terça-feira, 18 de dezembro de 2018

2ª Antífona - Oh Adonai


O Adonai, et dux domus Israel, qui Moysi in igne flammae rubi apparuisti, et ei in Sina legem dedisti, veni ad redimendum nos in brachio extento.

Oh Adonai e guia da casa de Israel, que apareceu para Moisés na sarça ardente e deu a ele a Lei no Sinai, venha com seus braços estendidos a nos redimir.


Moisés estava cuidando dos negócios de seu sogro, suas ovelhas, quando ele viu um arbusto que estava em chamas, mas não se consumia por elas. Quando ele se aproximou para ver o que acontecia, o Anjo do Senhor (O próprio Deus-Filho pré incarnado) falou com ele da sarça. Ele encarregou Moisés de libertar o povo de Israel da escravidão no Egito. Tentando fugir desta tarefa de alguma forma, Moisés perguntou o nome de Deus. “Eu Sou o que Sou” o Messias respondeu (Êxodo 3). Este nome nós pronunciamos YAHWEH. Um nome composto por quatro consoantes em hebraico (יהוה). Depois do exílio na Babilônia, os judeus decidiram não pronunciar o nome para que ele não fosse tomado em vão. Ao invés disto, eles diziam “Adonai”, significando “Senhor”. Onde quer que o Anjo do Senhor apareça no Antigo Testamento, este nome é dado a ele. Ele revelou a Lei de Deus a Moisés no mesmo local, tempos depois quando o povo estava liberto.

Por que o Messias é Deus eternamente, não há nada que ele não possa fazer. Ele amou seu povo, enviou Moisés para libertá-lo. Ele mostrou seu poder através de pragas e milagres, incluindo a abertura do Mar, que as Escrituras chamaram de o braço estendido do Senhor (Dt 7:19)


Esta oração clama ao Messias que vem e nos redime. Desta vez não com a força de seu poder em sua majestade não velada, mas o poder de o próprio Deus pagar o preço de nossa salvação, não com ouro nem prata, mas com seu sangue. Ele mesmo se tornou o preço de nossos pecados. Um dia ele virá novamente em Glória para redimir seu Israel para sempre, a morte será vencida, o pecado e o mal serão passado. Naquele dia, seus braços estendidos restaurarão todas as coisas e todos confessarão a Jesus como o Senhor, para a glória de Deus Pai.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

1ª Antífona - Ó Sabedoria!


O Sapientia, quae ex ore Altissimi prodiisti, attingens a fine usque ad finem fortiter, suaviterque disponens omnia, veni ad docendum nos viam prudentiae.

Ó Sabedoria, procedente da boca do Altíssimo, permeado a criação, ordenando todas as coisas, Venha e nos ensine o caminho da prudência.


Na linguagem formal da igreja, dias importantes são celebrados ao longo de oito dias. Isto é um símbolo da vida eterna. Como existem apenas sete dias na semana, o oitavo dia é tido como aquele dia que há de vir, que está além do tempo regular, o dia que não mais terá fim na presença do Senhor, juntamente com os anjos e arcanjos e toda a companhia celeste, louvando o cordeiro que foi morto, mas vive eternamente. Desta forma, todo o serviço é conduzido até o oitavo dia. A oitava do natal é o dia de ano novo, quando a igreja relembra a circuncisão de Jesus. 17 de dezembro é, de certa forma, uma oitava anterior ao natal, neste dia, começamos as Antífonas.

A primeira petição medita no título “Sabedoria”. Na filosofia popular da Grécia e de Roma, Sabedoria é ensinada como o Verbo (Logos — λόγος), o qual é divino em si mesmo e vem para o mundo para instruir os dignos na sabedoria. (σοφία — Sofia). Isaías profetizou que o Espírito de Sabedoria estaria sobre o Messias (Isaias 11:1-9). Nas Escrituras, Sabedoria não diz respeito ao o que se conhece, mas a quem se conhece. O princípio da sabedoria é o temor do Senhor e é construída na confiança de que Deus é fiel em suas promessas no Evangelho (isto é fé). A Sabedoria escuta a voz de Deus, pondera sobre o reto agir e deliberadamente age de acordo. Nesta oração, pedimos a Deus que nos ensine a viver desta maneira.

A mais alta forma de sabedoria é a cruz. Lá, Deus mesmo é sacrificado para pagar o preço de nosso pecado. Parece loucura para o mundo, matar Deus para o bem dos malvados, ainda assim, para nós, esta é a mais profunda sabedoria (1 Coríntios 1:18-25). O caminho da Sabedoria, portanto, é confessar os nossos pecados, receber o perdão e então, entregarmos nossas vidas em favor do próximo.


O come, Thou Wisdom from on high, Who ord’rest all things mightily;To us the path of knowledge show, And teach us in her ways to go. Rejoice! Rejoice! Emmanuel Shall come to thee, O Israel!

LSB, 357, II

domingo, 16 de dezembro de 2018

O problema do ecumenismo - A Unidade da Fé



É comum hoje em dia falarmos em ecumenismo. Alguns apoiam, outros são contra, outros não sabem do que se trata. Mantendo esta questão simples, podemos dizer que há tipos diferentes de ecumenismo. O primeiro tipo é o unionismo, o movimento que prega que todas as religiões deveriam não apenas se tolerar mutuamente, mas defendem uma religiosidade que seja a soma de todas as demais, uma grande religião universal com um pouquinho de cada uma. O segundo tipo, é o ecumenismo cristão, ou seja, o grupo que defende que todas as vertentes especificamente cristãs devem buscar uma aproximação. O terceiro tipo, é o diálogo ecumênico cristão: nesta forma, não há proselitismo (a busca de tentar fazer o outro a mudar de igreja), mas a disposição de que cada um mantenha sua confessionalidade em sua própria denominação, mas também reconheça em outros grupos um cristianismo legítimo e possa dialogar com os outros sem transformar isto em um conflito. 

De certa forma este diálogo é bem presente em minha vida, tendo parte da família sendo católica, parte batista, muitos amigos presbiterianos, e eu sendo o único luterano em minha casa. Todos cristãos, com a Graça de Deus! Também tive a graça de ser chamado a participar de um grupo com esta visão de diálogo ecumênico formado por pastores e leigos. Graças a estas conversas pude me deparar com questões que me aguçaram a curiosidade e não me deixaram parar de estudar mesmo após a minha formação. 

Uma coisa, entretanto, me chamou muito a atenção em todos estes debates: os católicos, sejam romanos ou ortodoxos sempre me pareciam ser muito mais estudados que os demais! Era sempre um vocabulário que exigia que eu parasse, analisasse, abrisse alguns livros para entender primeiro a ideia que queriam comunicar e depois disso formular uma resposta. (enquanto escrevo este artigo, tem um amigo meu esperando uma resposta há uma semana e ainda estou analisando o todo da questão). 

Por fim, na verdade a questão não se trata de algum tema que nunca tenha visto, ou que se não souber a resposta eu não saiba onde recorrer, é algo muito mais sutil: POLISSEMIA. 

Esta palavra estranha significa um conceito que sempre nos deparamos no dia-a-dia: uma mesma palavra pode ser interpretada de formas muito diferentes. Eis o problema quando falamos também das questões de fé. 

Como um luterano, estudado em um seminário presbiteriano, criado em uma família batista, isto é bem claro para mim. Qualquer um que viva um ambiente plural assim saberá do que estou dizendo. É preciso escolher as palavras com muito cuidado. Uma coisa corriqueiramente dita em um meio denominacional pode ser muito malvista dentro do contexto de outra denominação. Um exemplo simples é o “livre-arbítrio” isto para um luterano significa a capacidade do homem, como um ser racional de escolher conforme a sua vontade coisas que a razão humana pode compreender. Já no meio presbiteriano, este conceito é chamado de livre-agência, e o nome “livre-arbítrio” designa uma antiga heresia da história da igreja. Esta antiga heresia, para um católico chama-se “pelagianismo”, e o livre-arbítrio volta a ser entendido como uma capacidade de escolha. 

O ponto importante aqui é que se entenda que numa mesma época, numa mesma região, falantes de uma mesma língua tendem a entender conceitos de modo diferente simplesmente porque sua vertente religiosa costuma usar o termo dentro de um contexto muito específico. 

Este ponto é muito importante, porque diz respeito ao que cremos e ao que confessamos como cristãos, e boa parte dos “debates apologéticos” que tenho visto, pouco possuem de real conteúdo apologético, e em grande parte debatedores tentam combater espantalhos construídos por eles mesmos ao considerarem que o outro está a usar o termo da mesma forma que ele o usa. 


Neste quesito, o Cristianismo sempre pregou a unidade da fé. Não que a fé DEVA ser una, mas que a fé cristã É una, e por isto mesmo a dizemos “católica”, ou seja: a mesma crida e confessada em todas as épocas e em todos os lugares. No entanto, há uma inegável diversidade dentro do cristianismo. 

De um ponto-de-vista católico romano, podemos dizer que a unidade na fé segue o conceito mais estrito, e digo isto ao me deparar com a recente excomunhão de um padre em Novo Hamburgo, entre os motivos listados pela diocese segue-se ipsis litteris o conteúdo divulgado pela própria diocese: 

“Negou, insistentemente, que “a única Igreja de Cristo, que no Símbolo confessamos una, santa, católica e apostólica, (…) constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” (Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 8b). Reiteradas vezes apresentou a Igreja governada visivelmente pelo Papa e pelos Bispos em comunhão com ele como sendo uma em meio a tantas outras.” 

Assim, podemos entender a fé católica segundo Roma como: 

· Eclesial: A fé da Igreja precede, gera, suporta e nutre a nossa fé 

· Decorre da visibilidade da Igreja: se encontra circunscrita aos limites da igreja 

· Possui um elemento credal (os credos católicos) e um elemento confessional (dispositivos dogmáticos adstritos aos seus fiéis) 

· Entre os elementos confessionais, a fé repousa sobre o tríplice e indivisível aporte das escrituras, tradição e magistério in totum

Em suma, esta unidade eclesial da fé implica a tradição como elemento de fé católica, bem como todo o magistério, excluindo-se, portanto, a alteração de rito, a interpretação do texto bíblico e a forma de governo da competência de seus fiéis ou mesmo de seus líderes de modo individual. 

Por outro lado, vemos que o mesmo motivo que, segundo Roma levou um padre a excomunhão não seria tão severamente percebido entre os católicos ortodoxos, como a célebre citação de A.S. Chomjakov: 

“Tanto quanto a Igreja terrena e visível não é a totalidade e completitude do toda da Igreja que o Senhor indicou para aparecer no julgamento final de toda criação, ela age e conhece somente o que está dentro dos seus limites próprios; e... não julga o resto da humanidade, e só olha para aqueles como excluídos, isto é, não pertencendo a ela, aqueles que se excluíram a si próprios. O resto da humanidade, seja estranho à Igreja, ou a ela unidos por laços que Deus não quis revelar a ela, ela deixa para o julgamento do Grande Dia» (The Church is One, Seção 1) 

É um ponto relevante que para o católico ortodoxo, não existe a ideia romana de ser a tradição um dos pilares da fé, antes, fé e tradição são termos iguais, assim, podemos ler segundo publicado pela Arquidiocese Ortodoxa de Buenos Aires:
“Tradição Cristã, nesse caso é a fé que Jesus Cristo concedeu aos Apóstolos, e que desde os tempos apostólicos tem sido passada de geração em geração na Igreja (Comparar com Paulo I Co. 15:3). Mas para um Cristão Ortodoxo, Tradição significa algo mais concreto e específico que isso. Significa os livros da Sagrada Escritura; significa o Credo; significa os decretos dos Concílios Ecumênicos e os escritos dos Padres; significa os Canons, os Livros de Ofícios, os Santos Ícones — de fato o sistema doutrinal completo, o governo da Igreja, a louvação e a arte que foram articuladas pelos séculos. O Cristão Ortodoxo de hoje vê-se como herdeiro e guardião da grande herança recebida do passado, e ele acredita ser sua obrigação transmiti-la não prejudicada ao futuro. (...) Com certeza (assim esse grupo estrito acrescenta) a graça divina é ativa entre muitos não-Ortodoxos, e se eles são sinceros em seu amor por Deus, então podemos estar seguros que Deus terá misericórdia por eles; mas eles não podem em seu estado presente, ser denominados membros da Igreja. Trabalhadores pela unidade Cristã que não encontram com frequência essa escola rigorista não podem esquecer que tais opiniões são sustentadas por muitos Ortodoxos de grande erudição e santidade.” 

Assim, podemos entender a fé católica segundo a Ortodoxia como: 

· Eclesial: A fé da Igreja precede, gera, suporta e nutre a nossa fé 

· Decorre da visibilidade da Igreja, mas não se encontra circunscrita aos limites da igreja 

· Possui um elemento credal (os credos católicos) e um elemento confessional (dispositivos dogmáticos adstritos aos seus fiéis) 

· Entre os elementos confessionais, a fé inclui todo um zeitgeist por ser indivisível da tradição, portanto não fazendo diferenciação entre elementos essenciais e não-essenciais para a salvação. 

· Admitem a unidade na diversidade: A Igreja Ortodoxa é uma família de Igrejas irmãs, descentralizadas em estrutura, o que significa que comunidades separadas podem ser integradas sem perder sua autonomia, a unidade do magistério não é artigo de fé nos mesmos moldes que Roma coloca. 

Assim, conclui-se que o conceito de unidade na fé para um ortodoxo é levemente mais amplo que para um católico romano, assim, dois ortodoxos, pertencentes a patriarcados diferentes não teriam problemas em ver a igreja e a fé como sendo una, ainda que haja uma organização exterior diferente, um católico romano já veria nisto, seguindo rigidamente seus cânones, uma ruptura, embora ambos confessem igualmente “Creio na Igreja Una , Santa, Católica e Apostólica.” Percebe-se que o conceito de unidade não é exatamente o mesmo. 



Ainda temos outros modelos de unidade na fé, próprios do terceiro grande grupo da cristandade, os protestantes. 

Começando pelos que afirmam a catolicidade de sua fé, a saber a via media composta por Anglicanos e Luteranos. Temos nuances que valem ser notadas. 

Começando com os Anglicanos, ponderando sobre a conferência Anglo-Russa de 1956, o Arcebispo de Canterbury, Rev. Ramsey, noticiou o ponto de vista Ortodoxo nestes dizeres: "Os Ortodoxos com efeito disseram: “A Tradição é um fato concreto aqui está ela, em sua totalidade. Vocês, anglicanos, aceitam-na, ou vocês a rejeitam? A Tradição é para os Ortodoxos um todo indivisível: A vida inteira da Igreja em sua completitude de crença e costumes através dos séculos, incluindo Mariologia e a veneração dos ícones. Confrontado com esse desafio, a resposta foi: "Nós não olharíamos veneração de ícones e Mariologia como inadmissíveis, desde que em determinando o que é necessário para a salvação, nós nos confinemos à Sagrada Escritura." Mas essa resposta só põe em relevo o contraste entre o apelo Anglicano para o que considerado necessário para a salvação e o apelo ortodoxo para o organismo Uno e Indivisível da Tradição ("The Moscou Conference in Retrospect" Em Sobormost, serie 3, nº23, 1958, p. 562-563). 

Do lado Luterano há um contraste pertinente em seus documentos confessionais, mais especificamente na Confissão de Augsburg: 

“ARTIGO 7: DA IGREJA (...) Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituídas pelos homens. É como diz Paulo em Efésios 4: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. 
ARTIGO 8: QUE É A IGREJA Além disso, ainda que a igreja cristã, propriamente falando, outra coisa não é senão a congregação de todos os crentes e santos, todavia, já que nesta vida continuam entre os piedosos muitos falsos cristãos e hipócritas, também, pecadores manifestos (...) 

Martin Bucer abordou Lutero nos debates de Marburg, um célebre episódio: “Peço-te que me reconheças como irmão, ou crês que estou no erro?” Em resposta, Lutero disse: “Fica claro que não temos o mesmo espírito. Pois não podemos ter o mesmo espírito quando uma parte acredita na Palavra de Cristo com fé inocente, ao passo que, na outra, a mesma fé é censurada, contestada, difamada e violada com toda sorte de blasfêmia absurda.” E esses dois grandes grupos da Reforma nunca se reconciliaram. 

Assim, podemos entender a fé católica segundo a ala central do protestantismo histórico como: 

· Eclesial-instrumental: A fé da Igreja suporta e nutre a nossa fé em caráter instrumental sendo sua origem puramente na obra divina, a igreja é o resultado do legado da fé, mas não a gera. 

· Decorre da invisibilidade da Igreja: a comunhão dos santos não se detém aos limites denominacionais. 

· Possui um elemento credal forte (os credos católicos) e um elemento confessional (dispositivos dogmáticos adstritos aos seus fiéis). A unidade da fé é essencialmente credal. 

· Entre os elementos confessionais, a fé admite um zeitgeist marcado pela ampla liberdade devocional, portanto fazendo diferenciação entre elementos essenciais e não-essenciais para a salvação. Há a prescrição de ritos para o culto público com relativa elasticidade. 

· Admitem a unidade na diversidade: Reconhece-se uma família de Igrejas irmãs, descentralizadas em estrutura, comunidades não perdem sua autonomia, a unidade do magistério não é artigo de fé, mas reconhece-se como bom todo magistério e tradição, subordinando-os ao crivo das Escrituras. 

· Assume-se as Escrituras como FONTE de fé e prática. 

Ao contrário da ala central, por vezes também chamada de moderada dos protestantes históricos, existe a ala radical, na qual me restrinjo a falar dos presbiterianos e Batistas, os atuais grandes representantes do calvinismo e dos anabatistas, respectivamente. 

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar, para que haja justiça que não há um compêndio único de doutrinas, para estas igrejas há alguns documentos disponíveis sobre os quais se pode optar, assim os reformados podem optar pelo diretório de Westminster e seguir uma linha mais extrema, ou pelas “três formas de unidade”, um compêndio que dialoga melhor com as outras igrejas protestantes históricas. Os Batistas possuem Declarações de Fé que se aproximam dos termos de Westminster nas duas versões históricas: 1622 e 1689, e algumas declarações das Convenções Batistas já bem mais modernas, qual delas adotar é ato discricionário de cada congregação. 

Por analisarmos o conceito de fé neste momento da ala radical da reforma, nos restringimos então às duas icônicas: Westminster e a Declaração de fé Batista de 1689. 

Em um artigo anterior chamado de “Diferenças entre Batistas e Luteranos” este ponto já foi abordado, no catecismo maior de Westminster lê-se: 

1. Qual é o fim supremo e principal do homem? Resposta. O fim supremo e principal do homem e glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. 
Não é uma má resposta, mas disto surgiu uma discussão relevante: Como o homem então pode glorificar a Deus? Esta era uma discussão relevante, pois dela dependia o entendimento da primeira questão do catecismo. Esta questão, em termos práticos foi resolvida de uma forma que mais tarde, em 1689 os batistas colocariam em seu texto sob o ponto 6: 

Reconhecemos que há algumas circunstâncias, concernentes à adoração a Deus e ao governo da igreja, que são peculiares às sociedades e costumes humanos, e que devem ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as normas gerais da Palavra que sempre devem ser observadas. 

Para que o homem cumpra seu fim de glorificar a Deus, além dos ditames Bíblicos para agravar as consciências e nos deixar o que deve e o que não deve ser feito, também se admite como regra para o fim de que o homem possa glorificar, as listas de regras sobre a prudência, formuladas por cada igreja local. A exemplo disto, criou-se o conceito de que o consumo de álcool seja pecado, o fumo, embora visto como pecado entre os brasileiros, é aceito entre os americanos, ideias políticas diferentes da cosmovisão ditada, também seriam pecados, mesmo que não haja respaldo escriturístico diretamente sobre o tema. 

Neste sentido, a tradição reformada chamará estas listas de prudência cristã de “cosmovisão cristã” e os batistas a chamarão de “mordomia cristã”, sendo basicamente equivalentes. 

Assim, podemos entender a fé segundo a ala radical do protestantismo histórico como: 

· Não católica: nega-se, via de regra, haver um mesmo depósito de fé entre o protestantismo e os católicos, sejam romanos ou ortodoxos. Alguns negarão também haver fé comum com os neopentecostais. 

· Eclesial-instrumental: A fé da Igreja suporta e nutre a nossa fé em caráter instrumental sendo sua origem puramente na obra divina, a igreja é o resultado do legado da fé, mas não a gera. A forma de a igreja nutrir a fé é exclusivamente através da comunhão entre irmãos e a proclamação da Palavra, exclui-se os sacramentos como fonte direta de fé. (Embora o calvinismo clássico não sustente este ponto) 

· Decorre da parcial invisibilidade da Igreja: a comunhão dos santos não se detém aos limites denominacionais, embora esta questão esteja ainda sendo trabalhada em muitas comunidades. De modo semelhante à ortodoxia, crê-se que Deus pode salvar, por Misericórdia os de fora, embora não sejam a igreja verdadeira. 

· Podem possuir um elemento credal discreto (os credos católicos) e um elemento confessional forte (dispositivos dogmáticos adstritos aos seus fiéis). A unidade da fé é essencialmente confessional. Pode haver graça divina fora da igreja, desde que o fiel individualmente creia conforme as constituições dogmáticas protestantes. 

· Entre os elementos confessionais, a fé admite apenas um zeitgeist marcado pela orientação denominada “cosmovisão” ou “mordomia”, portanto fazendo diferenciação entre elementos essenciais e não-essenciais para a salvação, preservando-se os essenciais e rejeitando-se os não-essenciais. Há a prescrição de ritos para o culto público com relativa elasticidade apenas para os presbiterianos. Batistas não possuem uma liturgia ritualística (salvo algumas congregações que individualmente decidiram adotar) 

· Admitem a unidade na diversidade: Reconhece-se uma família de Igrejas irmãs, comunidades não perdem sua autonomia, rejeita-se o magistério e a tradição histórica. Elege-se um compêndio doutrinário localmente entre as opções dadas no seio denominacional 

· Assume-se as Escrituras como REGRA de fé e prática. 



Diferenças nestas interpretações sobre o mesmo termo, com frequência tenho visto transformar grandes tratados teológicos de caráter apologético simplesmente em um peso morto. Não combatem, segundo a confessionalidade do autor uma questão real na confessionalidade de outro. Apenas pelo que se entende sobre “unidade na fé” e citada apenas uma parte das nuances do cristianismo, já se pode produzir um estudo completo. O termo “unidade”, por fim, tem vários sentidos e cada tradição cristã o entenderá de forma diversa, embora ninguém há de negar que a fé cristã seja una. 

Então nos deparamos com algo como a definição católica romana de fé como um ato de adesão pessoal, do homem todo, a Deus que se revela, e de outro lado lemos uma definição batista que diz ser a total entrega da personalidade. Ora, aderir é bem diferente de entregar segundo os dicionários. Entretanto, teologicamente, cada uma destas palavras em seus respectivos seios denominacionais, terá o mesmo sentido. Aderir é um termo que foca na ação inicial de Deus, onde o batista dirá aceitar e o luterano chamará de conversão intransitiva. Entregar, por sua vez diz respeito à resposta humana a esta ação, onde o católico dirá “crer” (art.180 CIC) e o luterano chamará de conversão transitiva. 

Se podemos até onde visto chegar a uma definição do que seja a “unidade da fé” teremos que os católicos romanos guardam a definição mais estrita, seguida pelos ortodoxos, protestantes da via media com a posição menos restritiva, e por fim, a definição da ala radical da reforma marcada por uma ruptura com os anteriores. Ainda assim, permanece a fé em todas estas linhas como a confiança no Deus que se revela e em sua promessa de perdão dos pecados, vida e salvação. Nisto toda a cristandade deposita sua convicção em uníssono, e não creio que possamos esperar uma unidade perfeita antes que passem os céus e a terra.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O Cristão na sociedade





Hoje o facebook me mostrou uma lembranda de uma publicação de 1 ano atrás que não poderia deixar perder, a seguir segue esta reflexão que é sempre pertinente, afinal, misturar Graça salvadora com cosmovisões, evangelho social, e outras ideologias que tem pregado que a presença do cristão deve transformar a sociedade ao seu redor:


Como hoje me incomodou logo pela manha ler em uma página "cristã" abaixo de um vídeo de violência na porta de uma repartição do governo Indiano o comentário "É só para vocês verem como todo país pagão que nega ou proíbe o Cristianismo é bárbaro, atrasado, ignorante, violento, brutal e miserável."

Apenas ressalto que há cristãos e muitas igrejas e universidades cristãs na Índia, eu mesmo devo parte de meus estudos a eles, aliás, num excelente programa de mestrado em Kerala, numa universidade Cristã. E, de forma alguma pode-se chamar o país de bárbaro e atrasado, possuem uma indústria cinematográfica que produz 10 vezes mais filmes que Hollywood e são mais populares que os filmes americanos por toda a ásia, Africa e Oceania. Possui tecnologia nuclear, e um dos mais avançados países do mundo nas áreas de tecnologia e ciência médica. Cristo não veio para fazer o país mais ou menos "civilizado", ele veio Redimir a humanidade condenada. Confundir a obra da Salvação com o que um país desenvolve ou não é distorcer a Graça. 
Fosse o desenvolvimento de um local o testemunho do cuidado de Deus, Belém, literalmente o berço do Cristianismo, continua uma vila que sobrevive de turismo religioso. Seria isto prova de que os cristãos não são tão protegidos e amados quanto os moradores de Dubai, todos muçulmanos? Teria Deus se esquecido dos Cristãos do leste europeu? Mortos aos milhares pela fome (e de outras formas mais diretas) sob a cortina de ferro? Não foi justamente o leste europeu que defendeu os limites do cristianismo quando o império romano do ocidente caiu? Enquanto Roma queimava sob os bárbaros, este mesmo local, hoje pobre, foi o grande defensor da civilização ocidental e da fé cristã por cerca de 1000 anos.
Então, seriam os deuses bárbaros mais fortes?
Impérios vem e vão, poder e dinheiro mudam de mãos o tempo todo, o país rico de hoje pode passar fome amanha. Países cristãos que foram os mais ricos e poderosos, hoje são sofridos. Países não cristãos que ha 50 anos eram inexpressivos, hoje florescem. Não, Deus não veio confirmar seu amor ao seu povo dando-lhes um país rico, ou situações de paz, ou uma politica exemplar. Deus veio nos redimir, como povo peregrino que não tem neste mundo uma pátria. Quer ver o amor de Deus? Não olhe para os confortos deste mundo, mas por cada situação que Deus guiou seu povo para que ele nunca deixasse de marcar seus pés nesta jornada. Quem olha as circunstâncias para avaliar o amor de Deus, não espera ser amado, mas mimado!


Eu vos tenho amado, diz o Senhor. Mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Malaquias 1:2a

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Relacionamentos abusivos


Quando Deus criou o homem e a mulher as orientações foram bem genéricas sobre como levar a vida: havia uma árvore da qual não deveriam comer, dar nome às coisas à sua volta... nada muito específico sobre como tratar com seu semelhante. O fato é que leis não surgem do nada, elas são a resposta à uma necessidade presente. É claro que ninguém se importaria há 2000 anos com leis sobre a distribuição da energia elétrica. Isto não era um problema naqueles tempos. Nem no éden houve a necessidade de grandes discursos sobre relacionamentos familiares e interpessoais. Não havia necessidade de leis para regular o relacionamento do homem para com Deus e com sua família antes do pecado. 
O pecado contaminou a humanidade, e com isso, nossa forma de amar se tornou impura, e aquilo que era natural, passou a precisar de leis. E então, a miséria humana levou ao mau uso da lei, tornando aceitável condutas contra as quais a lei foi feita. 
Neste sentido, a sabedoria divina se colocou a favor do homem e nos instrui, pela Palavra da verdade, no caminho de relacionamentos saudáveis. 
Infelizmente, o uso incorreto das orientações bíblicas tem, por vezes acobertado abusos “em nome de Deus”. 

O relacionamento Homem X Mulher 
A orientação bíblica às mulheres é “mulheres, sujeitem-se a seus maridos” 1 Pedro 3:1, o que geralmente costuma causar revolta em muitas mulheres pois isto significaria estar em uma posição de inferioridade e expostas à todo tipo de conduta abusiva, assim elas seriam empregadas de seus maridos, teriam que aguentar todo tipo de maus tratos, e afins. A resposta bíblica para isto é uma enérgica exortação ao marido: “Do mesmo modo vocês, maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e co-herdeiras do dom da graça da vida, de forma que não sejam interrompidas as suas orações. 1 Pedro 3:7. Assim, a orientação divina é tanto para as mulheres quanto aos maridos. Não há espaço para um relacionamento abusivo. A mulher devota sua vida para a honra de seu marido, e o marido para a honra de sua mulher. Isto é uma troca justa, é o viver altruístico, uma vida de entrega mútua. Infelizmente, ainda vemos o jugo da sociedade, especialmente dentro das igrejas muitas vezes culpando uma mulher por não ter sabido “manter o casamento”, quando é possível que esta tenha sido oprimida por qualquer coisa, menos o amor. 

O relacionamento Pais X Filhos 
Igualmente vejo com tristeza muitos dos filhos criados na igreja serem malvistos pelos adultos como filhos rebeldes, que entristecem seus pais, e o absurdo de dizerem algo como “não importa o que aconteça, você tem que obedecer. A bíblia manda!”. Por dentro me pesa o que alguns destes passam em casa. De fato, a orientação divina aos filhos é: “Filhos, obedeçam a seus pais em tudo, pois isso agrada ao Senhor. Colossenses 3:20, nisto, muitos já leem o verso enfatizando as palavras “em tudo”, como que expressando que não há limites ao poder dos pais, entretanto, a mesma palavra continua dizendo: Pais, deixai de irritar vossos filhos, para que não se tornem desanimados. Colossenses 3:21, ou ainda: E vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor. Efésios 6:4. Não que todos os filhos sejam exemplos de conduta, mas a Palavra de Deus é justa. Será que por vezes não apontamos o dedo para o filho revoltado quando na verdade este tem sido vítima em sua própria casa de um relacionamento abusivo? Eu conheço pessoalmente um caso onde alguns da diaconia da igreja foram visitar uma família para conversar com o filho que estava se tornando extremamente grosseiro e desrespeitoso com os pais, mesmo dentro da igreja. Ao exortarem duramente o jovem, ele, em lágrimas começou a narrar o que realmente acontecia dentro de casa, para espanto dos presentes. Anos debaixo de um relacionamento autoritário, sendo publicamente desmoralizado, recebendo tarefas abusivas. 

Patrões X empregados 
Outro ambiente onde comumente se ouve de abusos é o trabalho, embora não devesse ser assim. A sabedoria divina orienta aos patrões: Vocês, senhores, fazei o mesmo para com eles. Não os ameacem, uma vez que vocês sabem que o Senhor deles e de vocês está nos céus, e ele não faz diferença entre as pessoas. Efésios 6:9. Como fruto do amor de Cristo, patrões são chamados a um tratamento humano e cordial aos seus funcionários, assim como também aos funcionários coloca: obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo. Obedeçam-lhes não apenas para agradá-los quando eles os observam, mas como escravos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus. Efésios 6:5,6 

Resumindo:
Normalmente quando dizemos que uma pessoa foi abusada, pensamos apenas no sentido sexual. Não que os abusos não passem por este lado também, mas é preciso muito menos que isso para ferir uma pessoa. Pais podem estar abusando de seus filhos sem nunca violar sua integridade física. Maridos podem estar abusando de suas esposas e ainda serem defendidos por alguns dentro das igrejas, dizendo que ele tem esta “autoridade”. Pastores podem estar abusando de sua congregação, impondo usos e costumes como condições para a salvação, ou mesmo afastando da comunhão alguns de seus membros por não conseguirem viver de acordo com estes usos. De mesmo modo, crentes podem estar neste momento abusando de seus pastores ao ignorar o conselho da Palavra, tornando o trabalho de seu pastor demasiadamente difícil, roubando-lhe a alegria em servir. 

A lei: 
Relacionamentos abusivos estão em toda parte, e para toda situação, vemos a palavra de Deus nos exortando sempre a um ponto de equilíbrio. A viver o amor de se entregar, a considerar o próximo como superior a nós mesmos. Nunca, em momento algum Deus se põe a favor de que um lado seja desprezado. Nem mesmo Ele, que é Deus eternamente se relaciona assim conosco. Vivamos de acordo com este amor. 

O Evangelho: 
O fruto do pecado nos contaminou, não somos capazes de amar perfeitamente, Deus compreende a nossa falha e nos anima, mostrando-se sempre um pai amoroso e perdoador, ele aceita nosso amor imperfeito em Cristo, que nos ama perfeitamente. Quer sejamos vítimas ou causadores destes relacionamentos abusivos, Ele ainda nos convida e diz “Eu vos aliviarei”!

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A Forma do Batismo


 E assim foi feito, uma enquete rápida entre amigos e este resultado, que de certa forma reflete bem a divisão do Cristianismo em nossas terras. As linhas pentecostal e batista mantiveram sua afirmação de que o batismo deve ser somente pela imersão ao passo que os protestantes históricos, presbiterianos, luteranos, católicos romanos mantiveram a  afirmação de que o batismo pode ser realizado de outras formas.
 Para que se possa resolver tal questão, cabe uma pesquisa então sobre o que seria o ato de batizar, não apenas em seu sentido formal, mas especialmente, como esta palavra era efetivamente entendida na época em que o texto bíblico foi escrito.

O que é batizar? 


Começamos então relembrando que o Novo Testamento foi escrito em um ambiente de cultura grega muito forte, basta ver que a maioria dos nomes citados na Bíblia no Novo Testamento não são nomes gregos, o próprio texto bíblico é originalmente escrito em grego. O que a cultura popular da época falava sobre isto então?

Na época em que o NT estava sendo escrito, na Grécia vivia o filósofo Plutarco, que, com frequëncia usava o termo "baptismon" para o ato de se mergulhar o copo em um odre de vinho. Platão, por outro lado já empregava o termo em sua obra "Eutidemo" no sentido de alguém estar sobrecarregado de perguntas.
Por esta praxe já vemos então que o entendimento histórico da palavra batismo não era exclusivamente de mergulhar algo.

Na leitura do Santo Evangelho segundo Marcos, lemos que os fariseus lavavam as mãos antes de comer. Niptein era comumente usado quando apenas uma parte do corpo era lavada, não o banho total do corpo. Mas nessa passagem o lavar parcial também é chamado de batismo, de maneira que se apenas parte do corpo é lavada temos um verdadeiro batismo: 

Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar (νίψωνται) as mãos muitas vezes; Marcos 7:3 
E, quando voltam do mercado, se não se lavarem (βαπτίσωνται), não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas. Marcos 7:4 

Assim, o texto nos mostra que, muito embora “batismo” seja associado à submersão, o texto bíblico o usa também para expressar o lavar parcial do corpo, sem diferenciar a extensão do corpo em que se aplica a água. O texto de Lucas 11:38 também reforça esta ideia, aplicando a mesma fórmula, portanto, temos que batizar não implica apenas na imersão total do corpo em água, mas de forma parcial também e indistintamente.

Mais adiante, lemos no texto aos Hebreus sobre diversas abluções, ou seja, batismos: 
Consistindo somente em comidas, e bebidas, e várias abluções (βαπτισμοῖς) e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção. Hebreus 9:10 

Cientes então de que abluções são literalmente batismos pelo texto, devemos então conferir, também pelo texto bíblico como estes batismos eram feitos: 

O homem puro aspergirá o impuro ao terceiro e ao sétimo dia e o purificará no sétimo dia. Lavará as suas vestes e a si mesmo, e à tarde será puro. Números 19:19 

Desta forma, o texto bíblico tem mostrado que de acordo com as normas das abluções descritas no capítulo 19 de Números, temos que a algumas formas são pela imersão propriamente, como o purificar das vestes, e outras formas são pela aspersão de água.

O que temos nos texto de Hebreus 9:10 é que tanto a ablução de imersão em água quanto a aspersão são chamadas pelo texto bíblico de “batismo”. Este é um ponto relevante. Não se trata de erro de escrita, ou má colocação de palavras por parte dos autores bíblicos. Se o Cristão reconhece que a Bíblia é a Palavra de Deus e que foi escrita pela inspiração divina, então creremos que toda a Escritura é perfeita em seu ensino. O que temos então é o texto bíblico mostrando que a palavra “batismo” inclui o lavar parcial do corpo e a aspersão tanto quanto a imersão completa, sem fazer diferença entre os termos e na corrente oposta, temos uma corrente que afirma que a palavra “baptizein” no grego significa apenas imergir, e portanto, declarando que somente a imersão completa é válida. Para mim, já me daria por satisfeito entre ter que escolher entre uma tese que é explicada por alguns apegados a um dos sentidos apenas da palavra e de outro lado o texto bíblico mostrando que existe outro uso para o termo. A escolha me parece óbvia. Se o texto inspirado das Escrituras chama de batismo o aspergir e o lavar parcial do corpo, é para mim o suficiente para entender que a palavra tem um significado mais amplo. 

Mas o texto não termina neste ponto, podemos ir mais além: 

E eu, em verdade, vos batizo (βαπτιζω) com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará (βαπτισει) com o Espírito Santo, e com fogo. Mateus 3:11 

Novamente o texto bíblico nos aponta que o Espírito Santo vem com um “batismo”. Então vejamos biblicamente a forma como ele veio: 

Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Atos 2:3 

O batismo não foi uma imersão neste texto, mas um derramamento sobre cada um. 

Desta forma, não há, biblicamente falando, uma única forma de se usar o termo “batismo”, este termo não indica apenas a imersão, mas também indica o lavar parcial do corpo, a aspersão, o derramamento, ainda temos uma forma sui generis, em 1 Coríntios 10.2, um batismo feito por Deus de forma singular: 

todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; 1 Coríntios 10:2

Ao atravessar a nuvem e o mar todo o povo foi batizado. Neste texto é patente que nenhum do povo foi “submerso” no mar, o texto nos informa que cruzaram com os pés secos, não houve sequer uma pessoa que fosse submersa que seguia com Moisés, mas todos receberam o batismo ao passar pelas águas. 

Temos portanto, pelo texto bíblico, uma exposição clara de que, ao contrário do que querem alguns, batizar não exige uma forma específica e a própria Palavra cita diversas formas como este batismo pode ser realizado. O que temos, de certo sobre o batismo é que ele deve ser feito com água, assim como João batizou com água (Jo 1.33), Filipe batizou o eunuco com água (At 8:36), Pedro batizou Cornélio com água (At 10:47), Paulo chama o batismo de “lavar de água pela Palavra” (Ef 5:26), Cristo diz que devemos nascer pela água e pelo espírito (Jo 3:5). 


Mas o que diferencia o batismo de um banho? 

Ao passo que o banho é mero ato de higiene e é repetido com tanta frequência quanto se sinta necessidade, temos que o batismo é uma instituição divina: 

Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. Mateus 28:19,20 

O batismo de Cristo é aqui colocado de modo completo como deixou sua aplicação definida: 

Alvo: discípulos (portanto pessoas somente, que creem na mesma fé e sua família) de todas as nações 

Modo: “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (portanto quem batiza deve crer na trindade divina e ensinar de mesmo modo) 

Tempo: “Até a consumação dos Séculos” esta ordenança é permanente para os cristãos. Enquanto durar a missão de fazer discípulos, enquanto houver mundo, o batismo deverá ser praticado. 



O que torna o batismo inválido? 

Sabemos que, uma vez sendo participantes das promessas de Deus, ele nos segura com mão firme: 

Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Romanos 8:38,39 

Então, temos uma segurança enorme, podemos até cair, mas aquela união com Cristo na qual fomos revestidos em nosso batismo não se quebrará assim. O batismo testemunha mais da imutabilidade de Deus que de nossa própria constância. Enquanto a Ceia do Senhor é repetida várias vezes “fazei isto todas as vezes...”, Cristo nunca nos direcionou no sentido de necessitarmos de um novo batismo. 

Se sabemos, portanto, que uma vez unidos a Ele temos segurança, logo, apenas uma coisa pode invalidar o batismo: Que ele tenha sido apenas um banho. Se o batismo não nos revestiu de Cristo e não fomos batizados verdadeiramente para dentro de toda a promessa de vida e salvação do Evangelho. 

Vocês receberam o Espírito Santo quando creram? " Eles responderam: "Não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo". "Então, que batismo vocês receberam? ", perguntou Paulo. "O batismo de João", responderam eles. Disse Paulo: "O batismo de João foi um batismo de arrependimento. Ele dizia ao povo que cresse naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus". Ouvindo isso, eles foram batizados no nome do Senhor Jesus. Atos 19:2-5

Aqui temos o único exemplo bíblico de um banho apenas: um grupo que foi batizado, mas não em Cristo, nem no Espírito Santo, foram batizados fora da fé cristã que confessa e crê num único Deus em Trindade. Eles então, embora tivessem contato com algumas coisas sobre o perdão divino, não tinham recebido as promessas do Evangelho em suas vidas. 

O Apóstolo Paulo, instruído divinamente, percebeu que estes homens não haviam sido batizados validamente, e assim, os batizou conforme Cristo havia deixado.

Portanto, um batismo “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” será sempre válido! Isto é segurança!

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Deus e a existência do mal






O ser humano não é apenas criatura física; também é criatura moral. De sorte que devemos distinguir entre os atos físicos e sua qualidade moral. Duas pessoas podem realizar fisicamente o mesmo ato, mas esse ato moralmente não precisa ser o mesmo. 

Um toma uma nota de R$5,00 e a guarda, e é honesto, porque o dinheiro pertence. Outro faz a mesma coisa e é ladrão, porque sabe que dinheiro pertence a outra pessoa. Em ambos os casos há participação divina na realização do ato físico. Mesmo o ladrão não poderia mover a mão sem a mão de Deus que o sustenta, mas Deus absolutamente não tem parte com o pecado do ato pois ele não tem prazer na iniquidade (Salmo 5.4). 

Deus que coopera na parte física, mas não na depravação moral. Porque Deus não deixa de cooperar na realização física de Atos que moralmente contrariam sua vontade não sabemos, contudo é blasfêmia considera-lo o responsável por nossos atos imorais, em razão de sua obra na parte física. 

Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte. Não erreis, meus amados irmãos. Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Tiago 1:13-17 

No que diz respeito à qualidade moral das boas obras que os seres humanos praticam, sabemos que, no caso dos gentios, Deus os incita através da consciência à prática das obras da Lei (Romanos 2.14-15). 

E no caso dos crentes, ele efetua o seu por seu Espírito Santo o querer e o realizar, segundo a sua boa vontade (Filipenses 2.13). Assim Deus concorre não só na realização física, mas também fornece o motivo e a direção às boas obras dos cristãos. 

O fato de que em Deus vivemos e nos movemos e existimos, não reduz o ser humano autômato sem liberdade de querer e agir. O ser humano muitas vezes pensa, quer e faz o que Deus não quer que ele pense, queira e faça, o que mostra claramente que o ser humano tem vontade própria. Consequentemente, segundo o testemunho de sua própria consciência (Romanos 2.14-15) e segundo o testemunho da Escritura (Mateus 12.36), o ser humano, e não Deus, é responsável por seus pensamentos, suas palavras e ações. A ideia do fatalismo é contrária ao ensinamento bíblico. 

Por isso nossas confissões negam que tudo o que o ser humano faz, mesmo em coisas exteriores, ele o faça compulsoriamente, e que seja corrigido a prática do mal: 


(Fórmula de Concórdia, Epítome, art 2, 8, Livro de Concórdia) 

A vontade humana é livre na escolha de obras e coisas que a razão humana compreende por si mesma. 


O mal moral também está sob o controle de Deus: 

De vez em quando, Deus permite que o mal aconteça e que as pessoas andem em seus caminhos perversos (Salmo 81.12, Atos 14.16, Romanos 1.24). 

Outras vezes, quebra o mau conselho e à vontade das pessoas, como no caso de Saul (Atos 9, Salmo 33.10), ou impede e frustra o seu propósito ímpio. 

É como José disse seus irmãos: Vós, na verdade intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20). Defende-nos contra perigos como defendeu Ló em Sodoma e Israel no Mar Vermelho. Sem sua vontade, nenhum pardal cai e não cai nenhum cabelo de nossa cabeça (Mateus 10.29-30). Ele nos guarda e proteje de todo mal (Salmo 91.10-12). 

Até o mal que o ser humano pratica está sujeito ao seu controle e deve servir aos seus propósitos: fez uso da traição de Judas e do assassínio judicial de Cristo para levar a efeito o seu plano de salvação, conforme também Gn 50.20. Determina até onde podem ir os ímpios, regulando e limitando os resultados de suas ações de modo tal que. no fim, tudo deve contribuir para o bem de seus filhos (Romanos 8.28).