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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Redimindo a cultura





Quando, porém, reconheceram que ele era judeu, todos, a uma voz, gritaram durante quase duas horas: — Grande é a Diana dos efésios! O escrivão da cidade, tendo apaziguado o povo, disse: — Senhores efésios, quem não sabe que a cidade de Éfeso é a guardiã do templo da grande Diana e da imagem que caiu do céu? Ora, não podendo isto ser contestado, convém que vocês se mantenham calmos e não façam nada de forma precipitada; porque estes homens que vocês trouxeram para cá não profanaram o templo, nem blasfemam contra a nossa deusa. Atos 19:34-37

Esta é uma passagem interessante do livro de Atos, que na verdade, teria me passado despercebida, não fosse uma boa exposição ouvida ontem por alguém a quem estimo muito, o professor e pastor Rev. Mario Fukue. 

O que estava acontecendo? Era um evangelismo em praça pública, as pessoas iam e vinham, alguns paravam para ouvir, mas quanto tempo ficariam ali? Hora que se tornasse cansativo, bastava seguir o caminho. Os pregadores não tinham tempo de tratar de assuntos secundários. 

O que estavam pregando?  Paulo e seus companheiros anunciavam que não há outro caminho para a salvação, senão o revelado em Cristo, e assim pregava, batizava e fazia discípulos entre os gregos. 

Aonde pregavam? Éfeso era uma cidade famosa por ter um templo dedicado a Diana (ou Ártemis, para os romanos) era um templo famoso e a economia da cidade vinha desta fonte de adoração. 

Como se formou a confusão? Um ourives, chamado Demétrio, ficou com medo de perder sua fonte de renda, juntou amigos e começou uma confusão, que logo atraiu uma multidão. 



Pelo testemunho que é dado sobre estes homens, fosse hoje, muitos grupos os acusariam de muitos “ismos”, ecumenismo, liberalismo, evangelho falso, etc... Por que? O que o próprio texto nos mostra é que o escrivão da cidade, que não creu no discurso deles os defendeu, e o fez, porque atestou que o discurso não desmoralizava a deusa adorada na cidade. Eles não saíam chutando macumba, nem quebrando uma imagem de gesso com martelo, nem fazendo campanha de cercar o templo em um “ato profético”, não ficavam jogando óleo ungido nos umbrais do templo de Diana, nem mesmo foram até a banquinha de Demétrio para “quebrar a maldição” daquelas imagens que vendia. 
Na verdade, nem eles, nem os novos convertidos ali fizeram coisa alguma contra a religião da cidade. 



Então quer dizer que adorar uma deusa não tinha nada de mal? 

A questão na verdade é: Onde ponho a minha confiança? Eles não precisavam tomar ali uma atitude contra a religião da cidade, porque tinham plena confiança de que o Espírito Santo age pela proclamação da Palavra. Com pessoas indo e vindo, não havia tempo para falar de todos os erros do mundo, por isto, a única mensagem que levavam era Cristo crucificado (1 Cor 1:23). Os seguidores do Evangelho tinham plena confiança no agir de Deus, por isso não tomavam o agir em suas próprias mãos. 

O escrivão da cidade tinha esta mesma confiança em Diana: ela é tão grande, que todos sabem quem ela é, e não seria um grupo de estrangeiros que a derrubaria, então, se eles não fazem mal ao templo da deusa, nem desrespeitam a lei, não há do que acusá-los. 
E assim a vida seguiu, quem queria seguir Diana, seguia, quem decidiu seguir Cristo, foi discipulado por Paulo e seus companheiros em particular. 
Este aparente “empate” foi resolvido por Deus na escola do tempo. Onde estão os adoradores da grande Diana dos gregos hoje? Ou da tão poderosa Ártemis dos romanos? Não se encontram mais em parte alguma, mas os seguidores de Cristo continuam e milênios depois, povos que nunca ouviram aqueles homens continuam a crer e ser discipulados no mesmo ensino que aqueles gregos. 

Isto lembra bem o dito em Zc.4.6: Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito”
Nisto vale a reflexão: não que denunciar o erro não deva ser feito, mas, quando o tempo é limitado, vale mais a pena ensinar todas as formas possíveis de se estragar o bolo, ou passar a receita? No mais, nossos “cruzados da internet” nossos “quebradores de maldição” tem colocado a confiança aonde? 

Na próxima vez que ouvir falar de alguém querendo quebrar uma imagem, “cristianizar as leis”, “redimir a cultura”, veja além da loucura, nossa humanidade querendo empurrar o arrependimento que não depende de nós.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Gálatas: Como ser um cristão que gera frutos?



“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25

É interessante como muitas vezes somos ensinados desde pequenos a ler esta passagem: isto é uma obrigação! Devemos crucificar a carne, temos que andar no espírito! Então pegamos aquela lista que Gálatas faz do fruto do Espírito para examinarmos a nossa vida. 

-Que parte deste fruto está faltando em você? Será que você está com seu cristianismo em dia? O que eu deveria fazer para ser um cristão de verdade? O que é a carne afinal? Eu estou na carne?

Estas e muitas perguntas do tipo são bem comuns, e por isto, vale uma dica para lermos este livro da Bíblia:

Carne, para a carta aos Gálatas é a natureza caída do ser humano, em seus pecados e delitos. Sempre que o termo é citado, isto não tem relação com a carne física, mas sempre demonstra um modo de vida longe de Deus. O que se opõe a carne é o Espírito. E neste caso, não estamos falando do espírito humano, mas da própria vida ligada a Deus. Isto é importante! Muitos tendem a ler Gálatas como um padrão de vida moral que devemos buscar, mas não é isto o que Deus nos fala nesta carta. O tema é sempre que existe a carne, e ela deseja coisas que lhe são próprias, e existe o Espírito, que opera em nós, crentes, o que lhe é próprio. O grande tema é mostrar que quando buscamos qualquer participação no viver espiritual, ainda que isto pareça ser piedoso, ou seja, do Espírito, Paulo é claro em dizer que isto é a carne também. Na carne nós tentamos fazer coisas, obras; no Espírito entendemos que nada pode ser acrescentado ao que já está feito.

Só neste ponto já há algo importante, pois muitos confundem mesmo, Gálatas fala que é ruim e pecaminoso a carne, e nisto, muitos realmente pensam que Paulo está falando da carne no sentido humano, físico, e daí alguns pensamentos como o de Jesus não ter assumido totalmente a carne humana, ou que na ressureição ele deixou o corpo carnal no túmulo e que saiu de lá só como espírito, que Jesus não é mais carne e osso agora, ou ainda que no dia final, nós viveremos eternamente como espíritos, com “corpo espiritual”, e não que viveremos em nossa mesma carne de agora, só que livres do pecado.

Enfim, Gálatas não fala que a carne (física) e ruim, não fala da luta de igual pra igual entre carne e espírito (quem já ouviu aquela: “ganha o lado que você alimentar mais”) não fala que devemos olhar o fruto do espírito para medir a nossa vida, nem que devemos buscar fazer algo para sermos espirituais, ou “crentes melhores”

Esta carta não é sobre o que nós fazemos por Cristo, para isto tem referências melhores, mas é uma carta toda nos mostrando o oposto: o que Cristo fez, e alguma nota sobre como isto se reflete na vida.

Voltemos ao texto:


“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25


“Crucificaram”, literalmente: εσταυρωσαν (Aoristo, indicativo ativo, terceira pessoa do pural) isto tudo significa dizer: crucificar aqui etá num tempo verbal que significa algo importante: é uma ação pontual e concluída no pasado. Se tivéssemos que tomar Gálatas todo como um padrão de vida moral, crucificar a carne não seria algo concluído no passado, mas algo constante, um dever diário, entretanto, aqui falamos em algo concluído e perfeito. Houve um momento no tempo onde nossa carne encontrou sua derrota, e este momento se liga à cruz. Isto não significa que estamos totalmente livres do mal, mas que esta derrota da carne já está selada, e já vivemos portanto num tempo onde este “crucificar da carne” é um evento concretizado.

“Se vivemos”, literalmente: Εάν ζώμεν, gosto desta exposição da edição de Bambas da bíblia grega, justamente por deixar exposto com muita clareza algo que no portugues parece ter outro sentido. Quando pensamos em numa condicional “se”, automaticamente somos levados a pensar nisto como uma condição que deve estar presente se queremos o resultado que vem depois “Se voce passar na faculdade, eu te dou um carro!” Ou seja, eu preciso me certificar de cumprir um requisito se quiser ter o resultado dele, mas no grego, língua em que o Espírito Santo inspirou a bíblia para ser escrita, não é exatamente assim. Este “se” é retratado como um grau máximo de certeza, do mesmo tipo que se usa para descrever um fato científico, ou seja, Deus não está usando este texto para nos fazer olhar para nossa vida e avaliar “se vivemos pelo Espírito”, mas ele constata uma verdade da qual não há dúvida: “já que vivemos pelo Espírto...” então segue-se a consequência natural disto “andamos pelo Espírito”

Com tudo isto, Deus não está esfregando a carta aos Gálatas diante de nós, nos mandando olhar para nossa vida e nos perguntarmos: “será que eu vivo no Espírito?” Mas na verdade a mensagem dele para nós, que cremos em sua obra, é: não olhe para a sua vida para buscar alguma justiça, olhe para o Espírito!

Se olhamos para o que podemos fazer, nós não chegamos a Deus, nem mesmo se cumprissemos toda a lei de Deus de modo perfeito, ainda assim não chegaríamos a Deus. Por isto, vivemos pelo Espírito, pela fé, e pela fé somente.

sábado, 11 de abril de 2020

Wayne Grudem – uma avaliação crítica parte 2 (Batismo)





Wayne Grudem – uma avaliação crítica à luz da teologia bíblica luterana. Breve comentário sobre leitura de TEOLOGIA SISTEMÁTICA, Wayne Grudem, p. 814 a 833.


Este é um breve comentário sobre a leitura deste famoso livro de Teologia Sistemática de linha reformada no objetivo único de expor as diferenças teológicas, especialmente tendo-se em vista que a reforma luterana e a calvinista foram movimentos não apenas separados, mas antagônicos entre si desde o início.

Em uma leitura da obra de Grudem, alguns erros essenciais podem ser identificados, mas em especial, o capítulo referente ao batismo já se inicia com uma exegese inadequada do texto, diz o livro: 
A palavra grega baptizo significa “mergulhar, afundar, imergir” algo na água. Isso é normalmente reconhecido, sendo esse o significado padrão do termo na literatura grega antiga tanto na Bíblia como fora dela.
(2) O sentido “imergir” é adequado e provavelmente exigido para a palavra nos vários textos do Novo Testamento. Em Marcos 1.5, o povo era batizado porjoão “no riojordão” (o texto grego traz en,“em”, e não “ao lado” ou “próximo” ou “perto” do rio).6 Marcos também nos diz que quandojesus foi batizado “ele saiu da água”(Mc 1.10). O texto grego especifica que ele saiu “para fora da” (ek)água, e não que ele veio da água (mais bem comunicado pelo gr. apo).O fato de quejoão ejesus entraram no rio e saíram dele sugere enfaticamente imersão, já que a aspersão ou a afusão de água poderiam muito mais facilmente ter sido feitas junto ao rio, especialmente pelo fato de que multidões estavam vindo para o batismo. O evangelho de João nos diz depois q u ejo ão Batista “estava também batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas” (Jo 3.23). Novamente, não era necessário muita água para batizar pessoas por aspersão, mas isso seria preciso para batizar por imersão. (Grudem, p.814) 
Em que pese este argumento, uma correção é necessária neste ponto. 

Platão já empregava o termo em sua obra "Eutidemo" no sentido de alguém estar sobrecarregado de perguntas. Por esta praxe já vemos então que o entendimento histórico da palavra batismo não era exclusivamente de mergulhar algo. 
Na leitura do Santo Evangelho segundo Marcos, lemos que os fariseus lavavam as mãos antes de comer. Niptein era comumente usado quando apenas uma parte do corpo era lavada, não o banho total do corpo. Mas nessa passagem o lavar parcial também é chamado de batismo, de maneira que se apenas parte do corpo é lavada temos um verdadeiro batismo: 
Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar (νίψωνται) as mãos muitas vezes; Marcos 7:3 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem (βαπτίσωνται), não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas. Marcos 7:4 
Assim, o texto nos mostra que, muito embora “batismo” seja associado à submersão, o texto bíblico o usa também para expressar o lavar parcial do corpo, sem diferenciar a extensão do corpo em que se aplica a água. O texto de Lucas 11:38 também reforça esta ideia, aplicando a mesma fórmula. 
Mais adiante, lemos no texto aos Hebreus sobre diversas abluções, ou seja, batismos: 
Consistindo somente em comidas, e bebidas, e várias abluções (βαπτισμοῖς) e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção. Hebreus 9:10 
Cientes então de que abluções são literalmente batismos pelo texto, devemos então conferir, também pelo texto bíblico como estes batismos eram feitos: 
O homem puro aspergirá o impuro ao terceiro e ao sétimo dia e o purificará no sétimo dia. Lavará as suas vestes e a si mesmo, e à tarde será puro. Números 19:19 
Desta forma, o texto bíblico tem mostrado que de acordo com as normas das abluções descritas no capítulo 19 de Números, temos que a algumas formas são pela imersão propriamente, como o purificar das vestes, e outras formas são pela aspersão de água. 
O que temos nos texto de Hebreus 9:10 é que tanto a ablução de imersão em água quanto a aspersão são chamadas pelo texto bíblico de “batismo”. Este é um ponto relevante. Não se trata de erro de escrita, ou má colocação de palavras por parte dos autores bíblicos. Se o Cristão reconhece que a Bíblia é a Palavra de Deus e que foi escrita pela inspiração divina, então creremos que toda a Escritura é perfeita em seu ensino. O que temos então é o texto bíblico mostrando que a palavra “batismo” inclui o lavar parcial do corpo e a aspersão tanto quanto a imersão completa, sem fazer diferença entre os termos e na corrente oposta, temos uma corrente que afirma que a palavra “baptizein” no grego significa apenas imergir, e portanto, declarando que somente a imersão completa é válida. Se o texto inspirado das Escrituras chama de batismo o aspergir e o lavar parcial do corpo, bem sabe o Espirito Santo como deseja se comunicar, logo, restringir o termo para uma forma específica do derramar de água, será uma exegese que manca em identificar o termo, ou, a expressão dos que desejam retorquir a Deus. 
Como o texto não termina neste ponto, podemos ir mais além: 
E eu, em verdade, vos batizo (βαπτιζω) com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará (βαπτισει) com o Espírito Santo, e com fogo. Mateus 3:11 
Novamente o texto bíblico nos aponta que o Espírito Santo vem com um “batismo”. Então vejamos biblicamente a forma como ele veio: 
Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Atos 2:3 
O batismo não foi uma imersão neste texto, e desta forma, não há, biblicamente falando, uma única forma de se usar o termo “batismo”, este termo não indica apenas a imersão, mas também indica o lavar parcial do corpo, a aspersão, o derramamento, ainda temos uma forma sui generis, em 1 Coríntios 10.2, um batismo feito por Deus de forma singular: 
todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; 1 Coríntios 10:2 
Ao atravessar a nuvem e o mar todo o povo foi batizado. Neste texto é patente que nenhum do povo foi “submerso” no mar, o texto nos informa que cruzaram com os pés secos, não houve sequer uma pessoa que fosse submersa que seguia com Moisés, mas todos receberam o batismo ao passar pelas águas. 
Em contra-partida, Grudem, em sua obra demonstra que este batismo realizado mesmo no texto bíblico de variadas formas, apenas encontra sua validade se na forma específica que lhe apraz ao afirmar: 
Mesmo o lavar é muito mais eficazmente simbolizado pela imersão do que pela aspersão ou afusão, e a morte e ressurreição com Cristo são simbolizados apenas pela imersão e de modo nenhum pela aspersão ou pela afusão. (Grudem, p.816) 
Temos portanto, pelo texto bíblico, uma exposição clara de que, ao contrário do que querem alguns, batizar não exige uma forma específica e a própria Palavra cita diversas formas como este batismo pode ser realizado. O que temos, de certo sobre o batismo é que ele deve ser feito com água, assim como João batizou com água (Jo 1.33), Filipe batizou o eunuco com água (At 8:36), Pedro batizou Cornélio com água (At 10:47), Paulo chama o batismo de “lavar de água pela Palavra” (Ef 5:26), Cristo diz que devemos nascer pela água e pelo espírito (Jo 3:5). 
O batismo é corretamente ministrado a todas as crianças que sejam filhas de pais cristãos. Essa posição é muito comum em muitos igrejas protestantes (especialmente luteranas, episcopais, metodistas, presbiterianas e reformadas). Essa posição é às vezes conhecida como o argumento da aliança em favor do pedobatismo. E chamada argumento da “aliança” porque depende de interpretar que os filhos dos cristãos fazem parte da “comunidade da aliança” do povo de Deus. O termo “pedobatismo” significa que o costume de batizar crianças (o prefixo paidoexpressa a idéia de “criança” e é derivado da palavra grega pais,“criança”). Estarei interagindo principalmente com os argumentos de Louis Berkhof, que explica com clareza e defende bem a posição pedobatista. (grudem, p.821) 
Outro problema na exposição de Grudem se constitui o problema intrínseco dos sistemáticos em referenciarem-se entre si, com pouco ou nenhum conhecimento de causa da teologia de outras áreas. Na presente citação, o autor repete o argumento de Berkhof sobre um ponto-de-vista protestante, e nisto ecoa a voz de Strong também, entre outros notáveis deste campo. Nesta área o autor realmente cumpre o papel de ser sistemático apresentando construções de grandes grupos, mas não se pode dizer que houve uma construção mais dogmática, afinal, Cristo declara sobre crianças pequenas, Mt 19:14; Mc 10:14: De tais é o reino do céu, ou o reino de Deus. E ninguém que nasce da carne pode entrar no reino de Deus a menos que renasça, Jo 3:3. E esta regeneração e renascimento ocorre pela água e pelo Espírito, Jo 3:5. O batismo é a lavagem da regeneração do Espírito Santo, Tt 3:5. Uma vez que, então, Cristo quer que as criancinhas se tornem participantes do reino do céu, o que deve ocorrer através do batismo, é certamente intenção de Cristo, vontade e comando, que as crianças pequenas sejam batizadas. 
A promessa do reino de Deus deve ser aplicada através de um certo meio ou instrumento instituído pelo próprio Deus. Portanto, também a promessa do reino do céu, que é dada aos bebês (Mc 10:14) deve ser aplicada a eles através de um certo meio. Agora, as Escrituras declaram que isso significa o batismo. Jo 3:5; Tt 3:5. 
Em segundo lugar, Cristo também quer que as crianças sejam salvas, pois Ele diz: Não é a vontade do Pai celestial que um desses pequeirinhos pereça, Mt 18:14. Mas o Pai Celestial salvou-nos pelo lavar regenerador, Tt 3:5. É, portanto, a vontade de Deus que os bebês sejam batizados e que não pereçam, mas sejam salvos. 
Em terceiro lugar, os bebês são concebidos e nascidos em pecados, de modo que por natureza eles são filhos de ira, Sl 51:5; Ef 2:3. Portanto, eles devem obter o perdão dos pecados, para que eles não pereçam, mas sejam salvos, Lc1:77; Rm 4:7. 
Sobre o ingresso no corpo de Cristo, Grudem declara: 
Mas como alguém se torna membro da igreja? O meio de ingresso na igreja é voluntário, espiritual e interior. Alguém toma-se membro da verdadeira igreja através do novo nascimentoe da fé salvadora,e não de um nascimento físico. Isso ocorre não por um ato externo, mas pela fé interior do coração. Com certeza é verdade que o batismo é o sinal de ingresso na igreja, mas isso significa que este deve ser ministrado aos que dão provade serem membros da igreja, somente os que professam fé em Cristo. (Grudem, p.823) 
Is 49:22 profetiza que no Novo Testamento não só os adultos seriam implantados na igreja, mas eis que, diz ele, eles vão trazer seus filhos em seus braços e suas filhas em seus ombros. E Pedro diz (Atos 2:39) depois que ele tinha batizado adultos: Esta promessa foi feita para você e para seus filhos. Dessa forma, também os apóstolos batizaram domicílios inteiros, Atos 16:33; 1 Co 1:16. Onde uma casa ou família é mencionada, bebês certamente não são excluídos. E quando os adultos são convertidos pela primeira vez, o ensino precede e segue o batismo. Atos 2:41; 8:12, 35-38; 10:44-48. Mister se faz salientar que o Batismo não é apenas símbolo da presença de Cristo, mas que por ele, Cristo se faz verdadeiramente presente. Ef 5:25-26: Cristo deu-se para a igreja, para que Ele pudesse santificá-la, limpá-la com a lavagem de água pela Palavra. Da mesma forma, ele diz que somos batizados na morte de Cristo (Rm 6:3) e na ressurreição de Cristo (I Pe 3:21). Na verdade, no batismo vestimos Cristo (Gl 3:27). E é isso que se diz nos Atos: ser batizado em nome de Cristo. 
Na verdade, há outros exemplos em que o batismo não é mencionado, nos quais vemos testemunho explícito do fato de que uma família inteira demonstrou fé. Depois que Jesus curou o filho de um oficial, lemos que o próprio pai “creu e toda a sua casa ” (Jo 4.53). Semelhantemente, quando Paulo pregou em Corinto, “Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa (At 18.8). (Grudem, p. 824) 
A problemática deste ponto se apresenta justamente no fato de considerar o autor a “fé”, dom sobrenatural de Deus, como um sinônimo de “fé reflexa”, ou a consciência de se haver fé. As palavras da instituição do batismo e muitas outras passagens das Escrituras nos mostram isso, por exemplo, Mc 16:16; Atos 2:38; 22:16; Ef 5:25-26; Tt 3:5, 7; Jo 3:5; 1 Pe 3:21. Daí Lutero justamente diz em seu catecismo: 
O batismo opera o perdão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá salvação eterna a todos os que crêem nisso, como declaram as palavras da promessa divina. 
Se Cristo é separado do batismo, ou batismo de Cristo, então, de fato, a lavagem de água de si mesma não pode operar ou conferir qualquer dessas coisas, mas é e continua a ser apenas um sinal simples. 
Mas como Cristo está no e com o ato do batismo, para que sejamos batizados em Sua morte e ressurreição (Rm 6:3; 1 Pe 3:21), no batismo nos revestimos de Cristo (Gl 3:27), e ele mesmo nos purifica por essa lavagem (Ef 5:25-26), da mesma forma, como Deus o Pai dá, apresenta e sela aos crentes o mérito de Cristo através de Seu Espírito Santo no Batismo e através do batismo (Tt 3:5-6). 
Finalmente, os que defendem o batismo de convertidos com freqüência expressam preocupação diante das conseqüências práticas do pedobatismo. Eles argumentam que a prática do pedobatismo na igreja de hoje muitas vezes leva pessoas batizadas na infância a presumir que foram regeneradas, e assim não sentem a urgência da necessidade que têm de virem a ter fé pessoal em Cristo. Em alguns anos, essa tendência provavelmente resultará em número crescente de membros não convertidosna “comunidade da aliança”, os quais não são verdadeiramente membros da igreja de Cristo. Naturalmente, isso não fará de uma igreja pedobatista uma falsa igreja, mas a tomará uma igreja menos pura, que com freqüência estará enfrentando tendências doutrinárias liberais ou outros sinais de incredulidade trazidos para a igreja pelos membros não regenerados. (Grudem, p.826) 
Neste ponto, ao meditar sobre os efeitos do batismo, Grudem esbalha não apenas na doutrina do batismo, mas em sua doutrina sobre a igreja, desconsiderando-a como um corpus permixtus. Nem todos são praticantes da Palavra, e nem todos os que ouvem a Palavra a mantém (Lc 8:15; 11:28; Mt 7:26). As parábolas dos evangelhos também mostram isso claramente (Mt 13:24-30, 47-48; 22:1-14). Portanto, Onde há pessoas que usam os Sacramentos (Mc 16:16; 1 Co 10:17; 11:33), ouvem a Palavra de Deus (Jo10:27, recebem-a (1 Ts 1:6; 1 Co 15:1, confessam Cristo (Mt 10:32), seguem-o (Jo10:27), invocam a Deus,como ele ordenou na Palavra (Lc19:46; 1 Co 1:2; Sl 79:6). E esses sinais às vezes estão mais em evidência, às vezes menos evidentes. Pois neste fundamento alguns constroem o ouro, algums restolho (1 Co 3:12-13). E, no entanto, se a fundação permanece intacta, Deus tem Sua igreja lá (1 Rs 19:18). 
Justamente por ser a verdadeira igreja este corpo misto, e entendendo-se a questão do Simul na natureza humana, a resposta a Grudem precisamente escriturística deve ser que a regeneração de fato, isto é, adoção e o perdão dos pecados é ato completo e terminado nos crentes imediatamente após o batismo, e ainda assim se estende por toda a vida de um homem. Mas a renovação é de fato iniciada no batismo e cresce diariamente, é finalmente concluída na vida que está por vir. Pois nesta presente vida a renovação ainda é imperfeita e deve crescer e aumentar dia após dia. 2 Co 4:16; Ef 4:22-23; Cl 3:10; 1 Pe 2:1-2.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Imaculada Purificação de Maria


Lutero certamente não via Maria como uma mulher qualquer, suas citações sobre ela são bem difundidas na internet, especialmente por sites católicos querendo mostrar que o que foi pregado nos tempos da reforma não é o que vemos hoje no grosso do protestantismo. Talvez esta visão de Lutero com uma mariologia elevada seja uma surpresa para estes novos ramos que tem surgido, embora de modo algum um choque para nós. 

Um ponto que costuma gerar questionamentos, estretanto é como ele entendia a santidade de Maria, já que nenhum tratado foi escrito por ele especificamente sobre a questão. Mas podemos ver claramente a visão deste que para nós foi o principal reformador através de seus abundantes escritos. 
Lutero tinha uma visão bem elevada sobre Maria, algo bem distante do que podemos ver no protestantismo moderno. Talvez o que mais surpreeenda nisto é que em 1522 ele já tinha escrito: 

"Ela é cheia de graça (voll Gnaden), proclamada para ser inteiramente sem pecado, algo muito grande. Pois a graça de Deus a preencheu com tudo de bom, de modo que ela fosse desprovida de todo o mal." 

Em um sermão pregado em 1527, no dia da concepção da Mãe de Deus, assim diz um trecho de seu sermão: 

“É uma crença doce e piedosa que a infusão da alma de Maria foi efetuada sem pecado original, de modo que mesmo na infusão de sua alma, ela também foi purificada do pecado original e adornada com os dons de Deus, recebendo uma alma pura infundida por Deus; assim, desde o primeiro momento em que ela começou a viver ela estava livre de todo pecado." 

Lutero expressa até 1530 uma mariologia que aponta para seu nascimento imaculado, isto é, não apenas purificada, mas totalmente livre da concupcência ( segundo Santo Agostinho é a concupcência que transmite o pecado original). Isto implica dizer que ele cria a confessava que o momento da infusão da alma quando Maria ainda estava no ventre já foi feito de modo que ela nascesse perteitamente livre da inclinação para o mal, da desordem. 

A partir de 1530 começamos a ver Lutero amadurecendo a Theologia Crucis, e seu foco cristocêntrico estrito. Com isto, Lutero começa a rever o conceito da imaculada conceição, e , num momento mais maduro de sua caminhada, entende que não deve haver purificação completa sem Cristo, nisto, vemos uma retratação da posição assumida anteriormente, Lutero então defende a tese da imacula purificação de Maria. Ao invés de longos tratados sobre o assunto, Lutero novamente muda a ênfase da mãe para o Messias. Ao invés de discutir a impecabilidade de Maria, ele insistiu que a impecabilidade de Cristo deveu-se inteiramente à obra milagrosa do Espírito Santo durante a concepção. Em 1532 ele pregou: 

"Mãe Maria, como nós, nasceu em pecado de pais pecadores, mas o Espírito Santo a cobriu, santificando e purificando-a para que esta criança nascesse de carne e sangue, mas não com carne e sangue do pecado. O Espírito Santo permitiu à Virgem Maria continuar a ser um verdadeiro ser humano, natural de carne e sangue, assim como nós. No entanto, ele repeliu o pecado de sua carne e sangue para que ela se tornasse a mãe de uma criança pura, não envenenada pelo pecado como nós somos ... Pois, nesse momento em que ela concebeu, ela era uma santa mãe cheia do Espírito Santo e seu fruto é um fruto puro e santo, ao mesmo tempo Deus e verdadeiro homem, em uma só pessoa." Martin Luther, Sermões de Martin Luther, Vol. 3, ed. John Nicholas Lenker. (Grand Rapids: Baker Books, 1996), 291. 

De mesmo modo, na disputa de Lutero sobre a Divindade e a Humanidade de Cristo em 1540, ele afirma: 

Destaco a [premissa] maior: toda pessoa está sujeita aos vícios do pecado original exceto Cristo. Toda pessoa que não é Deus em pessoa, como Cristo, tem concupiscênica; mas o homem Cristo não a tem, porque é Deus em pessoa, e na concepção toda a carne e sangue de Maria foram purificados,de sorte que não restou nenhum pecado. Pois diz bem Isaías [53.9]: "Não se encontrou dolo algum em sua boca." Por outro lado, toda descendência foi viciada, exceto Maria. (Obras Selecionanas vol 2 p.288) 

Assim podemos perceber a posição que Lutero adotou: Maria não poderia ter nascido sem a concupcência, pois ela encerra todos os homens e mulheres em sua condição natural. Ela nasceu de ventre comum, logo ela também a herdaria. Por outro lado, também afirma que Cristo não veio de um ventre impuro, nem herdou a concupcência. Como resolver a questão? Maria teve uma dupla purificação, a primeira, em seu nascimento a preparou para receber a segunda e ultima, a purificação final que a livra da concupcência e por fim, torna-se a pura e santa virgem que dará a luz ao Homem-Deus 

De modo surpreendente, Santo Tomás de Aquino já havia considerado uma purificação de Maria no momento da concepão de Cristo cerca de 300 anos antes: 

Por isso parece melhor pensarmos que, a santificação no ventre materno não isentou a Santa Virgem da concupiscência, na sua essência, mas os seus efeitos ficaram paralisados. (...) Mas, depois, na concepção mesma da carne de Cristo, quando primeiramente devia refulgir a imunidade do pecado, devemos crer que do filho redundou ela para a mãe, ficando então totalmente eliminada a inclinação para o pecado. E já isso estava figurado na Escritura, quando diz: Eis que entrava a glória do Deus de Israel pela banda do oriente, isto é, por meio da Santa Virgem; e a terra estava resplandecente pela presença da sua majestade, isto é de Cristo. (Suma Teologica, pars tertia, Q. 27, art 3) 

Ao contrário de romper com o pensamento cristão até sua época, o que vemos é Lutero seguindo uma linha do escolasticismo ensinado por Santo Tomás de Aquino. Podemos então dizer que Lutero se rebelava contra um dogma de fé católica que é a imaculada conceição de Maria, definido em sua extensão exata apenas em 1854 por Pio IX? 

Em certo sentido sim, se considerarmos que o dogma católico define o momento da graça especial de Deus tenha sido o momento da concepção de Maria, mas, se considerarmos a remoção do pecado original, o que é a essência do pensamento Tomista-Luterano, então ele não negou o dogma. 

Lutero nunca acreditou que o ato divino tivesse ocorrido na concepção de Maria, pois cria que este teria ocorrido em sua animação (o recebimento da alma), o que ele distinguia da concepção (como a maioria dos escolásticos, incluso Santo Tomás o faziam também). O que mudou foi simplesmente o tempo da ação divina, que passa da animação para a concepção de Cristo. 

O que permance então é sua visão que Maria, por uma ato extraordinário de Deus, foi liberda do pecado original e do pecado atual também. Este pensamento, até onde se possa levar é extremamente católico! 

Considerando tudo, devemos pensar na posição de Lutero a Imaculada Purificação de Maria não como sendo idêntica à posição católica (que se tornou dogma apenas séculos depois de sua morte), nem mesmo idêntica a como o protestantismo mundo a fora tem também atribuído.

domingo, 13 de janeiro de 2019

O Terceiro Uso da Lei


A lei possui tres usos:
1- para os não-regenerados ela é norma que obriga a vontade externa a se submeter, sua pena: prisão, danos civis, multas
2- para os não-regenerados ela é norma que expõe o desejo impuro e o impulso para o mal, ela condena a consciência, aponta para a justificação, sua pena: o inferno, a ira de Deus
3- para os regenerados ela é ensino, espelho e subjulga o velho adão em todos nós.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal - O Grande e Terrível dia do Senhor


*Antes de seguirmos o artigo, como é de hábito, deixo um aviso quando a linguagem usada se torna um pouco mais técnica ou densa.

Temos por hábito pensar em Deus como “um cobertorzinho fofo” como já disse certa vez uma famosa, algo sempre agradável e bonito. Mas esta não era a visão de Deus que se podia esperar.

Em Jó, ele é o que narra diante do quase morto Jó toda a glória e majestade e faz o pobre homem tremer, em Moisés, ele é o dominador que destruiu o Egito e se manifestou cercado de densas e tenebrosas nuvens, com o som de raios e trovões, fazendo o monte arder como uma fornalha e suas bases tremerem, nos salmos, ele é o que deve ser beijado para que não se ire, em Isaías, Ele é o terrível diante do qual o medo da morte é uma mera sombra. No Apocalipse, ele tem os olhos como chamas de fogo e sua boca é como uma espada afiada. Sim, através de toda a Escritura, esta é a visão de Deus: Terrível!

Houve um homem nascido judeu que alegava ser, ou “o filho de”, ou ser “um com”, o Algo que é ao mesmo tempo o terrível assombrador da natureza e o autor da lei moral. É tão chocante que somente duas opiniões sobre esse homem se tomam possíveis: Ou ele foi um lunático do tipo mais abominável, ou, foi, e é, precisamente aquilo que afirmou. Não existe meio termo. Se a primeira hipótese for inaceitável, resta somente a segunda.

E se fizer isso, tudo o mais dito sobre ele torna-se verdadeiro – que seu nascimento e que sua morte, de maneira incompreensível para a mente humana, produziu uma real mudança em nossas relações com o terrível e justo SENHOR. modificando essa relação em nosso benefício.

O cristianismo não é um debate filosófico sobre as origens do universo: mas um evento histórico catastrófico que se seguiu ao longo preparo espiritual da humanidade.

E se Deus se fez carne, como nós somos carne e sofreu, então não se trata de um sistema no qual temos de encaixar o fato embaraçoso do sofrimento. Num certo sentido, este fato do natal abraça, em lugar de resolver, a questão do sofrimento humano, pois este não seria um problema a não ser que, lado a lado com nossa experiência diária deste mundo sofredor, tivéssemos recebido o que julgamos ser uma boa certeza de que a realidade final é justa e plena de amor. E quando chegamos ao último passo, a Encarnação histórica, a segurança é a mais forte de todas.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O Pão nosso de cada dia dai-nos hoje



Podemos dizer que esta quarta petição do Pai Nosso é sem dúvidas uma das passagens mais sublimes do novo testamento. Para mim, ela simplesmente resume todas as nossas necessidades para esta vida e para a eternidade de modo sublime. 

Certamente que Deus tem providenciado o sustento diário para nós todos os dias, sejamos seus mais piedosos filhos ou o pior dos pecadores. Mas pedimos também por esta petição não apenas que nos seja dado, mas que possamos reconhecer isto como dádiva divina. Isto nos remete para o comissionamento dado por Cristo em sua ascensão aos céus “Ensinando-os a reconhecer todas as coisas que vos tenho mandado” (Mt 28.28-29). Nesta pequena frase aprendemos a reconhecer que nosso pão é acima de tudo, dádiva divina.

Mas seria isto somente o simples pão? De fato, não falamos apenas disto, mas de tudo o que entendemos ser pão, ou melhor definido nas palavras de Lutero: 

“O que significa o pão de cada dia? Tudo o que pertence ao sustento e às necessidades da vida, como por exemplo: comida, bebida, vestes, calçados, casa, lar, campos, gado, dinheiro, bens, cônjuge fiel, filhos piedosos, empregados fiéis, superiores piedosos e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, leais amigos, bons vizinhos e coisas semelhantes.” 

Com toda razão colocamos por pão tudo o que é essencial à vida, não somente a uma mera sobrevivência, mas a uma vida alegre com amigos leais, bons vizinhos, bom governo, cônjuge fiel...
Neste momento inevitável pensar que Lutero se adiantou alguns séculos ao pensamento de John Piper, famoso teólogo que diz que devemos viver para a maior glória de Deus, e que o glorificamos também com nossa alegria. Louvar a Deus pelos agrados que temos é viver para a glória de Deus, e reconhecer isto como o pão nosso de cada dia, é entender a oração de Jesus com um sentido muito mais sublime. 

Basicamente estamos pedindo a Deus que nos ensine a reconhecer todas as coisas com ação de Graças a cada dia. E que preciosa lição é esta! Somos tão miseravelmente falhos que podemos tomar os mais grandiosos dons de Deus como algo comum e sem valor, simplesmente por termos todos os dias. 
O Povo que saiu do Egito caiu neste erro! Eles viam colunas de fogo todas as noites, caminhavam no deserto escaldante sempre à sombra de uma nuvem com roupas que nunca se desgastavam, comiam do pão que descia do céu em uma infinita variedade de receitas que deviam ter inventado todo este tempo, mas ainda assim... se acostumaram e passaram a reclamar ao invés de reconhecer o sustento vindo de Deus.
Somos ainda aqueles adolescentes mimados que mesmo recebendo uma mesada todo mês sem ter feito nada para merecer, ainda reclamamos que não temos o suficiente.
pedirmos a Deus “O pão nosso de cada dia dai-nos hoje” é uma lição de contentamento!.

Mas talvez possamos nos dobrar a outro sentido para este pão. Na verdade, é neste outro sentido que está a verdadeira maravilha do texto.

Ao nos lembrarmos que os Evangelhos de Marcos e Lucas, onde encontramos a oração do Pai Nosso transcrita, foram escritos, não em nossa língua, mas em grego, temos uma palavra incomum “Ton arton ton imeron epiousion dos imin simeron” Assim aparece o texto. O problema é esta palavra de difícil interpretação “epiousion”. Trata-se do que linguisticamente chamamos de “hápax legomenon”, ou seja, um termo que não se repete no mesmo contexto, ou no caso, esta palavra não aparece em nenhum outro lugar de qualquer texto escrito em grego antigo. Isto é importante, pois usar uma palavra tão incomum já aponta para o fato de que estes homens estavam tentando traduzir em palavras algo que superava tudo o que eles poderiam explicar. 

Sabemos que esta palavra tão incomum ocupa na frase a posição de um adjetivo, ou seja, é uma qualidade para “arton” (pão). Entretanto, este adjetivo é antecedido por um artigo, “ton”, então, se comparta como um substantivo, um nome.
Com esta dificuldade, esta palavra foi simplesmente traduzida como o pão diário, ou o pão de cada dia. Entretanto, em nenhum outro lugar esta palavra foi usada, em todos os demais textos do Novo Testamento, sempre que algo era dito nesta frequência, a palavra diária usa outro termo “himeran”, termo bem comum no grego. 

Então, se já havia uma palavra comum para “pão diário” porque precisaram usar uma palavra nunca antes usada e que nunca mais foi encontrada?
Podemos então voltar até as primeiras gerações de cristãos, que certamente teriam maiores condições de entender esta linguagem, e encontramos São Jerônimo no ano 382 da era cristã com a difícil missão de traduzir esta passagem para o Latim. Jerônimo, atualizando o latim antigo para uma versão mais condizente com sua época, buscou no grego o significado original, transpassando-o para o latim corrente em sua época. Vendo este dilema ele traduziu então de duas formas esta palavra, em Mateus 6.11, Jerônimo fez uma análise morfológica, buscando a raiz da palavra e assim a traduziu como “supersubstantialem”, apontando para uma substância sobrenatural, e no texto de Lucas, a mesma palavra foi traduzido por “quotidiamum”, simplesmente dizendo ser um pão diário.

Sem dúvidas há muitas formas de entendermos o “pão nosso de cada dia”, mas esta é uma delas: “Epi-Ousion”, uma super substância, um pão que não é nada parecido com os demais. O mais próximo em nossa língua seria “o pão nosso sobrenatural dá-nos hoje” De fato, os Santos Pais entendiam que esta petição era na verdade uma prece eucarística:

“O sacramento dos fiéis, necessário agora, não, porém, para a felicidade deste tempo, mas para alcançarmos a felicidade eterna.” (Santo Agostinho) 

Vale lembrar, este termo é de difícil tradução e o entendimento como sedo apenas uma alusão ao pão quotidiano é perfeitamente cabível. Tanto que assim foi mantido na tradução de Jerônimo, e mesmo nas missas celebradas em latim do antigo rito, ainda o texto usado é o de Lucas onde a palavra utilizada é esta “quotidianum”. 

Podemos sim ver “epiousion” como uma recordação do Maná no deserto, como vemos em Exodo 16.4, o pão suficiente para o dia, como de fato podemos ler em algumas versões. Ainda assim, encontramos suporte para entendermos este pedido pelo “pão sobrenatural” em Agostinho, Cirilo de Jerusalém, Cipriano de Cartago e São João cassiano (embora contraditado por Orígenes). 

Tomado neste sentido, o pão sobrenatural nos aponta para o Pão da Vida, o próprio Cristo, “dá-nos hoje” neste caso, aponta para o Dia do Senhor, a celebração da instauração do reino de Deus, este grande dia que sua igreja aqui na terra aguarda e que provamos um pouco quando tomamos parte na mesa do Senhor com os irmãos na fé a cada comunhão na Santa Ceia. Faz então completo sentido primeiro pedirmos “venha o teu reino”, e depois continuarmos, pedindo o pão sobrenatural de Deus.
Assim desde as primeiras gerações de cristãos entenderam, o pão nosso de cada dia é o pão necessário para a existência, este é o pão da comunhão, este é Cristo! O fato dos autores dos Evangelhos precisarem criar uma nova palavra para explicar isto nos aponta para o fato de estarem tentando explicar alguma coisa realmente nova, que nunca antes alguém tinha presenciado para que esta palavra já existisse.

Inicialmente Lutero também na sua tradução para o alemão tinha mantido a palavra “supersubstancial” conforme os textos apontam, em 1528 alterou a palavra para “täglich”, ou “diário” como encontramos até hoje. O motivo não foi ter discordado de se tratar de uma petição eucarística, mas na verdade por conta de uma corrente em sua época que via nesta petição a menção apenas do pão usando assim este texto para justificar a divisão do sacramento, servindo-se apenas o pão. A explicação de que não se deveria proceder assim foi inclusa até mesmo na Confissão de Augsburgo. 

Temos então um pedido escatológico: pedimos a antecipação do mundo porvir! 
Não seria uma contradição Jesus nos ensinar a pedir pão todos os dias e logo depois, em Mateus 6.31 dizer para não nos preocuparmos com mantimento que Deus cuidaria de nossas necessidades? 
Muitas são as interpretações desta passagem difícil, e com isso, as possibilidades de se traduzir o texto. Mas como esta passagem nos leva a pensar, com um simples pedido dizemos:

O mantimento nosso de cada dia nos dai hoje
As alegrias nossas de cada dia nos dai hoje
Nos dê o suficiente para nosso dia
Nos dê Cristo todos os dias!

terça-feira, 17 de julho de 2018

Bultmann e os mitos sobre Jesus



Antes de mais nada, já adianto, este artigo terá uma vocabulário um pouco mais técnico. 

Uma famosa obra teológica neotestamentária do século XX, Escrita por Rudolf Bultmann, como se bem sabe, colocou ensinamento de Jesus deliberadamente de lado, vendo-os como pressuposto da teologia neotestamentária e não como parte integrante de seu conteúdo, dispensando-lhe, por isso, atenção mínima em sua discussão. 

Há, é claro, um sentido específico no qual ele está certo. Se estamos escrevendo uma teologia do Novo Testamento, e Jesus não foi autor de nenhum de seus livros, logo, podemos concluir que o pensamento e o ensinamento de Jesus não são o pensamento e o ensinamento dos autores neotestamentários. Da mesma forma, ao incluir em sua obra uma discussão bem mais profunda acerca do querigma das igrejas primitivas e helênicas, ele coerentemente também classificou esse tópico como um dos pressupostos e temas da teologia do novo testamento e não como uma das partes da própria teologia. 

Entretanto esse argumento pode ser refutado com base na observação de que os ensinamentos de Jesus foram inseridos no Novo Testamento pelos autores dos Evangelhos. Eles consideravam ser a sua tarefa relatar grande parte de que Jesus havia ensinado e ao fazê-lo, aceitar esses ensinamentos como parte integrante de sua própria mensagem. Nós também devemos seguir por esse mesmo caminho. Em um livro que estuda a teologia do novo testamento, a ênfase deve recair sobre os ensinamentos de seus verdadeiros autores. Porém também deve ser dada atenção à figura do próprio Jesus na medida em que ele foi uma das fontes principais do pensamento dos Evangelistas. 

No Entanto, de que forma isso deve ser feito? Devemos destacar aqui que os Evangelistas consideraram importante não apenas registrar os ensinamentos de Jesus, mas também apresentar em seus Evangelhos, de forma mais profunda e tematicamente organizada, a história da vida de Jesus, ou melhor, as partes de sua história que entenderam relevantes para suas audiências. É altamente significativo o fato de que existem cristãos que sentissem necessidade de deixar registrada a forma como eles viam entendiam a vida de Jesus, isso numa época em que muitas das epístolas já haviam sido escritas e algumas já eram presumivelmente conhecidas em outros locais, além de seus destinos originais. Consequentemente, Isso mostra que, embora houvesse teólogos entre os primeiros cristãos, como São Paulo, a falta de informação a respeito da vida e obra de Jesus deixava extremamente insatisfeita a Igreja primitiva, que desejava ver a teologia das epístolas dentro de um contexto mais amplo, ou seja, em uma integração com a vida e os ensinamentos de Jesus realizada pelas obras teológicas que hoje conhecemos como os Evangelhos. Assim, o Jesus histórico e os seus ensinamentos foram inseridos no Novo Testamento e, portanto, em sua teologia por meio fundamentalmente dos Evangelhos. 

Poderíamos dizer então que Jesus histórico é relevante para teologia do novo testamento em 3 níveis: 

Primeiro: Jesus, mais que qualquer outro que se possa imaginar é a figura histórica cuja obra e mensagem constituem a base e a formação da configuração da igreja. Desse modo, Jesus tem direito de ser ouvido por aquilo que representa. 

Segundo: a atuação histórica do mestre é o ponto de partida de todo o cristianismo de toda prática e pensamento Cristão, portanto nada mais apropriado do que um estudo sobre a influência de Jesus. Nesse sentido ele é o pressuposto da teologia de seus seguidores. Podemos aqui dizer que este foi o ponto sobre o qual Bultmann se deteve em sua análise, talvez até certo ponto, um pouco do primeiro, mas não na exata extensão do registro Bíblico, uma vez que seu revisionismo exclui material que ele atribuiu a supostas fontes cuja existência ou entender cristológico sequer pode ser traçado. 

Terceiro: Jesus é o tema da reflexão dos Evangelhos, logo as obras dos Evangelistas devem ser vistas como parte significativa na busca por uma teologia do novo testamento. 

Considerando-se esses três níveis, o tratamento que Bultmann conferiu a mensagem de Jesus restringiu-se apenas ao segundo nível e ele, de alguma forma, deu um jeito de omitir o terceiro nível, fornecendo um clássico exemplo de como matar com êxito a teologia neotestamentária. Bultmann, por fim, ao invés de analista dos documentos da igreja primitiva, projeta para sua obra seu ceticismo com relação à maior parte dos registros existentes e sua convicção de que história das realizações de Jesus era irrelevante para a fé cristã. Para ele, o que realmente importava e os desafios existencial das poucas palavras que poderiam ser seguramente atribuídas a Jesus. 

Assim, continua existindo uma grande divergência entre estudiosos e dogmáticos que defendem que os Evangelhos sinóticos oferecem um panorama bastante confiável sobre a forma como Jesus agia e falava, e estes revisionistas que sustentam serem duvidosas as narrativas dos Evangelhos, sustentando que há alguma diferença substancial entre o Jesus histórico e o presente na narrativa Bíblica. 

Deve-se discutir a teologia de Jesus da maneira como nos é apresentada pelas Evangelhos, com base no sólido pressuposto que as apresentações de Jesus que encontramos nos Evangelhos sinóticos são próximas o suficiente da realidade histórica de forma a compreender a sua mensagem e missão. 

Evidentemente, Bultmann, que encabeça este artigo não é o único que por estes fundamentos desvia seu olhar da ortodoxia mediante falsos pressupostos, pode-se entre erros similares enumerar uma lista de críticos, revisionistas e similares. Entretanto, em que pese o nome destes autores, o mero pressuposto da construção de uma teologia neotestamentária torna suas particulares desconsiderações da mensagem evangélica seu maior erro. Neste intuito para este artigo breve, contive-me a analisar o pressuposto revisionista da “desmitificação”, nos termos do próprio Bultmann apenas de um ponto: o elemento humano das Escrituras. A simples menção da inspiração divina sobre os Evangelhos, especialmente como professada nossa fé na suggestio litteralis (inspiração literal) das Escrituras, já desclassifica o método crítico em toda sua gama.

domingo, 24 de junho de 2018

São João Batista, a voz no tempo!


Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo 293,1-3: PL 38,1327-1328)

Voz do que clama no deserto

A Igreja celebra o nascimento de João como um acontecimento sagrado. Dentre os  nossos antepassados, não há nenhum cujo nascimento seja celebrado solenemente. Celebramos o de João, celebramos também o de Cristo: tal fato tem, sem dúvida, uma explicação. E se não a soubermos dar tão bem, como exige a importância desta solenidade, pelo menos meditemos nela mais frutuosa e profundamente. João nasce de uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem.

O pai de João não acredita que ele possa nascer e fica mudo; Maria acredita, e Cristo é concebido pela fé. Eis o assunto que quisemos meditar e prometemos tratar. E se não formos capazes de perscrutar toda a profundeza de tão grande mistério, por falta de aptidão ou de tempo, aquele que fala dentro de vós, mesmo em nossa ausência, vos ensinará melhor. Nele pensais com amor filial,a ele recebestes no coração, dele vos tornastes templos.

João apareceu, pois, como ponto de encontro entre os dois Testamentos, o antigo e o novo. O próprio Senhor o chama de limite quando diz: A lei e os profetas até João Batista (Lc 16,16). Ele representa o antigo e anuncia o novo. Porque representa o Antigo Testamento, nasce de pais idosos; porque anuncia o Novo Testamento, é declarado profeta ainda estando nas entranhas da mãe. Na verdade, antes mesmo de nascer, exultou de alegria no ventre materno, à chegada de Maria. Antes de nascer, já é designado; revela-se de quem seria o precursor, antes de ser visto por ele. Tudo isto são coisas divinas, que ultrapassam a limitação humana. Por fim, nasce. Recebe o nome e solta-se a língua do pai. Relacionemos o acontecido com o simbolismo de todos estes fatos.

Zacarias emudece e perde a voz até o nascimento de João, o precursor do Senhor; só então recupera a voz. Que significa o silêncio de Zacarias? Não seria o sentido da profecia que, antes da pregação de Cristo, estava, de certo modo, velado, oculto, fechado? Mas com a vinda daquele a quem elas se referiam, tudo se abre e torna-se claro. O fato de Zacarias recuperar a voz no nascimento de João tem o mesmo significado que o rasgar-se o véu do templo, quando Cristo morreu na cruz. Se João se anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua, porque nasce aquele que é a voz. Com efeito, quando João já anunciava o Senhor, perguntaram-lhe:

Quem és tu? (Jo 1,19). E ele respondeu: Eu sou a voz do que clama no deserto (Jo 1,23).

João é a voz; o Senhor, porém, no princípio era a Palavra (Jo 1,1). João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.

Oração 
Cristo, sol nascente, iluminai os nossos caminhos! Vós fizestes João Batista exultar de alegria no seio de Isabel; fazei que sempre nos alegremos com a vossa vinda a este mundo. Vós nos indicastes o caminho da penitência pela palavra e pela vida de João Batista; convertei os nossos corações aos mandamentos do vosso reino. Vós quisestes ser anunciado pela voz de um homem; enviai pelo mundo inteiro mensageiros do vosso evangelho. Ó Deus, que suscitastes São João Batista, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito, concedei à vossa Igreja as alegrias espirituais e dirigi nossos passos no caminho da salvação e da paz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Por que Cristo precisava se tornar homem?



Mesmo que sobre várias passagens este tema poderia ser trazido, uma das mais significantes ainda é: “Ele, estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como um homem, abaixou-se, tornando-se obediente até a morte, a morte sobre uma cruz. Por isso Deus soberanamente o elevou e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome, a fim de que ao nome de Jesus todo joelho se dobre nos céus, sobre a terra e sob a terra, e toda língua proclame que o Senhor é Jesus Cristo para a glória de Deus Pai” (Fl 2,6-11)

Para evitar qualquer achismo, nos apeguemos ao texto: “Estando na forma de Deus” (Fl 2,6). Se Cristo fosse apenas um homem, teria sido dito que ele estava na imagem de Deus, não na forma de Deus. Sabemos que o homem foi feito à imagem (Gn 1,26-27.), não à forma de Deus. Quem foi gerado na forma de Deus? Um anjo? Mas sequer lemos que haja forma de Deus nos anjos, apenas no Filho de Deus, o Verbo de Deus, imitador de todas as obras de Deus Pai ao agir assim como o próprio Pai (Jo 5,19), Jesus é a forma de Deus! Nesta forma Jesus também está sobre todas as coisas e com poder divino sobre toda criatura ele é igualmente Deus! Sabemos então que ele é Deus e Senhor de tudo: é Deus segundo a forma de Deus Pai. 

Embora na forma de Deus, (o que testifica que Cristo é verdadeiro Deus), “não usou de seu direito de ser tratado como um deus”. Embora divino e acima de todas as coisas, jamais se comparou a Deus Pai, nem se equiparou a ele, lembrando-se que ele é eternamente gerado de Deus Pai e todo o seu ser é da mesma substância que o Pai. Daí que, enfim, não só antes de assumir da carne, mas também depois da própria ressurreição, ele prestou e presta ao Pai toda obediência em todas as coisas. Assim, sendo Deus, sempre foi obediente e submisso a todo poder e a toda vontade do Pai. Ainda aqui cabe colocarmos que a submissão de Cristo à vontade do Pai não é como a submissão humana, onde obedecemos por estarmos em posição inferior numa cadeia de comando. Cristo executa todas as obras do Pai, ele compartilha da mesma natureza e da mesma substância de Deus Pai. Sua submissão consiste no próprio fundamento de seu reino, numa união perfeita (hipostática) marcada não pela dominação de uns sobre os outros, mas na capacidade de servir ao outro (Mt 20.21-28)

Assim, de bom grado assumiu a forma de escravo, ou seja, se fez homem e da carne e corpo que tomou ao nascer segundo a natureza humana, da escravidão do pecado, um corpo carregado com suas dores, sofrido pelo trabalho, enfraquecido e limitado.

Cristo despojou-se (abriu mão), naquela ocasião, a si mesmo, ao assumir a fragilidade humana dessa condição. Porque, se tivesse nascido apenas homem, não teria como ter se despojado de algo. Um homem ao nascer desenvolve-se, não se despoja. Não há do que se despojar quando se começa uma vida. Como Cristo se despoja por nascer e tomar a forma de escravo, como diz o texto, se ele é apenas um homem? Então ele teria se enriquecido, se desenvolvido, ao invés de, nas palavras do texto, se despojado.

Então vemos o fruto de sua obra de, sendo Deus, ter se despojado para assumir a nossa humanidade: recebeu um “nome que está acima de todo nome”,(Fl 2,9) nome que não pode ser outro senão o de Deus. Pois, se estar acima de tudo é próprio de Deus apenas, logicamente estar sobre tudo é próprio de Deus! Assim, existe um nome que está acima de todo nome, e é o nome daquele que, tendo estado na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus.( Fl 2,10) Se Cristo, não fosse também Deus, tudo o que existe, dentre os seres celestes, terrestres e infernais, não dobraria o joelho ao seu nome, nem estaria submetido ou posto aos pés de um homem,( Cl 1,16; Ef 1,21-22) as realidades visíveis ou invisíveis de todas as coisas, as quais existiam antes do homem. 

Com tudo isto, ao se dizer que Cristo estava na forma de Deus,( Fl 2,6) ao se mostrar que, em seu nascimento segundo a carne, ele se despojou, ao se afirmar que ele recebeu do Pai esse nome que está acima de todo nome, ao se revelar que, a seu nome, todo joelho das criaturas celestes, terrestres e infernais se dobra, e ainda, ao se dizer que isso mesmo ocorre para a glória de Deus Pai, ele não é apenas um homem pelo fato de que se tenha feito “obediente até a morte, a morte sobre uma cruz”, mas, por tudo o que o texto nos expõe, reconhecemos a divindade de Cristo! Jesus Cristo é um só Senhor, gerado do Pai antes de todos os tempos, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas, o qual por nós homens e pela nossa salvação desceu do céu, e encarnou por obra do Espírito Santo, da Virgem Maria, e foi feito homem. Foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado. E, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras, e subiu ao céu, e está sentado à mão direita do Pai, e virá outra vez com glória a julgar os vivos e os mortos, e o seu Reino não terá fim.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Quem é o Anticristo?



As Escrituras se referem ao anticristo de duas formas:
Por um lado, é um termo para designar todos os que solapam a palavra de Deus com doutrinas de homens (1Jo 2.18). Todos os falsos mestres devem ser considerados anticristos (adversários de Cristo), uma vez que nosso Senhor insiste em que na igreja se não ensine nenhuma outra doutrina além da doutrina das Sagradas Escrituras (Mt 28.20; Jo 8.31-32; 17.20; 5.39; Rm 16.17; 1Pe 4.11; 1Tm 6.3ss; 2Tm 3.15-17; 2Jo 10; Ap 22.18-19). Todos quantos desconsideram esta ordem divina são rebeldes e adversários de Deus (Lc 11.23). 

Por outro lado, também designa o grande Anticristo, cuja vinda se prediz em 2Ts 2.3-12. Em 1Jo 2.18 encontramos uma cuidadosa distinção entre este Anticristo e os “muitos anticristos”, e sua aparição é um sinal dos últimos tempos. 

Como as Sagradas Escrituras retratam o Anticristo como o iníquo, de quem todos os crentes se devem acautelar e a quem podem, logicamente, conhecer (2Ts 2.8), cabe a nós avaliarmos as características deste com base na revelação divina em Sua Palavra. 



Segundo 2Ts 2.3-12, estas características são inconfundíveis: 

1) A apostasia: conforme 2Ts 2.10-12, a apostasia é causada pela “operação do erro”, ou seja, os homens muitos são levados pelo erro e condenados por sua incredulidade. É, portanto, apostasia de Cristo e de sua palavra (2Ts 2.4). 

2) O “assentar-se no santuário de Deus” (2Ts 2.4). A grande apostasia de Cristo e do Evangelho não sucede fora da igreja, mas dentro dela; pois o “santuário de Deus” é a igreja (1Co 3.16ss; 1Tm 3.15; 2Tm 2.20). A grande apostasia que o Anticristo leva não é, portanto, como muitos tem interpretado e até pregado em muitos púlpitos. na difusão de cultos anticristãos, mas em apostasia dentro da igreja, isto é, uma violação do Evangelho que se dissimula com palavras e formas piedosas. Esta prática não é apenas temporária, mas é permanente; pois o Anticristo continuará assentado no santuário de Deus até a segunda vinda do Senhor (v. 8). 

3) O opor-se e levantar-se contra tudo que se chama Deus. O Anticristo, que está assentado no santuário de Deus, faz constante oposição a Deus e à sua palavra, sendo chamado como autoridade suprema em religião (“ostentando-se como se fosse o próprio Deus”, v. 4). Sob o reinado do Anticristo, a igreja não obedecerá nem a Cristo nem ao seu Evangelho, mas faz o que o Anticristo com sua pretensa autoridade divina exige, Todos os que se submetem a ele devem, portanto, obediência antes aos seus ensinos que à Palavra de Deus. 

4) A eficácia de Satanás no Anticristo. Embora o Anticristo não seja o próprio Satanás, o seu “aparecimento é segundo a eficácia de Satanás, v. 9; isto é, ele se apresenta pela operação astuta de Satanás e se mantém no centro da igreja pelo poder de Satanás; Embora todas suas obras pareçam genuinamente piedosas com a Igreja de Cristo, com a ajuda de Satanás está em condições de exercer “todo o poder e operar sinais e prodígios da mentira” (v. 9). O Anticristo ensina doutrinas de mentira, também realiza obras de mentira. Sua norma assenta, pois, em sua habilidade, para enganar os homens por todas as modalidades de mentira. Veja que operar seus prodígios é o que toma a cabeça de muitos e imaginam que ele será como um “santo milagreiro" fazendo sinais o tempo todo, mas biblicamente somos advertidos de algo muito mais sombrio. Ele se assenta no lugar mais nobre entre os filhos de Deus e sua doutrina é aparentemente cristã, mas seus enganos o denunciam. Satanás é pai da mentira, e reconhecemos este seu filho pela mesma característica. 

5) Ele é revelado e desfeito pelo sopro da boca do Senhor, (v. 8). Ainda não estamos falando de sua derrota final, o sopro da boca do Senhor o revela. O Anticristo permanece ignorado por muitos (“mistério da iniquidade”, v. 7); mas, a seu tempo, é revelado pela pregação da palavra de Deus. Ou seja, Temos o anúncio que o próprio Deus levantou seus ministros para pregar a sua Palavra, pura como o sopro da boca do próprio Deus, e toda a mentira foi exposta. Isto, porém, não significa o fim de seu reinado; porque somente o Senhor mesmo o destruirá pela manifestação de sua vinda” (v. 8); vale dizer, o reinado do Anticristo continuará até o dia do juízo, sua doutrina ainda será ouvida e ele continuará no seio da igreja. 

6) A vinda e o reinado do Anticristo são a manifestação da ira de Deus para com todos os que “não acolheram o amor da verdade para serem salvos” (v. 10). Sua aparição traz, portanto, a condenação de muitos (v. 12) e, desta maneira, prefigura a ira condenatória de Deus no dia do juízo (v. 3). Os que o seguem não compreendem como é abominável rejeitar a palavra de Deus como única fonte e padrão da fé e anatematizar a doutrina da justificação pela fé em Cristo somente. 


Muitos tem crido conforme vemos em alguns filmes, em um homem que seja um político influente, mas a verdade Bíblica é outra, o trono do Anticristo está no templo de Deus, Com todas estas características percebemos então que não falamos em enganadores individuais (Ario, Maomé, um propagador de heresias qualquer que se de nome) nem em governos individuais (Nero, Napoleão, etc..). 

Não tem cabimento queremos dar um nome individual, considerando que São Paulo aqui descreve o “mistério da iniquidade” que já operava em seu tempo e que permanecerá até o fim dos séculos (vv. 7-8), Portanto, não pode se tratar de um único homem, mas de uma sucessão inquebrada que remonta aos tempos do Santo Apóstolo, reina em nossos dias e que já foi exposta por suas próprias doutrinas, mas que continua a se assentar no seio da igreja geração após geração. 

Embora a doutrina Bíblica sobre o Anticristo não seja artigo fundamental de fé, visto que ninguém se salva por isso, mas somos salvos somente através de Cristo por Graça e fé, ainda assim não a devemos considerar de pouca importância, uma vez que Deus nos transmitiu esta verdade (2Tm 3.16).

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O Pentecoste nosso de cada dia





O Pentecostes tinha que ser observado no antigo Israel no 50º dia depois que o sacerdote levasse o molho da oferta movida dos primeiros grãos que tinha sido colhido na primavera (Levítico 23.15-21). Recordar a aliança do Monte Sinai, era lembrar o nascimento da nação de Israel quando foi constituído através da lei de Deus dada a Moisés. Era a festa da aliança entre Deus e o povo escolhido (Êxodo 19.3). Isto é de grande significado, porque nos ajuda a compreender a razão pelo qual o Espírito Santo descendeu no dia de Pentecoste. A Igreja nascia assim no mesmo dia em que a nação de Israel. Foi dada à luz ao Israel espiritual, o novo povo de Deus, a Santa Igreja de Cristo.

 As imagens do nascimento da Igreja nos lembram os eventos acontecidos na criação quando Deus sopra vida a Adão, enquanto Jesus sopra o Espírito Santo aos seus apóstolos. No Monte Sinai, encontramos as imagens de uma teofania com fogo, enquanto o dia de Pentecostes observamos sinais semelhantes. Deus nos lembrava assim que, a partir deste momento, a lei não estaria escrita em tabuas de pedra, mas nos corações do Seu povo a través do Espírito Santo (2 Coríntios 3). Isto ainda é mais compreensível quando o apóstolo Pedro proclama que a profecia de Joel estava se cumprindo naquele momento (Atos 2.16). 

Uma nova criação surge em meio de Jerusalém, a Igreja nasce. Jesus diz, “Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (João 12.32). Deus estava realizando o plano e cumprindo a promessa ao povo de Israel através de Jesus Cristo para resgatar as nações do pecado e da morte. A vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes se revelou o plano redentor do Pai para resgatar as nações e criando, assim, um novo povo, um novo Israel, um Israel espiritual (Gálatas 6.16), a Igreja de Cristo, Una, Santa, Católica e Apostólica. O batismo do Espírito Santo no dia de Pentecostes foi o sinal desse novo dia, o nascimento da Igreja.

Esta foi a graça concedida naquele dia. O pentecoste foi o nascimento da igreja, um evento único, que daquela forma não o veremos mais. Isto significa que não veremos mais Deus como um fogo consumidor sobre nós? De forma alguma! A cada um de nós há um pentecoste verdadeiro, no dia que, pelas águas, fomos batizados para dentro do corpo de Cristo.

O Espírito Santo, que é Deus juntamente com o Pai e o Filho, nos alcança pelo batismo; nos torna de tal forma repletos de sua graça que nos liberta do pecado e da morte. E de terrenos que somos, quer dizer, feitos do pó da terra, nos faz espirituais, participantes da glória divina, filhos e herdeiros de Deus Pai.

Pelo batismo, somos inseridos no Corpo de Cristo, fazemo-nos coerdeiros e irmãos, destinados a ser um dia glorificados e a reinar com ele. Em vez da terra, dá-nos de novo o céu, abre-nos generosamente as portas do paraíso, honra-nos mais do que os próprios anjos. 
O batismo, que nada mais é que água unida à palavra de Deus, e, portanto, Evangelho em toda a sua extensão, se constitui de simples água, mas, com a Palavra de Deus, as águas divinas que para nós apaga as imensas e inextinguíveis chamas do inferno.

Israel foi criada duas vezes, uma para os Judeus, e a segunda, o pentecoste de todos nós, cristãos. De modo semelhante, os homens são concebidos duas vezes: uma corporalmente, a outra, pelo divino Espírito. Acerca de um e de outro nascimento, escreveram muito bem os autores sagrados.

São João diz: A todos que o receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo (Jo 1,12-13).
Todos os que acreditaram em Cristo, afirma ele, receberam a capacidade de se tornarem filhos de Deus, quer dizer, pelo Espírito Santo, e participantes de toda sorte de bênçãos das regiões celestiais. E para ficar bem claro que assim como em pentecoste, o mesmo Espírito nos faz filhos em nosso batismo, acrescenta estas palavras de Cristo: Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus (Jo 3,5).

A fonte batismal é simultaneamente água e fogo. São João Batista, de acordo com esta expressão: da água e do Espírito, diz a respeito de Cristo: Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo (Mt 3,11; Lc 3,16). 
Como um vaso de barro, o homem precisa ser limpo pela água e fortalecido pelo fogo. (Deus, com efeito, é um fogo devorador). Precisamos, portanto, do Espírito Santo para nossa perfeição e salvação. Pois o fogo espiritual sabe também regar, e a água batismal é também capaz de queimar.

A Igreja nasceu pela água e pelo fogo, e cada um de nós também lembramos nosso nascimento a cada pentecoste, pela água e pelo fogo que nos deu o poder de sermos chamados Filhos de Deus!

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Gêneros Literários na Bíblia - parábolas


Parábolas




Frequentemente eu vejo pessoas fazendo uma confusão sobre o que é uma parábola na Bíblia. Não raro, vejo pessoas dizendo:
  • se cita nomes, então é uma história real;
  • todos os elementos tem um significado;
  • só é parábola se Jesus disse que é parábola;
  • etc...
Parábolas em geral são usadas para ilustrar ou facilitar a compreensão de um assunto complicado; falar do desconhecido a partir do conhecido e servir como uma ponte para chegar lá. Quando Jesus fala do semeador que vai semear (Mt 13.3), ele não está falando de alguém realizando literalmente esse trabalho, mas de sua própria missão de semear o Evangelho. O objetivo da história é descrever alguma coisa diferente do que ela na verdade está afirmando. E é justamente pelo fato de uma parábola não ser nem sempre uma simples metáfora, que ela às vezes adquire um grau de complexidade maior em sua interpretação. É preciso atenção nas ações, personagens, situações e outros detalhes significativos. 

A opção de Jesus em ensinar por parábolas parece ser de fácil explicação. Diz-se que as parábolas têm a vantagem de desarmar àqueles que possam ofender-se com sua mensagem, visto que o ouvinte freqüentemente tem que esperar até o último momento da história para descobrir seu significado, ou mesmo, e aí pode estar o ponto principal, se enxergar dentro da história. Um exemplo disto pode ser a parábola de Natã ao rei Davi (2 Sm 12.1-10).

Quando o profeta Natã repreendeu a Davi, ele se usou de uma parábola a fim de ilustrar o que de fato o rei havia feito ao tirar a esposa de Urias, Bate-Seba. Num determinado momento, Davi “se enxergou” na história e assim ele só não compreendeu o que estava sendo dito, como se deu conta o que tinha feito e aí se arrependeu e pediu perdão a Deus. Nesse caso a parábola atingiu completamente seus propósitos.
A parábola é uma forma de cativar os ouvintes, fazê-los parar e pensar acerca do seu modo de agir, pensar e crer, a fim de levá-los a reagir e dar alguma resposta ao Senhor Jesus.


A Interpretação das Parábolas


As parábolas tornaram-se um veículo de revelação das verdades a respeito do reino de Deus presente em Jesus, ainda que algumas vezes elas lhe dão um tom enigmático. “Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido. Pois ao que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso, lhes falo por parábolas; porque, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem” (Mt 13.11-13).

Portanto, em certo sentido não há como evitar debates e não estamos completamente livres de equívocos na hora da interpretação. Na verdade, até mesmo os discípulos algumas vezes ficaram intrigados pelas histórias ouvidas de seu mestre (Mc 4.13).

É este detalhe particular que pode nos levar a refletir que existe algum grau de dificuldade por causa da identificação ou não com os personagens ou fatos da história narrada. Por isso, a tarefa da interpretação exige cautela e atenção. Seria bem mais prático se Jesus tivesse explicado todas as parábolas, como fez com algumas (Mt 13.24-30 – 36-43). Além disso, é preciso observar que nem sempre os personagens, fatos e objetos de uma parábola têm um significado simbólico ou alegórico.

Portanto, o primeiro aspecto a ser levado em conta é o contexto original em que a parábola foi contada. Para elevar o grau de exatidão na compreensão deste tipo de gênero literário, além de obviamente entender bem a parábola em si, é fundamental prestar bem atenção no motivo pelo qual Jesus a contou. A observação do contexto particular e original em que as parábolas foram contadas é um elemento que pode se tornar decisivo para compreender bem o ensino de Jesus. É bem provável que algumas vezes nem havia necessidade de esforço para interpretá-las, visto que os ouvintes originais tinham e conheciam bem os pontos de referência usados e mencionados por Jesus. 

Quanto ao seu entendimento, um cuidado necessário é sobre a tendência natural da alegorização, ou seja, como se cada item (personagem, fato ou ação) da parábola tivesse um significado correspondente e/ou diferente do que está escrito. É verdade que parábolas podem ter essa característica, como o próprio Jesus explicou na parábola do semeador. Porém, isso pode não funcionar tão bem em outras parábolas. A que vamos comparar, por exemplo, na parábola das virgens prudentes e néscias (Mt 25.1-13), o azeite? O pedido de empréstimo do azeite? Às vezes é preciso tirar os olhos dos detalhes, que nem sempre compreendemos e fixar nosso olhar no grande ensino pretendido por Jesus. No caso da parábola das dez virgens, a vigilância.

Nesse caso poderia se afirmar que alguns elementos da parábola estão lá, mas não precisam ser decodificados na hora da interpretação, simplesmente porque não são condutores de algum tipo de lição.


No caso do Rico e Lazaro, o objetivo é claro em mostrar que os mais favorecidos neste mundo não necessariamente também serão favorecidos após a morte. Lázaro, que mendigava migalhas encontrou o repouso junto a Deus, mas o rico, este foi ao tormento eterno. Com esta parábola aprendemos que o reino não se conquista com riqueza, poder, posição social. Nada que há em nós mesmos é suficiente para assegurar nossa salvação. Quando o rico, já no sofrimento eterno tenta negociar os termos de sua própria desgraça, a ele é apontado o peso da Lei. Já não havia favores, apenas a condenação da lei, pois debaixo da lei ele morreu. Já lázaro, não tinha nada de si mesmo a oferecer, ele, que sempre dependeu da graça, a encontrou no seio de Abraão para sempre. 

Esta é uma parábola que mostra ao mesmo tempo o reino de Deus e a condição humana.
A ideia de que apenas o fato de se usar um nome a torna uma história real, como vemos constantemente ser dito, é uma visão não apenas errada, mas que leva a erros maiores. Como vemos neste breve texto que fiz para o blog, parábolas não são para serem alegorizadas em tudo, e também não são histórias mentirosas, são histórias que mostram uma realidade que deve ser refletida.

Temos bons exemplos de parábolas cristãs fora da Bíblia também. Um bom Exemplo, as Crônicas de Nárnia, de Lewis. É uma parábola do Evangelho, inclusive, escrita nesta intenção. Se você leu, ou assistiu às Crônicas de Nárnia e não entendeu que Aslan é na verdade uma figura de Jesus, voce simplesmente não entendeu nada da História. E nisto, há elementos significativos, como o próprio Aslan, sua morte e ressurreição, as crianças, mas há também elementos que apenas compõem a história, personagens apenas de fundo.

Não vamos cair numa visão muito simplista e dizer que só é parábola quando não cita nomes e se está dizendo no texto que é uma parábola (embora BOA PARTE está sinalizado). Parábolas são um gênero literário riquíssimo. Sejamos cuidadosos ao interpretar, e, se possível, com a ajuda de bons comentários bíblicos!