Mostrando postagens com marcador Apologética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Apologética. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

25 de dezembro: é o dia certo para o Natal


Todos os anos nós cristãos somos inundados com alegações de que o dia 25 de dezembro não é o dia certo para o Natal, que o cristianismo aderiu a datas de festas pagãs, que todo o calendário da igreja era um esquema de marketing para puxar os pagãos para diferentes celebrações e convertê-los. Porém tudo isto está longe da realidade.

O dia 25 de dezembro é uma data muito precisa para celebrar o nascimento de Cristo. Os cristãos celebraram inicialmente o nascimento de Jesus na páscoa. Isto se originou de uma prática da igreja primitiva de reconhecer a data da morte de um santo como a mesma data de seu nascimento. Os antigos pareciam gostar da simetria.

Quando o cristianismo começou a reconhecer o nascimento de Cristo como um dia próprio, a data em dezembro apareceu muito rapidamente. Hipólito de Roma defendeu o 25 de dezembro, por volta do ano 200 d.C. São João Crisóstomo parece ter encerrado a discussão, declarando o dia 25 de dezembro como a data certa, em torno do ano 300 d.C.


Há uma quantidade razoável de dados que sustentam esta data:

Zacarias estava servindo no templo com seus parentes. Eles estavam servindo no 8º mês do ano judaico. Nissan, o 1º mês, cai entre março e abril. O 8º mês cai entre meados de outubro e meados de novembro.


Agora, enquanto estava servindo como sacerdote perante Deus, durante este intervalo de meses, de acordo com o costume do sacerdócio, Zacarias foi escolhido por sorteio para entrar no templo do Senhor e queimar incenso... E quando terminou seu tempo de serviço, foi para sua casa. Depois desses dias sua esposa Isabel concebeu, e durante cinco meses ela se manteve escondida, dizendo: "Assim o Senhor fez por mim, nos dias em que me olhou, para tirar minha reprovação entre as pessoas". (Lucas 1:8-9, 23-25)



Depois desses dias, Isabel concebeu. Devemos entender uma data anterior a novembro, dentro da dita janela, como os pais da igreja o fizeram. Assim, Isabel concebeu por volta do dia 25 de outubro. No sexto mês de gravidez encontramos isso no texto:



E o anjo lhe respondeu: "(...) E eis que sua parente Isabel na sua velhice também concebeu um filho, e este é o sexto mês com ela que foi chamada estéril. Pois nada será impossível com Deus". E Maria disse: "Eis que eu sou a serva do Senhor; que seja para mim segundo a tua palavra". E o anjo se afastou dela. Naqueles dias, Maria levantou-se e foi com pressa para a região montanhosa, para uma cidade em Judá, e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. (Lc 1,35-40)

Maria concebe, portanto, por volta do dia 25 de março. Depois ela visita Isabel, que está no sexto mês. João Batista nascerá por volta do dia 25 de junho. Mais seis meses e chegamos no evento do nascimento de Jesus.

O nascimento de Jesus em 25 de dezembro é uma estimativa completamente razoável. A seleção dos primeiros cristãos da data do nascimento de Jesus parece ter sido influenciada principalmente pelas escrituras e por matemática simples. Agora, a data pode não ser totalmente precisa. Há cerca de 30 dias de espaço de manobra no início do cálculo. Mas, o dia 25 de dezembro é a época certa do ano. Está pelo menos muito próximo do dia certo, se não exatamente correto, o que também é possível.

Mais importante que a data é lembrarmos que aquele bebê é o grande Eu Sou, O mesmo Deus que deu a vida a Maria, nasceu de seu ventre por nós e para a nossa salvação.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

O que temos é a Sucessão Apostólica





Por Rev. Dr. Korey D. Maas


Uma vez mais a crise de abuso clerical na Igreja Católica Romana voltou a destacar a questão da sucessão apostólica. Precipitando uma série de deserções públicas de Roma, também levou muitos católicos a articularem publicamente as razões para a sua permanência. Provavelmente, a justificativa mais ouvida foi que, embora a Igreja Romana esteja moralmente danificada, Cristo não pode ser encontrado em nenhum outro lugar na Eucaristia. Embora tal afirmação seja indefensável, mesmo na base da própria teologia católica que reconhece a presença real de Cristo também nos altares das Igrejas Ortodoxas Orientais), tem o potencial de persuadir qualquer que um que considere a possibilidade de buscar comunhão, mesmo em uma igreja luterana confessional.


Para o luterano que poderia responder: "Mas nós não somos como os outros protestantes! Nós também cremos que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes em nossos altares!" O apologista católico responderá: "Por mais piedosas que sejam suas crenças, está errado; "Porque o seu clero não está na sucessão apostólica, suas ordenações são inválidas, e, portanto, não pode realizar a presença de Cristo no sacramento."

Mas a crise de abuso é apenas o contexto mais recente em que se ouve sobre a rejeição das ordens luteranas. Por ter sido expresso com certa regularidade desde a própria Reforma, os teólogos luteranos não negligenciaram as respostas articuladas à acusação. No entanto, algumas dessas respostas, como apontou Heath Curtis, são menos úteis do que outras. Portanto, vale a pena rever o que é a tradicional objeção romana às ordens luteranas, e qual é a resposta confessional luterana a essa objeção. Gostaria apenas de acrescentar alguns pontos para reforçar ainda mais a credibilidade contemporânea dessa resposta confessional.

Curtis notou que a tradicional rejeição romana das ordens luteranas poderia ser reduzida a um silogismo conciso. Somente bispos podem colocar homens no ofício ministerial; Luteranos não têm bispos; Logo, os luteranos não podem colocar homens no ministério. Como essa formulação torna evidente, as referências romanas à "sucessão apostólica" são frequentemente sinônimas de "sucessão episcopal"; a sucessão é mantida pela ordenação episcopal e somente episcopal.

Com referência ao Tratado sobre o Poder e Primado do Papa, Curtis nos lembra que

As Confissões não atacam a premissa principal. Antes, as Confissões atacam a premissa menor, afirmando com veemência que temos muitos bispos; porque todos os ministros são bispos porque existe apenas um Ofício do Ministério por direito divino.

Em outras palavras, o problema com a objeção romana não é sua insistência em que somente os bispos podem ordenar pastores. O problema está em qualquer afirmação de que o ofício episcopal é, por direito divino, um ofício distinto daquele do pastorado. Nas palavras do Tratado (§65) "já que por autoridade divina os graus de bispo e pastor graus não são diferentes, afirma-se que a ordenação administrada por um pastor em sua própria igreja é válida por direito divino."

Para a confirmação patrística da unidade do direito divino do ofício ministerial, o tratado apela especialmente a Jerônimo. Mas, como observado por Arthur Carl Piepkorn, muitos outros pais primitivos, com base no testemunho bíblico, concluíram de maneira similar que presbíteros e episkopos se referem ao mesmo ofício, e até mesmo no século XI poderia confessar que "a suma total do sacerdócio está está estabelecida nos presbíteros". Neste caso, também observa que durante a Idade Média, as ordenações de sacerdotes não episcopais e até mesmo os abades dos mosteiros frequentemente eram reconhecidas como válidas. (para os interessados, este "intercâmbio" refere-se às obras de estudiosos católicos contemporâneos que reconhecem que o Novo Testamento não distingue entre os ofícios pastorais e os episcopais).

À luz do exposto, é evidente que uma reivindicação luterana de sucessão apostólica através de ordenação episcopal pode ser mantida, desde que a função episcopal seja entendida em termos bíblicos, isto é, simplesmente como sinônimo de ofício pastoral. No entanto, por outro lado, Curtis Heath adverte que "é simplesmente uma loucura afirmar, como afirmam os anglicanos, que realmente temos uma sucessão apostólica no âmbito da definição dos termos de Roma".

É a esta afirmação que eu gostaria de oferecer uma classificação amigável, mesmo porque "a definição de Roma sobre os termos", neste como em muitos casos, tende a mudar (ou "desenvolver") sempre que necessário ou conveniente. E algumas dessas mudanças, com a intenção ou não de fazê-lo, dão mais crédito à reivindicação luterana de confissão de sucessão apostólica.

Respondendo, por exemplo, ao tipo de argumento que Curtis chama de “cinismo histórico”, que questiona se mesmo a própria Roma pode reivindicar de forma convincente a sucessão apostólica, o teólogo católico Mats Wahlberg recentemente tentou voltar atrás no tradicional argumento “sem bispos, sem sucessão”. Ele oferece, em vez disso, que “se os apóstolos autorizaram algumas pessoas a sucedê-los como líderes e lhes deram um mandato para autorizar seus próprios sucessores, o que temos é uma sucessão apostólica” (ênfase acrescentada). Ele prossegue: “Não importa se alguns dos que foram autorizados pelos apóstolos fossem chamados de 'presbíteros' em vez de 'bispos'. Também não importa se os apóstolos transmitiram sua autoridade não para 'bispos governarem seus rebanhos como monarcas'. "mas aos corpos dos anciãos".

Portanto, até presbíteros (em vez de bispos de maneira específica ou exclusiva) foram autorizados a suceder os apóstolos em seu ministério, e até presbíteros (em vez de bispos de maneira específica ou exclusiva) tiveram que autorizar seus próprios sucessores neste ministério "o que temos é a sucessão apostólica." É bom saber. Ou melhor, é bom ver que mesmo os teólogos romanos estão finalmente reconhecendo o que os luteranos têm conhecido e dito durante cinco séculos.

Tampouco Wahlberg é uma voz solitária. De fato, ele enfatiza o que simplesmente resume o cardeal Joseph Ratzinger. Ratzinger, claro, em 2005, se tornaria o Papa Bento XVI. Antes de sua ascensão ao papado, enquanto era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, se dirigiu à doutrina da sucessão apostólica no que ele chamou de um "manual de eclesiologia católica" chamado à comunhão.

Como o principal oficial de doutrina e futuro pontífice de Roma tratou do tópico à luz da “eclesiologia católica”? Ao reconhecer francamente que, de acordo com as Escrituras, os “termos presbítero e episcopoi se identificam”, eles são “equacionados e definidos como um único ofício de sucessão apostólica” (enfase nossa). Como o ofício pastoral e episcopal é de fato o mesmo ofício apostólico, Ratzinger pode até permitir que referências específicas ao episcopado se retirem de sua discussão sobre a sucessão apostólica. Ele pode notar, por exemplo, que o Novo Testamento “teologicamente identifica o ofício apostólico e o presbiterado”, e que “toda a teologia do apostolado… é assim aplicada ao presbiterado”. E, finalmente, que “esta ligação do conteúdo dos dois ofícios [i.e, apóstolo e presbítero] ... é, por assim dizer, o ato consumado da sucessão apostólica.”

Em outras palavras, já que por autoridade divina os graus de bispo e pastor não são diversos", mas compreendem um ofício apostólico, "a ordenação administrada por um pastor em sua própria igreja é válida por direito divino". Quando e onde isso é feito? mesmo de acordo com os teólogos contemporâneos de Roma, e contra os seus populares polemistas e apologistas, "o que temos é a sucessão apostólica".

*************************************************


Korey D. Maas é professor associado de história no Hillsdale College, em Hillsdale, Michigan.

Publicado Originalmente em: https://www.gottesdienst.org/gottesblog/2019/3/7/a-sneak-peek-inside-the-trinity-2019-issue
Tradução: Apostolado SJEP

texto publicado nesta tradução em http://justosepecadores.blogspot.com/2019/03/o-que-temos-e-sucessao-apostolica.html?m=1 consultado em 27/10/2020.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Fora da Igreja não há Salvação!




Josué 6:17 – A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada a YAHWEH ... para destruição. Somente a prostituta Rahav, e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados.O Texto nos aponta para um evento apavorante: os muros da cidade caem e seus moradores veem a Arca do Senhor no meio de um exército que marcha e traz o juízo final sobre todos. Um anúncio de um juízo que virá sobre o mundo. Há um escape: A casa da prostituta, marcada com um tecido tingido de vermelho sangue, permanece segura durante e depois do juízo.
Onde encontrar a casa Rahav? Encontramos em sua descendência: Jesus veio da descendência desta mulher. Sua casa permanecerá segura, a pesar do medo do lado de fora, todos os que estão com Jesus em sua casa estão absolutamente seguros. Nesta casa, marcada com sangue não há razão para medo. No Amor não existe medo.
Orígenes reflete sobre esta passagem, ele afirma:
“Se alguém quer se salvar, venha à casa daquela que uma vez foi prostituta. (...) Venha à casa, na qual o sangue de Cristo está como sinal de redenção... Ninguém crie ilusões: fora desta casa, isto é, fora da Igreja, não há salvação;” (ORÍGENES, Homilia 2 sobre Josué, Capítulo 4)
Mas eu sou pecador! Rahav também, mas foi salva por sua fé ao receber os mensageiros do povo de Deus. Assim permanecemos na casa da salvação por graça de Deus, por meio da fé.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Redimindo a cultura





Quando, porém, reconheceram que ele era judeu, todos, a uma voz, gritaram durante quase duas horas: — Grande é a Diana dos efésios! O escrivão da cidade, tendo apaziguado o povo, disse: — Senhores efésios, quem não sabe que a cidade de Éfeso é a guardiã do templo da grande Diana e da imagem que caiu do céu? Ora, não podendo isto ser contestado, convém que vocês se mantenham calmos e não façam nada de forma precipitada; porque estes homens que vocês trouxeram para cá não profanaram o templo, nem blasfemam contra a nossa deusa. Atos 19:34-37

Esta é uma passagem interessante do livro de Atos, que na verdade, teria me passado despercebida, não fosse uma boa exposição ouvida ontem por alguém a quem estimo muito, o professor e pastor Rev. Mario Fukue. 

O que estava acontecendo? Era um evangelismo em praça pública, as pessoas iam e vinham, alguns paravam para ouvir, mas quanto tempo ficariam ali? Hora que se tornasse cansativo, bastava seguir o caminho. Os pregadores não tinham tempo de tratar de assuntos secundários. 

O que estavam pregando?  Paulo e seus companheiros anunciavam que não há outro caminho para a salvação, senão o revelado em Cristo, e assim pregava, batizava e fazia discípulos entre os gregos. 

Aonde pregavam? Éfeso era uma cidade famosa por ter um templo dedicado a Diana (ou Ártemis, para os romanos) era um templo famoso e a economia da cidade vinha desta fonte de adoração. 

Como se formou a confusão? Um ourives, chamado Demétrio, ficou com medo de perder sua fonte de renda, juntou amigos e começou uma confusão, que logo atraiu uma multidão. 



Pelo testemunho que é dado sobre estes homens, fosse hoje, muitos grupos os acusariam de muitos “ismos”, ecumenismo, liberalismo, evangelho falso, etc... Por que? O que o próprio texto nos mostra é que o escrivão da cidade, que não creu no discurso deles os defendeu, e o fez, porque atestou que o discurso não desmoralizava a deusa adorada na cidade. Eles não saíam chutando macumba, nem quebrando uma imagem de gesso com martelo, nem fazendo campanha de cercar o templo em um “ato profético”, não ficavam jogando óleo ungido nos umbrais do templo de Diana, nem mesmo foram até a banquinha de Demétrio para “quebrar a maldição” daquelas imagens que vendia. 
Na verdade, nem eles, nem os novos convertidos ali fizeram coisa alguma contra a religião da cidade. 



Então quer dizer que adorar uma deusa não tinha nada de mal? 

A questão na verdade é: Onde ponho a minha confiança? Eles não precisavam tomar ali uma atitude contra a religião da cidade, porque tinham plena confiança de que o Espírito Santo age pela proclamação da Palavra. Com pessoas indo e vindo, não havia tempo para falar de todos os erros do mundo, por isto, a única mensagem que levavam era Cristo crucificado (1 Cor 1:23). Os seguidores do Evangelho tinham plena confiança no agir de Deus, por isso não tomavam o agir em suas próprias mãos. 

O escrivão da cidade tinha esta mesma confiança em Diana: ela é tão grande, que todos sabem quem ela é, e não seria um grupo de estrangeiros que a derrubaria, então, se eles não fazem mal ao templo da deusa, nem desrespeitam a lei, não há do que acusá-los. 
E assim a vida seguiu, quem queria seguir Diana, seguia, quem decidiu seguir Cristo, foi discipulado por Paulo e seus companheiros em particular. 
Este aparente “empate” foi resolvido por Deus na escola do tempo. Onde estão os adoradores da grande Diana dos gregos hoje? Ou da tão poderosa Ártemis dos romanos? Não se encontram mais em parte alguma, mas os seguidores de Cristo continuam e milênios depois, povos que nunca ouviram aqueles homens continuam a crer e ser discipulados no mesmo ensino que aqueles gregos. 

Isto lembra bem o dito em Zc.4.6: Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito”
Nisto vale a reflexão: não que denunciar o erro não deva ser feito, mas, quando o tempo é limitado, vale mais a pena ensinar todas as formas possíveis de se estragar o bolo, ou passar a receita? No mais, nossos “cruzados da internet” nossos “quebradores de maldição” tem colocado a confiança aonde? 

Na próxima vez que ouvir falar de alguém querendo quebrar uma imagem, “cristianizar as leis”, “redimir a cultura”, veja além da loucura, nossa humanidade querendo empurrar o arrependimento que não depende de nós.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

“Eu não creria no Evangelho, se a isso não me levasse à autoridade da Igreja católica.” (Santo Agostinho)


“Eu não creria no Evangelho, se a isso não me levasse à autoridade da Igreja católica.” (Santo Agostinho) 



Está ai uma frase que lemos com frequência, muitas vezes em discussões sobre a fé de modo acalorado, como numa tentativa de usar um argumento final: vou citar uma pessoa famosa para comprovar a minha tese! 

No final, fica-se apenas uma frase de efeito, regurgitada, sem reflexão, sem cuidado. 

Mas o que Santo Agostinho quis dizer com esta frase? 

Esta citação está dentro de um escrito contra os Maniqueus. Para a memória, o maniqueísmo é uma seita gnóstica (e como toda seita gnóstica, pregava um conflito entre o espírito que é bom, feito por um deus bom, contra a carne, que é má e feita por um deus mau... a velha luta de bem contra o mal até o fim dos tempos), mas com um toque próprio: Havia um evangelho de Maniqueu. Eles tinham um evangelho próprio, escrito por um apóstolo deles, o próprio Maniqueu. 

Santo Agostinho aborda então esta questão de vários modos diferentes, até que no capítulo 5, seu argumento segue a seguinte linha: 

O SEU evangelho atesta que Maniqueu é apóstolo, os MEUS evangelhos não reconhecem isso. Como vocês querem que eu creia no testemunho que está num evangelho que eu nem creio ser autêntico? 

Em outras palavras, o argumento de autoridade que os Maniqueístas usavam não tinha valor para Santo Agostinho, simplesmente porque ele não reconhece a autoridade daquela fonte. 

A partir deste ponto então, passa-se à segunda parte deste capítulo: como os maniqueístas tentavam provar a validade de seu evangelho pelas fontes reconhecidas pelos cristãos, a saber, os quatro evangelhos autênticos. 

Eis o problema! Se eu tento provar pelas escrituras um argumento, isso significa que a reconheço como válida. 

Então, como posso dizer que as escrituras são válidas para provar o que me é conveniente, mas não para condenar o que não me convém? 

Se os maniqueístas queriam provar a autoridade de seu mestre, não era para o evangelho que eles deveriam olhar, mas para fora dele. 

Agostinho segue o discurso afirmando que se, por um acaso, os maniqueístas pudessem provar seu ponto pelas escrituras, então, ele não poderia mais crer nas escrituras, porque ela não seria divina, mas um texto parcial, nem poderia crer na igreja, porque ela o direcionou a crer no evangelho, nem poderia crer nos próprios maniqueístas, pois eles tiram sua autoridade de um texto falho. 

Por outro lado, se ele crê nas escrituras, então, ele vê ali o nome de todos os apóstolos, e vê que todos eles receberam o Espírito Santo, e vê a formação da igreja, e, portanto, este é o evangelho que deve permanecer. 

De fato, ele não creria no evangelho se ele não fosse movido na autoridade da igreja (esta tradução é melhor). 

Disto vemos como Santo Agostinho defendeu o evangelho de modo perspicaz. O Evangelho é para os cristãos, e ele não obriga em momento algum a conversão dos maniqueístas. Eles podem crer no que quiserem. Não é um argumento para se jogar na mesa, do tipo: convertam-se hereges! Deus Vult! Não, Agostinho falava dele mesmo... ele crê na igreja e nas escrituras como uma coisa só, inseparável até o fim dos tempos. 

Esta citação famosa tem sido usada curiosamente hoje na boca de alguns católicos romanos como um argumento de autoridade para que, justamente aqueles que não reconhecem a autoridade do Vaticano, se submetam, mas não seria justamente o oposto? Não foi justamente o objetivo de Santo Agostinho falar que um argumento de autoridade somente é válido para quem o reconhece como válido? 

Lembremos, portanto, que Agostinho usa este argumento para quem tenta comprovar a autoridade de uma fonte extra-bíblica, reinterpretanto a própria bíblia, no caso um evangelho apócrifo, mas poderia ser um outro livro sagrado, o que um pastor X disse num programa de tv, uma revelação especial, uma profecia de uma fonte qualquer, e até mesmo, um livro, um comentário bíblico. Ou a escritura, que testifica da igreja é verdadeira, ou todo aquele que tenta se usar do evangelho para validar sua crítica ao próprio evangelho está usando uma fonte que sabe ser uma fraude, e portanto, este alguém não é digno de confiança.

Discussões com cristãos que reconhecem o mesmo evangelho, mas divergem em doutrina sequer é abordado neste escrito, e o próprio Santo Agostinho usa uma abordagem diferente. Todo cristão que crê no evangelho, também crê na autoridade da igreja. A questão toda é: o que é a igreja?

Cremos no Espírito Santo, na santa Igreja católica, a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na Vida Eterna. Amém.

sábado, 8 de agosto de 2020

Lutero e a guarda do Sábado

 



O texto a seguir é um trecho de uma obra mais completa chamada "Contra os Sabatistas", seu foco não é em criticar o povo judeu, mas na forma como os judeus Ashkenasi, o grupo judaico que habitava a região da Alemanha nos tempos de Lutero buscava fazer proselitismo. O foco de Lutero é a igreja Cristã, mais específicamente os leigos, não o corpo clerical, mas os cristãos em geral que precisavam da resposta objetivà questão: Qual a nossa relação com a lei do Antigo Testamento?
Nesta carta, Lutero escreve sobre diversos tópicos, dos quais, aqui destaco sobre o Sábado como dia de culto. A obra, no seu todo é de fácil entendimento e incrivelmente atual. Todo Cristão pode tirar o mesmo proveito dela hoje que em 1538, quando foi escrita. Que esta leitura, não apenas lance luz sobre um tema que nos ronda tão de perto hoje, como desperte a curiosidade para se ler sobre os outros argumentos de Lutero, os quais considero ainda melhores que o presente.

(...) Da mesma forma, o terceiro mandamento relativo ao sábado, do qual os judeus tanto fazem, é mandamento que se aplica a todo o mundo; mas a forma na qual Moisés o enquadra e o adapta ao seu povo foi imposta apenas aos judeus, assim como em relação ao primeiro mandamento nenhum outro, mas os judeus devem acreditar e confessar que o Deus comum de todo o mundo os conduziu para fora do Egito. Pois o verdadeiro significado do terceiro mandamento é que naquele dia devemos ensinar e ouvir a palavra de Deus, santificando assim tanto o dia como a nós mesmos. E de acordo com isto, até os dias de hoje, Moisés e os profetas são lidos e pregados no dia de sábado entre os judeus. Onde quer que a palavra de Deus seja pregada, segue-se naturalmente que se deve necessariamente celebrar na mesma hora e ficar quieto, e sem qualquer outra preocupação apenas falar e ouvir o que Deus declara, o que Ele nos ensina e nos diz. 

Portanto, tudo depende completamente disso, de que saneemos o dia. Isto é mais importante do que celebrá-lo. Pois Deus não diz: Você celebrará o dia santo ou fará dele um Sabá - que cuidará de si mesmo. Não, você santificará o dia santo ou o Sábado. Ele está muito mais preocupado com a santificação do que com a celebração do Sábado. E onde um ou outro pode ou deve ser negligenciado, seria muito melhor negligenciar a celebração do que a santificação, uma vez que o mandamento coloca maior ênfase na santificação e não institui o Sábado por si mesmo, mas por ser santificado. Os judeus, entretanto, dão maior ênfase à celebração do que à santificação (o que Deus e Moisés não fazem) por causa das adições que fizeram. 

A menção de Moisés ao sétimo dia, e de como Deus criou o mundo em seis dias, e é por isso que eles não devem fazer nenhum trabalho - tudo isto é uma adaptação temporal com a qual Moisés adequa a este mandamento para seu povo, especialmente naquela época. Não encontramos nada escrito sobre isto anteriormente, seja por Abraão ou na época dos velhos pais. Esta é uma adenda e adaptação temporária destinada exclusivamente a este povo, que foi trazido do Egito. Também não era para durar para sempre, assim como não era toda a lei de Moisés. Mas a santificação, isto é, o ensino e a pregação da palavra de Deus, que é o verdadeiro, genuíno e único significado deste mandamento, foi desde o início e diz respeito a todo o mundo para sempre. Portanto, o sétimo dia não diz respeito a nós gentios, nem aos judeus além do advento do Messias, embora pela própria natureza das coisas se deva, como já foi dito, descansar, celebrar e guardar o sábado em qualquer dia ou hora em que a palavra de Deus seja pregada. Pois a palavra de Deus não pode ser ouvida ou ensinada quando se está preocupado com outra coisa ou quando não se está quieto. 

Portanto, Isaías também declara no capítulo 66 (:23) que o sétimo dia, ou, como eu o chamo, a adaptação de Moisés, cessará no tempo do Messias quando a verdadeira santificação e a palavra de Deus aparecerem ricamente. Ele diz que haverá um sábado após o outro e uma lua nova após a outra, ou seja, que tudo será puro sábado, e não haverá mais nenhum sétimo dia em particular com seis dias no meio. Pois o Santificador ou a Palavra de Deus desfrutará de todo o alcance diário e abundante, e cada dia será um Sábado. 

Estou bem ciente do que os judeus dizem sobre isto e como eles interpretam este ditado de Isaías. Entretanto, não posso incluir tudo na presente carta que tenho em mente. Mas, em resumo, nenhum judeu pode me dizer como é possível para toda a carne adorar diante do Senhor em Jerusalém cada lua nova e cada sábado, como o texto, traduzido com mais precisão e exatidão para o alemão de acordo com seu entendimento, transmite. Algumas pessoas vivem tão longe de Jerusalém que não poderiam chegar lá dentro de vinte, trinta ou cem sábados, e os próprios judeus não adoram em Jerusalém há mil e quinhentos anos, ou seja, em dez vezes mil e quinhentas luas novas, nem mencionei nada sobre os sábados. No entanto, não posso me alongar sobre tudo isso no decorrer de uma carta. (...)

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Gálatas: Como ser um cristão que gera frutos?



“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25

É interessante como muitas vezes somos ensinados desde pequenos a ler esta passagem: isto é uma obrigação! Devemos crucificar a carne, temos que andar no espírito! Então pegamos aquela lista que Gálatas faz do fruto do Espírito para examinarmos a nossa vida. 

-Que parte deste fruto está faltando em você? Será que você está com seu cristianismo em dia? O que eu deveria fazer para ser um cristão de verdade? O que é a carne afinal? Eu estou na carne?

Estas e muitas perguntas do tipo são bem comuns, e por isto, vale uma dica para lermos este livro da Bíblia:

Carne, para a carta aos Gálatas é a natureza caída do ser humano, em seus pecados e delitos. Sempre que o termo é citado, isto não tem relação com a carne física, mas sempre demonstra um modo de vida longe de Deus. O que se opõe a carne é o Espírito. E neste caso, não estamos falando do espírito humano, mas da própria vida ligada a Deus. Isto é importante! Muitos tendem a ler Gálatas como um padrão de vida moral que devemos buscar, mas não é isto o que Deus nos fala nesta carta. O tema é sempre que existe a carne, e ela deseja coisas que lhe são próprias, e existe o Espírito, que opera em nós, crentes, o que lhe é próprio. O grande tema é mostrar que quando buscamos qualquer participação no viver espiritual, ainda que isto pareça ser piedoso, ou seja, do Espírito, Paulo é claro em dizer que isto é a carne também. Na carne nós tentamos fazer coisas, obras; no Espírito entendemos que nada pode ser acrescentado ao que já está feito.

Só neste ponto já há algo importante, pois muitos confundem mesmo, Gálatas fala que é ruim e pecaminoso a carne, e nisto, muitos realmente pensam que Paulo está falando da carne no sentido humano, físico, e daí alguns pensamentos como o de Jesus não ter assumido totalmente a carne humana, ou que na ressureição ele deixou o corpo carnal no túmulo e que saiu de lá só como espírito, que Jesus não é mais carne e osso agora, ou ainda que no dia final, nós viveremos eternamente como espíritos, com “corpo espiritual”, e não que viveremos em nossa mesma carne de agora, só que livres do pecado.

Enfim, Gálatas não fala que a carne (física) e ruim, não fala da luta de igual pra igual entre carne e espírito (quem já ouviu aquela: “ganha o lado que você alimentar mais”) não fala que devemos olhar o fruto do espírito para medir a nossa vida, nem que devemos buscar fazer algo para sermos espirituais, ou “crentes melhores”

Esta carta não é sobre o que nós fazemos por Cristo, para isto tem referências melhores, mas é uma carta toda nos mostrando o oposto: o que Cristo fez, e alguma nota sobre como isto se reflete na vida.

Voltemos ao texto:


“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25


“Crucificaram”, literalmente: εσταυρωσαν (Aoristo, indicativo ativo, terceira pessoa do pural) isto tudo significa dizer: crucificar aqui etá num tempo verbal que significa algo importante: é uma ação pontual e concluída no pasado. Se tivéssemos que tomar Gálatas todo como um padrão de vida moral, crucificar a carne não seria algo concluído no passado, mas algo constante, um dever diário, entretanto, aqui falamos em algo concluído e perfeito. Houve um momento no tempo onde nossa carne encontrou sua derrota, e este momento se liga à cruz. Isto não significa que estamos totalmente livres do mal, mas que esta derrota da carne já está selada, e já vivemos portanto num tempo onde este “crucificar da carne” é um evento concretizado.

“Se vivemos”, literalmente: Εάν ζώμεν, gosto desta exposição da edição de Bambas da bíblia grega, justamente por deixar exposto com muita clareza algo que no portugues parece ter outro sentido. Quando pensamos em numa condicional “se”, automaticamente somos levados a pensar nisto como uma condição que deve estar presente se queremos o resultado que vem depois “Se voce passar na faculdade, eu te dou um carro!” Ou seja, eu preciso me certificar de cumprir um requisito se quiser ter o resultado dele, mas no grego, língua em que o Espírito Santo inspirou a bíblia para ser escrita, não é exatamente assim. Este “se” é retratado como um grau máximo de certeza, do mesmo tipo que se usa para descrever um fato científico, ou seja, Deus não está usando este texto para nos fazer olhar para nossa vida e avaliar “se vivemos pelo Espírito”, mas ele constata uma verdade da qual não há dúvida: “já que vivemos pelo Espírto...” então segue-se a consequência natural disto “andamos pelo Espírito”

Com tudo isto, Deus não está esfregando a carta aos Gálatas diante de nós, nos mandando olhar para nossa vida e nos perguntarmos: “será que eu vivo no Espírito?” Mas na verdade a mensagem dele para nós, que cremos em sua obra, é: não olhe para a sua vida para buscar alguma justiça, olhe para o Espírito!

Se olhamos para o que podemos fazer, nós não chegamos a Deus, nem mesmo se cumprissemos toda a lei de Deus de modo perfeito, ainda assim não chegaríamos a Deus. Por isto, vivemos pelo Espírito, pela fé, e pela fé somente.

sábado, 20 de junho de 2020

A Tradição e as Escrituras


É claro que para que se fale adequadamente da relação entre a tradição e as escrituras, há que se ler muitas páginas e muitos temas devem ser analisados com a devida cautela. Portanto, não há uma intenção de que este pequeno comentário seja exaustivo, mas definitivamente, um comentário de Gerhard em seu Loci Theologici levanta um ponto relevante sobre a questão: A palavra de Deus, seja oral ou escrita deve transmitir a mesma mensagem, no demais, deixo que o próprio Gerhard exponha seu argumento: 



Não há diferença real entre a Palavra de Deus e as Escrituras.

Da regra da lógica: "Um acidente não muda a essência de uma coisa". É um acidente [accidit] à Palavra de Deus, ser enunciado oralmente ou consignado à escrita. É uma e a mesma Palavra de Deus, quer nos familiarizemos com ela por meios orais ou escritos, porque nem a principal causa eficiente, nem a material, nem a forma interna, nem o seu fim mudaram.

Pelo contrário, apenas os meios de revelação no uso instrumental [in usu organico] variam. Em Ex. 20:13 está escrito: "Não matarás". Essa afirmação é idêntica àquela que foi posteriormente falada e repetida oralmente por Cristo (Mt.5:21).

Da consequência absurda: Se a Palavra fosse dupla, escrita e não escrita, o Evangelho seria duplo e a promessa da graça, dupla. O apóstolo dá testemunho do contrário (Gl.3:15-16). Se houvesse uma divisão da Palavra em escrita e não escrita, não seria a divisão de um sujeito em seus próprios acidentes, mas uma divisão de genus em espécies; assim, envolveria a própria essência da Palavra. A conseqüência seria que, uma vez declarada, a Palavra de Deus desapareceria e, quando os livros fossem destruídos, a Palavra de Deus seria destruída. Existem muitos outros absurdos desse tipo. Cristo dá um testemunho oposto em Lucas 21:33 e Is. 40: [9].

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Podcast - O Milênio


Tempos atrás (e eu nem tinha entrado ainda no seminário) decidimos juntar 3 luteranos para debater sobre um tema famoso do Apocalipse: O Milênio. Como entendemos isto? Como estas diferentes interpretações começaram ao longo da história da igreja? Em forma de Podcast, fica ai o registro daquela célebre conversa de amigos sobre um tema que sempre gera dúvidas:





sábado, 11 de abril de 2020

Por que Jesus? (Johann Arndt)

Por que voce quer me mudar? Eu sou uma pessoa boa! Eu não mato, eu não roubo, você acha que eu mereço ir para o inferno?



Da Queda De Adão. 


Por: Johann Arndt
In: Cristianismo Verdadeiro, Livro I

“Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos.” Romanos 5:19 


Parte I - A Lei 

A queda de Adão foi uma desobediência a Deus, pela qual o homem se afastou do Ser Divino para si mesmo, e roubou a Deus a honra devido a ele somente, na medida em que ele próprio pensava ser como Deus. Mas enquanto ele assim se esforçava para avançar, ele foi despojado daquela imagem divina, que o Criador havia lhe conferido tão livremente; despojado da justiça hereditária; e enlutado daquela santidade com a qual ele foi originalmente adornado; torna-se, no que diz respeito à sua compreensão, obscura e cega; quanto à sua vontade, teimosa e perversa; e quanto a todos os poderes e faculdades da alma, totalmente alienados de Deus. Esse mal infectou toda a massa da humanidade, por meio de uma geração carnal; e foi herdado por todos os homens. A consequência óbvia resultante disso é que o homem se torna espiritualmente morto e filho da ira e da condenação, até ser redimido desse estado miserável por Jesus Cristo. Não se enganem, então, os que se chamam cristãos, em relação à queda de Adão. Sejam cautelosos, como tentam atenuar ou diminuir a transgressão de Adão, como se fosse um pequeno pecado, uma coisa de pouca importância e, na pior das hipóteses, o mero comer de uma maçã. Que eles tenham certeza de que a culpa de Adão era a de Lúcifer, ou seja, ele seria como Deus: e que era o mesmo pecado grave, hediondo e odioso em ambos. 

2. Essa apostasia (pois não era nada menos), foi, inicialmente, gerada no coração e depois manifestada pela ingestão do fruto proibido. Embora o homem fosse contado com os filhos de Deus; embora ele tenha saído das mãos do Todo-Poderoso imaculado, tanto no corpo como na alma, e foi o objeto mais glorioso da criação; embora, para coroar tudo, ele não era apenas um filho, mas o deleite de Deus; ainda não sabendo como se satisfazer com esses altos privilégios, ele tentou invadir o Céu, para que pudesse ser ainda mais alto; e nada menos seria suficiente para ele do que se exaltar como Deus. Por isso, ele concebeu em seu coração inimizade e ódio contra o Ser Divino, seu Criador e Pai, a quem, se estivesse em seu poder, estava disposto a desfazer completamente. Quem poderia cometer um pecado mais detestável que isso? Ou, que maior abominação existe que se possa meditar? 

3. Portanto, o homem se tornou interiormente como o próprio Satanás, tendo sua semelhança no coração; já que ambos haviam cometido o mesmo pecado, tendo se rebelado contra a majestade do céu. O homem não mais exibe uma imagem de Deus, mas a do Diabo; ele não é mais um instrumento nas mãos de Deus, mas tornou-se um órgão de Satanás, tornando-se assim capaz de todas as espécies de maldade diabólica: de modo que, tendo perdido a imagem que era celestial, espiritual e divina, ele é totalmente terreno, sensual e brutal. Pois o diabo, planejando imprimir sua própria imagem no homem, o fascinou tão inteiramente por um conjunto de palavras atraentes e enganosas, que o homem permitiu que ele semeasse aquela semente odiosa em sua alma, que é, portanto, denominada semente da serpente; e pelo que se entende principalmente amor próprio, vontade própria e a ambição de ser como Deus. Por esse motivo, as Escrituras denominam aqueles que estão intoxicados pelo amor próprio, "uma geração de víboras". Mt. 3:7. E todos aqueles que são de natureza orgulhosa e diabólica, "a semente (descendência) da serpente". Assim, o Todo-Poderoso, dirigindo-se à serpente, diz: "Colocarei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente". Gênesis 3:15. 

4. A partir desta semente da serpente, nada além de frutos mortais e horríveis pode prosseguir; a saber, a imagem de Satanás, os filhos de Belial, os filhos do diabo. João 8:44. Como em toda semente natural, quão minuciosa pode ser, estão contidas, da maneira mais maravilhosa e oculta, a natureza e as propriedades da futura planta, todas as suas partes e proporções, seus galhos, folhas e flores, em miniatura; assim, naquela semente da serpente, a flor e a desobediência de Adão (que passaram a toda a sua posteridade por uma geração carnal), jaz, como no embrião, a árvore da morte, com seus galhos, folhas e flores, e aqueles inúmeros frutos da injustiça que crescem sobre ela. Em suma, toda a imagem de Satanás é secretamente traçada por aí, com todas as suas marcas, características e propriedades. 

5. Se observarmos uma criança com atenção, veremos como essa corrupção natural se manifesta desde o nascimento; e como a vontade própria e a desobediência se descobrem especialmente e se transformam em ações que testemunham efetivamente a raiz oculta da qual elas brotam. Vamos considerar ainda mais a criança, à medida que ela cresce até a maturidade. Observe o egoísmo natural da juventude, sua ambição pura, sua sede de glória mundana, seu amor por aplausos, sua busca por vingança e sua propensão a enganar e falsificar. E agora esses males se multiplicam. Logo poderá descobrir nele vaidade, arrogância, orgulho, blasfêmia, juramentos vãos, maldições terríveis, fraudes, ceticismo, infidelidade, desprezo a Deus e à sua santa Palavra e desobediência aos pais e magistrados: ira e contenciosidade; ódio e inveja; vingança e assassinato, e todo tipo de crueldade; especialmente se as ocasiões externas se oferecerem a acionar essa semente latente e mortal, e os vários males da natureza depravada de Adão. Na proporção em que essas ocasiões continuarem a se apresentar, observaremos o aparecimento de outros vícios; devassidão, pensamentos adúlteros, imaginações obscenas, discursos obscenos, gestos lascivos e todas as "obras da carne": veremos embriaguez, tumultos e toda espécie de intemperança; inconstância, devassidão excessiva e tudo o que pode agradar o apetite, a luxúria dos olhos e o orgulho da vida. E além desses, em breve poderá ser descoberto cobiça, extorsão, trapaça, sofisma, impostura e toda descrição de prática sinistra; juntamente com a facada, o comércio exagerado e, em suma, toda a tropa, ou melhor, exército de pecados, iniqüidades e crimes, tão variados e tantos, que é impossível contar ou declarar o número deles; de acordo com as palavras do profeta Jeremias, “o coração é enganoso acima de todas as coisas, e desesperadamente mau; quem o pode conhecer? ” Cap. 17: 9. E se aos já enumerados se acrescentam, em último lugar, os espíritos sedutores e falsos; então podem ser observados cismas na igreja, heresias perversas e perigosas, sim, a abjeção de Deus e Cristo, idolatria, negação da fé, ódio e perseguição da verdade, o pecado contra o Espírito Santo, com todo tipo de corrupção em doutrina, perversão das Escrituras e forte ilusão. Agora, o que são tudo isso, senão a imagem de Satanás, e os frutos da semente da serpente semeados no homem? 

6. Quem poderia imaginar que uma profundidade tão má e depravada pudesse ser encontrada em uma criança tão fraca e desamparada; que um princípio tão venenoso, um coração tão corrupto, estava escondido em um bebê aparentemente tão inofensivo? Quem poderia ter acreditado nisso, não tivesse o próprio homem, por sua vida pecaminosa e abominável, pela imaginação de seus pensamentos (sendo "mal continuamente" e desesperadamente inclinado ao que é ruim), por sua própria vontade o trouxe à luz e expressou, desde a infância, o que antes era oculto como uma semente? Gênesis 6: 5; 8:21. 

Oh! raiz mais vil e mais amaldiçoada! De onde brota a árvore venenosa que é tão frutífera na produção de todo tipo de praga. Oh, semente da serpente, mais odiosa, mais terrível! A partir da qual é gerada uma imagem ao mesmo tempo tão deformada e suja; e que se amplia continuamente, pois é excitada pelas tentações externas e pelos escândalos do mundo. Bem poderia o abençoado Jesus proibir tão solene e estritamente que qualquer, por mau exemplo, ofenda as crianças pequenas; sabendo que a semente da serpente espreita neles, como o veneno mortal no verme venenoso, pronto para irromper em atos abertos de pecado, sempre que uma ocasião se apresentar. 

8. Aprenda, então, ó homem, conhecer a queda de Adão e a verdadeira natureza do pecado original. Aprenda, se for sábio, a discernir em si mesmo. Examine-o não de maneira leve e descuidada, mas profundamente, e como a importância do assunto merece; pois essa infecção é maior, essa depravação é mais profunda e mais mortal do que pode ser expressa por palavras, ou mesmo concebida em idéia. "Conhece a ti mesmo!" e considere profundamente o que és, ó homem, desde a queda de seu primeiro pai; como tu, que eras à imagem de Deus, tornaste-te a imagem de Satanás, uma epítome de todas as suas tendências perversas, e conformadas a Satanás em toda a malícia e impiedade. Pois, como na imagem de Deus, todas as virtudes e propriedades divinas estão contidas, assim na imagem do diabo, que o homem, ao se afastar de Deus, contraiu, todos os vícios e propriedades são encontrados, e a própria natureza do próprio diabo. Pois, como o homem, antes da queda, apresentava a imagem do Adão celestial, isto é, era totalmente celestial, espiritual e divino; assim, desde a primeira apostasia, ele carrega consigo a imagem do Adão terrestre, sendo interiormente terrestre, carnal e corrupto. 

9. Ele se tornou um dos animais do campo. Por que, ó homem caído, a tua ira? A quem pertence mais apropriadamente, ao leão ou ao homem? E a tua inveja e a tua ganância não revelam a natureza do cão e do lobo? E no que diz respeito à tua impureza e gula, não são essas evidências de natureza suína? De fato, se você examinasse corretamente seu seio, descobriria um mundo de bestas impuras e nocivas. Mesmo na língua, esse “pequeno membro” pode ser encontrado, segundo São Tiago, um lago de coisas pestilentas e rastejantes, um porão de todo espírito imundo, a gaiola de todo pássaro imundo e odioso (Isaías 13:21 ; Ap. 18: 2) e, em uma palavra, um “mundo de iniqüidade”. Tiago 3: 6. Muitas vezes, infelizmente, progredimos na iniquidade de forma a superar a ira e a fúria das bestas de rapina; em voracidade e violência, o lobo; em sutileza e astúcia, a raposa; na malícia e virulência, a serpente; e na imundície e obscenidade, os porcos. Por isso, nosso Senhor chamou Herodes de raposa e os ímpios, em geral, cães e porcos; a quem o que é santo não deve ser dado. 13:32; Mt. 7: 6. 

10. Todo aquele que, portanto, falha em corrigir essa corrupção da natureza, sendo verdadeiramente convertido e renovado em Cristo Jesus, mas morre no estado que foi descrito, deve manter para sempre essa natureza bestial e satânica. Ele deve ser arrogante, altivo, orgulhoso e diabólico, por toda a eternidade. E quando ele tiver negligenciado o tempo de sua purificação aqui, levará consigo a imagem de Satanás na escuridão das trevas para sempre; como testemunho, de que enquanto ele estava no mundo, ele não viveu em Cristo, nem foi renovado à imagem de Deus. Pois de fora são cães e feiticeiros, e todo aquele que ama e pratica a mentira." Ap 21: 8; 22:15. 





Parte II - O Evangelho 


(...)
2. Por fé cordial e inabalável, o homem dedica totalmente seu coração ao Todo-Poderoso, em quem ele busca seu descanso exclusivamente. Pois ele agora ele está unido, e com ele entra em deliciosa comunhão. Ele participa de todas as coisas que são de Deus e de Cristo, e é feito um espírito com o Senhor. Dele ele recebe poder e força divinos; juntamente com uma nova vida, acompanhada de novas alegrias, novos prazeres, novas consolações, nas quais se encontra paz, tranqüilidade interior e satisfação duradoura, juntamente com retidão e santidade. E assim o homem nasce de novo por Deus pela fé. Pois onde quer que haja verdadeira fé, Cristo está verdadeiramente presente com toda a sua justiça, santidade e remissão de pecados; com todos os seus méritos, justificação, graça, adoção e herança da vida eterna. Este é o novo nascimento e a nova criatura, nascendo da fé em Cristo. Por isso, o apóstolo chama a fé de substância (Hb 11:1); compreendendo por ela, uma confiança segura, sólida e inabalável em "coisas esperadas" e uma convicção viva de "coisas não vistas". Pois o consolo transmitido por uma fé vital é tão poderoso que convence o coração da verdade divina pela experiência interior e pelo gosto da bondade celestial na alma e da paz de Deus que ultrapassa todo entendimento; sim, é tão poderoso que permite que seus possuidores morram com um coração alegre. Nisto consiste a força do espírito, o poder do homem interior, o vigor da fé, a santa ousadia; essa é a confiança em Deus, a segurança excedente e abundante, que são copiosamente demonstradas pelos santos apóstolos. 2Tm. 2:1; Ef. 3:12, 16; Fp. 1:14; 1Jo 3:21; 1Ts. 1: 5; 2; 2. 

3. Aquilo pelo qual um homem ousa morrer deve estar enraizado na alma e, pela operação do Espírito de Deus, proporcionar uma garantia interior. Deve ser um conforto cordial, poderoso e eterno, infundindo força celestial e sobrenatural na alma, pela qual o medo da morte e o amor do mundo podem ser subjugados. Agora, tudo isso gera uma confiança tão sólida em Cristo e uma união tão estreita com ele, que nem a morte nem a vida são capazes de dissolver. Rm. 8:38; 2 Tm. 1:12. Por isso, São João diz: "Todo o que é nascido de Deus vence o mundo". 1 João 5: 4. 

4. Nascer de Deus não é na verdade figura vã, nem nome vazio; deve necessariamente ser uma mudança viva e poderosa, digna da majestade de um Deus onipotente. Crer que o Deus vivo poderia gerar uma descendência morta, que membros sem vida e órgãos inúteis pudessem proceder dele seria muita maldade. É certo e indubitável que Deus, sendo um Deus vivo, não pode deixar de gerar um homem vivo, mesmo o novo homem em Cristo Jesus. E nossa fé é a vitória que vence o mundo. 1 João 5: 4. Quem pode questionar se é dotado de força suficiente para a conquista? É um princípio vivo, vigoroso, potente, divino e vitorioso; mas todo o seu poder deriva daquele que é abraçado por ela, Cristo. Por meio da fé, retornamos a Deus novamente e nos tornamos um com ele; e de Adão, como de uma videira amaldiçoada, somos transplantados para Cristo, a videira viva e abençoada. João 15: 4. Em Cristo, possuímos tudo que é bom, e nele somos justificados. 

5. Como enxerto, quando enxertado em uma boa árvore, cresce, floresce e dá frutos, mas, sem ela, murcha; assim, o homem, quando fora de Cristo, é como uma videira amaldiçoada, cujas uvas são amargas e fel; e todas as suas obras são pecado. Dt. 32:32, 33; Rm. 14:23. Mas quando ele está em Cristo, ele é justo e abençoado; porque "ele foi feito pecado por nós, que não conhecia pecado, para que sejamos feitos a justiça de Deus nele". 2 Co. 5:21. 

6. É mais evidente, que as obras não podem justificar um pecador; porque, antes que possamos realizar qualquer boa obra, devemos ser enxertados em Cristo pela fé: e é igualmente claro que a justificação é inteiramente um dom de Deus, livremente conferido ao homem e precedendo todo mérito humano. Como um morto vê, ouve, se levanta, anda ou faz alguma coisa boa, a menos que seja ressuscitado dentre os mortos e dotado de um novo princípio de vida? Assim também, ó homem, que está morto em pecados, não pode fazer nenhuma obra que seja boa ou aceitável, a menos que você tenha sido ressuscitado para vida por Jesus Cristo. Assim, a justiça procede somente da fé em Cristo. A fé é como um bebê recém-nascido, fraco e nu, pobre e indigente, e posto diante dos olhos do Salvador; de quem, como de seu autor, recebe justiça e santificação, piedade, graça e o Espírito Santo. 

7. A criança nua é assim vestida com a misericórdia de Deus. Ele levanta as mãos, recebe tudo de Deus e é um participante da graça e saúde, verdade e santidade. É, portanto, esse recebimento de Cristo no coração, que torna um homem santo e feliz. 

8. A justiça procede, portanto, unicamente da fé, e não das obras. De fato, a fé recebe todo o Cristo e o aceita, juntamente com tudo o que ele tem. Então o pecado e a morte, o diabo e o inferno, devem fugir e não podem mais preservar sua base. Não! De maneira tão eficaz e poderosa os méritos de Cristo justificam o pecador, que se os pecados do mundo inteiro fossem cobrados de um homem, eles não teriam a menor utilidade de condená-lo, se ele cresse em Cristo. 

9. Visto que Cristo vive e habita em seu coração pela fé (Ef 3:17), nunca, ó crente, sacia o pensamento de que sua habitação em ti é uma obra morta, sem vigilância, com qualquer poder vital. Antes, acredite que é um princípio vivificante, uma obra poderosa e uma transformação eficaz de sua mente. A fé produz duas coisas: primeiro te envolve em Cristo e o dá livremente a você, com tudo o que ele tem; e então, renova-te em Cristo, para que cresças, floresças e vivas nele. O enxerto silvestre é introduzido na estaca, para que possa florescer e dar frutos. Como pela apostasia de Adão e pela tentação do diabo, a semente da serpente foi semeada no homem, crescendo em uma árvore e dando os frutos da morte; mesmo assim, pela palavra divina e pelo Espírito Santo, é a fé semeada no homem, como a semente de Deus. Nesta semente, todas as virtudes e propriedades divinas são, da maneira mais maravilhosa, compreendidas; que se expandem gradualmente dia a dia. Esta árvore é adornada com uma profusão de frutos celestes; como amor, paciência, humildade, mansidão, paz, castidade, justiça. E assim todo o reino de Deus desce ao homem. Pois a fé verdadeira e salvadora renova todo o homem, purifica o coração, santifica a alma e livra do amor do mundo. Ele se une a Deus; tem fome e sede de justiça; opera amor; e traz paz, alegria, paciência e conforto à adversidade: vence o mundo; faz de nós filhos de Deus e herdeiros dos tesouros do céu; e constitui-nos co-herdeiros com o Senhor Jesus Cristo. Mas, se alguém não estiver consciente dessa alegria que a fé transmite e não experimenta suas influências consoladoras, não deixe, por isso, se desesperar; antes, confie na graça que é prometida em Cristo; pois essa promessa permanece sempre certa, imóvel e eterna. E, apesar das enfermidades incidentes à natureza humana, ele deveria tropeçar e cair; todavia, se o pecador retornar por arrependimento não fingido, e observar com mais cautela o pecado que o acomete tão facilmente, a graça de Deus não será retirada. Pois Cristo é, e sempre será Cristo, Salvador, quer a fé que o abraça seja forte ou fraca. Uma fé fraca tem uma parte igual em Cristo que uma fé forte, pois a fé, seja ela fraca ou forte, possui todo o Cristo. A graça que é prometida é comum a todos os cristãos e é eterna, e nessa graça a fé deve confiar, seja fraca ou forte. O Senhor visitará sua alma em seu próprio tempo, com um senso de seu favor gracioso e de suas abundantes consolações. 

Wayne Grudem – uma avaliação crítica parte 1


Wayne Grudem – uma avaliação crítica à luz da teologia bíblica luterana. Breve comentário sobre leitura de TEOLOGIA SISTEMÁTICA, Wayne Grudem, p. 801 a 813.


Este é um breve comentário sobre a leitura deste famoso livro de Teologia Sistemática de linha reformada no objetivo único de expor as diferenças teológicas, especialemente tendo-se em vista que a reforma luterana e a calvinista foram movimentos não apenas separados, mas antagônicos entre si desde o início. 
A lista abaixo talvez não seja exaustiva, mas inclui a maioria dos meios de graça a que os salvos têm acesso na comunhão da igreja: 1. O ensino da Palavra 2. O batismo 3. A ceia do Senhor 4. A oração uns pelos outros 5. A adoração 6. A disciplina da igreja 7. A oferta 8. Os dons espirituais 9. A comunhão 10. A evangelização 11. O ministério individual (grifo nosso)
Na lista de Grudem a disciplina e a oferta são colocados como canais da graça divina, entretanto, sem a correta distinção entre lei e evangelho, (ou com uma visão mais próxima de Agrícola) expressões da lei são apresentados em meio aos meios evangélicos.
Mas segundo o ponto de vista protestante, os meios de graça são simplesmente meios de os cristãos receberem mais bênçãos e nada acrescentam à nossa aptidão de receber a justificação divina.
Grudem, alem de erradamente colocar esta posição como sendo a posição “protestante”, e com isto escondendo o fato de que isto não representa o totum das igrejas da reforma também nega a justificação objetiva, classificando o que é sacramento com a característica própria do sacrifício, a saber, aquilo que o homem oferece a Deus. 
Os católicos pregam que esses meios ou sacramentos dispensam graça independentemente da fé do ministro ou do crente,5 (sic) enquanto os protestantes sustentam que Deus só dispensa a graça quando há fé da parte das pessoas que administram ou recebem esses meios.
De fato, ao fazer-se tal postulação, Grudem se coloca ao lado dos Donatistas por crer que a dignidade dos ministros é o que valida o sacramento.
O crescimento e a força da igreja estão de tal forma ligados à regência da Palavra de Deus na vida das pessoas que mais de uma vez o livro de Atos chega a igualar o crescimento da igreja ao crescimento da Palavra de Deus: "Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos” (At 6.7); “Entretanto, a palavra do Senhor crescia e se multiplicava ”(At 12.24); “E divulgava-se a palavra do Senhor por toda aquela região” (At 13.49).
Tão importante é a Bíblia como meio fundamental da graça que Deus dá ao seu povo, que Charles Hodge nos lem bra que ao longo da história o verdadeiro cristianismo floresceu “proporcionalmente ao grau de conhecimento da Bíblia, ao grau de difusão das suas verdades entre as pessoas”. (grifo nosso)
Neste ponto, erra o autor ao identificar o que é a Igreja – local onde a Palavra é pregada, e onde os sacramentos são corretametne administrados. A palavra de Deus está presente no crescimento da igreja, entretanto, a Palavra completa estava presente, tanto no ensino das Sagradas Letras, como a mesma Palavra era comida no sacramento da comunhão (Atos 2:42) e derramada sobre os pecadores (Atos 22:16). Talvez, por reduzir a palavra de Deus à sua forma escrita, o autor não queira considerar as instiuições do próprio Cristo como contingentes da Palavra, muito embora o próprio livro da Palavra assim o afirme.
Quando o batismo acontece logo depois da profissão de fé inicial da pessoa e é de fato a forma exterior que a profissão de fé assume, há certamente um vínculo entre o batismo e o recebimento do dom do Espírito Santo, pois Pedro diz aos seus ouvintes no Pentecostes: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome dejesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38). Além disso, diz Paulo: “[Fostes] sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12). A declaração de que é “mediante a fé no poder de Deus” que isso acontece nos faz lembrar que não há propriedade mágica no ato do batismo em si que provoque o resultado espiritual; mas o versículo tam bém indica que quando a fé acom panha o batismo, há verdadeira obra espiritual na vida da pessoa batizada. (grifo nosso)
Sobre o batismo aqui anunciado, o autor o coloca apenas como ato exterior resultante da a fé, sem fazer distinção entre fé reflexa ou não. Como resultado, ele vincula o dom sobrenatural de Deus que é a fé, onde o próprio Cristo é seu autor e consumador, e a epístola aos Gálatas a coloca como fruto do Espírito, com uma capacidade da inteligência humana iluminada pela luz da razão, a saber, o ato de se poder organizar em palavras aquilo que recebeu. Portanto nesta vinculação há um erro essencial quanto à origem da fé e a origem do ato proclamatório da mesma. Em segundo plano, ao citar o texto de Atos, perverte a Palavra de Deus, ao colocar a conjunção e (Kai) como indicativa de eventos diferentes, ao passo que a própria palavra é contra ele. Seu uso não pode ser outro que o de cumular eventos, o ato da remissão dos pecados tem uma origem dúplice no arrependimento e (kai) no batismo. Ao usar esta expressão, quiz o Espírito Santo vincular arrependimento e batismo à remissão dos pecados, portanto, erra o autor ao chamar este vínculo da água do batismo com a Palavra que redime Pecados de “propriedade mágica”
Existe uma união espiritual entre os salvos e com o Senhor, que se fortalece e se solidifica na ceia do Senhor, e ela não deve ser desprezada.
De fato, não se pode negar que o comer e beber da Ceia do Senhor seja um comer memorial, como querem os zwinglianos, e um comer espiritual, como diz o autor, onde nossos corações são elevados à presença de Deus e o abraça pela fé, mas ao enfatizar o tipo de comer como espiritual, nega o autor o terceiro tipo de comer, o sacramental, com o qual Cristo institui a comunhão na noite em que foi traído. Esse argumento usado por ele é absolutamente inconclusivo em provar qualquer coisa contra o significado apropriado e natural dessas palavras: “Tome, coma; isto é o Meu corpo...”pois o mesmo Cristo na mesma instituição, não só falou sobre o pão e o vinho, mas ao mesmo tempo Ele também afirmou o que recebemos nesta Ceia comendo e bebendo: “Isto é o Meu corpo, isto é o Meu sangue ...” E certamente a presença do corpo e o sangue de Cristo na Ceia é mais importante do que a presença do pão e do vinho. Certamente, é uma coisa incomparavelmente maior se, na Ceia, nossa boca receber o corpo e o sangue de Cristo do que receber apenas o pão e o vinho. Portanto, se por causa da alimentação espiritual não estamos dispostos a remover o que é menos importante na Ceia, ou seja, os elementos do pão e do vinho, porque temos uma palavra a respeito deles, como podemos então condenar e rejeitar, por causa disso o significado natural do testamento de Cristo em relação à presença e recepção substancial de Seu corpo e sangue na Ceia?
Se a adoração é verdadeiramente uma aproximação de Deus, é chegar-se à sua presença rendendo-lhe o louvor que ele merece, então certamente devemos tê-la como um dos principais “meios de graça” disponíveis à igreja. Por intermédio da genuína adoração conjunta, Deus muitas vezes dispensa maiores graças ao seu povo, tanto individual quanto coletivamente.
É interessante notar aqui que o autor não faz reservas em colocar a adoração por oração e jejum da congregação como meios da graça, ao passo que na mesma linguagem ele chama o batismo e a ceia de “magia” De fato, tal ato de culto é meio da graça, entretanto, também não é a adoração ex opere operato que manifestará o favor de Deus, mas é de fato verdadeira adoração, quando derramamos nosso coração diante de Deus (Sl 62:8; 25:1-2; 86:4; 143:8) e, chegando assim ao trono da graça (Hb 4:16), nos dirigimos, com submissão filial e verdadeira devoção do coração, a Deus, nosso Pai, que está presente e ouve (Gl 4:6) e, por Seu comando e confiando em Sua promessa, definindo diante dele nossos problemas e desejos, na verdadeira fé, através e por Cristo, buscando misericórdia, graça e ajuda nas coisas que pertencem a Sua glória e são necessárias, úteis e salutares para nós (Hb 4:16; Jo 16:23-24) ou dar-lhe agradecimentos pelas bênçãos recebidas, e louvor e glorificar seu nome (1 Tm 2:1; 1 Co 14:16).
Parece correto, então, considerar a imposição de mãos como outro elemento da rica diversidade dos “meios de graça” que Deus concedeu à igreja para distribuir bênçãos ao seu povo.
Além dos outros dons de milagres, os apóstolos também tinham este, que na imposição de suas mãos não apenas curavam os enfermos (Mc 16:18), mas o Espírito Santo também era conferido aos crentes sob a forma externa e visível de dons como línguas e profecia (At 19: 6). Mas essa prerrogativa dada aos apóstolos para confirmar a doutrina era apenas temporária. Na Palavra divina, não temos nenhum mandamento pelo qual somos ordenados a seguir o exemplo dos apóstolos, nem a promessa divina que Deus deseja enviar, dar e conferir ao Espírito Santo pela imposição de nossas mãos. Os apóstolos usaram essa cerimônia como adiáforo, por causa das orações públicas.
Ao final deste exame dos meios de graça na igreja, convém perceber antes de tudo que quando qualquer um desses meios é utilizado com fé e obediência, os cristãos devem esperar e procurar evidências de que o Espírito Santo está de fato ministrando às pessoas simultaneamente à utilização dos meios. (grifo nosso)
Na parte conclusiva o autor novamente parece por Deus à prova. Não bastando a promessa de Deus que acompanha cada meio da graça como meios que efetivamente concedem ou aumentam a fé e ao qual o próprio Espírito está vinculado, aqui o autor estimula seus leitores a sondar uma manifestação do agir do Espírito Santo, não considerando então que os próprios meios são per se o próprio agir.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O Exorcismo de Lutero



Tarde da noite, em um mosteiro afastado de tudo, ao fim de um longo corredor escuro podia-se ouvir a voz de um homem gritando, ele se dirigia ao diabo! Ele se debatia enquanto recitava em voz alta passagens da Bíblia afim de manter o mal longe de si, afim de afirmar em alta voz a sua fé e sua pertença a Deus: 

Como ele repelia os demônios: 

“tendo invocado o nome de Cristo, pus-me a bater nele, e parece-me que, de fato, bati. Ao ouvir o nome de Cristo, logo esse grande (demônio) desapareceu com todos os seus demônios.(...) Salmodiava contra ele, e tudo desaparecia. Muitas vezes seus golpes me feriram, e eu dizia: ‘Nada me separará do amor de Cristo’ (Rm 8, 35).” 

Parece uma boa trama para um filme de terror, mas é apenas o viver diário de um homem conhecido da história do Cristianismo. 

Lutero travava uma luta diária, muitas vezes pensavam ser ele um louco de ficar gritando palavras sozinho em seu quarto no mosteiro, atribuiam a isto uma instabilidade mental. 

Mas longe de ser isto, o que acontecia realmente não era um homem atormentado por sua mente, mas por seus demônios. Sua luta contra o diabo o levava a recitar as escrituras em alta voz, isto se projetou em sua teologia de tal modo que não se vê sombra de uma teologia de sofrimento ou martírio, mas todo o seu cerne está na firme convicção de que em Cristo não havia temor. Seu mais famoso hino, Castelo Forte, é um testemunho de como ele confiava de modo inabalável. Toda a sua teologia se mostra profundamente sacramental. Nenhuma experiência humana pode ser posta acima das escrituras, e pelas Escrituras, a participação nos sacrametos tem um efeito muito objetivo: um livra do mal, o outro, também! 

Assim Lutero lutou contra o diabo em seus dias, ele buscou refúgio na Palavra, e afastava a dúvida com os sacramentos. 

Seria ele um desequilibrado? Não podemos fazer um diagnóstico com séculos de distância, mas uma coisa sabemos com certeza: diante do ataque do maligno em suas noites no mosteiro, ele sabia bem em quem ter esperança, e isto sempre foi muito claro para ele, porque pela Palavra, ele sabia “nada me separará do amor de Cristo” 

É interessante ver como esta luta diária dele é vista por alguns “apologistas” como uma prova de que ele era um desequilibrado, gritar a palavra de Deus em voz alta no meio da noite como um meio irrefutável de sua desordem mental e fazer disto um motivo para invalidar sua teologia, esquecendo-se, convenientemente, dos santos antes dele que passaram exatamente pela mesma experiência, e são vistos como heróis da fé. Esta citação mesmo, apesar de que poderia ter vindo do próprio Lutero, é apenas um relato da vida de Santo Antão, um dos mais respeitosos pais da igreja cristã (Vida e Conduta de Santo Antão, col. Patrística vol 18, p. 183)

domingo, 13 de janeiro de 2019

O que é a Sã Doutrina?


Antiguidade de doutrina define a validade da doutrina?
O erro de um dos primeiros dos Santos padres apologistas, Papias que perdurou até o ano 400 e ser consistentemente rebatida por Santo Agostinho. A Doutrina deve ser bíblica, este é o único critério que não podemos abrir mão.

domingo, 16 de dezembro de 2018

O problema do ecumenismo - A Unidade da Fé



É comum hoje em dia falarmos em ecumenismo. Alguns apoiam, outros são contra, outros não sabem do que se trata. Mantendo esta questão simples, podemos dizer que há tipos diferentes de ecumenismo. O primeiro tipo é o unionismo, o movimento que prega que todas as religiões deveriam não apenas se tolerar mutuamente, mas defendem uma religiosidade que seja a soma de todas as demais, uma grande religião universal com um pouquinho de cada uma. O segundo tipo, é o ecumenismo cristão, ou seja, o grupo que defende que todas as vertentes especificamente cristãs devem buscar uma aproximação. O terceiro tipo, é o diálogo ecumênico cristão: nesta forma, não há proselitismo (a busca de tentar fazer o outro a mudar de igreja), mas a disposição de que cada um mantenha sua confessionalidade em sua própria denominação, mas também reconheça em outros grupos um cristianismo legítimo e possa dialogar com os outros sem transformar isto em um conflito. 

De certa forma este diálogo é bem presente em minha vida, tendo parte da família sendo católica, parte batista, muitos amigos presbiterianos, e eu sendo o único luterano em minha casa. Todos cristãos, com a Graça de Deus! Também tive a graça de ser chamado a participar de um grupo com esta visão de diálogo ecumênico formado por pastores e leigos. Graças a estas conversas pude me deparar com questões que me aguçaram a curiosidade e não me deixaram parar de estudar mesmo após a minha formação. 

Uma coisa, entretanto, me chamou muito a atenção em todos estes debates: os católicos, sejam romanos ou ortodoxos sempre me pareciam ser muito mais estudados que os demais! Era sempre um vocabulário que exigia que eu parasse, analisasse, abrisse alguns livros para entender primeiro a ideia que queriam comunicar e depois disso formular uma resposta. (enquanto escrevo este artigo, tem um amigo meu esperando uma resposta há uma semana e ainda estou analisando o todo da questão). 

Por fim, na verdade a questão não se trata de algum tema que nunca tenha visto, ou que se não souber a resposta eu não saiba onde recorrer, é algo muito mais sutil: POLISSEMIA. 

Esta palavra estranha significa um conceito que sempre nos deparamos no dia-a-dia: uma mesma palavra pode ser interpretada de formas muito diferentes. Eis o problema quando falamos também das questões de fé. 

Como um luterano, estudado em um seminário presbiteriano, criado em uma família batista, isto é bem claro para mim. Qualquer um que viva um ambiente plural assim saberá do que estou dizendo. É preciso escolher as palavras com muito cuidado. Uma coisa corriqueiramente dita em um meio denominacional pode ser muito malvista dentro do contexto de outra denominação. Um exemplo simples é o “livre-arbítrio” isto para um luterano significa a capacidade do homem, como um ser racional de escolher conforme a sua vontade coisas que a razão humana pode compreender. Já no meio presbiteriano, este conceito é chamado de livre-agência, e o nome “livre-arbítrio” designa uma antiga heresia da história da igreja. Esta antiga heresia, para um católico chama-se “pelagianismo”, e o livre-arbítrio volta a ser entendido como uma capacidade de escolha. 

O ponto importante aqui é que se entenda que numa mesma época, numa mesma região, falantes de uma mesma língua tendem a entender conceitos de modo diferente simplesmente porque sua vertente religiosa costuma usar o termo dentro de um contexto muito específico. 

Este ponto é muito importante, porque diz respeito ao que cremos e ao que confessamos como cristãos, e boa parte dos “debates apologéticos” que tenho visto, pouco possuem de real conteúdo apologético, e em grande parte debatedores tentam combater espantalhos construídos por eles mesmos ao considerarem que o outro está a usar o termo da mesma forma que ele o usa. 


Neste quesito, o Cristianismo sempre pregou a unidade da fé. Não que a fé DEVA ser una, mas que a fé cristã É una, e por isto mesmo a dizemos “católica”, ou seja: a mesma crida e confessada em todas as épocas e em todos os lugares. No entanto, há uma inegável diversidade dentro do cristianismo. 

De um ponto-de-vista católico romano, podemos dizer que a unidade na fé segue o conceito mais estrito, e digo isto ao me deparar com a recente excomunhão de um padre em Novo Hamburgo, entre os motivos listados pela diocese segue-se ipsis litteris o conteúdo divulgado pela própria diocese: 

“Negou, insistentemente, que “a única Igreja de Cristo, que no Símbolo confessamos una, santa, católica e apostólica, (…) constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” (Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 8b). Reiteradas vezes apresentou a Igreja governada visivelmente pelo Papa e pelos Bispos em comunhão com ele como sendo uma em meio a tantas outras.” 

Assim, podemos entender a fé católica segundo Roma como: 

· Eclesial: A fé da Igreja precede, gera, suporta e nutre a nossa fé 

· Decorre da visibilidade da Igreja: se encontra circunscrita aos limites da igreja 

· Possui um elemento credal (os credos católicos) e um elemento confessional (dispositivos dogmáticos adstritos aos seus fiéis) 

· Entre os elementos confessionais, a fé repousa sobre o tríplice e indivisível aporte das escrituras, tradição e magistério in totum. 

Em suma, esta unidade eclesial da fé implica a tradição como elemento de fé católica, bem como todo o magistério, excluindo-se, portanto, a alteração de rito, a interpretação do texto bíblico e a forma de governo da competência de seus fiéis ou mesmo de seus líderes de modo individual. 

Por outro lado, vemos que o mesmo motivo que, segundo Roma levou um padre a excomunhão não seria tão severamente percebido entre os católicos ortodoxos, como a célebre citação de A.S. Chomjakov: 

“Tanto quanto a Igreja terrena e visível não é a totalidade e completitude do toda da Igreja que o Senhor indicou para aparecer no julgamento final de toda criação, ela age e conhece somente o que está dentro dos seus limites próprios; e... não julga o resto da humanidade, e só olha para aqueles como excluídos, isto é, não pertencendo a ela, aqueles que se excluíram a si próprios. O resto da humanidade, seja estranho à Igreja, ou a ela unidos por laços que Deus não quis revelar a ela, ela deixa para o julgamento do Grande Dia» (The Church is One, Seção 1) 

É um ponto relevante que para o católico ortodoxo, não existe a ideia romana de ser a tradição um dos pilares da fé, antes, fé e tradição são termos iguais, assim, podemos ler segundo publicado pela Arquidiocese Ortodoxa de Buenos Aires:
“Tradição Cristã, nesse caso é a fé que Jesus Cristo concedeu aos Apóstolos, e que desde os tempos apostólicos tem sido passada de geração em geração na Igreja (Comparar com Paulo I Co. 15:3). Mas para um Cristão Ortodoxo, Tradição significa algo mais concreto e específico que isso. Significa os livros da Sagrada Escritura; significa o Credo; significa os decretos dos Concílios Ecumênicos e os escritos dos Padres; significa os Canons, os Livros de Ofícios, os Santos Ícones — de fato o sistema doutrinal completo, o governo da Igreja, a louvação e a arte que foram articuladas pelos séculos. O Cristão Ortodoxo de hoje vê-se como herdeiro e guardião da grande herança recebida do passado, e ele acredita ser sua obrigação transmiti-la não prejudicada ao futuro. (...) Com certeza (assim esse grupo estrito acrescenta) a graça divina é ativa entre muitos não-Ortodoxos, e se eles são sinceros em seu amor por Deus, então podemos estar seguros que Deus terá misericórdia por eles; mas eles não podem em seu estado presente, ser denominados membros da Igreja. Trabalhadores pela unidade Cristã que não encontram com frequência essa escola rigorista não podem esquecer que tais opiniões são sustentadas por muitos Ortodoxos de grande erudição e santidade.” 

Assim, podemos entender a fé católica segundo a Ortodoxia como: 

· Eclesial: A fé da Igreja precede, gera, suporta e nutre a nossa fé 

· Decorre da visibilidade da Igreja, mas não se encontra circunscrita aos limites da igreja 

· Possui um elemento credal (os credos católicos) e um elemento confessional (dispositivos dogmáticos adstritos aos seus fiéis) 

· Entre os elementos confessionais, a fé inclui todo um zeitgeist por ser indivisível da tradição, portanto não fazendo diferenciação entre elementos essenciais e não-essenciais para a salvação. 

· Admitem a unidade na diversidade: A Igreja Ortodoxa é uma família de Igrejas irmãs, descentralizadas em estrutura, o que significa que comunidades separadas podem ser integradas sem perder sua autonomia, a unidade do magistério não é artigo de fé nos mesmos moldes que Roma coloca. 

Assim, conclui-se que o conceito de unidade na fé para um ortodoxo é levemente mais amplo que para um católico romano, assim, dois ortodoxos, pertencentes a patriarcados diferentes não teriam problemas em ver a igreja e a fé como sendo una, ainda que haja uma organização exterior diferente, um católico romano já veria nisto, seguindo rigidamente seus cânones, uma ruptura, embora ambos confessem igualmente “Creio na Igreja Una , Santa, Católica e Apostólica.” Percebe-se que o conceito de unidade não é exatamente o mesmo. 



Ainda temos outros modelos de unidade na fé, próprios do terceiro grande grupo da cristandade, os protestantes. 

Começando pelos que afirmam a catolicidade de sua fé, a saber a via media composta por Anglicanos e Luteranos. Temos nuances que valem ser notadas. 

Começando com os Anglicanos, ponderando sobre a conferência Anglo-Russa de 1956, o Arcebispo de Canterbury, Rev. Ramsey, noticiou o ponto de vista Ortodoxo nestes dizeres: "Os Ortodoxos com efeito disseram: “A Tradição é um fato concreto aqui está ela, em sua totalidade. Vocês, anglicanos, aceitam-na, ou vocês a rejeitam? A Tradição é para os Ortodoxos um todo indivisível: A vida inteira da Igreja em sua completitude de crença e costumes através dos séculos, incluindo Mariologia e a veneração dos ícones. Confrontado com esse desafio, a resposta foi: "Nós não olharíamos veneração de ícones e Mariologia como inadmissíveis, desde que em determinando o que é necessário para a salvação, nós nos confinemos à Sagrada Escritura." Mas essa resposta só põe em relevo o contraste entre o apelo Anglicano para o que considerado necessário para a salvação e o apelo ortodoxo para o organismo Uno e Indivisível da Tradição ("The Moscou Conference in Retrospect" Em Sobormost, serie 3, nº23, 1958, p. 562-563). 

Do lado Luterano há um contraste pertinente em seus documentos confessionais, mais especificamente na Confissão de Augsburg: 

“ARTIGO 7: DA IGREJA (...) Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituídas pelos homens. É como diz Paulo em Efésios 4: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. 
ARTIGO 8: QUE É A IGREJA Além disso, ainda que a igreja cristã, propriamente falando, outra coisa não é senão a congregação de todos os crentes e santos, todavia, já que nesta vida continuam entre os piedosos muitos falsos cristãos e hipócritas, também, pecadores manifestos (...) 

Martin Bucer abordou Lutero nos debates de Marburg, um célebre episódio: “Peço-te que me reconheças como irmão, ou crês que estou no erro?” Em resposta, Lutero disse: “Fica claro que não temos o mesmo espírito. Pois não podemos ter o mesmo espírito quando uma parte acredita na Palavra de Cristo com fé inocente, ao passo que, na outra, a mesma fé é censurada, contestada, difamada e violada com toda sorte de blasfêmia absurda.” E esses dois grandes grupos da Reforma nunca se reconciliaram. 

Assim, podemos entender a fé católica segundo a ala central do protestantismo histórico como: 

· Eclesial-instrumental: A fé da Igreja suporta e nutre a nossa fé em caráter instrumental sendo sua origem puramente na obra divina, a igreja é o resultado do legado da fé, mas não a gera. 

· Decorre da invisibilidade da Igreja: a comunhão dos santos não se detém aos limites denominacionais. 

· Possui um elemento credal forte (os credos católicos) e um elemento confessional (dispositivos dogmáticos adstritos aos seus fiéis). A unidade da fé é essencialmente credal. 

· Entre os elementos confessionais, a fé admite um zeitgeist marcado pela ampla liberdade devocional, portanto fazendo diferenciação entre elementos essenciais e não-essenciais para a salvação. Há a prescrição de ritos para o culto público com relativa elasticidade. 

· Admitem a unidade na diversidade: Reconhece-se uma família de Igrejas irmãs, descentralizadas em estrutura, comunidades não perdem sua autonomia, a unidade do magistério não é artigo de fé, mas reconhece-se como bom todo magistério e tradição, subordinando-os ao crivo das Escrituras. 

· Assume-se as Escrituras como FONTE de fé e prática. 

Ao contrário da ala central, por vezes também chamada de moderada dos protestantes históricos, existe a ala radical, na qual me restrinjo a falar dos presbiterianos e Batistas, os atuais grandes representantes do calvinismo e dos anabatistas, respectivamente. 

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar, para que haja justiça que não há um compêndio único de doutrinas, para estas igrejas há alguns documentos disponíveis sobre os quais se pode optar, assim os reformados podem optar pelo diretório de Westminster e seguir uma linha mais extrema, ou pelas “três formas de unidade”, um compêndio que dialoga melhor com as outras igrejas protestantes históricas. Os Batistas possuem Declarações de Fé que se aproximam dos termos de Westminster nas duas versões históricas: 1622 e 1689, e algumas declarações das Convenções Batistas já bem mais modernas, qual delas adotar é ato discricionário de cada congregação. 

Por analisarmos o conceito de fé neste momento da ala radical da reforma, nos restringimos então às duas icônicas: Westminster e a Declaração de fé Batista de 1689. 

Em um artigo anterior chamado de “Diferenças entre Batistas e Luteranos” este ponto já foi abordado, no catecismo maior de Westminster lê-se: 

1. Qual é o fim supremo e principal do homem? Resposta. O fim supremo e principal do homem e glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. 
Não é uma má resposta, mas disto surgiu uma discussão relevante: Como o homem então pode glorificar a Deus? Esta era uma discussão relevante, pois dela dependia o entendimento da primeira questão do catecismo. Esta questão, em termos práticos foi resolvida de uma forma que mais tarde, em 1689 os batistas colocariam em seu texto sob o ponto 6: 

Reconhecemos que há algumas circunstâncias, concernentes à adoração a Deus e ao governo da igreja, que são peculiares às sociedades e costumes humanos, e que devem ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as normas gerais da Palavra que sempre devem ser observadas. 

Para que o homem cumpra seu fim de glorificar a Deus, além dos ditames Bíblicos para agravar as consciências e nos deixar o que deve e o que não deve ser feito, também se admite como regra para o fim de que o homem possa glorificar, as listas de regras sobre a prudência, formuladas por cada igreja local. A exemplo disto, criou-se o conceito de que o consumo de álcool seja pecado, o fumo, embora visto como pecado entre os brasileiros, é aceito entre os americanos, ideias políticas diferentes da cosmovisão ditada, também seriam pecados, mesmo que não haja respaldo escriturístico diretamente sobre o tema. 

Neste sentido, a tradição reformada chamará estas listas de prudência cristã de “cosmovisão cristã” e os batistas a chamarão de “mordomia cristã”, sendo basicamente equivalentes. 

Assim, podemos entender a fé segundo a ala radical do protestantismo histórico como: 

· Não católica: nega-se, via de regra, haver um mesmo depósito de fé entre o protestantismo e os católicos, sejam romanos ou ortodoxos. Alguns negarão também haver fé comum com os neopentecostais. 

· Eclesial-instrumental: A fé da Igreja suporta e nutre a nossa fé em caráter instrumental sendo sua origem puramente na obra divina, a igreja é o resultado do legado da fé, mas não a gera. A forma de a igreja nutrir a fé é exclusivamente através da comunhão entre irmãos e a proclamação da Palavra, exclui-se os sacramentos como fonte direta de fé. (Embora o calvinismo clássico não sustente este ponto) 

· Decorre da parcial invisibilidade da Igreja: a comunhão dos santos não se detém aos limites denominacionais, embora esta questão esteja ainda sendo trabalhada em muitas comunidades. De modo semelhante à ortodoxia, crê-se que Deus pode salvar, por Misericórdia os de fora, embora não sejam a igreja verdadeira. 

· Podem possuir um elemento credal discreto (os credos católicos) e um elemento confessional forte (dispositivos dogmáticos adstritos aos seus fiéis). A unidade da fé é essencialmente confessional. Pode haver graça divina fora da igreja, desde que o fiel individualmente creia conforme as constituições dogmáticas protestantes. 

· Entre os elementos confessionais, a fé admite apenas um zeitgeist marcado pela orientação denominada “cosmovisão” ou “mordomia”, portanto fazendo diferenciação entre elementos essenciais e não-essenciais para a salvação, preservando-se os essenciais e rejeitando-se os não-essenciais. Há a prescrição de ritos para o culto público com relativa elasticidade apenas para os presbiterianos. Batistas não possuem uma liturgia ritualística (salvo algumas congregações que individualmente decidiram adotar) 

· Admitem a unidade na diversidade: Reconhece-se uma família de Igrejas irmãs, comunidades não perdem sua autonomia, rejeita-se o magistério e a tradição histórica. Elege-se um compêndio doutrinário localmente entre as opções dadas no seio denominacional 

· Assume-se as Escrituras como REGRA de fé e prática. 



Diferenças nestas interpretações sobre o mesmo termo, com frequência tenho visto transformar grandes tratados teológicos de caráter apologético simplesmente em um peso morto. Não combatem, segundo a confessionalidade do autor uma questão real na confessionalidade de outro. Apenas pelo que se entende sobre “unidade na fé” e citada apenas uma parte das nuances do cristianismo, já se pode produzir um estudo completo. O termo “unidade”, por fim, tem vários sentidos e cada tradição cristã o entenderá de forma diversa, embora ninguém há de negar que a fé cristã seja una. 

Então nos deparamos com algo como a definição católica romana de fé como um ato de adesão pessoal, do homem todo, a Deus que se revela, e de outro lado lemos uma definição batista que diz ser a total entrega da personalidade. Ora, aderir é bem diferente de entregar segundo os dicionários. Entretanto, teologicamente, cada uma destas palavras em seus respectivos seios denominacionais, terá o mesmo sentido. Aderir é um termo que foca na ação inicial de Deus, onde o batista dirá aceitar e o luterano chamará de conversão intransitiva. Entregar, por sua vez diz respeito à resposta humana a esta ação, onde o católico dirá “crer” (art.180 CIC) e o luterano chamará de conversão transitiva. 

Se podemos até onde visto chegar a uma definição do que seja a “unidade da fé” teremos que os católicos romanos guardam a definição mais estrita, seguida pelos ortodoxos, protestantes da via media com a posição menos restritiva, e por fim, a definição da ala radical da reforma marcada por uma ruptura com os anteriores. Ainda assim, permanece a fé em todas estas linhas como a confiança no Deus que se revela e em sua promessa de perdão dos pecados, vida e salvação. Nisto toda a cristandade deposita sua convicção em uníssono, e não creio que possamos esperar uma unidade perfeita antes que passem os céus e a terra.