quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O Que significa a rosa de Lutero?


Este é o símbolo mais famoso que identifica os luteranos, o motivo é simples: ele resume em uma imagem o conteúdo da fé que professamos.

O Significado do símbolo vem do próprio Lutero numa carta a Lazarus Spengler em 8/7/1530, que aqui transcrevemos: 

Graça e paz em Cristo!

Honrado Senhor e respeitável amigo:

Como você deseja saber se o meu selo é correto, dar-lhe-ei mostras de minhas primeiras ideias, pela associação de ouro que tentei gravar em meu selo, com expressão de minha teologia.

O primeiro símbolo teria de ser uma cruz (negra) dentro de um coração, com sua cor natural, para me fazer lembrar que a fé no Cristo crucificado nos salva. “Porque com o coração se crê para a justiça”. Pois ainda que a cruz é preta, mortificadora, e visando causar dor, mas sem modificar a cor do coração, não corrompe a natureza, isto é, não mata, mas conserva a vida. “Porque o justo viverá por fé”, mas pela fé no Salvador.

Este coração repousa sobre o centro de uma rosa branca, para indicar que a fé produz alegria, consolação e paz, não como o mundo oferece paz e alegria. Por esta razão a rosa é branca, e não vermelha, porque o branco é a cor de todos os anjos e espíritos santificados.

Esta rosa, por sua vez está afixada sobre um fundo azul celeste, denotando que tal alegria de fé em espírito é apenas um indício ardente dos prazeres celestiais que nos aguardam, como se antecipam e se sustentam através da esperança, embora ainda não revelados.


Ao redor deste fundo azul está um anel dourado, que significa que tal felicidade no céu não terá fim, e é mais preciosa que todas as alegrias e tesouros, uma vez que o ouro é melhor e mais precioso dos metais.

Cristo, nosso querido Senhor esteja com seu espírito até a vida eterna.


Amém.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

25 de dezembro: é o dia certo para o Natal


Todos os anos nós cristãos somos inundados com alegações de que o dia 25 de dezembro não é o dia certo para o Natal, que o cristianismo aderiu a datas de festas pagãs, que todo o calendário da igreja era um esquema de marketing para puxar os pagãos para diferentes celebrações e convertê-los. Porém tudo isto está longe da realidade.

O dia 25 de dezembro é uma data muito precisa para celebrar o nascimento de Cristo. Os cristãos celebraram inicialmente o nascimento de Jesus na páscoa. Isto se originou de uma prática da igreja primitiva de reconhecer a data da morte de um santo como a mesma data de seu nascimento. Os antigos pareciam gostar da simetria.

Quando o cristianismo começou a reconhecer o nascimento de Cristo como um dia próprio, a data em dezembro apareceu muito rapidamente. Hipólito de Roma defendeu o 25 de dezembro, por volta do ano 200 d.C. São João Crisóstomo parece ter encerrado a discussão, declarando o dia 25 de dezembro como a data certa, em torno do ano 300 d.C.


Há uma quantidade razoável de dados que sustentam esta data:

Zacarias estava servindo no templo com seus parentes. Eles estavam servindo no 8º mês do ano judaico. Nissan, o 1º mês, cai entre março e abril. O 8º mês cai entre meados de outubro e meados de novembro.


Agora, enquanto estava servindo como sacerdote perante Deus, durante este intervalo de meses, de acordo com o costume do sacerdócio, Zacarias foi escolhido por sorteio para entrar no templo do Senhor e queimar incenso... E quando terminou seu tempo de serviço, foi para sua casa. Depois desses dias sua esposa Isabel concebeu, e durante cinco meses ela se manteve escondida, dizendo: "Assim o Senhor fez por mim, nos dias em que me olhou, para tirar minha reprovação entre as pessoas". (Lucas 1:8-9, 23-25)



Depois desses dias, Isabel concebeu. Devemos entender uma data anterior a novembro, dentro da dita janela, como os pais da igreja o fizeram. Assim, Isabel concebeu por volta do dia 25 de outubro. No sexto mês de gravidez encontramos isso no texto:



E o anjo lhe respondeu: "(...) E eis que sua parente Isabel na sua velhice também concebeu um filho, e este é o sexto mês com ela que foi chamada estéril. Pois nada será impossível com Deus". E Maria disse: "Eis que eu sou a serva do Senhor; que seja para mim segundo a tua palavra". E o anjo se afastou dela. Naqueles dias, Maria levantou-se e foi com pressa para a região montanhosa, para uma cidade em Judá, e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. (Lc 1,35-40)

Maria concebe, portanto, por volta do dia 25 de março. Depois ela visita Isabel, que está no sexto mês. João Batista nascerá por volta do dia 25 de junho. Mais seis meses e chegamos no evento do nascimento de Jesus.

O nascimento de Jesus em 25 de dezembro é uma estimativa completamente razoável. A seleção dos primeiros cristãos da data do nascimento de Jesus parece ter sido influenciada principalmente pelas escrituras e por matemática simples. Agora, a data pode não ser totalmente precisa. Há cerca de 30 dias de espaço de manobra no início do cálculo. Mas, o dia 25 de dezembro é a época certa do ano. Está pelo menos muito próximo do dia certo, se não exatamente correto, o que também é possível.

Mais importante que a data é lembrarmos que aquele bebê é o grande Eu Sou, O mesmo Deus que deu a vida a Maria, nasceu de seu ventre por nós e para a nossa salvação.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

TESE 93: Como entender?

 


93ª Tese: Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz.




    Este parece um texto um tanto confuso de entender, ainda mais se considerarmos que a tese anterior parece dizer exatamente o oposto. Então como podemos entender esta tese de Lutero?

    Antes de qualquer coisa, alguns pontos precisam ser relembrados:

    1- Lutero vai amadurecendo seu pensamento ao longo dos anos, as 95 teses portanto não expressam o auge de seu pensamento, mas o começo dos seus questionamentos

    2- Não existe somente as famosas 95 teses, há outros temas em que Lutero também escreveu teses

    3- Teses não explicam o pensamento do autor, elas são pequenas afirmações destinadas a abrir uma discussão, desta forma, as teses eram divulgadas com antecedência para que os debatedores tivessem tempo de se preparar para defendê-las ou refutá-las, e então, a data do debate público era marcada.

    4- Os escritos de Lutero somam 121 volumes e cerca de 80.000 páginas na edição completa das Weimarer Ausgabe, não se pode conhecer o pensamento de Lutero lendo-se apenas uma página, que são o início da carreira apenas do reformador.

Agora, sabendo-se da natureza do material que representa as 95 teses de Lutero, pode-se tentar entender, pela pena do próprio Lutero o que significa sua tese 93:

Esta carta foi enviada a um irmão agostiniano no dia 15 de abril de 1516. Lutero diz:

"A cruz de Cristo foi dividida em todo o mundo, e cada um se encontra com sua própria porção dela. Portanto, não a rejeite, mas aceite-a como a mais santa relíquia, a ser guardada, não em um cofre de ouro ou de prata, mas em um coração de ouro, ou seja, um coração imbuído de caridade gentil". Pois se, pelo contato com a carne e o sangue de Cristo, a madeira da Cruz recebeu tal consagração que suas relíquias são consideradas supremamente preciosas, quanto mais as feridas, perseguições, sofrimentos e o ódio dos homens, tanto dos justos como dos injustos, ser considerado como a mais sagrada de todas as relíquias que, não pelo simples toque de Sua carne, mas pela caridade de Seu coração mais amargamente provado e de Sua vontade divina, foram abraçadas, beijadas, abençoadas e abundantemente consagradas; pois assim foi uma maldição transformada em bênção, e o dano em justiça, e a paixão em glória, e a Cruz em alegria. ”


Esta expressão um tanto enigmática é ainda explicada diretamente na carta escrita a um Prior da Ordem dos Agostinianos, no dia 22 de junho de 1516:

"Procura e anseia pela paz, mas na ordem errada. Pois procura-a como o mundo a dá, não como Cristo a dá. Não sabeis que Deus é 'maravilhoso entre os Seus santos', por esta razão, que Ele estabelece a Sua paz no meio de nenhuma paz, ou seja, de todas as tentações e aflições'. Diz-se: 'Tu habitarás no meio dos teus inimigos'. O homem que possui a paz não é o homem que ninguém perturba: é a paz do mundo; ele é o homem que todos os homens e todas as coisas perturbam, mas que suporta tudo pacientemente, e com alegria. Com Israel dizeis: 'Paz, paz', e não há paz. Aprendei a dizer antes com Cristo: 'A Cruz, a Cruz', e não há Cruz. Pois a Cruz deixa imediatamente de ser a Cruz assim que se exclama alegremente, na linguagem do hino,

"'Bendita cruz, acima de todas as outras,
Uma e única árvore nobre'".

Por fim, a estranha tese 93 ganha um contorno nobre, com ela, Lutero começou a esboçar a Teologia da Cruz, grande marca do pensamento da reforma na Alemanha.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Os Versos Adicionais em Ester




Notas rápidas após a leitura

Apenas esclarecendo, devemos fazer uma distinção entre a parte canônica e a não-canônica no livro de Ester. Por incrível que pareça, já fomos acusados de renegar todo o livro. Acusações absurdas e nada honestas, diga-se de passagem. De fato, sempre aceitamos o Livro de Ester como parte inspirada por Deus nas Escrituras sagradas, só não podemos dizer o mesmo do apêndice do livro. 



1 – Foi escrito em Grego 

Jerônimo, grande tradutor da Bíblia, atesta que o apêndice não foi escrito em hebraico, sabemos que Josefo sugere que teria havido um texto hebraico do qual o grego teve origem, mas ninguém sabe, ninguém viu. 

Ok, concedemos então que possa ter havido um texto hebraico, sua autoridade é nula, já que não o temos mais para consulta, e por acaso, Deus não preservaria aquilo que ele teria inspirado os profetas, da mesma forma que preservou o restante do livro de Ester? 



2- Desaparecimento Estranho 

Na verdade o apêndice não é apenas na parte final do livro, mas contém porções no começo do livro, outras no meio, outras no final, mas qual a probabilidade de desaparecer apenas estas porções de texto na língua original, ao passo que o livro em si continuou perfeitamente preservado? 

Se tivéssemos trechos faltantes no texto, poderíamos até considerar a ideia do desaparecimento, mas o texto sem o apêndice é perfeitamente coeso. 

No mais, Josefo também não é a fonte para determinar o cânon, e podemos ler uma série de acusações contra a versão de Josefo em Lyra, Sixtus Senensis e Jerônimo. 



3- O Problema da Autoria 

O apêndice chega a nós pela mão de Lisímaco, Josefo, segundo alguns, foi quem incluiu o texto como parte genuína do Livro de Ester. Bom, sabemos que Josefo não era notável por uma autoridade profética, além de que não é provável que um mesmo escritor tenha feito um livro, e depois uma repetição do mesmo livro, contradizendo a história que acabara de narrar. E se foi escrito por um profeta, por que não segue o mesmo padrão da escrita do livro em si? 

Outro problema, o anexo menciona Ptolomeu e Cleópatra, dois que não viveram na mesma época que Assuero e Ester. Eles vieram depois dos eventos do Livro de Ester e depois de Esdras ter organizado o cânon, então não houve profeta naquela época. 



4- O Problema com o Livro de Ester 

No livro de Ester (2:16), o esquema dos eunucos contra Assuero foi no sétimo ano, mas o suplemento (11:2) afirma que foi no segundo, isto coloca o plano contra o rei antes mesmo do seu casamento, mas o livro canônico de Ester nos mostra que foi após. Além disto, o livro canônico de Ester nos mostra que a causa da ira de Hamã foi o fato de Mordecai não se ajoelhar perante ele (3:5), porém o anexo nos diz que foi a morte dos eunucos (12:6) (ok, este até da pra conciliar, mas mudar a narrativa nos levanta sérias dúvidas sobre a confiabilidade do apêndice). 

Seguindo, em 5:2, o rei olhou favoravelmente para Ester, mas no apêndice em 15:10, olhou com ira, alguns tentam explicar isto dizendo que no primeiro momento ele ficou bravo, mas depois teria se acalmado, mas isto também conflita com o livro canônico que informa que o rei a olhou favoravelmente assim que ela entrou, antes mesmo que houvesse uma explicação para uma entrada não autorizada. 

O livro canônico nos diz que os judeus seriam mortos no dia treze de Adar (3:13, 8:12, 9:1), o suplemento joga isto um dia para frente (13:6). 

No Canônico, Hamã é chamado de Agagita (outro nome para os Amalequitas), mas o apêndice diz que era um macedônio (16:10) 



5- Um Problema Ético 

Em 13:14, Mordecai teria se negado a se prostrar para não transferir a honra que cabe a Deus para um homem, mas o livro canônico nunca informou que Hamã queria ser adorado como um deus, e o próprio povo hebreu tem exemplos de prostrações diante de homens como uma forma de honra civil, esta é uma fala que soa estranha ao livro. 



6- Um Problema Histórico 

Não bastasse o fato de Hamã ser identificado como Macedônio, em 16:14 é dito que ele teria tentado transferir o domínio dos persas para os macedônios. O problema é que naquela época os Macedônios sequer eram uma ameaça ao poder da Pérsia e permaneceram inexpressivos até os dias de Felipe, o pai de Alexandre, o Grande, o que é um evento muito posterior aos eventos do livro canônico de Ester. Tão posterior, aliás, que Mordecai teria vivido quase 300 anos, já que 11:4 chega a afirmar que ele foi levado cativo à Babilônia por Nabucodonozor, sobrevivido aos 70 anos de servidão e 220 anos entre os reinados de Ciro e Artaxerxes. 

Poderíamos até apelar para o argumento da longevidade bíblica, se por um acaso, o apêndice já não estivesse cheio de problemas insolúveis na narrativa. 



7- Tira, Põe, Deixa Ficar 

Jerônimo considerou tirar o apêndice (do livro, claro!), Melito, Atanásio e Gregório de Nazianzo excluem o livro todo. Os dois primeiros seguiram a ideia do cânon judaico, Gregório, talvez (e bem talvez), tenha considerado apenas os capítulos adicionais como fora, chamando o livro de Ester (canônico) de “Esdras” na sua lista, como Isidoro chega a mencionar. 

Atanásio chega a mencionar que os judeus tinham canonizado o Livro de Ester, sem detalhes sobre o apêndice, Nicolau de Lyra tira o apêndice (do livro!), dizendo que o apêndice parece ter sido uma adição posterior cunhada por Josefo e outros escritores 

Dionísio, o Cartuxo, Thomas de Vio Cajetano, Sixtus Senensis consideraram o apêndice como apócrifo, Belarmino escreve contra o apêndice e remete sua opinião a Jerônimo. 

Sixtus Senensis chega a comentar que ele sabe da condenação de “anátema” imposta pelo Concílio de Trento, mas que ela não se deve aplicar ao que não pertence ao livro na sua integridade. 

Nenhuma novidade, Montano desconsidera o livro. 



Considerações finais 

Sobre o argumento de que o Texto foi preservado na Septuaginta, que era a bíblia dos Apóstolos e dos Santos Pais: é verdade que o nesta versão, o livro e o apêndice circulavam juntos, assim também como ninguém ignora o fato de que as escrituras hebraicas eram usadas e bem conhecidas, e, portanto, esta adição era conhecida de todos os Pais e de toda a Cristandade. A tese de que a Septuaginta um dia substituiu as escrituras hebraicas é tão absurda, que até hoje se usa o texto hebraico para resolver dúvidas no AT, não o grego. 

Sobre quem apela para a numeração diferente dos livros na bíblia grega, e que este seria o motivo de não lermos isto nas listas de livros dos antigos Pais, lembramos também que Melito, Hilário, Epifânio, Jerônimo e Rufino não numeravam o cânon de acordo com os gregos, mas seguiam a lista hebraica, e os hebreus não tem um livro chamado de “3ª Esdras”, logo, os dois livros mencionados não servem para o argumento da canonicidade do apêndice. 

Sobre alguns dos Santos Pais chamarem este livro de “Santo” – este argumento é realmente fraco, nós chamamos a Bíblia de Santa, e, no entanto, os Santos Apóstolos encheram suas cartas (até mesmo as canônicas) de citações de Menandro, Aratus, Epimenedes, e tantos outros, mas ninguém ousa canonizar filósofos pagãos. E o que dizer de Judas v.4, que cita o livro de Enoque, que é apócrifo e ninguém discute? Ainda assim, chamamos o conjunto de livros de “Bíblia Sagrada” Os Santos Pais também citaram o Pastor de Hermas, que ninguém chama de Canônico, O mesmo ocorre com 4ª Esdras, amplamente citado pelos Santos Pais, mas mantido fora do Cânon. Os decretos dos concílios também são chamados de “canônicos”, mas nem por isto são incluídos no conjunto de livros canônicos chamado “Bíblia Sagrada”, portanto, este testemunho histórico, não confere autoridade alguma. 

O testemunho de Orígenes: ok, é verdade que ele é um autor patrístico importante e ele atesta que o livro todo era lido, mas devemos lembrar que Orígenes sempre alinha seu pensamento aos judeus e ao que está no cânon dos judeus, e até Eusébio atesta isto 

Com todas essas observações, ainda é um bom livro de ser lido com seu apêndice. O que se deve ter por claro é que sobre esta parte acrescentada, ela é útil para instruir em comportamento, não para confirmar alguma doutrina, e por isto mesmo, a sua leitura acompanha a história de toda a cristandade no ocidente. 

domingo, 3 de janeiro de 2021

O Livro de Tobias

 






Algumas notas rápidas sobre a leitura do livro de Tobias: 


1. Não está contido nas fontes hebraicas. 

É dito que tenha sido originalmente publicado no idioma caldeu, mas isto é incerto, e a versão hebraica que temos é feita a partir da edição grega, então tudo o que temos são duas traduções, uma grega e uma latina, sem a língua original para estudo. Analisar um texto sem a língua original para uma base é complicado por si só, afinal, toda tradução é uma traição. 



2. A versão grega não concorda com a latina. 

Lendo a versão grega e a latina, nos deparamos com outro problema: cada uma afirma uma coisa diferente: 

Diz-se que Sara, com quem o jovem Tobias estava prestes a se casar, viveu em Rages (Tobias 3:7), uma cidade da Média, onde Gabael também teria estado (Tobias 4:1). Por outro lado, quando Tobias deixa Ragüel e está prestes a celebrar seu casamento com Sara (Tobias 9:3), ele envia o anjo “a Gabael em Rages” para tirar dinheiro dele e ao mesmo tempo para convidá-lo para o Casamento. Se Sara e Gabael viviam em Rages na Média, que necessidade havia de enviar o anjo para Gabael? Uma solução seria dizer que a versão latina estava corrompida, mas, como afirmar sem poder ver o texto como fora escrito? 

Tobias 1:1 tem coisas em Grego que não estão no Latim, em 1:4, Tem coisas em Latim que não estão no Grego, em 1:7 tem muito mais coisa em Grego que em Latim, e ainda assim, há coisas no Latim que não se encontra no texto grego, e esta lógica se repete abundantemente pelo livro todo. 

Tobias ficou cego aos 56 na versão latina (14:3) e aos 58 na grega (v.2). Teria ficado cego por 4 anos na versão Latina (14:3); na grega, oito (14:2). Ele teve 6 filhos na grega (14:5); na latina, 7 (14:5). O velho Tobias viveu 102 anos na Latina (14:2); 158 na grega (14:13). O jovem viveu 99 na Latina, (14:16); na grega, 127 (14:16). No Latim, Senaqueribe foi morto 45 dias depois (1:24); na grega, 55 dias. Na grega, Jerusalém será desolada e a Casa do Senhor queimada (1:6), mas no Latim, isto já tinha acontecido. Desta forma, se alguém quiser defender que este livro seja canônico, deveria primeiro saber dizer qual dos dois estaria correto. 


Tem algumas coisas que não concordam com a verdade canônica. 


a) Anjo Mentiroso 

Primeiro, em Tobias 5:18, o anjo, o companheiro do jovem Tobit, diz que ele é parente de Azarias e de Ananias, o Velho. Em Tobias 7:3, Tobit e seu companheiro anjo foram questionados por Ragüel de onde eles vieram, e eles responderam: “Dos filhos cativos de Naftali em Nínive”. O anjo, portanto, está mentindo, dizendo que é dos filhos de Israel, que é filho de Azarias e que pertence à tribo de Naftali. No entanto, em nenhum lugar da Escritura canônica há mentira atribuída aos santos anjos. Na verdade, esse é um pecado muito sério. Ok, concedemos que alguns já tentaram explicar que (1) O anjo diz uma coisa; Tobias entende outra. (2) O anjo não apenas chama a si mesmo de “filho de Ananias”, mas também diz que pertence à tribo de Naftali, mas como explicar - ou melhor, distorcer - o fato de o anjo: 

(3) dizer que ele era do cativeiro de Nínive? Os anjos também foram deportados para o cativeiro assírio? 

(4) Tudo isso para não dizer do fato de que uma etimologia diferente é dada para os nomes “Israel” e “Naftali” em Gênesis 30:8; 32:28. (Toda tentativa de alegorizar a fala para dizer que o anjo não mentiu, acaba dando significados aos nomes que diverge do que o livro de Gênesis já atribuiu) 

(5) Em grego, ele é chamado de “filho de Ananias, irmão de Tobias”. Deus é, então, irmão de alguém? 



b) Fumaça exorcista 

Em segundo lugar, em Tobias 6:8 o anjo diz ao Tobias mais jovem: “A fumaça de um coração tirado de um peixe e colocado sobre as brasas remove todo tipo de demônio de um homem ou de uma mulher para que não aproxime-se deles novamente.” No entanto: 

(1) Em “toda a armadura” contra o diabo que os apóstolos prescreveram (Efésios 6:11; 1 Pedro 5: 8), nenhuma menção é feita a esta fumaça. 

(2) Cristo diz o contrário: “Este tipo de demônio não é expulso, exceto por oração e jejum” (Mateus 17:21). Portanto, é falso que todo tipo de demônio possa ser expulso pela fumaça do coração de um peixe. 

(3) Nem mesmo Cristo expulsou demônios “para que nunca mais voltassem” (Mateus 2:43; Lucas 11:24). Na verdade, o diabo que estava atacando Cristo afastou-se Dele apenas “por algum tempo” (Lucas 4:13). 

Com que aparência de verdade, então, o anjo faz sua declaração sobre a fumaça do coração de um peixe, que faz os demônios fugir, para nunca mais voltar? Se os demônios tivessem corpos naturalmente unidos a eles, não seria impossível que as coisas corpóreas os impressionassem por causa de seus corpos. Mas porque eles são corpos espirituais, nenhuma criação corpórea pode causar algo neles. Se algo assim acontecesse, não seria em virtude de tais coisas corpóreas; em vez disso, os demônios fazem isso voluntariamente para manter as pessoas no erro. 

Ok, concedemos que alguns já tentaram explicar que a fumaça representa a oração, mas o texto é claro em colocar a fumaça física e o exorcismo como causa e efeito, e mais, em Tobias 8:2, o anjo primeiro fala de “o demônio posto em fuga pela fumaça”. Mais tarde, então, “Tobias se levantou para orar”. 



c) Anjo Intercessor 

Terceiro, em Tobias 12:15 o anjo é dito "oferecer nossas orações e súplicas a Deus." Esta honra, entretanto, é própria de Cristo como nosso mediador e intercessor (Rm. 8:34; 1 Tm. 2:5; 1 João 2:1). Veja, existe uma relação entre oferecer orações e aceitá-las ou ouvi-las. Atos 10:4: “Suas orações subiram como um memorial diante de Deus.” Isso é explicado no v. 31 da seguinte forma: "Suas orações foram ouvidas." Mas agora, Deus ouve nossas orações pelo mérito mediador e intercessão de Cristo SOMENTE. Esta honra cabe somente a Cristo: que Ele oferece nossas orações a Deus. A Ele se diz: “Tu és sacerdote para sempre” (Salmos 110:4; Hebreus 7:25). Hb. 13:15: “Por meio dele as orações devem ser oferecidas a Deus”, assim como no Antigo Testamento só o sacerdote tinha permissão para oferecer o holocausto (Ex 30:7), o que denota nossas orações (Sl 141:2) que o Anjo do Grande Conselho, isto é, Cristo, em pé diante do altar como nosso mediador e suplicante, oferece a Deus (Apocalipse 8:3). Aqui, concluímos que Cristo é entendido como “O Anjo” do fato de que O Anjo é apresentado como sacerdote e que Ele obviamente é separado do resto dos anjos quando é dito que outro anjo estava diante do altar. Não devemos estabelecer outros mediadores desse Mediador, porque não vamos ao Pai senão por Ele (João 14:6). Para ter certeza, Platão (o Banquete) estabelece os demônios como "os intérpretes e portadores entre Deus e os homens." Mas Agostinho refuta esta opinião (De civ. Dei, livros. 9-10; Confess., livro 10, c. 42). Sabemos que o grande teólogo Dr. Martin Chemnitz também lista entre os deveres dos anjos que “eles oferecem nossas orações a Deus” (vol. 1, Loci, p. 335). Para apoiar essa ideia, ele traz a declaração do profeta em Zc. 1:12, onde os anjos oram por nós, bem como Jó 33:23; Atos 10: 4; e Ap. 8:3. Se quisermos atribuir tal coisa aos anjos, entretanto, teremos que fazer a distinção necessária entre a simples oferta de orações e a oferta propiciatória delas, por meio da qual nossas orações se tornam agradáveis ​​e aceitáveis ​​a Deus. Este ofício deve ser deixado somente para Cristo. Nenhum altar agrada a Deus, exceto Cristo, Seu Filho. 



d) Sete Anjos 


Quinto, em Tobias 12:15 Rafael diz que ele é "um dos sete anjos que estão diante de Deus". Isso está relacionado às fábulas do Talmud porque apenas sete anjos estão diante de Deus e estes também presidem os sete planetas, eles também colocam um anjo especial encarregado de cada dia da semana: A Escritura canônica, entretanto, nada sabe sobre essa responsabilidade dos anjos e reivindica um número muito maior para aqueles que dizem estar diante de Deus. Dn. 7:10: "Milhares de milhares O serviram, e dez mil vezes cem mil se apresentaram diante Dele." 



Controvérsias

Muitos seguem o que diz o Concílio de Trento e consideram este livro como igualmente canônico com os demais e se apoiam no fato de que alguns dos Santos Pais, como Cipriano, Ambrósio, Basílio e Agostinho chamam este livro de “santo”. Entretanto, devem considerar que o contexto é de dize-lo santo como separado dos livros seculares. Afinal, Ambrósio também chama 4 Esdras de “divino” Embora o mesmo concílio não o tenha considerado canônico. Portanto o testemunho dos Pais não é de atestar a inspiração divina e separar canônicos e apócrifos, mas simplesmente separam os livros que compõem a Bíblia dos seculares. 

Sobre as citações dos Pais com referência ao livro de Tobias, também é de se notar que é recorrente ao comentá-las, valem-se de citações que estão presentes em livros canônicos de igual modo. 

Um ponto interessante de se notar é que Jerônimo o classifica como apócrifo, e em grande parte, os defensores do Concílio de Trento tentam defender que ele é de uma época em que o Cânon não estava decidido, o que justifica seu erro, entretanto, o mesmo grupo tende a usar os Santos Pais anteriores ao próprio Jerônimo como autoridade dizer qual a verdadeira lista de livros da Igreja. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Oração da terça-feira: O Cristão que se alegra em sua Regeneração



Oração da manhã:



Ó Deus poderoso e querido Pai! Como poderei conhecer, elogiar e engrandecer suficientemente o Teu amor, que se compadeceu de minha alma e a salvou da destruição? Que glória não me concedeste no Santo Batismo, recebendo-me como teu próprio filho! Os homens se orgulham de seu nascimento nobre, posição elevada e riqueza terrena. Mas valorizo ​​ainda mais a bem-aventurança que anseia por mim como Teu filho. Pois, se somos filhos de Deus, então somos herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; se é que sofremos com Ele, para que também juntos possamos ser glorificados. Visto que sou um filho de Deus, meu Pai celestial me manterá, guiará, apoiará e defenderá, e nunca, sob nenhuma circunstância, por minha causa. Ele não será apenas minha estadia na vida, mas minha alegria na morte. Ele vai me vivificar, fortalecer e confortar. E quando eu partir deste mundo, Ele me levará para a vida de alegria lá em cima. Ó querido Pai, conceda-me o Teu Espírito Santo, para que Ele possa me lembrar constantemente desta bem-aventurança que é minha. Ainda estou no mundo e habito entre os filhos dos homens. Ó, guarda-me, para que eu não possa seguir o exemplo mundano e viver em pecado, ou de qualquer forma arriscar minha salvação por me conformar com seus caminhos. Se eu vir outros fazendo coisas erradas, ou ouvi-los falando mal, deixe-me lembrar que sou um filho de Deus e que tais pecados e vícios são inadequados para mim. Capacita-me, por Tua graça, para dizer ao mundo: “Minha filiação divina e herança celestial não serão trocadas por teus prazeres e vaidades.” Ó meu Jesus! Tu sabes que Te amo e que fico cheio de genuína tristeza sempre que deixo de Te amar como gostaria e deveria. Ó, aceite os desejos do meu coração e capacite-me a levar uma vida de fé e santidade e devoção e pureza e humildade como de uma criança. Deixe-me amar, honrar, temer e seguir a Ti, para que eu possa viver e morrer com Teu filho, e que possa, como Teu filho, compartilhar das alegrias do céu. Amém. 







Oração da noite na terça-feira. 




O Senhor está do meu lado; Eu não temerei: o que pode o homem fazer comigo? Com estas palavras, venho a Tua presença, ó gracioso e amoroso Deus, nesta hora da noite, e Te rendo humildes agradecimentos, porque Tu permitiste que eu passasse este dia sob Tua proteção paterna, Teu amoroso cuidado, Tua graciosa orientação e Tua bênção abundante. Senhor, grande é a tua bondade e as tua compaixão não falha. O Senhor está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade. Ele cumprirá o desejo daqueles que O temem; Ele também ouvirá seu clamor e os salvará. Oh meu Deus! Com que rapidez um dia passa! Como uma flecha disparada do arco, nossos anos voam tão rapidamente. Portanto, faze-me saber o meu fim e a medida dos meus dias, o que é; para que eu saiba como sou frágil. Eis que fizeste meus dias como um palmo; e a minha idade é como nada diante de ti. Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo; para que cada um receba o que por meio do corpo fez, conforme o que fez, seja bom ou mau. Portanto, entro em julgamento comigo mesmo e pergunto: Minha alma, como passou este dia? Você se ocupou com pensamentos de bem? Deus permaneceu unido a você ou você O entristeceu por pecado deliberado e intencional? Disse o que era honesto, puro e de bom? Você espalhou o louvor de Deus? Ou transbordou de sujeira e conversas tolas? Para onde vocês foram, pés? O que vocês fizeram, mãos? O que vocês ouviram, ouvidos? O que vocês viram, olhos? Qual tem sido teu desejo, objetivo e esforço hoje, meu coração? Oh meu Deus! Se devo responder a todas essas perguntas, como ficarei à Tua vista? Ó Senhor, com o passar do dia tira também as minhas transgressões. Ó Jesus, purifica-me dos meus pecados com o Teu sangue precioso. Ó Espírito Santo, sela-me o perdão de todos os meus pecados antes de adormecer, para que, se esta noite for a minha última, eu não pereça eternamente. Se eu for assim absolvido de meus pecados, então, ó Deus Triúno, dormirei em paz; e amanhã evitarei com maior diligência tudo o que Te desagrada. Meu Pai, espalhe a cobertura do Teu amor sobre mim e sobre os meus. Meu Jesus, permita-me repousar em paz e segurança pelas tuas chagas. Ó Espírito Santo, faze com que o último suspiro com que adormeço seja uma entrega de minha alma em tuas mãos. Amém.


Fonte:  Retirado do livro de devoção de  John Frederick Starck

terça-feira, 27 de outubro de 2020

O que temos é a Sucessão Apostólica





Por Rev. Dr. Korey D. Maas


Uma vez mais a crise de abuso clerical na Igreja Católica Romana voltou a destacar a questão da sucessão apostólica. Precipitando uma série de deserções públicas de Roma, também levou muitos católicos a articularem publicamente as razões para a sua permanência. Provavelmente, a justificativa mais ouvida foi que, embora a Igreja Romana esteja moralmente danificada, Cristo não pode ser encontrado em nenhum outro lugar na Eucaristia. Embora tal afirmação seja indefensável, mesmo na base da própria teologia católica que reconhece a presença real de Cristo também nos altares das Igrejas Ortodoxas Orientais), tem o potencial de persuadir qualquer que um que considere a possibilidade de buscar comunhão, mesmo em uma igreja luterana confessional.


Para o luterano que poderia responder: "Mas nós não somos como os outros protestantes! Nós também cremos que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes em nossos altares!" O apologista católico responderá: "Por mais piedosas que sejam suas crenças, está errado; "Porque o seu clero não está na sucessão apostólica, suas ordenações são inválidas, e, portanto, não pode realizar a presença de Cristo no sacramento."

Mas a crise de abuso é apenas o contexto mais recente em que se ouve sobre a rejeição das ordens luteranas. Por ter sido expresso com certa regularidade desde a própria Reforma, os teólogos luteranos não negligenciaram as respostas articuladas à acusação. No entanto, algumas dessas respostas, como apontou Heath Curtis, são menos úteis do que outras. Portanto, vale a pena rever o que é a tradicional objeção romana às ordens luteranas, e qual é a resposta confessional luterana a essa objeção. Gostaria apenas de acrescentar alguns pontos para reforçar ainda mais a credibilidade contemporânea dessa resposta confessional.

Curtis notou que a tradicional rejeição romana das ordens luteranas poderia ser reduzida a um silogismo conciso. Somente bispos podem colocar homens no ofício ministerial; Luteranos não têm bispos; Logo, os luteranos não podem colocar homens no ministério. Como essa formulação torna evidente, as referências romanas à "sucessão apostólica" são frequentemente sinônimas de "sucessão episcopal"; a sucessão é mantida pela ordenação episcopal e somente episcopal.

Com referência ao Tratado sobre o Poder e Primado do Papa, Curtis nos lembra que

As Confissões não atacam a premissa principal. Antes, as Confissões atacam a premissa menor, afirmando com veemência que temos muitos bispos; porque todos os ministros são bispos porque existe apenas um Ofício do Ministério por direito divino.

Em outras palavras, o problema com a objeção romana não é sua insistência em que somente os bispos podem ordenar pastores. O problema está em qualquer afirmação de que o ofício episcopal é, por direito divino, um ofício distinto daquele do pastorado. Nas palavras do Tratado (§65) "já que por autoridade divina os graus de bispo e pastor graus não são diferentes, afirma-se que a ordenação administrada por um pastor em sua própria igreja é válida por direito divino."

Para a confirmação patrística da unidade do direito divino do ofício ministerial, o tratado apela especialmente a Jerônimo. Mas, como observado por Arthur Carl Piepkorn, muitos outros pais primitivos, com base no testemunho bíblico, concluíram de maneira similar que presbíteros e episkopos se referem ao mesmo ofício, e até mesmo no século XI poderia confessar que "a suma total do sacerdócio está está estabelecida nos presbíteros". Neste caso, também observa que durante a Idade Média, as ordenações de sacerdotes não episcopais e até mesmo os abades dos mosteiros frequentemente eram reconhecidas como válidas. (para os interessados, este "intercâmbio" refere-se às obras de estudiosos católicos contemporâneos que reconhecem que o Novo Testamento não distingue entre os ofícios pastorais e os episcopais).

À luz do exposto, é evidente que uma reivindicação luterana de sucessão apostólica através de ordenação episcopal pode ser mantida, desde que a função episcopal seja entendida em termos bíblicos, isto é, simplesmente como sinônimo de ofício pastoral. No entanto, por outro lado, Curtis Heath adverte que "é simplesmente uma loucura afirmar, como afirmam os anglicanos, que realmente temos uma sucessão apostólica no âmbito da definição dos termos de Roma".

É a esta afirmação que eu gostaria de oferecer uma classificação amigável, mesmo porque "a definição de Roma sobre os termos", neste como em muitos casos, tende a mudar (ou "desenvolver") sempre que necessário ou conveniente. E algumas dessas mudanças, com a intenção ou não de fazê-lo, dão mais crédito à reivindicação luterana de confissão de sucessão apostólica.

Respondendo, por exemplo, ao tipo de argumento que Curtis chama de “cinismo histórico”, que questiona se mesmo a própria Roma pode reivindicar de forma convincente a sucessão apostólica, o teólogo católico Mats Wahlberg recentemente tentou voltar atrás no tradicional argumento “sem bispos, sem sucessão”. Ele oferece, em vez disso, que “se os apóstolos autorizaram algumas pessoas a sucedê-los como líderes e lhes deram um mandato para autorizar seus próprios sucessores, o que temos é uma sucessão apostólica” (ênfase acrescentada). Ele prossegue: “Não importa se alguns dos que foram autorizados pelos apóstolos fossem chamados de 'presbíteros' em vez de 'bispos'. Também não importa se os apóstolos transmitiram sua autoridade não para 'bispos governarem seus rebanhos como monarcas'. "mas aos corpos dos anciãos".

Portanto, até presbíteros (em vez de bispos de maneira específica ou exclusiva) foram autorizados a suceder os apóstolos em seu ministério, e até presbíteros (em vez de bispos de maneira específica ou exclusiva) tiveram que autorizar seus próprios sucessores neste ministério "o que temos é a sucessão apostólica." É bom saber. Ou melhor, é bom ver que mesmo os teólogos romanos estão finalmente reconhecendo o que os luteranos têm conhecido e dito durante cinco séculos.

Tampouco Wahlberg é uma voz solitária. De fato, ele enfatiza o que simplesmente resume o cardeal Joseph Ratzinger. Ratzinger, claro, em 2005, se tornaria o Papa Bento XVI. Antes de sua ascensão ao papado, enquanto era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, se dirigiu à doutrina da sucessão apostólica no que ele chamou de um "manual de eclesiologia católica" chamado à comunhão.

Como o principal oficial de doutrina e futuro pontífice de Roma tratou do tópico à luz da “eclesiologia católica”? Ao reconhecer francamente que, de acordo com as Escrituras, os “termos presbítero e episcopoi se identificam”, eles são “equacionados e definidos como um único ofício de sucessão apostólica” (enfase nossa). Como o ofício pastoral e episcopal é de fato o mesmo ofício apostólico, Ratzinger pode até permitir que referências específicas ao episcopado se retirem de sua discussão sobre a sucessão apostólica. Ele pode notar, por exemplo, que o Novo Testamento “teologicamente identifica o ofício apostólico e o presbiterado”, e que “toda a teologia do apostolado… é assim aplicada ao presbiterado”. E, finalmente, que “esta ligação do conteúdo dos dois ofícios [i.e, apóstolo e presbítero] ... é, por assim dizer, o ato consumado da sucessão apostólica.”

Em outras palavras, já que por autoridade divina os graus de bispo e pastor não são diversos", mas compreendem um ofício apostólico, "a ordenação administrada por um pastor em sua própria igreja é válida por direito divino". Quando e onde isso é feito? mesmo de acordo com os teólogos contemporâneos de Roma, e contra os seus populares polemistas e apologistas, "o que temos é a sucessão apostólica".

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Korey D. Maas é professor associado de história no Hillsdale College, em Hillsdale, Michigan.

Publicado Originalmente em: https://www.gottesdienst.org/gottesblog/2019/3/7/a-sneak-peek-inside-the-trinity-2019-issue
Tradução: Apostolado SJEP

texto publicado nesta tradução em http://justosepecadores.blogspot.com/2019/03/o-que-temos-e-sucessao-apostolica.html?m=1 consultado em 27/10/2020.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Fora da Igreja não há Salvação!




Josué 6:17 – A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada a YAHWEH ... para destruição. Somente a prostituta Rahav, e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados.O Texto nos aponta para um evento apavorante: os muros da cidade caem e seus moradores veem a Arca do Senhor no meio de um exército que marcha e traz o juízo final sobre todos. Um anúncio de um juízo que virá sobre o mundo. Há um escape: A casa da prostituta, marcada com um tecido tingido de vermelho sangue, permanece segura durante e depois do juízo.
Onde encontrar a casa Rahav? Encontramos em sua descendência: Jesus veio da descendência desta mulher. Sua casa permanecerá segura, a pesar do medo do lado de fora, todos os que estão com Jesus em sua casa estão absolutamente seguros. Nesta casa, marcada com sangue não há razão para medo. No Amor não existe medo.
Orígenes reflete sobre esta passagem, ele afirma:
“Se alguém quer se salvar, venha à casa daquela que uma vez foi prostituta. (...) Venha à casa, na qual o sangue de Cristo está como sinal de redenção... Ninguém crie ilusões: fora desta casa, isto é, fora da Igreja, não há salvação;” (ORÍGENES, Homilia 2 sobre Josué, Capítulo 4)
Mas eu sou pecador! Rahav também, mas foi salva por sua fé ao receber os mensageiros do povo de Deus. Assim permanecemos na casa da salvação por graça de Deus, por meio da fé.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Redimindo a cultura





Quando, porém, reconheceram que ele era judeu, todos, a uma voz, gritaram durante quase duas horas: — Grande é a Diana dos efésios! O escrivão da cidade, tendo apaziguado o povo, disse: — Senhores efésios, quem não sabe que a cidade de Éfeso é a guardiã do templo da grande Diana e da imagem que caiu do céu? Ora, não podendo isto ser contestado, convém que vocês se mantenham calmos e não façam nada de forma precipitada; porque estes homens que vocês trouxeram para cá não profanaram o templo, nem blasfemam contra a nossa deusa. Atos 19:34-37

Esta é uma passagem interessante do livro de Atos, que na verdade, teria me passado despercebida, não fosse uma boa exposição ouvida ontem por alguém a quem estimo muito, o professor e pastor Rev. Mario Fukue. 

O que estava acontecendo? Era um evangelismo em praça pública, as pessoas iam e vinham, alguns paravam para ouvir, mas quanto tempo ficariam ali? Hora que se tornasse cansativo, bastava seguir o caminho. Os pregadores não tinham tempo de tratar de assuntos secundários. 

O que estavam pregando?  Paulo e seus companheiros anunciavam que não há outro caminho para a salvação, senão o revelado em Cristo, e assim pregava, batizava e fazia discípulos entre os gregos. 

Aonde pregavam? Éfeso era uma cidade famosa por ter um templo dedicado a Diana (ou Ártemis, para os romanos) era um templo famoso e a economia da cidade vinha desta fonte de adoração. 

Como se formou a confusão? Um ourives, chamado Demétrio, ficou com medo de perder sua fonte de renda, juntou amigos e começou uma confusão, que logo atraiu uma multidão. 



Pelo testemunho que é dado sobre estes homens, fosse hoje, muitos grupos os acusariam de muitos “ismos”, ecumenismo, liberalismo, evangelho falso, etc... Por que? O que o próprio texto nos mostra é que o escrivão da cidade, que não creu no discurso deles os defendeu, e o fez, porque atestou que o discurso não desmoralizava a deusa adorada na cidade. Eles não saíam chutando macumba, nem quebrando uma imagem de gesso com martelo, nem fazendo campanha de cercar o templo em um “ato profético”, não ficavam jogando óleo ungido nos umbrais do templo de Diana, nem mesmo foram até a banquinha de Demétrio para “quebrar a maldição” daquelas imagens que vendia. 
Na verdade, nem eles, nem os novos convertidos ali fizeram coisa alguma contra a religião da cidade. 



Então quer dizer que adorar uma deusa não tinha nada de mal? 

A questão na verdade é: Onde ponho a minha confiança? Eles não precisavam tomar ali uma atitude contra a religião da cidade, porque tinham plena confiança de que o Espírito Santo age pela proclamação da Palavra. Com pessoas indo e vindo, não havia tempo para falar de todos os erros do mundo, por isto, a única mensagem que levavam era Cristo crucificado (1 Cor 1:23). Os seguidores do Evangelho tinham plena confiança no agir de Deus, por isso não tomavam o agir em suas próprias mãos. 

O escrivão da cidade tinha esta mesma confiança em Diana: ela é tão grande, que todos sabem quem ela é, e não seria um grupo de estrangeiros que a derrubaria, então, se eles não fazem mal ao templo da deusa, nem desrespeitam a lei, não há do que acusá-los. 
E assim a vida seguiu, quem queria seguir Diana, seguia, quem decidiu seguir Cristo, foi discipulado por Paulo e seus companheiros em particular. 
Este aparente “empate” foi resolvido por Deus na escola do tempo. Onde estão os adoradores da grande Diana dos gregos hoje? Ou da tão poderosa Ártemis dos romanos? Não se encontram mais em parte alguma, mas os seguidores de Cristo continuam e milênios depois, povos que nunca ouviram aqueles homens continuam a crer e ser discipulados no mesmo ensino que aqueles gregos. 

Isto lembra bem o dito em Zc.4.6: Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito”
Nisto vale a reflexão: não que denunciar o erro não deva ser feito, mas, quando o tempo é limitado, vale mais a pena ensinar todas as formas possíveis de se estragar o bolo, ou passar a receita? No mais, nossos “cruzados da internet” nossos “quebradores de maldição” tem colocado a confiança aonde? 

Na próxima vez que ouvir falar de alguém querendo quebrar uma imagem, “cristianizar as leis”, “redimir a cultura”, veja além da loucura, nossa humanidade querendo empurrar o arrependimento que não depende de nós.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

“Eu não creria no Evangelho, se a isso não me levasse à autoridade da Igreja católica.” (Santo Agostinho)


“Eu não creria no Evangelho, se a isso não me levasse à autoridade da Igreja católica.” (Santo Agostinho) 



Está ai uma frase que lemos com frequência, muitas vezes em discussões sobre a fé de modo acalorado, como numa tentativa de usar um argumento final: vou citar uma pessoa famosa para comprovar a minha tese! 

No final, fica-se apenas uma frase de efeito, regurgitada, sem reflexão, sem cuidado. 

Mas o que Santo Agostinho quis dizer com esta frase? 

Esta citação está dentro de um escrito contra os Maniqueus. Para a memória, o maniqueísmo é uma seita gnóstica (e como toda seita gnóstica, pregava um conflito entre o espírito que é bom, feito por um deus bom, contra a carne, que é má e feita por um deus mau... a velha luta de bem contra o mal até o fim dos tempos), mas com um toque próprio: Havia um evangelho de Maniqueu. Eles tinham um evangelho próprio, escrito por um apóstolo deles, o próprio Maniqueu. 

Santo Agostinho aborda então esta questão de vários modos diferentes, até que no capítulo 5, seu argumento segue a seguinte linha: 

O SEU evangelho atesta que Maniqueu é apóstolo, os MEUS evangelhos não reconhecem isso. Como vocês querem que eu creia no testemunho que está num evangelho que eu nem creio ser autêntico? 

Em outras palavras, o argumento de autoridade que os Maniqueístas usavam não tinha valor para Santo Agostinho, simplesmente porque ele não reconhece a autoridade daquela fonte. 

A partir deste ponto então, passa-se à segunda parte deste capítulo: como os maniqueístas tentavam provar a validade de seu evangelho pelas fontes reconhecidas pelos cristãos, a saber, os quatro evangelhos autênticos. 

Eis o problema! Se eu tento provar pelas escrituras um argumento, isso significa que a reconheço como válida. 

Então, como posso dizer que as escrituras são válidas para provar o que me é conveniente, mas não para condenar o que não me convém? 

Se os maniqueístas queriam provar a autoridade de seu mestre, não era para o evangelho que eles deveriam olhar, mas para fora dele. 

Agostinho segue o discurso afirmando que se, por um acaso, os maniqueístas pudessem provar seu ponto pelas escrituras, então, ele não poderia mais crer nas escrituras, porque ela não seria divina, mas um texto parcial, nem poderia crer na igreja, porque ela o direcionou a crer no evangelho, nem poderia crer nos próprios maniqueístas, pois eles tiram sua autoridade de um texto falho. 

Por outro lado, se ele crê nas escrituras, então, ele vê ali o nome de todos os apóstolos, e vê que todos eles receberam o Espírito Santo, e vê a formação da igreja, e, portanto, este é o evangelho que deve permanecer. 

De fato, ele não creria no evangelho se ele não fosse movido na autoridade da igreja (esta tradução é melhor). 

Disto vemos como Santo Agostinho defendeu o evangelho de modo perspicaz. O Evangelho é para os cristãos, e ele não obriga em momento algum a conversão dos maniqueístas. Eles podem crer no que quiserem. Não é um argumento para se jogar na mesa, do tipo: convertam-se hereges! Deus Vult! Não, Agostinho falava dele mesmo... ele crê na igreja e nas escrituras como uma coisa só, inseparável até o fim dos tempos. 

Esta citação famosa tem sido usada curiosamente hoje na boca de alguns católicos romanos como um argumento de autoridade para que, justamente aqueles que não reconhecem a autoridade do Vaticano, se submetam, mas não seria justamente o oposto? Não foi justamente o objetivo de Santo Agostinho falar que um argumento de autoridade somente é válido para quem o reconhece como válido? 

Lembremos, portanto, que Agostinho usa este argumento para quem tenta comprovar a autoridade de uma fonte extra-bíblica, reinterpretanto a própria bíblia, no caso um evangelho apócrifo, mas poderia ser um outro livro sagrado, o que um pastor X disse num programa de tv, uma revelação especial, uma profecia de uma fonte qualquer, e até mesmo, um livro, um comentário bíblico. Ou a escritura, que testifica da igreja é verdadeira, ou todo aquele que tenta se usar do evangelho para validar sua crítica ao próprio evangelho está usando uma fonte que sabe ser uma fraude, e portanto, este alguém não é digno de confiança.

Discussões com cristãos que reconhecem o mesmo evangelho, mas divergem em doutrina sequer é abordado neste escrito, e o próprio Santo Agostinho usa uma abordagem diferente. Todo cristão que crê no evangelho, também crê na autoridade da igreja. A questão toda é: o que é a igreja?

Cremos no Espírito Santo, na santa Igreja católica, a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na Vida Eterna. Amém.

sábado, 8 de agosto de 2020

Lutero e a guarda do Sábado

 



O texto a seguir é um trecho de uma obra mais completa chamada "Contra os Sabatistas", seu foco não é em criticar o povo judeu, mas na forma como os judeus Ashkenasi, o grupo judaico que habitava a região da Alemanha nos tempos de Lutero buscava fazer proselitismo. O foco de Lutero é a igreja Cristã, mais específicamente os leigos, não o corpo clerical, mas os cristãos em geral que precisavam da resposta objetivà questão: Qual a nossa relação com a lei do Antigo Testamento?
Nesta carta, Lutero escreve sobre diversos tópicos, dos quais, aqui destaco sobre o Sábado como dia de culto. A obra, no seu todo é de fácil entendimento e incrivelmente atual. Todo Cristão pode tirar o mesmo proveito dela hoje que em 1538, quando foi escrita. Que esta leitura, não apenas lance luz sobre um tema que nos ronda tão de perto hoje, como desperte a curiosidade para se ler sobre os outros argumentos de Lutero, os quais considero ainda melhores que o presente.

(...) Da mesma forma, o terceiro mandamento relativo ao sábado, do qual os judeus tanto fazem, é mandamento que se aplica a todo o mundo; mas a forma na qual Moisés o enquadra e o adapta ao seu povo foi imposta apenas aos judeus, assim como em relação ao primeiro mandamento nenhum outro, mas os judeus devem acreditar e confessar que o Deus comum de todo o mundo os conduziu para fora do Egito. Pois o verdadeiro significado do terceiro mandamento é que naquele dia devemos ensinar e ouvir a palavra de Deus, santificando assim tanto o dia como a nós mesmos. E de acordo com isto, até os dias de hoje, Moisés e os profetas são lidos e pregados no dia de sábado entre os judeus. Onde quer que a palavra de Deus seja pregada, segue-se naturalmente que se deve necessariamente celebrar na mesma hora e ficar quieto, e sem qualquer outra preocupação apenas falar e ouvir o que Deus declara, o que Ele nos ensina e nos diz. 

Portanto, tudo depende completamente disso, de que saneemos o dia. Isto é mais importante do que celebrá-lo. Pois Deus não diz: Você celebrará o dia santo ou fará dele um Sabá - que cuidará de si mesmo. Não, você santificará o dia santo ou o Sábado. Ele está muito mais preocupado com a santificação do que com a celebração do Sábado. E onde um ou outro pode ou deve ser negligenciado, seria muito melhor negligenciar a celebração do que a santificação, uma vez que o mandamento coloca maior ênfase na santificação e não institui o Sábado por si mesmo, mas por ser santificado. Os judeus, entretanto, dão maior ênfase à celebração do que à santificação (o que Deus e Moisés não fazem) por causa das adições que fizeram. 

A menção de Moisés ao sétimo dia, e de como Deus criou o mundo em seis dias, e é por isso que eles não devem fazer nenhum trabalho - tudo isto é uma adaptação temporal com a qual Moisés adequa a este mandamento para seu povo, especialmente naquela época. Não encontramos nada escrito sobre isto anteriormente, seja por Abraão ou na época dos velhos pais. Esta é uma adenda e adaptação temporária destinada exclusivamente a este povo, que foi trazido do Egito. Também não era para durar para sempre, assim como não era toda a lei de Moisés. Mas a santificação, isto é, o ensino e a pregação da palavra de Deus, que é o verdadeiro, genuíno e único significado deste mandamento, foi desde o início e diz respeito a todo o mundo para sempre. Portanto, o sétimo dia não diz respeito a nós gentios, nem aos judeus além do advento do Messias, embora pela própria natureza das coisas se deva, como já foi dito, descansar, celebrar e guardar o sábado em qualquer dia ou hora em que a palavra de Deus seja pregada. Pois a palavra de Deus não pode ser ouvida ou ensinada quando se está preocupado com outra coisa ou quando não se está quieto. 

Portanto, Isaías também declara no capítulo 66 (:23) que o sétimo dia, ou, como eu o chamo, a adaptação de Moisés, cessará no tempo do Messias quando a verdadeira santificação e a palavra de Deus aparecerem ricamente. Ele diz que haverá um sábado após o outro e uma lua nova após a outra, ou seja, que tudo será puro sábado, e não haverá mais nenhum sétimo dia em particular com seis dias no meio. Pois o Santificador ou a Palavra de Deus desfrutará de todo o alcance diário e abundante, e cada dia será um Sábado. 

Estou bem ciente do que os judeus dizem sobre isto e como eles interpretam este ditado de Isaías. Entretanto, não posso incluir tudo na presente carta que tenho em mente. Mas, em resumo, nenhum judeu pode me dizer como é possível para toda a carne adorar diante do Senhor em Jerusalém cada lua nova e cada sábado, como o texto, traduzido com mais precisão e exatidão para o alemão de acordo com seu entendimento, transmite. Algumas pessoas vivem tão longe de Jerusalém que não poderiam chegar lá dentro de vinte, trinta ou cem sábados, e os próprios judeus não adoram em Jerusalém há mil e quinhentos anos, ou seja, em dez vezes mil e quinhentas luas novas, nem mencionei nada sobre os sábados. No entanto, não posso me alongar sobre tudo isso no decorrer de uma carta. (...)

terça-feira, 14 de julho de 2020

Podemos fazer pactos com Deus?



Quando o sol se pôs e houve densas trevas, eis que um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passaram entre aqueles pedaços dos animais. Naquele mesmo dia, o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: — À sua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates: Gênesis 15:17,18 



Um fenômeno interessante dos dias atuais é que vemos pessoas por ai dizendo que fizeram um pacto com Deus. Bem comum nos dias de hoje no meio gospel / evangelical. 

Basicamente vemos isto de duas formas, uma, é “oficial”, o crente procura seu pastor e fala que quer fazer um pacto com Deus. Então estes termos são discutidos como um contrato: o que você quer que Deus te faça X o que você terá que fazer. “Se o Senhor melhorar a minha situação, eu vou ajudar a todos que puder” 

Outro jeito, é aquele pacto velado: “preciso ir 7 sextas-feiras no culto para receber a bênção”, “preciso semear no reino de Deus para colher bênçãos”, “vou jejuar para Deus me dar um emprego” 

A beleza desta pasasgem, por mais que pareça estranha, trata-se de um pacto com Deus. Basicamente era um costume antigo: os pactuantes caminhavam por entre os animais mortos, e isso significava: aquele que não cumprir sua parte, acaba como um deles: morto! 

Mas quem passou por aquele caminho? Ao fazer o pacto, Deus passa sozinho. 

O que significa isso? 

A beleza toda desta passagem é que Deus não está negociando suas bençãos, veja com atenção o texto: Deus decide sobre o que ele está obrigado a fazer, não foi Abrão, Deus passa pelo caminho sozinho, assumindo o pacto, não Abrão, Deus repete tudo o que ele havia prometido, confirmando o pacto, já Abrão, não acrescenta nada. 

Existe um verdadeiro evangelho aqui. Deus não está interessado em negociar suas bênçãos, muito pelo contrário, Ele não quiz que nenhuma condição o segurasse de ser aquilo que Ele é: Bom! 

A questão não é se podemos fazer um pacto com Deus, mas sim, por que faríamos isso? Por que insistir em colocar uma condição para sermos abençoados, se Ele quer fazer isso livremente? 

Dar “uma mãozinha” para Deus, no final, mostra que ainda não entendemos o quanto Deus nos ama, e como sempre, nós bagunçamos nossa vida tentando negociar com Deus. Abrão bagunçou bastante sua vida tentando “ajudar” Deus a lhe dar um filho, não precisava! Por fim, ele aprendeu a não tentar “ajudar”, teve uma velhice em paz, e uma morte tranquila, e da parte de Deus, tudo o que ele jurou, foi feito. 

Antes de tentarmos negociar bênçãos de Deus, vale a lembrança: O que Deus nos dá em amor não exige pegamento.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A Divina Liturgia - Um Modelo Bíblico para o Culto


Sobre a liturgia, devemos entender esta máxima latina: lex orandi, lex credendi, que significa que a forma como oramos, reflete a forma como cremos. Tudo o que fazemos, cada ação, como louvamos, irá refletir em como acreditamos. Se oramos e louvamos como os cristãos sempre fizeram em todas as eras, é bem provável que também compartilhemos a mesma fé. Se oferecemos culto como os entusiastas e sectários, também começaremos a pensar como eles. Talvez, mais triste que isto, ao abandonar a liturgia, nos colocamos em risco de perder de vista o relacionamento integral que esta tem com o Evangelho na Palavra e nos Sacramentos.
Por que não abolimos a missa e suas cerimonias públicas, as orações escritas, vestimentas e outras coisas? Porque a missa é a entrega da Palavra e dos Sacramentos e da liturgia que a acompanha, proclamando a história de todas as eras - o Santo Evangelho. Mas a Liturgia não é estática. Existe uma multiplicidade de ritos. Temos as grandes tradições Ocidentais e Orientais, a Igreja da Confissão de Augsburg recai sobre a primeira, mas isto não faz da segunda menos venerável. Mesmo no rito ocidental, há uma gama de variações. Existe o rito romano, o qual fornece suas bases ao nosso culto. Há também o rito anglicano, que em muito contribuiu para a formação do rito luterano comum dos sínodos americanos, mesmo assim, acrescentamos o Nunc Dimittis ao final de cada divina liturgia.
É bem verdade que a liturgia não nos veio dada em um livro da Bíblia, mas a encontramos por todo o texto sacro: O Kyrie (Salmo 123:3, S. Lucas 18:13). O Gloria in Excelsis (S. Lucas 2:14). O Sanctus (Isaías 6:3, Apocalipse 4:8). O Benedictus (Salmo 118:26; S. Mateus 21:9; 23:39; S. Marcos 11:9; S. Lucas 13:35; 19:38; S. João 12:13). O Agnus Dei (S. João 1:29, 36), e o Nunc Dimittis (S. Lucas 2:29-32). Estes são os textos que são combinados com a liturgia da Palavra e a liturgia dos Sacramentos, que, junto com outras leituras, formam a histórica liturgia, que nos é própria a cada novo dia.
A Apologia da Confissão de Augsburg dedica um grande capítulo explicando a importância de se manter a liturgia. Não abandonemos esta tão antiga e útil escola do Evangelho, assumindo um caminho diferente, não provado pelo tempo, antes, confessemos a mesma fé uma vez dada aos Santos, oremos, louvemos e anunciemos a Palavra da mesma forma, no amor de Cristo, na Unidade do Espírito.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Gálatas: Como ser um cristão que gera frutos?



“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25

É interessante como muitas vezes somos ensinados desde pequenos a ler esta passagem: isto é uma obrigação! Devemos crucificar a carne, temos que andar no espírito! Então pegamos aquela lista que Gálatas faz do fruto do Espírito para examinarmos a nossa vida. 

-Que parte deste fruto está faltando em você? Será que você está com seu cristianismo em dia? O que eu deveria fazer para ser um cristão de verdade? O que é a carne afinal? Eu estou na carne?

Estas e muitas perguntas do tipo são bem comuns, e por isto, vale uma dica para lermos este livro da Bíblia:

Carne, para a carta aos Gálatas é a natureza caída do ser humano, em seus pecados e delitos. Sempre que o termo é citado, isto não tem relação com a carne física, mas sempre demonstra um modo de vida longe de Deus. O que se opõe a carne é o Espírito. E neste caso, não estamos falando do espírito humano, mas da própria vida ligada a Deus. Isto é importante! Muitos tendem a ler Gálatas como um padrão de vida moral que devemos buscar, mas não é isto o que Deus nos fala nesta carta. O tema é sempre que existe a carne, e ela deseja coisas que lhe são próprias, e existe o Espírito, que opera em nós, crentes, o que lhe é próprio. O grande tema é mostrar que quando buscamos qualquer participação no viver espiritual, ainda que isto pareça ser piedoso, ou seja, do Espírito, Paulo é claro em dizer que isto é a carne também. Na carne nós tentamos fazer coisas, obras; no Espírito entendemos que nada pode ser acrescentado ao que já está feito.

Só neste ponto já há algo importante, pois muitos confundem mesmo, Gálatas fala que é ruim e pecaminoso a carne, e nisto, muitos realmente pensam que Paulo está falando da carne no sentido humano, físico, e daí alguns pensamentos como o de Jesus não ter assumido totalmente a carne humana, ou que na ressureição ele deixou o corpo carnal no túmulo e que saiu de lá só como espírito, que Jesus não é mais carne e osso agora, ou ainda que no dia final, nós viveremos eternamente como espíritos, com “corpo espiritual”, e não que viveremos em nossa mesma carne de agora, só que livres do pecado.

Enfim, Gálatas não fala que a carne (física) e ruim, não fala da luta de igual pra igual entre carne e espírito (quem já ouviu aquela: “ganha o lado que você alimentar mais”) não fala que devemos olhar o fruto do espírito para medir a nossa vida, nem que devemos buscar fazer algo para sermos espirituais, ou “crentes melhores”

Esta carta não é sobre o que nós fazemos por Cristo, para isto tem referências melhores, mas é uma carta toda nos mostrando o oposto: o que Cristo fez, e alguma nota sobre como isto se reflete na vida.

Voltemos ao texto:


“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:24,25


“Crucificaram”, literalmente: εσταυρωσαν (Aoristo, indicativo ativo, terceira pessoa do pural) isto tudo significa dizer: crucificar aqui etá num tempo verbal que significa algo importante: é uma ação pontual e concluída no pasado. Se tivéssemos que tomar Gálatas todo como um padrão de vida moral, crucificar a carne não seria algo concluído no passado, mas algo constante, um dever diário, entretanto, aqui falamos em algo concluído e perfeito. Houve um momento no tempo onde nossa carne encontrou sua derrota, e este momento se liga à cruz. Isto não significa que estamos totalmente livres do mal, mas que esta derrota da carne já está selada, e já vivemos portanto num tempo onde este “crucificar da carne” é um evento concretizado.

“Se vivemos”, literalmente: Εάν ζώμεν, gosto desta exposição da edição de Bambas da bíblia grega, justamente por deixar exposto com muita clareza algo que no portugues parece ter outro sentido. Quando pensamos em numa condicional “se”, automaticamente somos levados a pensar nisto como uma condição que deve estar presente se queremos o resultado que vem depois “Se voce passar na faculdade, eu te dou um carro!” Ou seja, eu preciso me certificar de cumprir um requisito se quiser ter o resultado dele, mas no grego, língua em que o Espírito Santo inspirou a bíblia para ser escrita, não é exatamente assim. Este “se” é retratado como um grau máximo de certeza, do mesmo tipo que se usa para descrever um fato científico, ou seja, Deus não está usando este texto para nos fazer olhar para nossa vida e avaliar “se vivemos pelo Espírito”, mas ele constata uma verdade da qual não há dúvida: “já que vivemos pelo Espírto...” então segue-se a consequência natural disto “andamos pelo Espírito”

Com tudo isto, Deus não está esfregando a carta aos Gálatas diante de nós, nos mandando olhar para nossa vida e nos perguntarmos: “será que eu vivo no Espírito?” Mas na verdade a mensagem dele para nós, que cremos em sua obra, é: não olhe para a sua vida para buscar alguma justiça, olhe para o Espírito!

Se olhamos para o que podemos fazer, nós não chegamos a Deus, nem mesmo se cumprissemos toda a lei de Deus de modo perfeito, ainda assim não chegaríamos a Deus. Por isto, vivemos pelo Espírito, pela fé, e pela fé somente.

sábado, 20 de junho de 2020

A Tradição e as Escrituras


É claro que para que se fale adequadamente da relação entre a tradição e as escrituras, há que se ler muitas páginas e muitos temas devem ser analisados com a devida cautela. Portanto, não há uma intenção de que este pequeno comentário seja exaustivo, mas definitivamente, um comentário de Gerhard em seu Loci Theologici levanta um ponto relevante sobre a questão: A palavra de Deus, seja oral ou escrita deve transmitir a mesma mensagem, no demais, deixo que o próprio Gerhard exponha seu argumento: 



Não há diferença real entre a Palavra de Deus e as Escrituras.

Da regra da lógica: "Um acidente não muda a essência de uma coisa". É um acidente [accidit] à Palavra de Deus, ser enunciado oralmente ou consignado à escrita. É uma e a mesma Palavra de Deus, quer nos familiarizemos com ela por meios orais ou escritos, porque nem a principal causa eficiente, nem a material, nem a forma interna, nem o seu fim mudaram.

Pelo contrário, apenas os meios de revelação no uso instrumental [in usu organico] variam. Em Ex. 20:13 está escrito: "Não matarás". Essa afirmação é idêntica àquela que foi posteriormente falada e repetida oralmente por Cristo (Mt.5:21).

Da consequência absurda: Se a Palavra fosse dupla, escrita e não escrita, o Evangelho seria duplo e a promessa da graça, dupla. O apóstolo dá testemunho do contrário (Gl.3:15-16). Se houvesse uma divisão da Palavra em escrita e não escrita, não seria a divisão de um sujeito em seus próprios acidentes, mas uma divisão de genus em espécies; assim, envolveria a própria essência da Palavra. A conseqüência seria que, uma vez declarada, a Palavra de Deus desapareceria e, quando os livros fossem destruídos, a Palavra de Deus seria destruída. Existem muitos outros absurdos desse tipo. Cristo dá um testemunho oposto em Lucas 21:33 e Is. 40: [9].

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Podcast - O Milênio


Tempos atrás (e eu nem tinha entrado ainda no seminário) decidimos juntar 3 luteranos para debater sobre um tema famoso do Apocalipse: O Milênio. Como entendemos isto? Como estas diferentes interpretações começaram ao longo da história da igreja? Em forma de Podcast, fica ai o registro daquela célebre conversa de amigos sobre um tema que sempre gera dúvidas:





sábado, 11 de abril de 2020

Wayne Grudem – uma avaliação crítica parte 2 (Batismo)





Wayne Grudem – uma avaliação crítica à luz da teologia bíblica luterana. Breve comentário sobre leitura de TEOLOGIA SISTEMÁTICA, Wayne Grudem, p. 814 a 833.


Este é um breve comentário sobre a leitura deste famoso livro de Teologia Sistemática de linha reformada no objetivo único de expor as diferenças teológicas, especialmente tendo-se em vista que a reforma luterana e a calvinista foram movimentos não apenas separados, mas antagônicos entre si desde o início.

Em uma leitura da obra de Grudem, alguns erros essenciais podem ser identificados, mas em especial, o capítulo referente ao batismo já se inicia com uma exegese inadequada do texto, diz o livro: 
A palavra grega baptizo significa “mergulhar, afundar, imergir” algo na água. Isso é normalmente reconhecido, sendo esse o significado padrão do termo na literatura grega antiga tanto na Bíblia como fora dela.
(2) O sentido “imergir” é adequado e provavelmente exigido para a palavra nos vários textos do Novo Testamento. Em Marcos 1.5, o povo era batizado porjoão “no riojordão” (o texto grego traz en,“em”, e não “ao lado” ou “próximo” ou “perto” do rio).6 Marcos também nos diz que quandojesus foi batizado “ele saiu da água”(Mc 1.10). O texto grego especifica que ele saiu “para fora da” (ek)água, e não que ele veio da água (mais bem comunicado pelo gr. apo).O fato de quejoão ejesus entraram no rio e saíram dele sugere enfaticamente imersão, já que a aspersão ou a afusão de água poderiam muito mais facilmente ter sido feitas junto ao rio, especialmente pelo fato de que multidões estavam vindo para o batismo. O evangelho de João nos diz depois q u ejo ão Batista “estava também batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas” (Jo 3.23). Novamente, não era necessário muita água para batizar pessoas por aspersão, mas isso seria preciso para batizar por imersão. (Grudem, p.814) 
Em que pese este argumento, uma correção é necessária neste ponto. 

Platão já empregava o termo em sua obra "Eutidemo" no sentido de alguém estar sobrecarregado de perguntas. Por esta praxe já vemos então que o entendimento histórico da palavra batismo não era exclusivamente de mergulhar algo. 
Na leitura do Santo Evangelho segundo Marcos, lemos que os fariseus lavavam as mãos antes de comer. Niptein era comumente usado quando apenas uma parte do corpo era lavada, não o banho total do corpo. Mas nessa passagem o lavar parcial também é chamado de batismo, de maneira que se apenas parte do corpo é lavada temos um verdadeiro batismo: 
Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar (νίψωνται) as mãos muitas vezes; Marcos 7:3 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem (βαπτίσωνται), não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas. Marcos 7:4 
Assim, o texto nos mostra que, muito embora “batismo” seja associado à submersão, o texto bíblico o usa também para expressar o lavar parcial do corpo, sem diferenciar a extensão do corpo em que se aplica a água. O texto de Lucas 11:38 também reforça esta ideia, aplicando a mesma fórmula. 
Mais adiante, lemos no texto aos Hebreus sobre diversas abluções, ou seja, batismos: 
Consistindo somente em comidas, e bebidas, e várias abluções (βαπτισμοῖς) e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção. Hebreus 9:10 
Cientes então de que abluções são literalmente batismos pelo texto, devemos então conferir, também pelo texto bíblico como estes batismos eram feitos: 
O homem puro aspergirá o impuro ao terceiro e ao sétimo dia e o purificará no sétimo dia. Lavará as suas vestes e a si mesmo, e à tarde será puro. Números 19:19 
Desta forma, o texto bíblico tem mostrado que de acordo com as normas das abluções descritas no capítulo 19 de Números, temos que a algumas formas são pela imersão propriamente, como o purificar das vestes, e outras formas são pela aspersão de água. 
O que temos nos texto de Hebreus 9:10 é que tanto a ablução de imersão em água quanto a aspersão são chamadas pelo texto bíblico de “batismo”. Este é um ponto relevante. Não se trata de erro de escrita, ou má colocação de palavras por parte dos autores bíblicos. Se o Cristão reconhece que a Bíblia é a Palavra de Deus e que foi escrita pela inspiração divina, então creremos que toda a Escritura é perfeita em seu ensino. O que temos então é o texto bíblico mostrando que a palavra “batismo” inclui o lavar parcial do corpo e a aspersão tanto quanto a imersão completa, sem fazer diferença entre os termos e na corrente oposta, temos uma corrente que afirma que a palavra “baptizein” no grego significa apenas imergir, e portanto, declarando que somente a imersão completa é válida. Se o texto inspirado das Escrituras chama de batismo o aspergir e o lavar parcial do corpo, bem sabe o Espirito Santo como deseja se comunicar, logo, restringir o termo para uma forma específica do derramar de água, será uma exegese que manca em identificar o termo, ou, a expressão dos que desejam retorquir a Deus. 
Como o texto não termina neste ponto, podemos ir mais além: 
E eu, em verdade, vos batizo (βαπτιζω) com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará (βαπτισει) com o Espírito Santo, e com fogo. Mateus 3:11 
Novamente o texto bíblico nos aponta que o Espírito Santo vem com um “batismo”. Então vejamos biblicamente a forma como ele veio: 
Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Atos 2:3 
O batismo não foi uma imersão neste texto, e desta forma, não há, biblicamente falando, uma única forma de se usar o termo “batismo”, este termo não indica apenas a imersão, mas também indica o lavar parcial do corpo, a aspersão, o derramamento, ainda temos uma forma sui generis, em 1 Coríntios 10.2, um batismo feito por Deus de forma singular: 
todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; 1 Coríntios 10:2 
Ao atravessar a nuvem e o mar todo o povo foi batizado. Neste texto é patente que nenhum do povo foi “submerso” no mar, o texto nos informa que cruzaram com os pés secos, não houve sequer uma pessoa que fosse submersa que seguia com Moisés, mas todos receberam o batismo ao passar pelas águas. 
Em contra-partida, Grudem, em sua obra demonstra que este batismo realizado mesmo no texto bíblico de variadas formas, apenas encontra sua validade se na forma específica que lhe apraz ao afirmar: 
Mesmo o lavar é muito mais eficazmente simbolizado pela imersão do que pela aspersão ou afusão, e a morte e ressurreição com Cristo são simbolizados apenas pela imersão e de modo nenhum pela aspersão ou pela afusão. (Grudem, p.816) 
Temos portanto, pelo texto bíblico, uma exposição clara de que, ao contrário do que querem alguns, batizar não exige uma forma específica e a própria Palavra cita diversas formas como este batismo pode ser realizado. O que temos, de certo sobre o batismo é que ele deve ser feito com água, assim como João batizou com água (Jo 1.33), Filipe batizou o eunuco com água (At 8:36), Pedro batizou Cornélio com água (At 10:47), Paulo chama o batismo de “lavar de água pela Palavra” (Ef 5:26), Cristo diz que devemos nascer pela água e pelo espírito (Jo 3:5). 
O batismo é corretamente ministrado a todas as crianças que sejam filhas de pais cristãos. Essa posição é muito comum em muitos igrejas protestantes (especialmente luteranas, episcopais, metodistas, presbiterianas e reformadas). Essa posição é às vezes conhecida como o argumento da aliança em favor do pedobatismo. E chamada argumento da “aliança” porque depende de interpretar que os filhos dos cristãos fazem parte da “comunidade da aliança” do povo de Deus. O termo “pedobatismo” significa que o costume de batizar crianças (o prefixo paidoexpressa a idéia de “criança” e é derivado da palavra grega pais,“criança”). Estarei interagindo principalmente com os argumentos de Louis Berkhof, que explica com clareza e defende bem a posição pedobatista. (grudem, p.821) 
Outro problema na exposição de Grudem se constitui o problema intrínseco dos sistemáticos em referenciarem-se entre si, com pouco ou nenhum conhecimento de causa da teologia de outras áreas. Na presente citação, o autor repete o argumento de Berkhof sobre um ponto-de-vista protestante, e nisto ecoa a voz de Strong também, entre outros notáveis deste campo. Nesta área o autor realmente cumpre o papel de ser sistemático apresentando construções de grandes grupos, mas não se pode dizer que houve uma construção mais dogmática, afinal, Cristo declara sobre crianças pequenas, Mt 19:14; Mc 10:14: De tais é o reino do céu, ou o reino de Deus. E ninguém que nasce da carne pode entrar no reino de Deus a menos que renasça, Jo 3:3. E esta regeneração e renascimento ocorre pela água e pelo Espírito, Jo 3:5. O batismo é a lavagem da regeneração do Espírito Santo, Tt 3:5. Uma vez que, então, Cristo quer que as criancinhas se tornem participantes do reino do céu, o que deve ocorrer através do batismo, é certamente intenção de Cristo, vontade e comando, que as crianças pequenas sejam batizadas. 
A promessa do reino de Deus deve ser aplicada através de um certo meio ou instrumento instituído pelo próprio Deus. Portanto, também a promessa do reino do céu, que é dada aos bebês (Mc 10:14) deve ser aplicada a eles através de um certo meio. Agora, as Escrituras declaram que isso significa o batismo. Jo 3:5; Tt 3:5. 
Em segundo lugar, Cristo também quer que as crianças sejam salvas, pois Ele diz: Não é a vontade do Pai celestial que um desses pequeirinhos pereça, Mt 18:14. Mas o Pai Celestial salvou-nos pelo lavar regenerador, Tt 3:5. É, portanto, a vontade de Deus que os bebês sejam batizados e que não pereçam, mas sejam salvos. 
Em terceiro lugar, os bebês são concebidos e nascidos em pecados, de modo que por natureza eles são filhos de ira, Sl 51:5; Ef 2:3. Portanto, eles devem obter o perdão dos pecados, para que eles não pereçam, mas sejam salvos, Lc1:77; Rm 4:7. 
Sobre o ingresso no corpo de Cristo, Grudem declara: 
Mas como alguém se torna membro da igreja? O meio de ingresso na igreja é voluntário, espiritual e interior. Alguém toma-se membro da verdadeira igreja através do novo nascimentoe da fé salvadora,e não de um nascimento físico. Isso ocorre não por um ato externo, mas pela fé interior do coração. Com certeza é verdade que o batismo é o sinal de ingresso na igreja, mas isso significa que este deve ser ministrado aos que dão provade serem membros da igreja, somente os que professam fé em Cristo. (Grudem, p.823) 
Is 49:22 profetiza que no Novo Testamento não só os adultos seriam implantados na igreja, mas eis que, diz ele, eles vão trazer seus filhos em seus braços e suas filhas em seus ombros. E Pedro diz (Atos 2:39) depois que ele tinha batizado adultos: Esta promessa foi feita para você e para seus filhos. Dessa forma, também os apóstolos batizaram domicílios inteiros, Atos 16:33; 1 Co 1:16. Onde uma casa ou família é mencionada, bebês certamente não são excluídos. E quando os adultos são convertidos pela primeira vez, o ensino precede e segue o batismo. Atos 2:41; 8:12, 35-38; 10:44-48. Mister se faz salientar que o Batismo não é apenas símbolo da presença de Cristo, mas que por ele, Cristo se faz verdadeiramente presente. Ef 5:25-26: Cristo deu-se para a igreja, para que Ele pudesse santificá-la, limpá-la com a lavagem de água pela Palavra. Da mesma forma, ele diz que somos batizados na morte de Cristo (Rm 6:3) e na ressurreição de Cristo (I Pe 3:21). Na verdade, no batismo vestimos Cristo (Gl 3:27). E é isso que se diz nos Atos: ser batizado em nome de Cristo. 
Na verdade, há outros exemplos em que o batismo não é mencionado, nos quais vemos testemunho explícito do fato de que uma família inteira demonstrou fé. Depois que Jesus curou o filho de um oficial, lemos que o próprio pai “creu e toda a sua casa ” (Jo 4.53). Semelhantemente, quando Paulo pregou em Corinto, “Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa (At 18.8). (Grudem, p. 824) 
A problemática deste ponto se apresenta justamente no fato de considerar o autor a “fé”, dom sobrenatural de Deus, como um sinônimo de “fé reflexa”, ou a consciência de se haver fé. As palavras da instituição do batismo e muitas outras passagens das Escrituras nos mostram isso, por exemplo, Mc 16:16; Atos 2:38; 22:16; Ef 5:25-26; Tt 3:5, 7; Jo 3:5; 1 Pe 3:21. Daí Lutero justamente diz em seu catecismo: 
O batismo opera o perdão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá salvação eterna a todos os que crêem nisso, como declaram as palavras da promessa divina. 
Se Cristo é separado do batismo, ou batismo de Cristo, então, de fato, a lavagem de água de si mesma não pode operar ou conferir qualquer dessas coisas, mas é e continua a ser apenas um sinal simples. 
Mas como Cristo está no e com o ato do batismo, para que sejamos batizados em Sua morte e ressurreição (Rm 6:3; 1 Pe 3:21), no batismo nos revestimos de Cristo (Gl 3:27), e ele mesmo nos purifica por essa lavagem (Ef 5:25-26), da mesma forma, como Deus o Pai dá, apresenta e sela aos crentes o mérito de Cristo através de Seu Espírito Santo no Batismo e através do batismo (Tt 3:5-6). 
Finalmente, os que defendem o batismo de convertidos com freqüência expressam preocupação diante das conseqüências práticas do pedobatismo. Eles argumentam que a prática do pedobatismo na igreja de hoje muitas vezes leva pessoas batizadas na infância a presumir que foram regeneradas, e assim não sentem a urgência da necessidade que têm de virem a ter fé pessoal em Cristo. Em alguns anos, essa tendência provavelmente resultará em número crescente de membros não convertidosna “comunidade da aliança”, os quais não são verdadeiramente membros da igreja de Cristo. Naturalmente, isso não fará de uma igreja pedobatista uma falsa igreja, mas a tomará uma igreja menos pura, que com freqüência estará enfrentando tendências doutrinárias liberais ou outros sinais de incredulidade trazidos para a igreja pelos membros não regenerados. (Grudem, p.826) 
Neste ponto, ao meditar sobre os efeitos do batismo, Grudem esbalha não apenas na doutrina do batismo, mas em sua doutrina sobre a igreja, desconsiderando-a como um corpus permixtus. Nem todos são praticantes da Palavra, e nem todos os que ouvem a Palavra a mantém (Lc 8:15; 11:28; Mt 7:26). As parábolas dos evangelhos também mostram isso claramente (Mt 13:24-30, 47-48; 22:1-14). Portanto, Onde há pessoas que usam os Sacramentos (Mc 16:16; 1 Co 10:17; 11:33), ouvem a Palavra de Deus (Jo10:27, recebem-a (1 Ts 1:6; 1 Co 15:1, confessam Cristo (Mt 10:32), seguem-o (Jo10:27), invocam a Deus,como ele ordenou na Palavra (Lc19:46; 1 Co 1:2; Sl 79:6). E esses sinais às vezes estão mais em evidência, às vezes menos evidentes. Pois neste fundamento alguns constroem o ouro, algums restolho (1 Co 3:12-13). E, no entanto, se a fundação permanece intacta, Deus tem Sua igreja lá (1 Rs 19:18). 
Justamente por ser a verdadeira igreja este corpo misto, e entendendo-se a questão do Simul na natureza humana, a resposta a Grudem precisamente escriturística deve ser que a regeneração de fato, isto é, adoção e o perdão dos pecados é ato completo e terminado nos crentes imediatamente após o batismo, e ainda assim se estende por toda a vida de um homem. Mas a renovação é de fato iniciada no batismo e cresce diariamente, é finalmente concluída na vida que está por vir. Pois nesta presente vida a renovação ainda é imperfeita e deve crescer e aumentar dia após dia. 2 Co 4:16; Ef 4:22-23; Cl 3:10; 1 Pe 2:1-2.