo somente em comidas, e bebidas, e várias abluções (βαπτισμοῖς) e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção. Hebreus 9:10 

Cientes então de que abluções são literalmente batismos pelo texto, devemos então conferir, também pelo texto bíblico como estes batismos eram feitos: 

O homem puro aspergirá o impuro ao terceiro e ao sétimo dia e o purificará no sétimo dia. Lavará as suas vestes e a si mesmo, e à tarde será puro. Números 19:19 

Desta forma, o texto bíblico tem mostrado que de acordo com as normas das abluções descritas no capítulo 19 de Números, temos que a algumas formas são pela imersão propriamente, como o purificar das vestes, e outras formas são pela aspersão de água.

O que temos nos texto de Hebreus 9:10 é que tanto a ablução de imersão em água quanto a aspersão são chamadas pelo texto bíblico de “batismo”. Este é um ponto relevante. Não se trata de erro de escrita, ou má colocação de palavras por parte dos autores bíblicos. Se o Cristão reconhece que a Bíblia é a Palavra de Deus e que foi escrita pela inspiração divina, então creremos que toda a Escritura é perfeita em seu ensino. O que temos então é o texto bíblico mostrando que a palavra “batismo” inclui o lavar parcial do corpo e a aspersão tanto quanto a imersão completa, sem fazer diferença entre os termos e na corrente oposta, temos uma corrente que afirma que a palavra “baptizein” no grego significa apenas imergir, e portanto, declarando que somente a imersão completa é válida. Para mim, já me daria por satisfeito entre ter que escolher entre uma tese que é explicada por alguns apegados a um dos sentidos apenas da palavra e de outro lado o texto bíblico mostrando que existe outro uso para o termo. A escolha me parece óbvia. Se o texto inspirado das Escrituras chama de batismo o aspergir e o lavar parcial do corpo, é para mim o suficiente para entender que a palavra tem um significado mais amplo. 

Mas o texto não termina neste ponto, podemos ir mais além: 

E eu, em verdade, vos batizo (βαπτιζω) com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará (βαπτισει) com o Espírito Santo, e com fogo. Mateus 3:11 

Novamente o texto bíblico nos aponta que o Espírito Santo vem com um “batismo”. Então vejamos biblicamente a forma como ele veio: 

Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Atos 2:3 

O batismo não foi uma imersão neste texto, mas um derramamento sobre cada um. 

Desta forma, não há, biblicamente falando, uma única forma de se usar o termo “batismo”, este termo não indica apenas a imersão, mas também indica o lavar parcial do corpo, a aspersão, o derramamento, ainda temos uma forma sui generis, em 1 Coríntios 10.2, um batismo feito por Deus de forma singular: 

todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; 1 Coríntios 10:2

Ao atravessar a nuvem e o mar todo o povo foi batizado. Neste texto é patente que nenhum do povo foi “submerso” no mar, o texto nos informa que cruzaram com os pés secos, não houve sequer uma pessoa que fosse submersa que seguia com Moisés, mas todos receberam o batismo ao passar pelas águas. 

Temos portanto, pelo texto bíblico, uma exposição clara de que, ao contrário do que querem alguns, batizar não exige uma forma específica e a própria Palavra cita diversas formas como este batismo pode ser realizado. O que temos, de certo sobre o batismo é que ele deve ser feito com água, assim como João batizou com água (Jo 1.33), Filipe batizou o eunuco com água (At 8:36), Pedro batizou Cornélio com água (At 10:47), Paulo chama o batismo de “lavar de água pela Palavra” (Ef 5:26), Cristo diz que devemos nascer pela água e pelo espírito (Jo 3:5). 


Mas o que diferencia o batismo de um banho? 

Ao passo que o banho é mero ato de higiene e é repetido com tanta frequência quanto se sinta necessidade, temos que o batismo é uma instituição divina: 

Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. Mateus 28:19,20 

O batismo de Cristo é aqui colocado de modo completo como deixou sua aplicação definida: 

Alvo: discípulos (portanto pessoas somente, que creem na mesma fé e sua família) de todas as nações 

Modo: “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (portanto quem batiza deve crer na trindade divina e ensinar de mesmo modo) 

Tempo: “Até a consumação dos Séculos” esta ordenança é permanente para os cristãos. Enquanto durar a missão de fazer discípulos, enquanto houver mundo, o batismo deverá ser praticado. 



O que torna o batismo inválido? 

Sabemos que, uma vez sendo participantes das promessas de Deus, ele nos segura com mão firme: 

Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Romanos 8:38,39 

Então, temos uma segurança enorme, podemos até cair, mas aquela união com Cristo na qual fomos revestidos em nosso batismo não se quebrará assim. O batismo testemunha mais da imutabilidade de Deus que de nossa própria constância. Enquanto a Ceia do Senhor é repetida várias vezes “fazei isto todas as vezes...”, Cristo nunca nos direcionou no sentido de necessitarmos de um novo batismo. 

Se sabemos, portanto, que uma vez unidos a Ele temos segurança, logo, apenas uma coisa pode invalidar o batismo: Que ele tenha sido apenas um banho. Se o batismo não nos revestiu de Cristo e não fomos batizados verdadeiramente para dentro de toda a promessa de vida e salvação do Evangelho. 

Vocês receberam o Espírito Santo quando creram? " Eles responderam: "Não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo". "Então, que batismo vocês receberam? ", perguntou Paulo. "O batismo de João", responderam eles. Disse Paulo: "O batismo de João foi um batismo de arrependimento. Ele dizia ao povo que cresse naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus". Ouvindo isso, eles foram batizados no nome do Senhor Jesus. Atos 19:2-5

Aqui temos o único exemplo bíblico de um banho apenas: um grupo que foi batizado, mas não em Cristo, nem no Espírito Santo, foram batizados fora da fé cristã que confessa e crê num único Deus em Trindade. Eles então, embora tivessem contato com algumas coisas sobre o perdão divino, não tinham recebido as promessas do Evangelho em suas vidas. 

O Apóstolo Paulo, instruído divinamente, percebeu que estes homens não haviam sido batizados validamente, e assim, os batizou conforme Cristo havia deixado.

Portanto, um batismo “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” será sempre válido! Isto é segurança!

terça-feira, 17 de julho de 2018

Bultmann e os mitos sobre Jesus



Antes de mais nada, já adianto, este artigo terá uma vocabulário um pouco mais técnico. 

Uma famosa obra teológica neotestamentária do século XX, Escrita por Rudolf Bultmann, como se bem sabe, colocou ensinamento de Jesus deliberadamente de lado, vendo-os como pressuposto da teologia neotestamentária e não como parte integrante de seu conteúdo, dispensando-lhe, por isso, atenção mínima em sua discussão. 

Há, é claro, um sentido específico no qual ele está certo. Se estamos escrevendo uma teologia do Novo Testamento, e Jesus não foi autor de nenhum de seus livros, logo, podemos concluir que o pensamento e o ensinamento de Jesus não são o pensamento e o ensinamento dos autores neotestamentários. Da mesma forma, ao incluir em sua obra uma discussão bem mais profunda acerca do querigma das igrejas primitivas e helênicas, ele coerentemente também classificou esse tópico como um dos pressupostos e temas da teologia do novo testamento e não como uma das partes da própria teologia. 

Entretanto esse argumento pode ser refutado com base na observação de que os ensinamentos de Jesus foram inseridos no Novo Testamento pelos autores dos Evangelhos. Eles consideravam ser a sua tarefa relatar grande parte de que Jesus havia ensinado e ao fazê-lo, aceitar esses ensinamentos como parte integrante de sua própria mensagem. Nós também devemos seguir por esse mesmo caminho. Em um livro que estuda a teologia do novo testamento, a ênfase deve recair sobre os ensinamentos de seus verdadeiros autores. Porém também deve ser dada atenção à figura do próprio Jesus na medida em que ele foi uma das fontes principais do pensamento dos Evangelistas. 

No Entanto, de que forma isso deve ser feito? Devemos destacar aqui que os Evangelistas consideraram importante não apenas registrar os ensinamentos de Jesus, mas também apresentar em seus Evangelhos, de forma mais profunda e tematicamente organizada, a história da vida de Jesus, ou melhor, as partes de sua história que entenderam relevantes para suas audiências. É altamente significativo o fato de que existem cristãos que sentissem necessidade de deixar registrada a forma como eles viam entendiam a vida de Jesus, isso numa época em que muitas das epístolas já haviam sido escritas e algumas já eram presumivelmente conhecidas em outros locais, além de seus destinos originais. Consequentemente, Isso mostra que, embora houvesse teólogos entre os primeiros cristãos, como São Paulo, a falta de informação a respeito da vida e obra de Jesus deixava extremamente insatisfeita a Igreja primitiva, que desejava ver a teologia das epístolas dentro de um contexto mais amplo, ou seja, em uma integração com a vida e os ensinamentos de Jesus realizada pelas obras teológicas que hoje conhecemos como os Evangelhos. Assim, o Jesus histórico e os seus ensinamentos foram inseridos no Novo Testamento e, portanto, em sua teologia por meio fundamentalmente dos Evangelhos. 

Poderíamos dizer então que Jesus histórico é relevante para teologia do novo testamento em 3 níveis: 

Primeiro: Jesus, mais que qualquer outro que se possa imaginar é a figura histórica cuja obra e mensagem constituem a base e a formação da configuração da igreja. Desse modo, Jesus tem direito de ser ouvido por aquilo que representa. 

Segundo: a atuação histórica do mestre é o ponto de partida de todo o cristianismo de toda prática e pensamento Cristão, portanto nada mais apropriado do que um estudo sobre a influência de Jesus. Nesse sentido ele é o pressuposto da teologia de seus seguidores. Podemos aqui dizer que este foi o ponto sobre o qual Bultmann se deteve em sua análise, talvez até certo ponto, um pouco do primeiro, mas não na exata extensão do registro Bíblico, uma vez que seu revisionismo exclui material que ele atribuiu a supostas fontes cuja existência ou entender cristológico sequer pode ser traçado. 

Terceiro: Jesus é o tema da reflexão dos Evangelhos, logo as obras dos Evangelistas devem ser vistas como parte significativa na busca por uma teologia do novo testamento. 

Considerando-se esses três níveis, o tratamento que Bultmann conferiu a mensagem de Jesus restringiu-se apenas ao segundo nível e ele, de alguma forma, deu um jeito de omitir o terceiro nível, fornecendo um clássico exemplo de como matar com êxito a teologia neotestamentária. Bultmann, por fim, ao invés de analista dos documentos da igreja primitiva, projeta para sua obra seu ceticismo com relação à maior parte dos registros existentes e sua convicção de que história das realizações de Jesus era irrelevante para a fé cristã. Para ele, o que realmente importava e os desafios existencial das poucas palavras que poderiam ser seguramente atribuídas a Jesus. 

Assim, continua existindo uma grande divergência entre estudiosos e dogmáticos que defendem que os Evangelhos sinóticos oferecem um panorama bastante confiável sobre a forma como Jesus agia e falava, e estes revisionistas que sustentam serem duvidosas as narrativas dos Evangelhos, sustentando que há alguma diferença substancial entre o Jesus histórico e o presente na narrativa Bíblica. 

Deve-se discutir a teologia de Jesus da maneira como nos é apresentada pelas Evangelhos, com base no sólido pressuposto que as apresentações de Jesus que encontramos nos Evangelhos sinóticos são próximas o suficiente da realidade histórica de forma a compreender a sua mensagem e missão. 

Evidentemente, Bultmann, que encabeça este artigo não é o único que por estes fundamentos desvia seu olhar da ortodoxia mediante falsos pressupostos, pode-se entre erros similares enumerar uma lista de críticos, revisionistas e similares. Entretanto, em que pese o nome destes autores, o mero pressuposto da construção de uma teologia neotestamentária torna suas particulares desconsiderações da mensagem evangélica seu maior erro. Neste intuito para este artigo breve, contive-me a analisar o pressuposto revisionista da “desmitificação”, nos termos do próprio Bultmann apenas de um ponto: o elemento humano das Escrituras. A simples menção da inspiração divina sobre os Evangelhos, especialmente como professada nossa fé na suggestio litteralis (inspiração literal) das Escrituras, já desclassifica o método crítico em toda sua gama.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Apologética, A Matéria do Diabo!



Antes de começar meus estudos em Teologia, era assim que muitos me advertiam sobre o que eu deveria estudar. Uma matéria de nome feio “Apologética” que era feita só para testar a fé dos futuros pastores. Era ali que quem não estivesse firme iria cair. 

Enfim, comecei meus estudos e pouco vi sobre isto, mas o suficiente para ver que meus amigos tinham uma visão um pouco exagerada sobre o tema. 

Vieram os mestrados, e isto implicava que quase metade da grade em um mestrado em Estudos Bíblicos seria em apologética. Eu finalmente teria que encarar esta matéria de frente. Será que era realmente tão ruim assim? Até lá eu ainda me perguntava. 

Começaram os estudos, isto era por volta de 2012, e com a graça de Deus tive excelentes professores, que cuidaram justamente de tratar esta questão antes mesmo de entrar na matéria. 

Voltando um pouco em Aristóteles, o homem tem algo que é ao mesmo tempo uma benção e um peso: Somos animais sociais! Diferente dos animais gregários, onde seres da mesma espécie convivem, somos sociais, pois além de manifestarmos o que nos é necessário para sobreviver, temos qualidades sociais: a ética, a estética, cultura, valores, preceitos sociais, etc... e nos tornamos dependentes desta interação também. 

Nós tendemos a nos tornar semelhantes aos que nos rodeiam, tanto para o bem, quanto para o mal, e por isto, Deus nos diz, pelo dedo de Salomão: “Aquele que anda com homens sábios será sábio, mas um companheiro de tolos será destruído.” Pv 13.20. De igual modo, nosso Senhor, inspirando a 2 carta de João assim nos deixa: “Se alguém chega a vocês e não trouxer esse ensino, não o recebam em casa nem o saúdem.” 2 João 1.10. 

O motivo então se torna claro: Somos seres humanos imperfeitos, temos uma forte tendência em nós de nos tornarmos semelhantes aos que nos rodeiam. Desta forma, nos organizamos em grupos. Temos a família, o grupo dos amigos com a mesma opinião política, o grupo da academia, a panelinha na escola, o grupo da igreja. Nossas redes sociais são organizadas em grupos por interesses semelhantes, hoje, uma corrida pelos grupos de WhatsApp já revelam muito de nossos interesses. 

Então a fórmula parece simples: quem quer aprender de Cristo, busque quem tem interesse semelhante, e todos caminham juntos na mesma direção. Quer se aprofundar, junte-se a um grupo de estudantes de teologia ou de pastores que poderão ser boas referências. Quem não ajunta, espalha! Cristãos unidos, jamais serão vencidos! 

Aí vem a tal matéria do diabo, aquela de nome feio: “apologética” e bagunça tudo. Se estamos bem entre nós, então, para que colocar algo para fazer o meio de campo entre o nosso time e os demais? Já não basta o número destes “apologistas” que deixaram a nossa fé por se envolverem demais com o outro time? 

Os últimos séculos marcaram uma época onde filosofias anticristãs floresceram por toda a sociedade por onde o cristianismo se espalhou. Filosofias em que o homem é elevado à posição de Deus é a grande corrente de pensamento da atualidade. É o fundamento de praticamente todo o modo de pensar e educar. Quando um aluno deixa a escola, ele já tem em si uma carga de centenas de conceitos contrários à fé, que para os jovens, é em si um peso sufocante. Nenhum ser humano pode dar resposta a todo e qualquer questionamento, mas com a ajuda do método apologético, um cristão mais experiente pode ajudar a este outro, em crise. Conhecendo-se a base do humanismo, pode-se esclarecer grande parte dos questionamentos, por exemplo. 

Não há pessoa que não enfrente problemas, questionamentos e medos de toda espécie. Tais realidades não se superam apenas por ignorá-las. Isto também se aplica à fé. Ignorar os questionamentos como se fossem irrelevantes não irá fazer com que desapareçam, principalmente quando os questionamentos surgem, como sempre foi no caso do cristianismo, de pessoas altamente estudadas. 

A Apologética cristã é o ramo da Teologia do Cristianismo que lida com a defesa da fé. É uma atividade totalmente bíblica porque foi aconselhada e demonstrada em diversos contextos nas Escrituras. Por exemplo: 

“Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós,"I Pedro 3.15 

Praticamente todo o livro de Jó é uma Apologética da justiça de Deus em relação aos homens. Em face da oposição dos aliados de Jó, este levanta as razoes de sua lealdade e confiança em Deus. Ele esclarece que seu Deus não era como os deuses dos povos ao seu redor, estabelece sua fidelidade para aqueles que confiam no Deus único. Os Salmos 14 e 19 também são de caráter apologético. Romanos 1:20 confirma quando diz que as coisas visíveis o testemunho do Deus invisível. A mensagem do Espírito através de Paulo em Atos 17 é outro exemplo de discurso apologético, que foi usado para pregar aos Atenienses. 

Uma leitura dos escritos de caráter apologético da Bíblia e dos pais da igreja mostra que a natureza dos ataques mudaram em cada geração, e que a resposta tinha que ser adaptada para atender as necessidades de cada geração. Apesar de esta abordagem mudar de ênfase, o propósito da apologética manteve-se inalterado durante todo o tempo. 

Apologética Cristã é um tema em constante desenvolvimento, com argumentos a cada dia se tornando mais e mais sólidos. Em um assunto de rápida expansão como este, as pessoas muitas vezes podem negligenciar o papel desempenhado pela Apologética. 

A Apologética cristã é uma disciplina em rápido crescimento. Assim, muitos cristãos ainda não entendem ou confundem o papel, propósito e contribuições da apologética. Deve-se tomar muito cuidado em observar o que a apologética se destina a fazer, e também o que não se destina a fazer. 

As Escrituras são perfeitamente capazes de autodefesa. Ela tem sobrevivido aos ataques com sucesso por quatro mil anos, enquanto os críticos e suas afirmações foram passando. Assim, o propósito da Apologética não é dar uma mãozinha às Escrituras, mas para ajudar o investigador sincero. Assim, a defesa da Bíblia é apresentada, não para a preservação das Escrituras, mas preservar a mente do pesquisador de suas dúvidas. 

DEBATES PÚBLICOS COM PESSOAS HOSTIS:

E isto se aplica muito aos que se dedicam às redes sociais onde os debates sejam públicos. O objetivo da apologética cristã não é ganhar debates, mas o apuramento da verdade. Nossa geração é conhecida pela falta de tempo para ouvir os debates prolongados. Cheios de pessoas superficiais, e de palavras carregadas, os debates acalorados em meios públicos tendem a não ser da mesma eficácia que um dia já foram. Em meio ao debate acalorado, não é uma boa estratégia para a discussão de verdade espiritual. Assim, convém ao apologista evitar debater em público, exceto em se puder debater com um grupo razoavelmente maduro composto por um pequeno número de debatedores dominado por um verdadeiro espírito de investigação. Além disso, o outro lado do debate deverá ser apresentado por uma ou mais pessoas que não são dadas as palavras carregadas ou ao ridículo. Pessoas que são dadas ao desprezo gostam de manipular a opinião, não como as Escrituras nos orientam, em mansidão, mas de tal modo que elas podem transformar a opinião pública contra o apologista pelo ridículo, embora eles não tenham nada de substancial a oferecer. 

Então vale a pena expor questões de fé na internet? Minha avaliação é que a grande Graça das redes sociais, seja por blog ou páginas pessoais, é que podemos deixar tudo escrito, e isto serve, em primeiro lugar a nós mesmos, e, a exposição pública, pode atingir um número de pessoas que cada vez mais, tem usado as redes sociais para esclarecer dúvidas. 

Então, Apologética é do diabo? Não! É uma matéria voltada para o homem, onde buscamos entender as dúvidas e os ataques ao cristianismo e oferecer uma resposta racional. 

Mas, e aqueles famosos apologistas que se “desconverteram”, deixaram a igreja e tudo o mais?
infelizmente, muitos, na busca sincera de entender o outro lado dos argumentos, entraram de cabeça em posições que tentavam combater, beberam muito da água que tinham a oferecer, mas não alimentaram a sua própria fé em meio aos seus irmãos. Um abismo chama a outro abismo, até que alguns passaram a negar a fé que tanto buscavam defender. Isto não torna esta matéria “do diabo”, mas nos alerta sempre que todo aquele que quer se dedicar à apologética cristã não deve se deixar influenciar pela conduta dos pecadores, nem se deter na roda dos escarnecedores, seu prazer não está em vencer um debate, mas em meditar na lei do Senhor (Sl 1.1,2)

terça-feira, 3 de abril de 2018

A TEORIA DO CATACLISMA E A CRONOLOGIA BÍBLICA


Este artigo de hoje confesso é que essencialmente técnico, ele não foi escrito para ser uma postagem de Blog, mas trata-se de um antigo artigo publicado em meus tempos de mestrado. Desta forma, segue-se o texto tal como foi publicado. Seu objetivo é abordar em parte a questão das datações arqueológicas em contra-partida com os relatos bíblicos:


A TEORIA DO CATACLISMA E A CRONOLOGIA BÍBLICA

NATHAN DA SILVA BUZZATTO


INTRODUÇÀO
Um dos motivos para a crise moderna dos cristãos é que a história da Terra segundo os geólogos não é compatível com a cronologia bíblica. No caso de o relato bíblico ser plenamente confiável, o tempo do planeta resultaria sendo muito mais novo que a ciência moderna costuma presumir. Os livros modernos assumem que o carvão e o petróleo são formados ao longo de milhares de anos pela deposição gradual e uniforme de plantas, animais, algas e microorganismos ao longo de incontáveis gerações e que forças geologias, trabalhando de forma uniforme, enterrou estes depósitos e transformou a matéria nos combustíveis modernos.
Desta divergência cronológica, muitos têm ignorado o trabalho científico afirmando que Deus simplesmente criara o carvão e o petróleo tendo em vista sua utilização pelos homens. Entretanto, se pensarmos em uma hipótese de criação centrada no homem questões controversas surgirão, como: Por que ele não fez algo que poluísse menos? Porque há isótopos radioativos que nos permitem fazer armas? Não significa dizer que a criação não teve em vista o homem, mas extrapola-se o argumento afirmar-se que cada aspecto natural tem em vista a vida humana ou que tudo o que foi criado seria usado pelo homem de uma forma que agrade a Deus.
Muitos ainda tem levado o argumento em outra direção, sugerindo que o carvão e o petróleo apenas aparentam ser antigos porque Deus quis confundir os sábios. Isto é um remanescente do passado quando se acreditava que fósseis eram invenções do diabo ou experiências fracassadas do Criador[1].
O problema com estes posicionamentos é que ambos ignoram um fato importante: o mundo atual não é igual ao mundo que Deus criou. A Terra passou por diversos cataclismas, relacionados direta ou indiretamente com as ações da humanidade (Gen 6:17). Em todo o caso, um dilúvio de proporções épicas ou  outro grande desastre natural poderia explicar a formação em grande escala de depósitos de carvão e petróleo

A TEORIA DE JAMES HUTTON

Cerca de duzentos anos atrás, James Hutton sugeriu que “o presente é a chave para o passado” acreditando que as características geológicas encontradas hoje se formaram por processos geológicos uniformes. Logo, se estes processos foram tão lentos no passado como o são atualmente, os registros geológicos rochosos deve ter levado milhões de anos para se formar. Assim, não apenas as leis da natureza devem ter agido de forma imutável no tempo e no espaço, como também qualquer possibilidade de intervenção sobrenatural seria descartada, numa visão chamada de uniformitarismo, que passou a dominar a geologia[2].
Sobre este método, conforme Hooykaas,
O uniformitarismo estrito pode, com frequência, ser uma garantia contra fantasias pseudo-científicas e meras conjecturas, mas também faz com que facilmente nos esqueçamos que o principio da uniformidade não é uma lei, Enem uma regra feita com base na comparação de vários fatos, mas um princípio metodológico, que precede a percepção dos fatos... por se explicar o passado com base no presente, é posto um limite às conjecturas pois há apenas um modo pelo qual as coisas podem ser iguais, e uma infinidade de formas de se suporem diferentes.[3]

Considera-se assim, que não se pode fazer do uniformitarismo um padrão científico, posto que ele observa a experimentação, e, como padrão metodológico está sujeito à apreciação quanto à pertinência na análise científica, como bem expressou Gould ao comentar Lyell, concordando com Hookyaas, que a “uniformidade do processo”é uma suposição e como tal, é uma presunção metodológica  compartilhada pelos cientistas, não uma lei do mundo empírico[4].
Em sua publicação científica de 1965, Gould reduziu o uniformitarismo a duas interpretações somente: uma metodológica e outra substantiva[5]. Ele dispensou a primeira forma, que presumia a invariância espacial e temporal das leis da natureza como sendo  além de qualquer debate, absurda. A segunda, considerou injustificada limitação ao inquérito científico, já que restringe as condições geológicas às do presente, considerando o uniformitarismo como desnecessário.
Esta teoria, originalmente foi proposta para se contrapor ao catastrofismo, que postula que o passado distante consiste de épocas paroxísmicas interpostas a períodos de relativa tranqüilidade[6].
Especialmente na virada do século XIX para o XX, o impacto das catástrofes era o tema central dos debates entre os geólogos, principalmente sobre o caso da formação do deserto do estado de Washington, EUA pelas catastróficas enchentes glaciais de Missoula. Um importante resultado destes debates foi a re-clarificação de que, enquanto os mesmos princípios arqueológicos ocorrem no tempo, eventos catastróficos ocasionais geram importantes conseqüências geológicas.
Num esforço de junção das idéias, Derek Ager observa:
Geólogos não negam o uniformitarismo em seu sentido verdadeiro, o que vale dizer, interpretar os eventos passados pelos processos presentes, desde que nos lembremos que catástrofes periódicas é parte destes processos. Essas catástrofes aparecem mais nos registros estratigráficos do que até hoje se tem assumido[7].

De forma geral esta teoria anda é predominante, muito embora geólogos modernos sejam mais abertos a Teoria do Cataclisma para explicar grandes eventos como a extinção dos dinossauros.
Desta forma, há um grande espaço entre os dois lados: geólogos que adotam o pensamento uniformitarista e interpretam o mundo de acordo com seu complexo sistema de Eras Geológicas que se estendem por milhões de anos e o crescente número de estudiosos da Teoria do Cataclisma, sob a qual se discutirá a derivação do carvão e do petróleo em sua relação com o relato bíblico.

A DERIVAÇÃO DO CARVÃO

O modelo uniformitário padrão começa com um pântano, onde folhas, musgo, galhos e outras partem de árvores, em um ambiente saturado de água não se decompõem totalmente, convertendo-se em turfa, que ao longo de tempo, sob pressão de soterramento torna-se Lignita, e então, as diversas formas de carvão betuminoso. O processo termina na compactação extrema e na formação de uma rocha dura de carvão preto chamada de Antracita.
Se este processo for considerado, o soterramento gradual da matéria faria com que houvesse gradações horizontais ao longo dos depósitos de carvão já que o estrado inferior sofreu mais pressão e ação do tempo que o extrato superior. Esta gradação foi observada apenas em alguns depósitos Europeus, e segundo Williamson[8], em Pie Rough, uma escavação de 3.500 pés de estratos revelou camadas, como se espera pelo posicionamento unitarista, porém apenas de grupos sub-betuminosos no topo a semi-antracitos na base, o que evidenciou a falta de variações expressivas.
Por outro lado, as gradações costumam ser verticais, ocorrendo estratificações ao longo de várias milhas. A causa presumida para isto é atividade tectônica local, subdução, movimentação divergente, vulcanismo e intrusões que podem gerar mais calor e/ou pressão a uma parte que a outra.
Outra situação que constrange os uniformitaristas está no corrente processo de formação de carvão no vale de Waikato, Nova Zelândia. Pântanos cheios de turfa apresentam subsolo de carvão betuminoso, sem uma barreira física que os separe ou comprima, impossível, segundo os uniformitaristas, posto que para que este tipo de sub-solo existisse seria imprescindível uma compressão de soterramento durante cinquenta milhões de anos.
Certamente a transformação da matéria existiu, mas não de uma forma que a geologia tradicional explique.

A QUANTIDADE DE CARVÃO
Segundo Morton, há um problema quanto a quantidade de carvão existente no mundo. Seriam necessários dez pés de vegetação para se formar um pé de turfa e doze pés de turfa para se formar um pé de carvão[9]. Apesar de algumas divergências quanto a este numerário[10], seriam necessários vinte e quatro mil pés de vegetação para formar um depósito de carvão apenas duzentos pés. Entretanto, não se observa em parte alguma um sistema pantanoso com algo próximo a uma centena de pés de deposição vegetal. Assim, sabiamente observa Woolnough:
Novamente, em nenhum lugar no mundo, no presente, pode um acúmulo de matéria vegetal ser encontrado que seja quantitativamente comensurável com qualquer depósito importante de carvão de tempos geológicos passados[11].

A posição de Woodmorappe[12] sobre o posicionamento de Morton é que ele considerou a quantidade de carbono com base nas deposições vegetais de florestas tropicais, entretanto as florestas úmidas no Pacífico nordeste produzem o dobro e ainda, Morton desconsiderou o acúmulo de turfa da era pré-diluviana, em torno de dezesseis pés de acúmulo e que contribui diretamente com a massa de carbono encontrada.

A COMPOSIÇÃO DO CARVÃO
Há uma incompatibilidade com o tipo de plantas e fósseis encontrados nos depósitos de carvão. Se o carvão é formado de depósitos pantanosos, então a massa dominante deveria ser de material orgânico desta região, entretanto, embora muitas plantas encontradas tolerariam um ambiente saturado de água, outras necessitavam de ambiente seco. (MORTON, 1984, p.216). Além disto, muitos depósitos de carvão contem fósseis de animais que viveram no mar, o que sugere que estes pântanos eram próximos a mares e que eram inundados ocasionalmente, ou que o nível dos oceanos tenha subido. O que não explica também as plantas de terra seca[13].
A FORMAÇÃO RÁPIDA DO CARVÃO NA NATUREZA
Há vários indicadores de que o processo de formação do carvão não levou milhões de anos. Em primeiro lugar, a presença de troncos verticais nos depósitos de carvão sugerem que as árvores foram enterradas de forma relativamente rápida, de outro modo a parte exposta do tronco se decomporia antes do processo de preservação iniciar[14].
Mais contundente é o trabalho de Robert Gentry[15] sobre madeira petrificada de rochas ricas em urânio do platô do Colorado e Chattanooga Shale que demonstram que o carvão foi formado de modo relativamente rápido, e em épocas muito mais recentes que o esperado. Estas madeiras possuem rádio-halos – orifícios esféricos, microscópicos, criados pela alteração do decaimento das partículas radioativas depositadas pela água que fluía através da madeira antes da sua transformação em carvão. Um tipo de halo criado pelo decaimento do urânio encontrado nestes exemplares parece ser mais recente que o dito pela geologia uniformitarista. As amostras parecem ser de milhares de anos de idade, não milhões, como se esperaria[16].
Outro tipo de halo apresenta uma forma elíptica. Aparentemente se formaram pelo decaimento do polônio em um período de seis meses a um ano, e que originalmente eram circulares, então, enquanto a madeira era relativamente maleável, foram esmagados pela pressão de sedimentos. Este tipo de halo é muito incomum, entretanto, foram superpostos a outro tipo de halo, circular. Aparentemente, vinte anos após a formação dos primeiros, um isótopo instável de chumbo provocou a formação de halos superpostos aos halos elípticos. O modelo, então, de Gentry sugere que o processo de formação do carvão requer poucas décadas, com um soterramento repentino de sedimentos e grande compressão.
Mais adiante, a existência dos halos de polônio sugere um processo rápido de transformação da madeira em carvão. Se uma partícula se desintegra enquanto a madeira é maleável, não há a formação de halos, entretanto, se ela é petrificada em dias, ou poucas semanas, no máximo, então a evidência do decaimento do polônio é preservada.
Como estes halos são relativamente comuns de se encontrar em qualquer depósito de carvão, e por parecer datarem de épocas similares, então, um cataclisma mundial poderia explicar a formação das reservas de carvão existentes[17].

DERIVAÇÃO DO PETRÓLEO E GAS NATURAL

Ao contrário do modelo de formação do carvão mineral, a derivação do petróleo é incerta. Geólogos discutem se o petróleo é de origem orgânica ou inorgânica, embora a maioria afirme ser formado, em grande parte, por deposição de organismos vivos[18]. Entretanto, os efeitos do calor e pressão resultaram em reações que alteraram de tal forma a matéria original que se torna difícil sua determinação.
Parte do problema em se explicar a origem do petróleo é sua diversidade. O óleo tem sido encontrado em diversas situações geológicas, e sua química também varia. Há, no entanto, um fator em comum, sempre é encontrado próximo ou entre camadas sedimentares de origem marítima[19].
Por esta razão, comumente se associa a formação do petróleo a deposição de resíduos vegetais e animais que, uma vez soterrados, com calor e pressão se transformam em hidrocarbonetos, conhecido como petróleo, e com o aumento da pressão e calor há a quebra das cadeias pesadas em metano e hidrocarbonetos leves, comumente chamados de gás natural.
Por óbvio, o modelo uniformitário de derivação do petróleo e do gás natural é um processo de milhões de anos.

A ORIGEM INORGÂNICA DO PETROLEO E DO GAS NATURAL
Alguns cientistas vêem na abundância de petróleo um problema para a teoria da Terra Jovem. A este respeito, Morton (1984) afirma que o total de carbono encontrado nos depósitos de petróleo é significativamente maior que o encontrado na matéria orgânica pré-diluviana[20]. Em outras palavras, não há matéria orgânica suficiente para todas as reservas de petróleo.
Para superar este ponto, Morton propõe a origem inorgânica. Infelizmente, sua argumentação de extremo interesse se baseia no modelo de Thomas Gold de alteração do metano, um modelo hoje caído em descrédito. Não significa que a teoria da origem inorgânica deva ser eliminada.
Woodmorappe (1986, p.206) responde que a quantidade de petróleo existente pode ser explicado pelo dilúvio mencionado em Genesis.
Enquanto Morton estima que exista aproximadamente 2 x 1020 gramas de petróleo na crosta terrestre, Woodmorappe demonstra que apenas um centésimo desta quantidade se encontra no leito marítimo. Assim concluindo:
Se qualquer combinação de carbono nos oceanos antediluvianos e o tanto mobilizado por um dilúvio totalizarem 1% do montante presente nos oceanos atuais, as grandes quantidades de Morton seriam imediatamente satisfeitas[21].

Desta forma, não há problemas em se encontrar matéria orgânica suficiente no mundo pré-diluviano para as grandes reservas de petróleo.

ORIGEM ORGÂNICA
Segundo McQueen[22], o petróleo é formado por um repentino soterramento de plantas e animais de forma compatível com o dilúvio. Conforme mencionado, a evidencia direta para isto é de difícil comprovação. A maior parte destas repousa sobre a possibilidade de que várias substancias orgânicas podem ser transformadas em componentes do óleo cru. Por exemplo, a clorofila tipo A, que ocorre em praticamente toda célula fotossintetizante, é estruturalmente parecida com a porfirina, um ingrediente comum de rochas sedimentares e do petróleo. Por esta razão, cientistas concluem que a porfirina representa um “fóssil químico” da clorofila tipo A. A Porfirina também é associada a Hemo[23], um componente da hemoglobina encontrado nos glóbulos vermelhos de todos os vertebrados e invertebrados.
Uma característica dos compostos orgânicos é que se quebram rapidamente em condições aeróbicas. Isto ocorre porque a) eles reagem com o oxigênio, b) muitos organismos decompositores de matéria orgânica vivem em meio aeróbio.
A acumulação lenta no leito oceânico não é a única forma de se isolar os efeitos do oxigênio nestes compostos. Se os sedimentos se acumulam rapidamente, então a matéria orgânica é isolada de condições aeróbias, na forma do exposto por McQueen:
Se “altas taxas de sedimentação” preservam material orgânico, uma taxa catastrófica, como se imagina um dilúvio global, desraigaria, mataria e soterraria material orgânico tão rapidamente que tiraria a porfirina dos agentes oxidantes antes que a água do mar a destruísse.
Como evidência para este argumento, McQueen aponta para a ampla distribuição de porfirina nos sedimentos e no óleo cru, e provou que a porfirina pode ser produzida a partir da clorofila em questão de horas. Este experimento demonstrou que a formação do petróleo não precisa ser explicada pelo modelo uniformitarista.

FORMAÇÃO RÁPIDA DO PETRÓLEO NA NATUREZA
Cientistas descobriram uma formação muito jovem de petróleo na bacia de Guayamas no golfo da Califórnia sob uma camada de mil e quinhentos pés de um visco verde-oliva formado pela decomposição de plânctons. Aparentemente as águas quentes de origem geotérmica atravessando o visco estão convertendo o material orgânico em petróleo e gás. A datação por radiocarbono demonstra que o óleo tem menos de cinco mil anos e certas partes podem realmente ter poucos anos de formação[24].
A descoberta de Guayamas corrobora de forma contundente para a projeção do dilúvio por, ao menos, duas razoes.
Em primeiro lugar, mostra que o óleo pode se formar naturalmente em pouco tempo, ao invés de milhões de anos de forma correspondente à projeção do dilúvio, um evento catastrófico, de curta duração em um tempo relativamente recente.
Em segundo, mostra que águas termais podem originar petróleo em grande quantidade, mais que o calor gerado pelo soterramento.
De forma correspondente, a geologia do dilúvio considera que a sugestão bíblica das “fontes do abismo” seja equivalente a emissões vulcânicas geoterrmais.
Entretanto o enterro rápido da matéria orgânica e a deposição de sedimentos ainda são necessários para a formação dos vastos depósitos de petróleo vistos hoje.
Há que se considerar, entretanto, que atividade geotermal está relacionada a rochas ígneas, que raramente são encontradas nas proximidades de poços de petróleo.
Para este argumento há uma possibilidade compatível com a tese do catastrofismo. As “fontes do abismo” não seriam apenas uma atividade geológica, mas uma grande liberação de energia tectônica no fundo do mar. Assim, o modelo extrapolaria os geysers, vulcões subaquáticos e bolsões de água quente, o modelo de Baumgardner[25] sugere movimentação na crosta com vasta liberação de calor no leito marinho. Este calor pode provocar a transformação de matéria orgânica em hidrocarbonetos.
Apesar de que, com certas reservas, há que se concordar com Andrew Snelling em sua conclusão:
Este modelo de geração hidrotermal de petróleo é mais do que aceitável no processo de formação do petróleo atual e dos depósitos de gás natural numa escala de tempo compatível com o relato bíblico do dilúvio nos tempos de Noé.

Em busca da comprovação da tese da rápida formação do petróleo, Saxby e Riley[26] experimentaram a formação de petróleo por um período de seis anos. Para isto foram usadas amostras de carvão marrom e xisto betuminoso a uma pressão seis vezes maior que a encontrada em uma panela de pressão comum. Começando com uma temperatura de 100°C e aumentando a temperatura em um grau por semana por períodos de 50, 100, 200, 250 e 300 semanas, analisando o conteúdo a 150, 200, 250, 300, 350 e 450°C, respectivamente. Esta foi uma simulação de soterramento de rochas sub centenas de pés de sedimentos por semana. Após 200 semanas, isso é, menos que quatro anos, o xisto produziu um sub-produto indistinguível do petróleo cru parafinado, enquanto o carvão marrom produziu gás natural.
O experimento confirma as origens do petróleo e do gás natural, que sob circunstancias corretas, podem gerar hidrocarbonos similares aos encontrados naturalmente[27].
Se assumirmos que um dilúvio de proporções globais ocorreu, então grandes quantidades de sedimentos seriam depositadas em pouco tempo, comprimindo o que levaria algumas centenas de anos para ser feito.
Os experimentos de Lewan[28] atingiram o pico de produção em apenas 72 horas sob temperatura constante de 350°C, quando petróleo escorreu de rochas ricas em matéria orgânica. Esta simulação resultou em um óleo com baixo teor de hidrocarbonetos e grandes teores de nitrogênio, enxofre e oxigênio, da mesma forma que o petróleo de Guayamas. Ficou assim demonstrado que altas temperaturas, grande deposição e falta de migração do material podem produzir petróleo em poucos anos.

CONCLUSÃO

Mesmo que ainda muitos detalhes precisem ser esclarecidos na tese do dilúvio, o pouco já estudo fornece esperança para estudos posteriores. Experiências de laboratório e mesmo ocorrências naturais demonstram que o carvão, o petróleo e o gás natural podem ser formados em pouco tempo sob condições adequadas, não apenas em milhões de anos, como se costuma afirmar.
Em que pese o modelo uniformitarista que insiste na deposição gradual de sedimentos durante milhões de anos, o modelo do dilúvio torna possível o mesmo efeito em uma base cronológica compatível com a cronologia bíblica.
Quanto aos índices de oxigênio, o modelo uniformitarista de deposição gradual priva a matéria de oxigênio, impedindo sua decomposição em um estágio inicial, motivo pelo qual milhões de anos seriam necessários para a decomposição do material sob pressão e temperaturas elevadas.
O modelo do dilúvio assume a possibilidade de grande deposição com soterramento imediato, não isolando a matéria do oxigênio, necessário no processo de decomposição, permitindo que desde o início os recursos minerais em estudo pudessem ser formados.
Uma reação ao uniformitarismo é comprometer uma interpretação conservadora das Escrituras ou sugerir que estes materiais sejam antigos porque Deus os teria feito assim. Esta tentativa de se invocar a Deus indiscriminadamente em toda parte onde haja lacunas de entendimento é uma forma de menosprezar Deus e o mundo criado por Ele.
É fato que o mundo aparenta ser mais antigo do que é já que as árvores criadas eram adultas e frutíferas (Gen 1:12) e que o homem e os animais eram maduros e capazes de se multiplicar (Gen 1:22-28), então é possível que Deus tenha criado petróleo e carvão para a humanidade, e ele certamente teria poder para tal. Entretanto, também é verdade que ele enviou um grande dilúvio para destruir toda a vida na Terra (Gen 6:17). Também é verdade que há muita evidencia de que plantas e animais em grande quantidade são a principal matéria prima do carvão e do petróleo. Dizer que Deus mandou um dilúvio, não significa dizer que Ele engana os homens em fazer com que estes recursos pareçam mais antigos do que são, mas que estes elementos são a prova de um julgamento com água sobre os pecados da humanidade decaída (Gen 6:5-7). A natureza suplementa as Escrituras, quando muito, também não acrescenta respostas, mas em nenhum caso a revelação natural sugere algo que contradiga as Escrituras.


[1] MATTHEWS, William H. (1962), Fossils (New York: Barnes & Noble) p.162
[2] GOULD, Stephen Jay (1987), Time’s Arrow, Time’s Cycle (Cambridge, MA: Harvard University Press) p. 119
[3] HOOYKAAS, R. 1963. The Principle of Uniformity in Geology, Biology, and Theology, 2a Ed. Londres: E.J. Brill. P.38: Strict uniformitarianism may often be a guarantee against pseudo-scientific phantasies and loose conjectures, but it makes one easily forget that the principle of uniformity is not a law, not a rule established after comparison of facts, but a methodological principle, preceding the observation of facts . . . It is the logical principle of parsimony of causes and of economy of scientific notions. By explaining past changes by analogy with present phenomena, a limit is set to conjecture, for there is only one way in which two things are equal, but there are an infinity of ways in which they could be supposed different. Tradução Livre.
[4] GOULD, S. J. 1984. Toward the vindication of punctuational change in catastrophes and earth history. In Catastrophes and Earth History, eds. W. A. Berggren and J. A. Van Couvering, p. 11. Princeton, New Jersey: Princeton University Press.
[5] Gould, S. J. 1965. Is uniformitarianism necessary?American Journal of Science 263: pp. 223–228.
[6] William J. Whewell, Principles of Geology, Charles Leyell, vol. II, London, 1832: Quart. Rev., v. 47, p. 103-123.
[7] Ager, Derek V. (1993). The Nature of the Stratigraphical Record, 3rd Ed.. Chichester, New York, Brisbane, Toronto, Singapore: John Wiley & Sons. pp. 83–84.
[8] Williamson, Iain A. (1967), Coal Mining Geology (London: Oxford University Press). P. 241-242.
[9] Morton, Glenn R. (1984), “The Carbon Problem,” Creation Research Society Quarterly, 20:212-219.
[10] Williamson, Iain A. (1967), Coal Mining Geology (London: Oxford University Press).
[11] Woolnough, W.G. (1971), “Sedimentation in Barred Basins and Source Rocks of Oil,” Origin of Evaporites, AAPG Reprint Series (Tulsa, OK: American Assoc. of Petroleum Geologists). As quoted, with emphasis, in Morton (1984). Again, nowhere in the world, at present, can accumulations of vegetable matter be found which are quantitatively commensurate with any of the major coal deposits of past geological time. Tradução Livre
[12] Woodmorappe, John (1986), “The Antediluvian Biosphere and its Capability of Supplying the Entire Fossil Record,” Proceedings of the First International Conference on Creationism, August 4-9, 1986, Pittsburgh, Pennsylvania, ed. R.E. Walsh, C.L. Brooks, and R.S. Crowell (Pittsburgh, PA: Creation Science Fellowship), 2:205- 213.
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[14] Morris, Henry M., ed. (1974), Scientific Creationism (San Diego, CA: Creation-Life Publishers).
[15] Robert V. Gentry é físico nuclear,  docente da Universidade da Flórida, e criacionista defensor da tese da idade recente da Terra
[16] Gentry, Robert V., et al. (1976), “Radiohalos in Coalified Wood: New Evidence Relating to the Time of Uranium Introduction and Coalification,” Science, 194:315-318.
[17] Gentry, Robert V. (1986), Creation’s Tiny Mystery (Knoxville, TN: Earth Science Associates).
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[20] Morton, Glenn R. (1984), “The Carbon Problem,” Creation Research Society Quarterly, 20:212-219.
[21] Woodmorappe, John (1986), “The Antediluvian Biosphere and its Capability of Supplying the Entire Fossil Record,” Proceedings of the First International Conference on Creationism, August 4-9, 1986, Pittsburgh,  ennsylvania, ed. R.E. Walsh, C.L. Brooks, and R.S. Crowell (Pittsburgh, PA: Creation Science Fellowship), 2:205-213.
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