sábado, 8 de agosto de 2020

Lutero e a guarda do Sábado

 



O texto a seguir é um trecho de uma obra mais completa chamada "Contra os Sabatistas", seu foco não é em criticar o povo judeu, mas na forma como os judeus Ashkenasi, o grupo judaico que habitava a região da Alemanha nos tempos de Lutero buscava fazer proselitismo. O foco de Lutero é a igreja Cristã, mais específicamente os leigos, não o corpo clerical, mas os cristãos em geral que precisavam da resposta objetivà questão: Qual a nossa relação com a lei do Antigo Testamento?
Nesta carta, Lutero escreve sobre diversos tópicos, dos quais, aqui destaco sobre o Sábado como dia de culto. A obra, no seu todo é de fácil entendimento e incrivelmente atual. Todo Cristão pode tirar o mesmo proveito dela hoje que em 1538, quando foi escrita. Que esta leitura, não apenas lance luz sobre um tema que nos ronda tão de perto hoje, como desperte a curiosidade para se ler sobre os outros argumentos de Lutero, os quais considero ainda melhores que o presente.

(...) Da mesma forma, o terceiro mandamento relativo ao sábado, do qual os judeus tanto fazem, é mandamento que se aplica a todo o mundo; mas a forma na qual Moisés o enquadra e o adapta ao seu povo foi imposta apenas aos judeus, assim como em relação ao primeiro mandamento nenhum outro, mas os judeus devem acreditar e confessar que o Deus comum de todo o mundo os conduziu para fora do Egito. Pois o verdadeiro significado do terceiro mandamento é que naquele dia devemos ensinar e ouvir a palavra de Deus, santificando assim tanto o dia como a nós mesmos. E de acordo com isto, até os dias de hoje, Moisés e os profetas são lidos e pregados no dia de sábado entre os judeus. Onde quer que a palavra de Deus seja pregada, segue-se naturalmente que se deve necessariamente celebrar na mesma hora e ficar quieto, e sem qualquer outra preocupação apenas falar e ouvir o que Deus declara, o que Ele nos ensina e nos diz. 

Portanto, tudo depende completamente disso, de que saneemos o dia. Isto é mais importante do que celebrá-lo. Pois Deus não diz: Você celebrará o dia santo ou fará dele um Sabá - que cuidará de si mesmo. Não, você santificará o dia santo ou o Sábado. Ele está muito mais preocupado com a santificação do que com a celebração do Sábado. E onde um ou outro pode ou deve ser negligenciado, seria muito melhor negligenciar a celebração do que a santificação, uma vez que o mandamento coloca maior ênfase na santificação e não institui o Sábado por si mesmo, mas por ser santificado. Os judeus, entretanto, dão maior ênfase à celebração do que à santificação (o que Deus e Moisés não fazem) por causa das adições que fizeram. 

A menção de Moisés ao sétimo dia, e de como Deus criou o mundo em seis dias, e é por isso que eles não devem fazer nenhum trabalho - tudo isto é uma adaptação temporal com a qual Moisés adequa a este mandamento para seu povo, especialmente naquela época. Não encontramos nada escrito sobre isto anteriormente, seja por Abraão ou na época dos velhos pais. Esta é uma adenda e adaptação temporária destinada exclusivamente a este povo, que foi trazido do Egito. Também não era para durar para sempre, assim como não era toda a lei de Moisés. Mas a santificação, isto é, o ensino e a pregação da palavra de Deus, que é o verdadeiro, genuíno e único significado deste mandamento, foi desde o início e diz respeito a todo o mundo para sempre. Portanto, o sétimo dia não diz respeito a nós gentios, nem aos judeus além do advento do Messias, embora pela própria natureza das coisas se deva, como já foi dito, descansar, celebrar e guardar o sábado em qualquer dia ou hora em que a palavra de Deus seja pregada. Pois a palavra de Deus não pode ser ouvida ou ensinada quando se está preocupado com outra coisa ou quando não se está quieto. 

Portanto, Isaías também declara no capítulo 66 (:23) que o sétimo dia, ou, como eu o chamo, a adaptação de Moisés, cessará no tempo do Messias quando a verdadeira santificação e a palavra de Deus aparecerem ricamente. Ele diz que haverá um sábado após o outro e uma lua nova após a outra, ou seja, que tudo será puro sábado, e não haverá mais nenhum sétimo dia em particular com seis dias no meio. Pois o Santificador ou a Palavra de Deus desfrutará de todo o alcance diário e abundante, e cada dia será um Sábado. 

Estou bem ciente do que os judeus dizem sobre isto e como eles interpretam este ditado de Isaías. Entretanto, não posso incluir tudo na presente carta que tenho em mente. Mas, em resumo, nenhum judeu pode me dizer como é possível para toda a carne adorar diante do Senhor em Jerusalém cada lua nova e cada sábado, como o texto, traduzido com mais precisão e exatidão para o alemão de acordo com seu entendimento, transmite. Algumas pessoas vivem tão longe de Jerusalém que não poderiam chegar lá dentro de vinte, trinta ou cem sábados, e os próprios judeus não adoram em Jerusalém há mil e quinhentos anos, ou seja, em dez vezes mil e quinhentas luas novas, nem mencionei nada sobre os sábados. No entanto, não posso me alongar sobre tudo isso no decorrer de uma carta. (...)

terça-feira, 14 de julho de 2020

Podemos fazer pactos com Deus?



Quando o sol se pôs e houve densas trevas, eis que um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passaram entre aqueles pedaços dos animais. Naquele mesmo dia, o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: — À sua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates: Gênesis 15:17,18 



Um fenômeno interessante dos dias atuais é que vemos pessoas por ai dizendo que fizeram um pacto com Deus. Bem comum nos dias de hoje no meio gospel / evangelical. 

Basicamente vemos isto de duas formas, uma, é “oficial”, o crente procura seu pastor e fala que quer fazer um pacto com Deus. Então estes termos são discutidos como um contrato: o que você quer que Deus te faça X o que você terá que fazer. “Se o Senhor melhorar a minha situação, eu vou ajudar a todos que puder” 

Outro jeito, é aquele pacto velado: “preciso ir 7 sextas-feiras no culto para receber a bênção”, “preciso semear no reino de Deus para colher bênçãos”, “vou jejuar para Deus me dar um emprego” 

A beleza desta pasasgem, por mais que pareça estranha, trata-se de um pacto com Deus. Basicamente era um costume antigo: os pactuantes caminhavam por entre os animais mortos, e isso significava: aquele que não cumprir sua parte, acaba como um deles: morto! 

Mas quem passou por aquele caminho? Ao fazer o pacto, Deus passa sozinho. 

O que significa isso? 

A beleza toda desta passagem é que Deus não está negociando suas bençãos, veja com atenção o texto: Deus decide sobre o que ele está obrigado a fazer, não foi Abrão, Deus passa pelo caminho sozinho, assumindo o pacto, não Abrão, Deus repete tudo o que ele havia prometido, confirmando o pacto, já Abrão, não acrescenta nada. 

Existe um verdadeiro evangelho aqui. Deus não está interessado em negociar suas bênçãos, muito pelo contrário, Ele não quiz que nenhuma condição o segurasse de ser aquilo que Ele é: Bom! 

A questão não é se podemos fazer um pacto com Deus, mas sim, por que faríamos isso? Por que insistir em colocar uma condição para sermos abençoados, se Ele quer fazer isso livremente? 

Dar “uma mãozinha” para Deus, no final, mostra que ainda não entendemos o quanto Deus nos ama, e como sempre, nós bagunçamos nossa vida tentando negociar com Deus. Abrão bagunçou bastante sua vida tentando “ajudar” Deus a lhe dar um filho, não precisava! Por fim, ele aprendeu a não tentar “ajudar”, teve uma velhice em paz, e uma morte tranquila, e da parte de Deus, tudo o que ele jurou, foi feito. 

Antes de tentarmos negociar bênçãos de Deus, vale a lembrança: O que Deus nos dá em amor não exige pegamento.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A Divina Liturgia - Um Modelo Bíblico para o Culto


Sobre a liturgia, devemos entender esta máxima latina: lex orandi, lex credendi, que significa que a forma como oramos, reflete a forma como cremos. Tudo o que fazemos, cada ação, como louvamos, irá refletir em como acreditamos. Se oramos e louvamos como os cristãos sempre fizeram em todas as eras, é bem provável que também compartilhemos a mesma fé. Se oferecemos culto como os entusiastas e sectários, também começaremos a pensar como eles. Talvez, mais triste que isto, ao abandonar a liturgia, nos colocamos em risco de perder de vista o relacionamento integral que esta tem com o Evangelho na Palavra e nos Sacramentos.
Por que não abolimos a missa e suas cerimonias públicas, as orações escritas, vestimentas e outras coisas? Porque a missa é a entrega da Palavra e dos Sacramentos e da liturgia que a acompanha, proclamando a história de todas as eras - o Santo Evangelho. Mas a Liturgia não é estática. Existe uma multiplicidade de ritos. Temos as grandes tradições Ocidentais e Orientais, a Igreja da Confissão de Augsburg recai sobre a primeira, mas isto não faz da segunda menos venerável. Mesmo no rito ocidental, há uma gama de variações. Existe o rito romano, o qual fornece suas bases ao nosso culto. Há também o rito anglicano, que em muito contribuiu para a formação do rito luterano comum dos sínodos americanos, mesmo assim, acrescentamos o Nunc Dimittis ao final de cada divina liturgia.
É bem verdade que a liturgia não nos veio dada em um livro da Bíblia, mas a encontramos por todo o texto sacro: O Kyrie (Salmo 123:3, S. Lucas 18:13). O Gloria in Excelsis (S. Lucas 2:14). O Sanctus (Isaías 6:3, Apocalipse 4:8). O Benedictus (Salmo 118:26; S. Mateus 21:9; 23:39; S. Marcos 11:9; S. Lucas 13:35; 19:38; S. João 12:13). O Agnus Dei (S. João 1:29, 36), e o Nunc Dimittis (S. Lucas 2:29-32). Estes são os textos que são combinados com a liturgia da Palavra e a liturgia dos Sacramentos, que, junto com outras leituras, formam a histórica liturgia, que nos é própria a cada novo dia.
A Apologia da Confissão de Augsburg dedica um grande capítulo explicando a importância de se manter a liturgia. Não abandonemos esta tão antiga e útil escola do Evangelho, assumindo um caminho diferente, não provado pelo tempo, antes, confessemos a mesma fé uma vez dada aos Santos, oremos, louvemos e anunciemos a Palavra da mesma forma, no amor de Cristo, na Unidade do Espírito.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Gálatas: Como ser um cristão que gera frutos?



“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25

É interessante como muitas vezes somos ensinados desde pequenos a ler esta passagem: isto é uma obrigação! Devemos crucificar a carne, temos que andar no espírito! Então pegamos aquela lista que Gálatas faz do fruto do Espírito para examinarmos a nossa vida. 

-Que parte deste fruto está faltando em você? Será que você está com seu cristianismo em dia? O que eu deveria fazer para ser um cristão de verdade? O que é a carne afinal? Eu estou na carne?

Estas e muitas perguntas do tipo são bem comuns, e por isto, vale uma dica para lermos este livro da Bíblia:

Carne, para a carta aos Gálatas é a natureza caída do ser humano, em seus pecados e delitos. Sempre que o termo é citado, isto não tem relação com a carne física, mas sempre demonstra um modo de vida longe de Deus. O que se opõe a carne é o Espírito. E neste caso, não estamos falando do espírito humano, mas da própria vida ligada a Deus. Isto é importante! Muitos tendem a ler Gálatas como um padrão de vida moral que devemos buscar, mas não é isto o que Deus nos fala nesta carta. O tema é sempre que existe a carne, e ela deseja coisas que lhe são próprias, e existe o Espírito, que opera em nós, crentes, o que lhe é próprio. O grande tema é mostrar que quando buscamos qualquer participação no viver espiritual, ainda que isto pareça ser piedoso, ou seja, do Espírito, Paulo é claro em dizer que isto é a carne também. Na carne nós tentamos fazer coisas, obras; no Espírito entendemos que nada pode ser acrescentado ao que já está feito.

Só neste ponto já há algo importante, pois muitos confundem mesmo, Gálatas fala que é ruim e pecaminoso a carne, e nisto, muitos realmente pensam que Paulo está falando da carne no sentido humano, físico, e daí alguns pensamentos como o de Jesus não ter assumido totalmente a carne humana, ou que na ressureição ele deixou o corpo carnal no túmulo e que saiu de lá só como espírito, que Jesus não é mais carne e osso agora, ou ainda que no dia final, nós viveremos eternamente como espíritos, com “corpo espiritual”, e não que viveremos em nossa mesma carne de agora, só que livres do pecado.

Enfim, Gálatas não fala que a carne (física) e ruim, não fala da luta de igual pra igual entre carne e espírito (quem já ouviu aquela: “ganha o lado que você alimentar mais”) não fala que devemos olhar o fruto do espírito para medir a nossa vida, nem que devemos buscar fazer algo para sermos espirituais, ou “crentes melhores”

Esta carta não é sobre o que nós fazemos por Cristo, para isto tem referências melhores, mas é uma carta toda nos mostrando o oposto: o que Cristo fez, e alguma nota sobre como isto se reflete na vida.

Voltemos ao texto:


“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25


“Crucificaram”, literalmente: εσταυρωσαν (Aoristo, indicativo ativo, terceira pessoa do pural) isto tudo significa dizer: crucificar aqui etá num tempo verbal que significa algo importante: é uma ação pontual e concluída no pasado. Se tivéssemos que tomar Gálatas todo como um padrão de vida moral, crucificar a carne não seria algo concluído no passado, mas algo constante, um dever diário, entretanto, aqui falamos em algo concluído e perfeito. Houve um momento no tempo onde nossa carne encontrou sua derrota, e este momento se liga à cruz. Isto não significa que estamos totalmente livres do mal, mas que esta derrota da carne já está selada, e já vivemos portanto num tempo onde este “crucificar da carne” é um evento concretizado.

“Se vivemos”, literalmente: Εάν ζώμεν, gosto desta exposição da edição de Bambas da bíblia grega, justamente por deixar exposto com muita clareza algo que no portugues parece ter outro sentido. Quando pensamos em numa condicional “se”, automaticamente somos levados a pensar nisto como uma condição que deve estar presente se queremos o resultado que vem depois “Se voce passar na faculdade, eu te dou um carro!” Ou seja, eu preciso me certificar de cumprir um requisito se quiser ter o resultado dele, mas no grego, língua em que o Espírito Santo inspirou a bíblia para ser escrita, não é exatamente assim. Este “se” é retratado como um grau máximo de certeza, do mesmo tipo que se usa para descrever um fato científico, ou seja, Deus não está usando este texto para nos fazer olhar para nossa vida e avaliar “se vivemos pelo Espírito”, mas ele constata uma verdade da qual não há dúvida: “já que vivemos pelo Espírto...” então segue-se a consequência natural disto “andamos pelo Espírito”

Com tudo isto, Deus não está esfregando a carta aos Gálatas diante de nós, nos mandando olhar para nossa vida e nos perguntarmos: “será que eu vivo no Espírito?” Mas na verdade a mensagem dele para nós, que cremos em sua obra, é: não olhe para a sua vida para buscar alguma justiça, olhe para o Espírito!

Se olhamos para o que podemos fazer, nós não chegamos a Deus, nem mesmo se cumprissemos toda a lei de Deus de modo perfeito, ainda assim não chegaríamos a Deus. Por isto, vivemos pelo Espírito, pela fé, e pela fé somente.

sábado, 20 de junho de 2020

A Tradição e as Escrituras


É claro que para que se fale adequadamente da relação entre a tradição e as escrituras, há que se ler muitas páginas e muitos temas devem ser analisados com a devida cautela. Portanto, não há uma intenção de que este pequeno comentário seja exaustivo, mas definitivamente, um comentário de Gerhard em seu Loci Theologici levanta um ponto relevante sobre a questão: A palavra de Deus, seja oral ou escrita deve transmitir a mesma mensagem, no demais, deixo que o próprio Gerhard exponha seu argumento: 



Não há diferença real entre a Palavra de Deus e as Escrituras.

Da regra da lógica: "Um acidente não muda a essência de uma coisa". É um acidente [accidit] à Palavra de Deus, ser enunciado oralmente ou consignado à escrita. É uma e a mesma Palavra de Deus, quer nos familiarizemos com ela por meios orais ou escritos, porque nem a principal causa eficiente, nem a material, nem a forma interna, nem o seu fim mudaram.

Pelo contrário, apenas os meios de revelação no uso instrumental [in usu organico] variam. Em Ex. 20:13 está escrito: "Não matarás". Essa afirmação é idêntica àquela que foi posteriormente falada e repetida oralmente por Cristo (Mt.5:21).

Da consequência absurda: Se a Palavra fosse dupla, escrita e não escrita, o Evangelho seria duplo e a promessa da graça, dupla. O apóstolo dá testemunho do contrário (Gl.3:15-16). Se houvesse uma divisão da Palavra em escrita e não escrita, não seria a divisão de um sujeito em seus próprios acidentes, mas uma divisão de genus em espécies; assim, envolveria a própria essência da Palavra. A conseqüência seria que, uma vez declarada, a Palavra de Deus desapareceria e, quando os livros fossem destruídos, a Palavra de Deus seria destruída. Existem muitos outros absurdos desse tipo. Cristo dá um testemunho oposto em Lucas 21:33 e Is. 40: [9].

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Podcast - O Milênio


Tempos atrás (e eu nem tinha entrado ainda no seminário) decidimos juntar 3 luteranos para debater sobre um tema famoso do Apocalipse: O Milênio. Como entendemos isto? Como estas diferentes interpretações começaram ao longo da história da igreja? Em forma de Podcast, fica ai o registro daquela célebre conversa de amigos sobre um tema que sempre gera dúvidas:





sábado, 11 de abril de 2020

Wayne Grudem – uma avaliação crítica parte 2 (Batismo)





Wayne Grudem – uma avaliação crítica à luz da teologia bíblica luterana. Breve comentário sobre leitura de TEOLOGIA SISTEMÁTICA, Wayne Grudem, p. 814 a 833.


Este é um breve comentário sobre a leitura deste famoso livro de Teologia Sistemática de linha reformada no objetivo único de expor as diferenças teológicas, especialmente tendo-se em vista que a reforma luterana e a calvinista foram movimentos não apenas separados, mas antagônicos entre si desde o início.

Em uma leitura da obra de Grudem, alguns erros essenciais podem ser identificados, mas em especial, o capítulo referente ao batismo já se inicia com uma exegese inadequada do texto, diz o livro: 
A palavra grega baptizo significa “mergulhar, afundar, imergir” algo na água. Isso é normalmente reconhecido, sendo esse o significado padrão do termo na literatura grega antiga tanto na Bíblia como fora dela.
(2) O sentido “imergir” é adequado e provavelmente exigido para a palavra nos vários textos do Novo Testamento. Em Marcos 1.5, o povo era batizado porjoão “no riojordão” (o texto grego traz en,“em”, e não “ao lado” ou “próximo” ou “perto” do rio).6 Marcos também nos diz que quandojesus foi batizado “ele saiu da água”(Mc 1.10). O texto grego especifica que ele saiu “para fora da” (ek)água, e não que ele veio da água (mais bem comunicado pelo gr. apo).O fato de quejoão ejesus entraram no rio e saíram dele sugere enfaticamente imersão, já que a aspersão ou a afusão de água poderiam muito mais facilmente ter sido feitas junto ao rio, especialmente pelo fato de que multidões estavam vindo para o batismo. O evangelho de João nos diz depois q u ejo ão Batista “estava também batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas” (Jo 3.23). Novamente, não era necessário muita água para batizar pessoas por aspersão, mas isso seria preciso para batizar por imersão. (Grudem, p.814) 
Em que pese este argumento, uma correção é necessária neste ponto. 

Platão já empregava o termo em sua obra "Eutidemo" no sentido de alguém estar sobrecarregado de perguntas. Por esta praxe já vemos então que o entendimento histórico da palavra batismo não era exclusivamente de mergulhar algo. 
Na leitura do Santo Evangelho segundo Marcos, lemos que os fariseus lavavam as mãos antes de comer. Niptein era comumente usado quando apenas uma parte do corpo era lavada, não o banho total do corpo. Mas nessa passagem o lavar parcial também é chamado de batismo, de maneira que se apenas parte do corpo é lavada temos um verdadeiro batismo: 
Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar (νίψωνται) as mãos muitas vezes; Marcos 7:3 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem (βαπτίσωνται), não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas. Marcos 7:4 
Assim, o texto nos mostra que, muito embora “batismo” seja associado à submersão, o texto bíblico o usa também para expressar o lavar parcial do corpo, sem diferenciar a extensão do corpo em que se aplica a água. O texto de Lucas 11:38 também reforça esta ideia, aplicando a mesma fórmula. 
Mais adiante, lemos no texto aos Hebreus sobre diversas abluções, ou seja, batismos: 
Consistindo somente em comidas, e bebidas, e várias abluções (βαπτισμοῖς) e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção. Hebreus 9:10 
Cientes então de que abluções são literalmente batismos pelo texto, devemos então conferir, também pelo texto bíblico como estes batismos eram feitos: 
O homem puro aspergirá o impuro ao terceiro e ao sétimo dia e o purificará no sétimo dia. Lavará as suas vestes e a si mesmo, e à tarde será puro. Números 19:19 
Desta forma, o texto bíblico tem mostrado que de acordo com as normas das abluções descritas no capítulo 19 de Números, temos que a algumas formas são pela imersão propriamente, como o purificar das vestes, e outras formas são pela aspersão de água. 
O que temos nos texto de Hebreus 9:10 é que tanto a ablução de imersão em água quanto a aspersão são chamadas pelo texto bíblico de “batismo”. Este é um ponto relevante. Não se trata de erro de escrita, ou má colocação de palavras por parte dos autores bíblicos. Se o Cristão reconhece que a Bíblia é a Palavra de Deus e que foi escrita pela inspiração divina, então creremos que toda a Escritura é perfeita em seu ensino. O que temos então é o texto bíblico mostrando que a palavra “batismo” inclui o lavar parcial do corpo e a aspersão tanto quanto a imersão completa, sem fazer diferença entre os termos e na corrente oposta, temos uma corrente que afirma que a palavra “baptizein” no grego significa apenas imergir, e portanto, declarando que somente a imersão completa é válida. Se o texto inspirado das Escrituras chama de batismo o aspergir e o lavar parcial do corpo, bem sabe o Espirito Santo como deseja se comunicar, logo, restringir o termo para uma forma específica do derramar de água, será uma exegese que manca em identificar o termo, ou, a expressão dos que desejam retorquir a Deus. 
Como o texto não termina neste ponto, podemos ir mais além: 
E eu, em verdade, vos batizo (βαπτιζω) com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará (βαπτισει) com o Espírito Santo, e com fogo. Mateus 3:11 
Novamente o texto bíblico nos aponta que o Espírito Santo vem com um “batismo”. Então vejamos biblicamente a forma como ele veio: 
Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Atos 2:3 
O batismo não foi uma imersão neste texto, e desta forma, não há, biblicamente falando, uma única forma de se usar o termo “batismo”, este termo não indica apenas a imersão, mas também indica o lavar parcial do corpo, a aspersão, o derramamento, ainda temos uma forma sui generis, em 1 Coríntios 10.2, um batismo feito por Deus de forma singular: 
todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; 1 Coríntios 10:2 
Ao atravessar a nuvem e o mar todo o povo foi batizado. Neste texto é patente que nenhum do povo foi “submerso” no mar, o texto nos informa que cruzaram com os pés secos, não houve sequer uma pessoa que fosse submersa que seguia com Moisés, mas todos receberam o batismo ao passar pelas águas. 
Em contra-partida, Grudem, em sua obra demonstra que este batismo realizado mesmo no texto bíblico de variadas formas, apenas encontra sua validade se na forma específica que lhe apraz ao afirmar: 
Mesmo o lavar é muito mais eficazmente simbolizado pela imersão do que pela aspersão ou afusão, e a morte e ressurreição com Cristo são simbolizados apenas pela imersão e de modo nenhum pela aspersão ou pela afusão. (Grudem, p.816) 
Temos portanto, pelo texto bíblico, uma exposição clara de que, ao contrário do que querem alguns, batizar não exige uma forma específica e a própria Palavra cita diversas formas como este batismo pode ser realizado. O que temos, de certo sobre o batismo é que ele deve ser feito com água, assim como João batizou com água (Jo 1.33), Filipe batizou o eunuco com água (At 8:36), Pedro batizou Cornélio com água (At 10:47), Paulo chama o batismo de “lavar de água pela Palavra” (Ef 5:26), Cristo diz que devemos nascer pela água e pelo espírito (Jo 3:5). 
O batismo é corretamente ministrado a todas as crianças que sejam filhas de pais cristãos. Essa posição é muito comum em muitos igrejas protestantes (especialmente luteranas, episcopais, metodistas, presbiterianas e reformadas). Essa posição é às vezes conhecida como o argumento da aliança em favor do pedobatismo. E chamada argumento da “aliança” porque depende de interpretar que os filhos dos cristãos fazem parte da “comunidade da aliança” do povo de Deus. O termo “pedobatismo” significa que o costume de batizar crianças (o prefixo paidoexpressa a idéia de “criança” e é derivado da palavra grega pais,“criança”). Estarei interagindo principalmente com os argumentos de Louis Berkhof, que explica com clareza e defende bem a posição pedobatista. (grudem, p.821) 
Outro problema na exposição de Grudem se constitui o problema intrínseco dos sistemáticos em referenciarem-se entre si, com pouco ou nenhum conhecimento de causa da teologia de outras áreas. Na presente citação, o autor repete o argumento de Berkhof sobre um ponto-de-vista protestante, e nisto ecoa a voz de Strong também, entre outros notáveis deste campo. Nesta área o autor realmente cumpre o papel de ser sistemático apresentando construções de grandes grupos, mas não se pode dizer que houve uma construção mais dogmática, afinal, Cristo declara sobre crianças pequenas, Mt 19:14; Mc 10:14: De tais é o reino do céu, ou o reino de Deus. E ninguém que nasce da carne pode entrar no reino de Deus a menos que renasça, Jo 3:3. E esta regeneração e renascimento ocorre pela água e pelo Espírito, Jo 3:5. O batismo é a lavagem da regeneração do Espírito Santo, Tt 3:5. Uma vez que, então, Cristo quer que as criancinhas se tornem participantes do reino do céu, o que deve ocorrer através do batismo, é certamente intenção de Cristo, vontade e comando, que as crianças pequenas sejam batizadas. 
A promessa do reino de Deus deve ser aplicada através de um certo meio ou instrumento instituído pelo próprio Deus. Portanto, também a promessa do reino do céu, que é dada aos bebês (Mc 10:14) deve ser aplicada a eles através de um certo meio. Agora, as Escrituras declaram que isso significa o batismo. Jo 3:5; Tt 3:5. 
Em segundo lugar, Cristo também quer que as crianças sejam salvas, pois Ele diz: Não é a vontade do Pai celestial que um desses pequeirinhos pereça, Mt 18:14. Mas o Pai Celestial salvou-nos pelo lavar regenerador, Tt 3:5. É, portanto, a vontade de Deus que os bebês sejam batizados e que não pereçam, mas sejam salvos. 
Em terceiro lugar, os bebês são concebidos e nascidos em pecados, de modo que por natureza eles são filhos de ira, Sl 51:5; Ef 2:3. Portanto, eles devem obter o perdão dos pecados, para que eles não pereçam, mas sejam salvos, Lc1:77; Rm 4:7. 
Sobre o ingresso no corpo de Cristo, Grudem declara: 
Mas como alguém se torna membro da igreja? O meio de ingresso na igreja é voluntário, espiritual e interior. Alguém toma-se membro da verdadeira igreja através do novo nascimentoe da fé salvadora,e não de um nascimento físico. Isso ocorre não por um ato externo, mas pela fé interior do coração. Com certeza é verdade que o batismo é o sinal de ingresso na igreja, mas isso significa que este deve ser ministrado aos que dão provade serem membros da igreja, somente os que professam fé em Cristo. (Grudem, p.823) 
Is 49:22 profetiza que no Novo Testamento não só os adultos seriam implantados na igreja, mas eis que, diz ele, eles vão trazer seus filhos em seus braços e suas filhas em seus ombros. E Pedro diz (Atos 2:39) depois que ele tinha batizado adultos: Esta promessa foi feita para você e para seus filhos. Dessa forma, também os apóstolos batizaram domicílios inteiros, Atos 16:33; 1 Co 1:16. Onde uma casa ou família é mencionada, bebês certamente não são excluídos. E quando os adultos são convertidos pela primeira vez, o ensino precede e segue o batismo. Atos 2:41; 8:12, 35-38; 10:44-48. Mister se faz salientar que o Batismo não é apenas símbolo da presença de Cristo, mas que por ele, Cristo se faz verdadeiramente presente. Ef 5:25-26: Cristo deu-se para a igreja, para que Ele pudesse santificá-la, limpá-la com a lavagem de água pela Palavra. Da mesma forma, ele diz que somos batizados na morte de Cristo (Rm 6:3) e na ressurreição de Cristo (I Pe 3:21). Na verdade, no batismo vestimos Cristo (Gl 3:27). E é isso que se diz nos Atos: ser batizado em nome de Cristo. 
Na verdade, há outros exemplos em que o batismo não é mencionado, nos quais vemos testemunho explícito do fato de que uma família inteira demonstrou fé. Depois que Jesus curou o filho de um oficial, lemos que o próprio pai “creu e toda a sua casa ” (Jo 4.53). Semelhantemente, quando Paulo pregou em Corinto, “Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa (At 18.8). (Grudem, p. 824) 
A problemática deste ponto se apresenta justamente no fato de considerar o autor a “fé”, dom sobrenatural de Deus, como um sinônimo de “fé reflexa”, ou a consciência de se haver fé. As palavras da instituição do batismo e muitas outras passagens das Escrituras nos mostram isso, por exemplo, Mc 16:16; Atos 2:38; 22:16; Ef 5:25-26; Tt 3:5, 7; Jo 3:5; 1 Pe 3:21. Daí Lutero justamente diz em seu catecismo: 
O batismo opera o perdão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá salvação eterna a todos os que crêem nisso, como declaram as palavras da promessa divina. 
Se Cristo é separado do batismo, ou batismo de Cristo, então, de fato, a lavagem de água de si mesma não pode operar ou conferir qualquer dessas coisas, mas é e continua a ser apenas um sinal simples. 
Mas como Cristo está no e com o ato do batismo, para que sejamos batizados em Sua morte e ressurreição (Rm 6:3; 1 Pe 3:21), no batismo nos revestimos de Cristo (Gl 3:27), e ele mesmo nos purifica por essa lavagem (Ef 5:25-26), da mesma forma, como Deus o Pai dá, apresenta e sela aos crentes o mérito de Cristo através de Seu Espírito Santo no Batismo e através do batismo (Tt 3:5-6). 
Finalmente, os que defendem o batismo de convertidos com freqüência expressam preocupação diante das conseqüências práticas do pedobatismo. Eles argumentam que a prática do pedobatismo na igreja de hoje muitas vezes leva pessoas batizadas na infância a presumir que foram regeneradas, e assim não sentem a urgência da necessidade que têm de virem a ter fé pessoal em Cristo. Em alguns anos, essa tendência provavelmente resultará em número crescente de membros não convertidosna “comunidade da aliança”, os quais não são verdadeiramente membros da igreja de Cristo. Naturalmente, isso não fará de uma igreja pedobatista uma falsa igreja, mas a tomará uma igreja menos pura, que com freqüência estará enfrentando tendências doutrinárias liberais ou outros sinais de incredulidade trazidos para a igreja pelos membros não regenerados. (Grudem, p.826) 
Neste ponto, ao meditar sobre os efeitos do batismo, Grudem esbalha não apenas na doutrina do batismo, mas em sua doutrina sobre a igreja, desconsiderando-a como um corpus permixtus. Nem todos são praticantes da Palavra, e nem todos os que ouvem a Palavra a mantém (Lc 8:15; 11:28; Mt 7:26). As parábolas dos evangelhos também mostram isso claramente (Mt 13:24-30, 47-48; 22:1-14). Portanto, Onde há pessoas que usam os Sacramentos (Mc 16:16; 1 Co 10:17; 11:33), ouvem a Palavra de Deus (Jo10:27, recebem-a (1 Ts 1:6; 1 Co 15:1, confessam Cristo (Mt 10:32), seguem-o (Jo10:27), invocam a Deus,como ele ordenou na Palavra (Lc19:46; 1 Co 1:2; Sl 79:6). E esses sinais às vezes estão mais em evidência, às vezes menos evidentes. Pois neste fundamento alguns constroem o ouro, algums restolho (1 Co 3:12-13). E, no entanto, se a fundação permanece intacta, Deus tem Sua igreja lá (1 Rs 19:18). 
Justamente por ser a verdadeira igreja este corpo misto, e entendendo-se a questão do Simul na natureza humana, a resposta a Grudem precisamente escriturística deve ser que a regeneração de fato, isto é, adoção e o perdão dos pecados é ato completo e terminado nos crentes imediatamente após o batismo, e ainda assim se estende por toda a vida de um homem. Mas a renovação é de fato iniciada no batismo e cresce diariamente, é finalmente concluída na vida que está por vir. Pois nesta presente vida a renovação ainda é imperfeita e deve crescer e aumentar dia após dia. 2 Co 4:16; Ef 4:22-23; Cl 3:10; 1 Pe 2:1-2.